{"id":394873,"date":"2026-05-16T00:45:45","date_gmt":"2026-05-16T03:45:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=394873"},"modified":"2026-05-15T17:22:38","modified_gmt":"2026-05-15T20:22:38","slug":"o-labirinto-de-rosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-labirinto-de-rosa\/","title":{"rendered":"O labirinto de Rosa"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Labirinto \u00e9 o viver, doutor. \u00c9 o laborat\u00f3rio do trabalho dentro do rodemoinho.&#8221;<br \/>\n(Guimar\u00e3es Rosa, Grande Sert\u00e3o: Veredas &#8211; 1956)<\/p>\n<p>No ano da gra\u00e7a de 1956, foram publicadas duas obras refer\u00eancias da literatura mundial. Ambas de Guimar\u00e3es Rosa: &#8220;Corpo de Baile&#8221; e o inacredit\u00e1vel &#8220;Grande Sert\u00e3o: Veredas&#8221;.<\/p>\n<p>Poderia escrever sobre os dois livros para o resto de minha vida. Por\u00e9m, \u00e9 melhor simplificar reduzindo e qualificando: GENIAIS!<\/p>\n<p>Falar da obra de Rosa \u00e9 sempre uma profus\u00e3o de prazeres, emo\u00e7\u00f5es, desafios e descobertas.<\/p>\n<p>Rosa conseguiu uma fus\u00e3o entre vis\u00e3o tel\u00farica, filosofia &#8220;de dentro&#8221; e &#8220;psican\u00e1lise de fora&#8221;. Esquadrinhou o imposs\u00edvel: o Sert\u00e3o.<\/p>\n<p>Em mais de 700 p\u00e1ginas, um jagun\u00e7o anci\u00e3o aposentado, Riobaldo, \u00e0s margens do Velho Chico, relembra e conta hist\u00f3rias\/est\u00f3rias a um doutor letrado em busca de refletir e responder a tr\u00eas perguntas fundamentais: O Diabo existe? Eu fiz um pacto com o Diabo? O pacto foi a causa da morte de Diadorim?<\/p>\n<p>Durante tr\u00eas dias de conversa livre e intensa, Riobaldo conta a sua hist\u00f3ria. Por\u00e9m n\u00e3o de maneira tradicional \u2013 come\u00e7o, meio e fim -, mas com uma narrativa n\u00e3o linear, de tempos sobrepostos, a\u00e7\u00f5es e narrativas\/causos em camadas, como num labirinto, um caleidosc\u00f3pio de oralidades e imagens que giram como um moto perp\u00e9tuo da grande travessia pelo Sert\u00e3o (f\u00edsico) e metaf\u00edsico (costumes, imagin\u00e1rio, cultural).<\/p>\n<p>O Sert\u00e3o transcendental \u00e9, al\u00e9m da matriz nascente do local f\u00edsico, das narrativas apenas tel\u00faricas. Rosa mergulhou no imposs\u00edvel e reinventou o imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>LAVORINTO: palavra inventada &#8211; como milhares criadas por Guimar\u00e3es Rosa -, LAVORINTO faz redu\u00e7\u00f5es e amplia\u00e7\u00f5es da palavra original.<\/p>\n<p>Mistura o Lavor\/trabalho com o desafio do viver\/labirinto.<\/p>\n<p>A vida \u00e9 feita de pequenas texturas. Talvez, apenas ap\u00f3s tantas andan\u00e7as conseguimos perceber o n\u00f3 e a magia das primeiras tran\u00e7as.<\/p>\n<p>Vamos ao in\u00edcio. Por que o t\u00edtulo &#8220;Grande sert\u00e3o: veredas&#8221;?<\/p>\n<p>A primeira pista est\u00e1 nos dois pontos. Deve ser lido de forma pausada, feito samba, com breque. Grande sert\u00e3o: &#8230; veredas. Vale tamb\u00e9m como conjun\u00e7\u00e3o adversativa: o sert\u00e3o \u00e9 grande, por\u00e9m existem as veredas.<\/p>\n<p>O Grande sert\u00e3o \u00e9 o mist\u00e9rio da vida, da natureza, dos homens.<\/p>\n<p>A palavra &#8220;sert\u00e3o&#8221; possivelmente vem de &#8220;desert\u00e3o&#8221;. O grande deserto da falta de sentido que, feito o Liso do Sussuar\u00e3o, todos n\u00f3s precisamos ter muita coragem para atravessar.<\/p>\n<p>O que alguns poucos sabem disso s\u00e3o apenas veredinhas, caminhos, que em Minas s\u00e3o tamb\u00e9m cursos d&#8217;\u00e1gua. Isto \u00e9, representam a oposi\u00e7\u00e3o entre a aridez da nossa ignor\u00e2ncia e a vida e a alegria que a \u00e1gua (e o conhecimento) nos trazem. Por isso: Grande sert\u00e3o: veredas.<\/p>\n<p>A EXPERI\u00caNCIA DO INFINITO<\/p>\n<p>O livro se abre com uma palavra que significa ninharia, mas que aponta para a no\u00e7\u00e3o do nada, do in\u00edcio, do vazio: nonada (no-nada). Termina com o s\u00edmbolo do infinito. O nada \u00e9 o que existe antes da palavra, da cria\u00e7\u00e3o, da fic\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 a porta para o infinito de possibilidades que chamamos de literatura.<\/p>\n<p>Parece um livro, mas \u00e9, sobretudo, uma experi\u00eancia inici\u00e1tica, a entrada em um labirinto de sentidos cuja travessia exige paci\u00eancia e aten\u00e7\u00e3o. H\u00e1 recompensas a cada passo: as belezas do caminho, as muitas veredas de significado. H\u00e1 desafios e provoca\u00e7\u00f5es o tempo todo.<\/p>\n<p>A certa altura, voc\u00ea perceber\u00e1 que deixou de ler o livro. Pois chegou a hora de deixar o livro te ler, trazendo \u00e0 tona sentimentos e reflex\u00f5es.<br \/>\nVoc\u00ea ter\u00e1 se transformado e a partir desta experi\u00eancia, voc\u00ea ser\u00e1 para sempre um &#8220;rosiano&#8221;, uma &#8220;rosiana&#8221;. Para sempre no labirinto no-nada e da travessia ao infinito.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fonte: Rascunho \u2013 Labirinto de significados. <a href=\"https:\/\/rascunho.com.br\/ensaios-e-resenhas\">https:\/\/rascunho.com.br\/ensaios-e-resenhas<\/a><\/strong><br \/>\n<strong>Gilberto Motta \u00e9 escritor, jornalista, professor\/pesquisador que l\u00ea apaixonadamente h\u00e1 mais de 50 anos o Grande Sert\u00e3o: Veredas e sabe que jamais chegar\u00e1 ao final. Vive no vilarejo da Guarda do Emba\u00fa, litoral de SC.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Labirinto \u00e9 o viver, doutor. \u00c9 o laborat\u00f3rio do trabalho dentro do rodemoinho.&#8221; (Guimar\u00e3es Rosa, Grande Sert\u00e3o: Veredas &#8211; 1956) No ano da gra\u00e7a de 1956, foram publicadas duas obras refer\u00eancias da literatura mundial. Ambas de Guimar\u00e3es Rosa: &#8220;Corpo de Baile&#8221; e o inacredit\u00e1vel &#8220;Grande Sert\u00e3o: Veredas&#8221;. 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