{"id":398233,"date":"2026-06-18T01:15:16","date_gmt":"2026-06-18T04:15:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=398233"},"modified":"2026-06-10T10:48:51","modified_gmt":"2026-06-10T13:48:51","slug":"as-bussolas-sociais-e-existenciais-na-escrita-de-emanuelle-nascimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/as-bussolas-sociais-e-existenciais-na-escrita-de-emanuelle-nascimento\/","title":{"rendered":"As b\u00fassolas sociais e existenciais na escrita de Emanuelle Nascimento"},"content":{"rendered":"<p>A coluna <strong>Vozes da Literatura<\/strong> recebe hoje a escritora e cientista social Emanuelle Nascimento, uma voz que rejeita a ideia rom\u00e2ntica da inspira\u00e7\u00e3o m\u00edstica e enxerga a escrita como um exerc\u00edcio rigoroso de observa\u00e7\u00e3o, escuta e elabora\u00e7\u00e3o intelectual. Fortemente moldada pela leitura cr\u00edtica de grandes cl\u00e1ssicos como Dostoi\u00e9vski e Clarice Lispector, Emanuelle transp\u00f5e para a sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria um repert\u00f3rio robusto e uma aten\u00e7\u00e3o radical \u00e0 experi\u00eancia e \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es humanas. Para ela, o dom\u00ednio das t\u00e9cnicas e das estruturas formais n\u00e3o aprisiona a criatividade, mas atua como a ferramenta essencial que diferencia o desabafo espont\u00e2neo da literatura profissional e consciente.<\/p>\n<p>Nesta entrevista exclusiva, a autora mergulha nas intersec\u00e7\u00f5es profundas que conectam a fic\u00e7\u00e3o, o jornalismo e as Ci\u00eancias Sociais, revelando como pensadores do calibre de Michel Foucault, Karl Marx e L\u00e9lia Gonzalez servem de b\u00fassola moral e existencial para os conflitos de suas p\u00e1ginas. Ao debater o papel da cr\u00f4nica urbana e da literatura em tempos de p\u00f3s-verdade, Emanuelle defende a escrita como um ref\u00fagio de nuances e complexidades contra o julgamento imediato dos algoritmos e a superficialidade do consumo r\u00e1pido. Acompanhe uma conversa franca sobre o cansa\u00e7o moderno, o impacto ambivalente das m\u00eddias digitais e a urg\u00eancia de redes coletivas de apoio para democratizar o mercado editorial brasileiro.<\/p>\n<p><strong>Como a sua bagagem como leitor de grandes cl\u00e1ssicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu pr\u00f3prio processo de cria\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Minha forma\u00e7\u00e3o como leitora molda diretamente a maneira como observo o mundo. N\u00e3o acredito em escrita criativa dissociada de repert\u00f3rio. Ler os cl\u00e1ssicos me ensinou menos sobre \u201ccomo escrever bem\u201d e mais sobre como olhar para as contradi\u00e7\u00f5es humanas sem simplific\u00e1-las. Quando leio Dostoi\u00e9vski, Clarice Lispector, Drummond ou mesmo autores das Ci\u00eancias Sociais, percebo que toda grande escrita nasce de uma aten\u00e7\u00e3o radical \u00e0 experi\u00eancia humana.<br \/>\nA leitura cr\u00edtica tamb\u00e9m me libertou da ideia rom\u00e2ntica de inspira\u00e7\u00e3o. Escrever deixou de ser apenas um ato emocional e passou a ser um exerc\u00edcio de observa\u00e7\u00e3o, escuta e elabora\u00e7\u00e3o. Muitas vezes, destravo minha pr\u00f3pria escrita justamente quando compreendo que a literatura n\u00e3o exige genialidade constante, mas sensibilidade intelectual diante do cotidiano.<\/p>\n<p><strong>A literatura contempor\u00e2nea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filos\u00f3ficas servem de b\u00fassola moral e existencial para os conflitos que voc\u00ea desenvolve em suas p\u00e1ginas?<\/strong><\/p>\n<p>A filosofia e as Ci\u00eancias Sociais atravessam profundamente minha escrita. N\u00e3o consigo pensar conflitos humanos sem pensar tamb\u00e9m estruturas sociais, poder, desejo, moralidade e pertencimento. Michel Foucault me ensinou a perceber os mecanismos sutis de disciplina sobre os corpos e subjetividades; Karl Marx me ajudou a compreender o peso concreto da vida material sobre os afetos; Max Weber revelou as ang\u00fastias produzidas pela racionaliza\u00e7\u00e3o do mundo moderno. Mas tamb\u00e9m sou profundamente atravessada por autores como L\u00e9lia Gonzalez, que me faz pensar o Brasil para al\u00e9m das categorias tradicionais, e por Jeanne Favret-Saada, sobretudo pela ideia de ser afetado pelo mundo antes mesmo de conseguir traduzi-lo racionalmente.<\/p>\n<div id=\"attachment_398235\" style=\"width: 449px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-398235\" class=\" wp-image-398235\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260513_204529537_MFNR-226x300.jpg\" alt=\"\" width=\"439\" height=\"583\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260513_204529537_MFNR-226x300.jpg 226w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260513_204529537_MFNR-771x1024.jpg 771w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260513_204529537_MFNR-768x1020.jpg 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260513_204529537_MFNR-1157x1536.jpg 1157w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260513_204529537_MFNR-1542x2048.jpg 1542w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260513_204529537_MFNR-scaled.jpg 1928w\" sizes=\"(max-width: 439px) 100vw, 439px\" \/><p id=\"caption-attachment-398235\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;A cr\u00f4nica urbana continua extremamente relevante&#8221;<\/p><\/div>\n<p><strong>Diante da hegemonia das m\u00eddias digitais e do consumo r\u00e1pido de informa\u00e7\u00e3o, qual \u00e9 o espa\u00e7o e a relev\u00e2ncia da cr\u00f4nica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?<\/strong><\/p>\n<p>A cr\u00f4nica urbana continua extremamente relevante justamente porque vivemos uma \u00e9poca de excesso de velocidade e escassez de elabora\u00e7\u00e3o. Em meio ao consumo instant\u00e2neo de informa\u00e7\u00e3o, a cr\u00f4nica ainda possui a capacidade de suspender o olhar autom\u00e1tico sobre a vida cotidiana. Talvez hoje a cidade tenha mudado, as redes sociais tenham alterado nossa percep\u00e7\u00e3o de intimidade e exposi\u00e7\u00e3o, mas a solid\u00e3o urbana continua existindo. Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade escreviam sobre um Brasil que ainda buscava compreender suas pr\u00f3prias modernidades. Hoje escrevemos sobre um sujeito fragmentado, ansioso, hiperconectado e emocionalmente exausto.<\/p>\n<p><strong>Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrela\u00e7ados no Brasil, como voc\u00ea equilibra o rigor da observa\u00e7\u00e3o dos fatos com a liberdade da inven\u00e7\u00e3o ficcional na sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p>Sempre enxerguei literatura e jornalismo como espa\u00e7os muito pr\u00f3ximos no Brasil. A pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o da cr\u00f4nica nasce desse tr\u00e2nsito entre observa\u00e7\u00e3o factual e elabora\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. Tento equilibrar isso entendendo que a realidade j\u00e1 possui pot\u00eancia narrativa suficiente. O trabalho do escritor n\u00e3o \u00e9 necessariamente inventar mundos irreais, mas reorganizar simbolicamente experi\u00eancias humanas reconhec\u00edveis.<br \/>\nA fic\u00e7\u00e3o me permite acessar aquilo que a objetividade jornal\u00edstica n\u00e3o alcan\u00e7a completamente: sil\u00eancios, subjetividades, contradi\u00e7\u00f5es \u00edntimas e zonas amb\u00edguas do comportamento humano.<\/p>\n<p><strong>Escrever fic\u00e7\u00e3o em tempos de p\u00f3s-verdade imp\u00f5e novos limites. Como a literatura pode atuar como um ref\u00fagio da verdade humana ou uma ferramenta de den\u00fancia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?<\/strong><\/p>\n<p>Em tempos de p\u00f3s-verdade, acredito que a literatura se torna ainda mais importante porque ela preserva complexidades. Narrativas extremistas e superficiais costumam simplificar a experi\u00eancia humana; a literatura faz o oposto. Ela devolve nuance.<\/p>\n<p>Escrever hoje \u00e9 tamb\u00e9m resistir \u00e0 l\u00f3gica do algoritmo, que exige velocidade, simplifica\u00e7\u00e3o e respostas definitivas. A literatura continua sendo um espa\u00e7o onde a contradi\u00e7\u00e3o humana pode existir sem necessidade imediata de julgamento.<\/p>\n<div id=\"attachment_398234\" style=\"width: 575px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-398234\" class=\" wp-image-398234\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260516_135924511_MFNR-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"565\" height=\"753\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260516_135924511_MFNR-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260516_135924511_MFNR-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260516_135924511_MFNR-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260516_135924511_MFNR-1536x2048.jpg 1536w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260516_135924511_MFNR-scaled.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 565px) 100vw, 565px\" \/><p id=\"caption-attachment-398234\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;A espontaneidade sem elabora\u00e7\u00e3o pode produzir desabafo&#8221;<\/p><\/div>\n<p><strong>O dom\u00ednio das t\u00e9cnicas espec\u00edficas de cada g\u00eanero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?<\/strong><\/p>\n<p>Conhecer t\u00e9cnica n\u00e3o aprisiona a criatividade; pelo contr\u00e1rio, amplia possibilidades. Estrutura, ritmo, constru\u00e7\u00e3o narrativa e dom\u00ednio de linguagem oferecem ferramentas para que o autor consiga sustentar aquilo que deseja dizer.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre um escritor amador e um profissional, muitas vezes, n\u00e3o est\u00e1 apenas no talento, mas na consci\u00eancia formal sobre o pr\u00f3prio texto. A espontaneidade sem elabora\u00e7\u00e3o pode produzir desabafo; literatura exige constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea define o seu &#8220;lugar de fala&#8221; na literatura atual e de que maneira essa posi\u00e7\u00e3o influencia a receptividade, as cr\u00edticas e a conex\u00e3o emocional com o seu p\u00fablico leitor?<\/strong><br \/>\nMeu lugar de fala na literatura passa inevitavelmente pelas Ci\u00eancias Sociais, pela experi\u00eancia urbana contempor\u00e2nea e pela observa\u00e7\u00e3o das fragilidades humanas. Escrevo muito sobre pessoas cansadas, afetadas, atravessadas pela vida cotidiana, pelas rela\u00e7\u00f5es, pelas desigualdades e pela sensa\u00e7\u00e3o constante de inadequa\u00e7\u00e3o moderna. Talvez por isso muitos leitores se identifiquem emocionalmente: porque percebem personagens e narradores profundamente humanos, imperfeitos e contradit\u00f3rios.<\/p>\n<p><strong>O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o ego\u00edsmo de querer aparecer individualmente em prol de algo maior, que \u00e9 a pr\u00f3pria literatura, criando redes de apoio m\u00fatuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Voc\u00ea concorda com essa vis\u00e3o sobre o papel do coletivo no mercado editorial?<\/strong><\/p>\n<p>Concordo muito com essa vis\u00e3o. O mercado editorial brasileiro ainda \u00e9 extremamente concentrado e muitas vezes elitizado. Redes de apoio entre escritores, jornalistas culturais, leitores e coletivos liter\u00e1rios s\u00e3o fundamentais para democratizar circula\u00e7\u00e3o e perman\u00eancia.<br \/>\nA literatura n\u00e3o cresce apenas pela genialidade individual, mas tamb\u00e9m pela constru\u00e7\u00e3o coletiva de espa\u00e7os de escuta, publica\u00e7\u00e3o e reconhecimento.<\/p>\n<p><strong>Escrever costuma ser um ato solit\u00e1rio, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade t\u00eam crescido. Como a troca de experi\u00eancias e o feedback desses espa\u00e7os impactam o refinamento dos seus textos?<\/strong><\/p>\n<p>Embora escrever seja um ato profundamente solit\u00e1rio, a troca com outros escritores \u00e9 essencial para amadurecimento est\u00e9tico e intelectual. Oficinas e grupos ajudam o autor a perceber excessos, v\u00edcios narrativos, pontos cegos e potencialidades que sozinho talvez n\u00e3o enxergasse.<br \/>\nAl\u00e9m disso, h\u00e1 algo politicamente importante nesses espa\u00e7os: eles rompem a ideia do escritor isolado como figura quase m\u00edtica e aproximam a literatura da experi\u00eancia coletiva.<\/p>\n<p><strong>O escritor Eduardo Cesario-Mart\u00ednez defende uma vis\u00e3o otimista de que a melhor gera\u00e7\u00e3o de escritores \u00e9 a atual, e que as futuras ser\u00e3o ainda melhores gra\u00e7as \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o da escrita pela internet. Como voc\u00ea enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p>A democratiza\u00e7\u00e3o da escrita pela internet \u00e9 um fen\u00f4meno ambivalente. Por um lado, amplia vozes historicamente silenciadas e descentraliza o acesso \u00e0 publica\u00e7\u00e3o. Por outro, a l\u00f3gica das redes muitas vezes privilegia velocidade, impacto imediato e est\u00e9tica de consumo r\u00e1pido. Ainda assim, acredito que estamos produzindo uma gera\u00e7\u00e3o extremamente interessante justamente porque ela escreve atravessada por m\u00faltiplas linguagens, crises sociais, afetivas e tecnol\u00f3gicas.<\/p>\n<div id=\"attachment_398237\" style=\"width: 641px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-398237\" class=\" wp-image-398237\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260529_121045886_MFNR-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"631\" height=\"473\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260529_121045886_MFNR-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260529_121045886_MFNR-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260529_121045886_MFNR-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260529_121045886_MFNR-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_20260529_121045886_MFNR-2048x1536.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 631px) 100vw, 631px\" \/><p id=\"caption-attachment-398237\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Nenhum texto nasce completamente fora do tempo hist\u00f3rico&#8221;<\/p><\/div>\n<p><strong>A escrita criativa \u00e9 um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho liter\u00e1rio funciona como uma ferramenta de di\u00e1logo interno com as suas pr\u00f3prias ang\u00fastias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que a escrita \u00e9 simultaneamente espelho e fuga. Muitas vezes escrevemos para compreender aquilo que ainda n\u00e3o conseguimos elaborar plenamente dentro de n\u00f3s. A literatura funciona como espa\u00e7o de reorganiza\u00e7\u00e3o subjetiva. Mas ela tamb\u00e9m \u00e9 debate p\u00fablico. Nenhum texto nasce completamente fora do tempo hist\u00f3rico. Mesmo quando escrevemos sobre intimidade, estamos falando sobre cultura, poder, desigualdade, g\u00eanero, afetos e sociedade.<\/p>\n<p><strong>Muitos autores constroem carreiras pol\u00edmatas, dividindo-se entre outras profiss\u00f5es (como a ci\u00eancia, o direito ou a educa\u00e7\u00e3o) e as letras. Como a sua atua\u00e7\u00e3o fora das p\u00e1ginas alimenta a profundidade e a diversidade tem\u00e1tica dos seus cen\u00e1rios e personagens?<\/strong><\/p>\n<p>Minha atua\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e minha forma\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais alimentam diretamente minha escrita. Observar pessoas, discursos, comportamentos e rela\u00e7\u00f5es sociais faz parte n\u00e3o apenas da pesquisa, mas tamb\u00e9m da literatura. Talvez por isso minhas cr\u00f4nicas frequentemente misturem melancolia urbana, humor cr\u00edtico, an\u00e1lise social e observa\u00e7\u00e3o cotidiana. Tenho muito interesse pelas pequenas trag\u00e9dias silenciosas da vida comum.<\/p>\n<p><strong>O mercado editorial atual exige que o autor seja tamb\u00e9m o seu pr\u00f3prio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presen\u00e7a digital aut\u00eantica e engajar leitores sem deixar que as m\u00e9tricas de internet corrompam a ess\u00eancia e a profundidade da sua literatura?<\/strong><\/p>\n<p>O maior desafio das redes sociais talvez seja n\u00e3o permitir que as m\u00e9tricas substituam o pr\u00f3prio processo criativo. Vivemos uma \u00e9poca em que o escritor precisa performar presen\u00e7a constante, transformar intimidade em conte\u00fado e medir valor por engajamento. Tento construir uma presen\u00e7a digital mais humana e menos perform\u00e1tica, entendendo que leitores se conectam muito mais com autenticidade do que com personagens artificiais de internet.<\/p>\n<p><strong>Pensando nos espa\u00e7os democr\u00e1ticos de publica\u00e7\u00e3o, como o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio ou portais de jornalismo cultural, qual a import\u00e2ncia desses canais na oxigena\u00e7\u00e3o do mercado e na revela\u00e7\u00e3o de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?<\/strong><\/p>\n<p>Espa\u00e7os independentes de publica\u00e7\u00e3o s\u00e3o fundamentais para a renova\u00e7\u00e3o da literatura brasileira contempor\u00e2nea. Muitos autores extremamente talentosos jamais chegariam \u00e0s grandes editoras sem esses canais alternativos. Portais culturais, caf\u00e9s liter\u00e1rios, jornais independentes e coletivos funcionam como espa\u00e7os de resist\u00eancia intelectual e democratiza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica.<\/p>\n<p><strong>Para encerrarmos, se voc\u00ea pudesse escolher apenas uma \u00fanica mensagem, ang\u00fastia ou reflex\u00e3o para imortalizar na mente de quem l\u00ea a sua obra hoje, qual seria?<\/strong><\/p>\n<p>Talvez a principal reflex\u00e3o que desejo deixar seja esta: ningu\u00e9m atravessa a vida sem ser profundamente afetado por ela. Vivemos tentando performar controle, estabilidade e sucesso, mas a experi\u00eancia humana real \u00e9 muito mais fr\u00e1gil, contradit\u00f3ria e vulner\u00e1vel. E ainda assim, seguimos. Talvez exista certa beleza nisso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A coluna Vozes da Literatura recebe hoje a escritora e cientista social Emanuelle Nascimento, uma voz que rejeita a ideia rom\u00e2ntica da inspira\u00e7\u00e3o m\u00edstica e enxerga a escrita como um exerc\u00edcio rigoroso de observa\u00e7\u00e3o, escuta e elabora\u00e7\u00e3o intelectual. 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