{"id":398637,"date":"2026-06-14T01:15:16","date_gmt":"2026-06-14T04:15:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=398637"},"modified":"2026-06-12T14:09:41","modified_gmt":"2026-06-12T17:09:41","slug":"ascenso-ferreira-o-xerife-da-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ascenso-ferreira-o-xerife-da-poesia\/","title":{"rendered":"ASCENSO FERREIRA, O XERIFE DA POESIA"},"content":{"rendered":"<p>At\u00e9 hoje n\u00e3o sei se encontrei Ascenso Ferreira no Recife ou se foi ele quem me encontrou num desses quartos escuros da imagina\u00e7\u00e3o, onde os mortos bons aparecem para dar conselho aos vivos aflitos.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que ele me surgiu \u00e0 beira do Capibaribe. Ou me pareceu surgir. A noite estava mansa, o rio seguia seu destino de \u00e1gua antiga, e eu, estrangeiro de mim mesmo, caminhava pelas bandas do Cais da Alf\u00e2ndega, pensando em poesia, em fracasso, em destino, nessas coisas que a gente s\u00f3 confessa ao sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que notei um vulto largo, corpulento, com um chapel\u00e3o de abas imensas. Havia nele qualquer coisa de delegado sertanejo, artista de feira, fazendeiro sem fazenda, poeta, voz de trovoada e cora\u00e7\u00e3o atravessado. Quando se aproximou, n\u00e3o tive d\u00favida. Era Ascenso Ferreira. Ou era o fantasma dele, que talvez d\u00ea no mesmo quando se trata de poesia.<\/p>\n<p>\u201cBoa noite, cavalheiro\u201d, arrisquei.<\/p>\n<p>Ele respondeu com voz de Pernambuco inteiro.<\/p>\n<p>Ascenso era desses homens-lenda que pareciam inventados pela pr\u00f3pria literatura. Nasceu em Palmares, batizado <span style=\"font-family: 'Arial',sans-serif; color: #202122; background: white;\">Ascenso Carneiro Gon\u00e7alves Ferreira, em 9 de maio de 1895. Cresceu em gra\u00e7a e poesia. <\/span>Chegou aos quase dois metros de altura, mais de cem quilos de corpo, charuto na boca, chap\u00e9u grande, apetite de festa, medo de avi\u00e3o, medo da morte, horror de cartas, amor ao telefone, devo\u00e7\u00e3o pela filha e uma vida que, ainda em vida, j\u00e1 ia virando lenda. A imprensa antiga gostava de descrev\u00ea-lo como se ele fosse, ao mesmo tempo, poeta, personagem, bo\u00eamio e animal fabuloso. E talvez fosse mesmo.<\/p>\n<p>Numa antiga reportagem de Darwin Brand\u00e3o, publicada em agosto de 1953 na Manchete &#8211; que tanto prestigiava a poesia -, ele aparece hospedado num hotel barato da Pra\u00e7a Tiradentes, no Rio de Janeiro. Para os empregados, n\u00e3o era \u201co senhor Ascenso\u201d, nem \u201co escritor\u201d, nem \u201co doutor\u201d. Era simplesmente \u201co poeta\u201d. A designa\u00e7\u00e3o bastava. Como se naquela palavra coubesse o homem inteiro, com sua barriga, sua voz, sua fome, seus sapatos e seus versos.<\/p>\n<p>O porteiro informa que ele sa\u00edra para comer mam\u00e3o numa leiteria. \u201cMas acho que vai comer uns quatro\u201d, acrescenta, j\u00e1 entregando a dimens\u00e3o do personagem. Pouco depois, chega Ascenso, com sua estatura, seu volume de carne e mito, queixando-se da press\u00e3o alta e dizendo que o melhor rem\u00e9dio era emagrecer. Em seguida, no quarto escuro, tira o chap\u00e9u, o palet\u00f3, os sapatos e se espicha de gravata na cama pequena demais para ele. Os p\u00e9s sobram. A barriga sobe. A m\u00e3o enorme esfrega a cara. E ele fala.<\/p>\n<p>Fala de poesia, de mulheres, de morte, de terra, de dinheiro perdido, de comida, de vinho, de cachimbo, de charuto, de Banco do Brasil, de Get\u00falio, de Pernambuco, do Rio, do Nordeste, de si mesmo. Fala como quem declama mesmo quando conversa. E talvez seja esse o ponto: em Ascenso, a poesia n\u00e3o era uma atividade separada da vida. Era o modo como a vida flu\u00eda pela boca, como o Capibaribe em procura do Atl\u00e2ntico mar.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-398639 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-12-de-jun.-de-2026-12_44_14-300x300.png\" alt=\"\" width=\"440\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-12-de-jun.-de-2026-12_44_14-300x300.png 300w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-12-de-jun.-de-2026-12_44_14-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-12-de-jun.-de-2026-12_44_14-150x150.png 150w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-12-de-jun.-de-2026-12_44_14-768x768.png 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-12-de-jun.-de-2026-12_44_14-80x80.png 80w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-12-de-jun.-de-2026-12_44_14.png 1254w\" sizes=\"(max-width: 440px) 100vw, 440px\" \/><\/p>\n<p>Ele viera ao Rio, dizia, \u201cmatar as saudades dos nordestinos\u201d. A frase \u00e9 bonita porque inverte a saudade. N\u00e3o era ele quem vinha matar a pr\u00f3pria saudade. Vinha trazer aos outros um peda\u00e7o da terra distante. Havia, segundo ele, milhares de nordestinos no Rio. E Ascenso parecia se ver como uma esp\u00e9cie de mensageiro daquela terra: um homem que transportava, na voz, a bagaceira, o sert\u00e3o, o litoral, a feira, os engenhos que fazem sonhar, os ritmos populares, a fala do povo, a poeira dos caminhos e a gra\u00e7a de Pernambuco.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o aceitava que chamassem aquilo de caipirismo. Reagia. Caipirismo, dizia, era uma l\u00edngua inexistente. O que fazia era outra coisa: trabalhava com ritmos populares, mas sem abandonar a nobreza da poesia. Essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 importante. Ascenso n\u00e3o queria ser confundido com um colecionador de fala pitoresca, nem com um poeta folcl\u00f3rico no sentido menor da palavra. Ele n\u00e3o recolhia o povo como quem recolhe curiosidade. Ele vinha de dentro. Conhecia a terra n\u00e3o por estudo, mas por incorpora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez por isso houvesse nele esse contraste t\u00e3o forte entre o palha\u00e7o e o poeta. A reportagem deixa escapar uma frase dura: os homens preferiam nele o palha\u00e7o ao poeta. A\u00ed est\u00e1 uma ferida. O Brasil costuma fazer isso com seus artistas mais solares. Ri deles, aproveita-lhes o exagero, a fala, o tipo f\u00edsico, a caricatura, a mesa farta, o chap\u00e9u, o esc\u00e2ndalo, a anedota. Depois, quando sobra tempo, pergunta pela obra.<\/p>\n<p>Ascenso sabia disso. E devia sofrer, embora disfar\u00e7asse no riso. Era um homem grande demais para ser apenas engra\u00e7ado e vivo demais para ser apenas estudado. Tinha gra\u00e7a, sim. Mas a gra\u00e7a, nele, n\u00e3o era ornamento. Era uma forma de intelig\u00eancia. Uma defesa contra a mis\u00e9ria, contra a burocracia, contra a secura da vida, contra a falta de verba para a poesia.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 verba para poesia.\u201d A frase dele, dita a prop\u00f3sito de uma hist\u00f3ria envolvendo livros que n\u00e3o foram comprados, ficou como epit\u00e1fio administrativo do Brasil. N\u00e3o h\u00e1 verba para poesia, mas h\u00e1 sempre verba para o esquecimento. Get\u00falio Vargas mandou adquirir 20 livros seus, em edi\u00e7\u00e3o especial. Trinta contos de r\u00e9is. Ele entregou os livros, mas nunca viu o dinheiro. O poeta, quando precisa vender seus livros, gravar seus poemas, fazer confer\u00eancia, negociar a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia, descobre que o pa\u00eds admira a poesia principalmente depois que ela j\u00e1 n\u00e3o pede nada em troca.<\/p>\n<p>Ascenso pedia. Pedia espa\u00e7o, grava\u00e7\u00e3o, edi\u00e7\u00e3o popular, contrato, circula\u00e7\u00e3o. Queria deixar sua obra gravada porque sabia que seus poemas dependiam muito da voz. E nisso estava certo. H\u00e1 poetas que se leem melhor em sil\u00eancio. Outros precisam ser ouvidos. Ascenso pertencia a essa segunda fam\u00edlia. Sua poesia tem corpo sonoro. Pede boca, plateia, respira\u00e7\u00e3o, pausa, riso, surpresa. No papel, ela vive. Na voz, ela levanta.<\/p>\n<p>A vida dele parecia igualmente encenada, mas n\u00e3o por falsidade. Por excesso. Jogou roleta, ganhou dinheiro, perdeu dinheiro, vendeu ferro velho, vendeu sacaria, tentou a vida de fazenda em Canhotinho, plantou algod\u00e3o e viu a seca passar por cima da esperan\u00e7a. Reclamava do Banco do Brasil que emprestava sem compreender a terra, sem levar em conta a estiagem, sem respeitar o tempo de quem planta. O homem que parecia apenas bo\u00eamio sabia muito bem o peso da economia sobre o lombo de quem trabalha.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m comia. E muito. Trazia farinha de Pernambuco na mala e a abria nos restaurantes do Rio para acompanhar o peixe ou o bacalhau. Fumava charutos enormes desde menino. Gostava de aguardente com mel de abelha e lim\u00e3o. Tinha prefer\u00eancia por galinha, peru assado devagar, comidas de sust\u00e2ncia. Nele, tudo parecia contrariar a ideia ass\u00e9ptica de poeta. Ascenso n\u00e3o era vapor. Era mat\u00e9ria. Era suor, farinha, fuma\u00e7a, gordura, voz, desejo, press\u00e3o alta, riso, susto e ch\u00e3o.<\/p>\n<p>E, no entanto, falava da morte.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-398640 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-12-de-jun.-de-2026-12_44_04-300x300.png\" alt=\"\" width=\"336\" height=\"336\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-12-de-jun.-de-2026-12_44_04-300x300.png 300w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-12-de-jun.-de-2026-12_44_04-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-12-de-jun.-de-2026-12_44_04-150x150.png 150w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-12-de-jun.-de-2026-12_44_04-768x768.png 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-12-de-jun.-de-2026-12_44_04-80x80.png 80w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/ChatGPT-Image-12-de-jun.-de-2026-12_44_04.png 1254w\" sizes=\"(max-width: 336px) 100vw, 336px\" \/><\/p>\n<p>Queria morrer violentamente, dizia, sem bal\u00e3o de oxig\u00eanio, sem pinico e sem aparadeira. N\u00e3o viajava de avi\u00e3o porque \u201cquem \u00e9 do ch\u00e3o n\u00e3o se atrepa\u201d. Preferia navio, com o consolo de saber nadar. A frase \u00e9 de uma beleza visceral. Diz tudo sobre sua liga\u00e7\u00e3o com a terra e, ao mesmo tempo, sobre sua recusa da morte domesticada. Ascenso queria morrer como viveu: sem pedir desculpas ao bom comportamento.<\/p>\n<p>Quando apareceu para mim naquela noite do Recife \u2014 ou quando imaginei que apareceu \u2014, tive vontade de perguntar muitas coisas. Se ainda valia a pena escrever. Se poeta nasce ou insiste. Se a poesia salva alguma coisa. Se o reconhecimento chega. Se a posteridade paga a conta atrasada dos vivos. Ele me olhou com aquela cara de quem j\u00e1 sabia que as perguntas eram mais vaidosas do que profundas.<\/p>\n<p>Ascenso Ferreira morreu em 5 de maio de 1965, mas n\u00e3o ficou quieto. Esses homens n\u00e3o ficam. Continuam andando de chap\u00e9u grande pelas ruas do Recife, do Rio, da mem\u00f3ria brasileira. Continuam entrando nos hot\u00e9is baratos, nas leiterias, nas conversas de madrugada. Continuam lembrando que a poesia n\u00e3o precisa escolher entre povo e nobreza, entre gra\u00e7a e dor, entre corpo e esp\u00edrito. Pode ter tudo. Pode vir com farinha na mala e ainda assim ascender com as coisas terrenas para um plano mais alto.<\/p>\n<p>Hoje est\u00e1 dissolvido na \u00e1gua, na rua, no riso de algum passante, no barulho distante da cidade. Est\u00e1 nos navios de vintena da heran\u00e7a de uma tia, que v\u00e3o para Oropa, Fran\u00e7a e Bahia, ou num casar\u00e3o que d\u00e1 frente para terra e fundos pro mar, de onde se veem os marujos tiruliluli, tirulilul\u00e1&#8230;<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi \u00e9 poeta, contista, advogado e professor universit\u00e1rio no Rio de Janeiro. Editor do Caf\u00e9 Liter\u00e1rio, em Notibras, e fundador da Editora Fava, transita entre a literatura, o direito e o ensino. \u00c9 autor dos livros <em data-start=\"331\" data-end=\"352\">A Verdade nos Seres<\/em> (poesia) e <em data-start=\"364\" data-end=\"385\">Territ\u00f3rio do Sonho<\/em> (contos), al\u00e9m de <em data-start=\"404\" data-end=\"420\">Jardim Secreto<\/em> (poesia), no prelo. Fez o lado B da Literatura deste domingo a pedido do titular da coluna, Cassiano Cond\u00e9.<\/strong><\/p>\n<p data-start=\"442\" data-end=\"471\" data-is-last-node=\"\" data-is-only-node=\"\"><strong>Instagram: @prof.danielmarchi<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 hoje n\u00e3o sei se encontrei Ascenso Ferreira no Recife ou se foi ele quem me encontrou num desses quartos escuros da imagina\u00e7\u00e3o, onde os mortos bons aparecem para dar conselho aos vivos aflitos. O fato \u00e9 que ele me surgiu \u00e0 beira do Capibaribe. Ou me pareceu surgir. 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