{"id":399327,"date":"2026-06-17T06:18:45","date_gmt":"2026-06-17T09:18:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=399327"},"modified":"2026-06-17T08:23:15","modified_gmt":"2026-06-17T11:23:15","slug":"armadilha-do-capitalismo-e-crescimento-para-poucos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/armadilha-do-capitalismo-e-crescimento-para-poucos\/","title":{"rendered":"Armadilha do capitalismo \u00e9 crescimento para poucos"},"content":{"rendered":"<p>Ao contr\u00e1rio do que afirma Paulo Gala em seu excelente &#8220;Rumo a 2050&#8221; (<i>Carta Capital<\/i>, 27\/05\/2026), o crescimento da economia, por si, n\u00e3o altera a estrutura distributiva. Ao contr\u00e1rio, n\u00e3o apenas convive com alta concentra\u00e7\u00e3o de renda, como a promove.\u00a0 Trata-se, simplesmente, de determinismo da l\u00f3gica de acumula\u00e7\u00e3o do capitalismo, e sua consequ\u00eancia irrecorr\u00edvel \u00e9 a concentra\u00e7\u00e3o da riqueza, na contram\u00e3o da valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho como um dos fatores da produ\u00e7\u00e3o. Mesmo o aumento da produtividade n\u00e3o implica aumento proporcional dos sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>De um lado, os lucros do capital s\u00e3o reinvestidos, ampliando a escala do capital e, como em um c\u00edrculo vicioso, refor\u00e7ando sua concentra\u00e7\u00e3o; doutra parte, o desemprego estrutural \u2014 alimento do ex\u00e9rcito industrial de reserva \u2014 pressiona os sal\u00e1rios para baixo, quadro tendencial da globaliza\u00e7\u00e3o do capitalismo, a que se somam o desenvolvimento cient\u00edfico e as novas tecnologias, poupadoras de m\u00e3o de obra e intensivas em capital, e a articula\u00e7\u00e3o de grandes e poucas corpora\u00e7\u00f5es operando em escala global, de forma oligopolista, transitando para o monop\u00f3lio, com n\u00edveis in\u00e9ditos de concentra\u00e7\u00e3o de mercado e de poder pol\u00edtico, frequentemente avan\u00e7ando sobre as soberanias nacionais.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria testemunha que o crescimento da renda <i>per capita<\/i>\u00a0pode conviver com estagna\u00e7\u00e3o relativa ou perda do poder\u00a0aquisitivo dos trabalhadores. Marx, no s\u00e9culo XIX, explicou a contradi\u00e7\u00e3o entre a expans\u00e3o das for\u00e7as produtivas e as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o. Tal disfun\u00e7\u00e3o se agrava na periferia do capitalismo contempor\u00e2neo, onde o desenvolvimento econ\u00f4mico se conjuga com setores altamente atrasados. Celso Furtado, ainda nos anos\u00a01960,\u00a0referia-se ao que denominou &#8220;difus\u00e3o restrita do progresso t\u00e9cnico&#8221;: os ganhos de produtividade concentram-se em setores modernos, todavia sem irradiar para o conjunto da economia, acentuando as desigualdades.<\/p>\n<p>Como em uma ordem de vasos comunicantes, as elites econ\u00f4micas reproduzem padr\u00f5es de consumo dos pa\u00edses centrais, canalizando renda para setores de alto valor agregado e baixa absor\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra.<\/p>\n<p>Segundo o coeficiente Gini (que varia de 0 \u2014 igualdade total \u2014 a 1 \u2014 desigualdade m\u00e1xima), nosso \u00edndice de desigualdade j\u00e1 chega a 0,51. Nesse coeficiente encontram-se &#8212; segundo dados do Banco Mundial&#8211;, Madagascar e Ruanda, e, em suas vizinhan\u00e7as, Mo\u00e7ambique (0,54) e Z\u00e2mbia (0,57). Mas, ao contr\u00e1rio desses pa\u00edses, extremamente pobres, somos a d\u00e9cima economia do mundo. Ou seja, a desigualdade social que nos assola \u00e9 fruto da concentra\u00e7\u00e3o\u00a0da riqueza, acumulada pelo capital, que cresce mesmo em sua express\u00e3o financeira \u2014 capital fict\u00edcio, segundo Marx \u2014 e passa \u00e0 margem da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dados recentes do IBGE, lamentavelmente sem revelarem novidade, dizem que os 10% de brasileiros &#8220;mais ricos&#8221; \u2014 algo como 20,3 milh\u00f5es de pessoas em uma popula\u00e7\u00e3o estimada em 213,5 milh\u00f5es \u2014 concentram cerca de 40% da renda total, ou seja, 13 a 14 vezes mais que os 40% mais pobres, estimados em 81,2 milh\u00f5es. Em 2018, essa diferen\u00e7a chegou a 17 vezes.<\/p>\n<p>A massa de rendimentos domiciliares\u00a0em 2025, foi de cerca de\u00a0R$ 5,8 trilh\u00f5es, e os 10% &#8220;mais ricos&#8221; se apropriaram de algo como\u00a0R$ 2,4 trilh\u00f5es\/ano, considerando o\u00a0PIB de\u00a0R$ 12,7 trilh\u00f5es. Ou seja, 18% do PIB escorrem diretamente para o fosso desses 10% mais ricos, como renda corrente.<\/p>\n<p>Entre os &#8220;mais pobres&#8221; \u2014 brasileiros integrados no processo produtivo, trabalhadores e assalariados de um modo geral \u2014 situam-se os que percebem renda mensal variante entre\u00a0R$ 400 e 500 mensais\u00a0(o\u00a0sal\u00e1rio-m\u00ednimo nacional \u00e9 de R$ 1.621),\u00a0contra\u00a0R$ 7 mil e 9 mil, renda estimada dos 10% mais ricos.<\/p>\n<p>Mas o sistema rentista nada tem a reclamar. \u00c9 o que proclamam os lucros m\u00e9dios dos cinco maiores bancos privados que atuam\u00a0no Brasil: Ita\u00fa, 46,8 bilh\u00f5es\u00a0de reais; Bradesco, 24,6 bilh\u00f5es; Santander, 15,6 bilh\u00f5es; BTG Pactual, 16,7 bilh\u00f5es; e Safra, 3,9 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 o Brasil que a direita pretende preservar.<\/p>\n<p>A hegemonia das finan\u00e7as e as transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas aceleradas dos \u00faltimos anos, ao alterarem as regras do sistema produtivo, estamparam a tend\u00eancia estrutural do capitalismo como fator de desigualdade. Longe de se dissipar com o desenvolvimento econ\u00f4mico, o capitalismo globalizado das \u00faltimas d\u00e9cadas reina sob novas formas e novos mecanismos de reprodu\u00e7\u00e3o, refazendo-se ap\u00f3s crises sist\u00eamicas constitutivas do seu funcionamento, como, no s\u00e9culo passado, a estagfla\u00e7\u00e3o dos anos 1970, \u00a0e, mais recentemente, \u00a0a crise financeira global de 2008.<\/p>\n<p>Marx observou que o capital, ao se acumular, tende inevitavelmente \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o. A concorr\u00eancia entre capitais individuais, escreveu, leva \u00e0 centraliza\u00e7\u00e3o \u2014 os maiores absorvem os menores, e o sistema se reorganiza continuamente em torno de unidades cada vez mais poderosas. Esse movimento n\u00e3o \u00e9 acidental, mas constitutivo do pr\u00f3prio funcionamento do capitalismo. Em sua l\u00f3gica interna, n\u00e3o h\u00e1 freios naturais para esse processo, mas a busca incessante por lucro e expans\u00e3o sem fim, de que depende.<\/p>\n<p>O desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico, ao tempo em que traz para nossos dias um futuro inimagin\u00e1vel h\u00e1 poucas d\u00e9cadas, vem refor\u00e7ar a concentra\u00e7\u00e3o de renda e riqueza. A chamada quarta revolu\u00e7\u00e3o industrial \u2014 marcada pela dissemina\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia artificial, da automa\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada e das grandes plataformas digitais \u2014 redefine a rela\u00e7\u00e3o entre capital e trabalho. Empresas intensivas em tecnologia requerem investimentos crescentes em capital e, ao mesmo tempo, reduzem drasticamente os postos de trabalho.<\/p>\n<p>A substitui\u00e7\u00e3o do trabalho humano por m\u00e1quinas e algoritmos comprime a participa\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios na renda nacional, enquanto amplia os ganhos do capital. O trabalho, antes principal meio de distribui\u00e7\u00e3o de renda, \u00e9 subsumido pelo capital \u2014 especialmente o capital financeiro. As consequ\u00eancias, como lembrava o conselheiro Ac\u00e1cio, v\u00eam depois: a queda dos postos de trabalho, o crescimento dos ex\u00e9rcitos de reserva, as restri\u00e7\u00f5es aos direitos sociais dos trabalhadores e a queda do poder aquisitivo dos sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>Nada est\u00e1 fora das regras de funcionamento do capitalismo, e isso nos diz que o desenvolvimento econ\u00f4mico n\u00e3o \u00e9 uma autarquia, condicionado que est\u00e1 por op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.\u00a0A classe dominante brasileira,\u00a0herdeira do latif\u00fandio e do escravismo, \u00e9 que optou por este sistema, e o sustenta qualquer pre\u00e7o, como nos lembra a ditadura militar.<\/p>\n<p>A financeiriza\u00e7\u00e3o da economia, tra\u00e7o marcante do capitalismo globalizado, determina a subordina\u00e7\u00e3o das economias nacionais \u00e0 l\u00f3gica da valoriza\u00e7\u00e3o financeira e, assim, desfaz-se dos projetos de expans\u00e3o e crescimento para optar pela maximiza\u00e7\u00e3o do valor para o acionista, especialmente por meio da distribui\u00e7\u00e3o de dividendos. Os Estados nacionais, por sua vez, tornam-se cada vez mais condicionados pelos mercados financeiros globais, limitando sua capacidade de interven\u00e7\u00e3o redistributiva.<\/p>\n<p>Mais e mais \u00e9 consumida a soberania das na\u00e7\u00f5es n\u00e3o hegem\u00f4nicas.<\/p>\n<p>A clivagem n\u00e3o \u00e9 necessariamente entre pa\u00edses desenvolvidos e subdesenvolvidos \u2014 ou\u00a0emergentes, como se queira \u2014, nem entre na\u00e7\u00f5es ricas e pobres, mas entre ricos e pobres no interior de cada pa\u00eds.<\/p>\n<p>Retornemos a Celso Furtado lembrando-nos\u00a0 que a concentra\u00e7\u00e3o de renda n\u00e3o \u00e9 um efeito colateral do crescimento econ\u00f4mico, mas elemento constitutivo de certas formas de desenvolvimento capitalista dependente, precisamente aquela pela qual as elites econ\u00f4micas brasileiras optaram.<\/p>\n<p>Para Celso, o problema central das economias perif\u00e9ricas n\u00e3o se concentrava apenas na escassez de capital, pois muito resultava da forma como ele se distribu\u00eda e se utilizava. Ou seja, de sua concentra\u00e7\u00e3o. A moderniza\u00e7\u00e3o produtiva coexistia com estruturas sociais arcaicas, gerando crescimento que beneficiava poucos e exclu\u00eda muitos. Essa interpreta\u00e7\u00e3o permanece atual, especialmente quando se observa a integra\u00e7\u00e3o subordinada dessas economias \u00e0s cadeias globais de valor e aos fluxos financeiros internacionais.<\/p>\n<p>Esse quadro vem se agravando \u00e0 medida que se consolida a globaliza\u00e7\u00e3o capitalista, potencializada pela ascens\u00e3o do neoliberalismo, com seus penduricalhos: a desregulamenta\u00e7\u00e3o como\u00a0<i>conditio<\/i><i>\u00a0<\/i><i>sine<\/i><i>\u00a0<\/i><i>qua<\/i><i>\u00a0<\/i><i>non<\/i>; a liberaliza\u00e7\u00e3o financeira como regra; a redu\u00e7\u00e3o do papel do Estado; as privatiza\u00e7\u00f5es; as pol\u00edticas fiscais regressivas; o enfraquecimento dos sindicatos; a flexibiliza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho; e a precariza\u00e7\u00e3o dos mecanismos de previd\u00eancia social.<\/p>\n<p>Ao\u00a0fim e ao cabo, a fragilidade dos sindicatos \u2014 isto \u00e9, dos mecanismos de defesa do trabalho e dos trabalhadores \u2014 altera a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, condiciona o processo pol\u00edtico e, nesses termos, interfere no andamento da hist\u00f3ria. O capital continua a se expandir, a se acumular e a se concentrar em escala planet\u00e1ria e em velocidade impens\u00e1vel no s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>A desigualdade \u2014 que cresce em ritmo insustent\u00e1vel \u2014 n\u00e3o \u00e9, jamais foi, uma disfun\u00e7\u00e3o do sistema capitalista, mas sua consequ\u00eancia l\u00f3gica, acelerada nas \u00faltimas d\u00e9cadas pela revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 uma din\u00e2mica cumulativa: o capital gera mais capital, enquanto o trabalho perde participa\u00e7\u00e3o relativa. A concentra\u00e7\u00e3o de renda e riqueza \u2014 um projeto de classe \u2014 \u00e9 o fundamento da concentra\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, a quest\u00e3o da desigualdade remete ao pr\u00f3prio sentido do desenvolvimento, que \u00e9 uma decis\u00e3o pol\u00edtica. Diz respeito ao projeto de pa\u00eds. A pergunta \u00e9: crescer para quem?<\/p>\n<p>A quest\u00e3o que se coloca n\u00e3o \u00e9 a \u00f3bvia necessidade de desenvolvimento econ\u00f4mico, mas a afirma\u00e7\u00e3o de que sociedade se deseja construir. Uma sociedade em que o desenvolvimento econ\u00f4mico e o progresso tecnol\u00f3gico se\u00a0traduzam em bem-estar compartilhado pela universalidade dos brasileiros \u2014 projeto que deve ser da esquerda e das for\u00e7as progressistas de um modo geral \u2014 ou uma\u00a0sociedade socialmente\u00a0ainda mais atrasada, projeto da direita brasileira?<\/p>\n<p>A resposta poder\u00e1\u00a0ser ouvida nas elei\u00e7\u00f5es de outubro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui nenhuma novidade. O que \u00e9 de serra acima, e assusta, \u00e9 que esses n\u00fameros \u2014 a certid\u00e3o do capitalismo globalizado, perverso de um modo geral e especialmente perverso nos pa\u00edses do Sul Global \u2014 estejam passando ao largo das reflex\u00f5es e do discurso da esquerda brasileira e da a\u00e7\u00e3o de nossos governos. Ausentes na den\u00fancia do sistema de opress\u00e3o, confundimo-nos, no governo e na a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, com os partidos da ordem e somos \u00a0assim justamente condenados como comprometidos com o &#8220;sistema&#8221; porque, por incapacidade de leitura correta do processo hist\u00f3rico, assumimos o destino frustrado da socialdemocracia: simplesmente administrar o capitalismo,\u00a0suavizando seus males.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, todos os gatos s\u00e3o pardos.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Roberto Amaral foi ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia com Lula 1<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao contr\u00e1rio do que afirma Paulo Gala em seu excelente &#8220;Rumo a 2050&#8221; (Carta Capital, 27\/05\/2026), o crescimento da economia, por si, n\u00e3o altera a estrutura distributiva. 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