{"id":399356,"date":"2026-06-18T01:00:26","date_gmt":"2026-06-18T04:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=399356"},"modified":"2026-06-17T16:32:34","modified_gmt":"2026-06-17T19:32:34","slug":"a-comilanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-comilanca\/","title":{"rendered":"A comilan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><strong>Pequena Observa\u00e7\u00e3o: Todos os n\u00fameros e dados hist\u00f3ricos, incluindo a fala do Imperador, s\u00e3o ver\u00eddicos.<\/strong><\/p>\n<p>O pequeno Serafim quase nunca tinha permiss\u00e3o para acompanhar o pai ao trabalho, mas em dias de festa, \u00e0s vezes acontecia dele precisar de alguma ajuda na cozinha e apelava ent\u00e3o para o menino, ex\u00edmio cortador de cenouras e descascador de batatas. O problema \u00e9 que Serafim nunca ficava muito tempo no mesmo lugar e, na inquietude de seus 13 anos de idade, dava sempre um jeito de escapar da vigil\u00e2ncia do pai, mais preocupado com o cozimento dos caldos e com o ponto das carnes.<\/p>\n<p>Serafim tinha orgulho do pai, vi\u00favo de 45 anos, um dos cozinheiros do Visconde de Ouro Preto. Trabalhava para esta fam\u00edlia h\u00e1 muitos anos e era conhecido por ser especialista nas carnes. Sabia preparar um cap\u00e3o como ningu\u00e9m! Foi por causa de suas qualidades como cozinheiro que o pai de Serafim, Ant\u00f4nio, foi chamado para fazer parte da equipe que prepararia um banquete a ser servido no dia 9 de novembro de 1889, no baile da Ilha Fiscal.<\/p>\n<p>Seu Ant\u00f4nio n\u00e3o se envolvia com pol\u00edtica, mas sabia, como todos naqueles tempos, que a Monarquia andava capenga. As conversas nos botequins davam os dias do Imp\u00e9rio como contados. Bastava um estalido para causar mais um conflito entre monarquistas e republicanos. D. Pedro II j\u00e1 n\u00e3o era mais respeitado como antes, tanto que n\u00e3o podia aparecer em pra\u00e7a p\u00fablica sem correr o risco de levar laranjas e tomates na cabe\u00e7a. Secretamente, Ant\u00f4nio queria mais \u00e9 que o Imp\u00e9rio ru\u00edsse de vez. Mas tinha medo de que, com a queda do Imp\u00e9rio, ele, que trabalhava nas cozinhas das fam\u00edlias nobres, perdesse o emprego.<\/p>\n<p>\u2014 Que nada! \u2013 dizia seu compadre, o C\u00edcero. \u2013 Sempre vai ter algum rico para se empanturrar com seus acepipes. Tudo muda s\u00f3 para continuar como era antes.<\/p>\n<p>Mas o caso \u00e9 que, alguns dias antes da data marcada para o banquete, Ant\u00f4nio j\u00e1 estava devidamente contratado. Ele seria apenas mais um entre os in\u00fameros cozinheiros e assistentes que transformariam uma quantidade nunca antes vista de mat\u00e9ria-prima em pratos maravilhosos. Na \u00faltima hora, um dia antes da comilan\u00e7a, faltaram ajudantes e foi a\u00ed que Serafim entrou na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea fique onde eu mandar e fa\u00e7a o que eu mandar. E n\u00e3o me saia de perto! \u2014 avisou o pai ao menino.<\/p>\n<p>O Visconde de Ouro Preto, presidente do Conselho de Ministros, declarou \u00e0 imprensa que o baile seria uma homenagem aos 300 tripulantes do cruzador chileno \u201cAlmirante Cochrane\u201d, ent\u00e3o atracado no Rio de Janeiro. Era um ato de pol\u00edtica de boa vizinhan\u00e7a, afirmou aos jornalistas. Na verdade, isso foi s\u00f3 uma desculpa para realizar a maior festan\u00e7a do Imp\u00e9rio, um jeito de mostrar a todos que ainda se vivia como na Europa, gastando dinheiro aos montes para deleite de nobres e de uma crescente burguesia endinheirada, doidinha para respirar o mesmo ar que a fam\u00edlia imperial. Evidentemente, a presen\u00e7a do pr\u00f3prio D. Pedro II, com sua fam\u00edlia, seria o ponto alto da festa.<\/p>\n<p>Escolheram a antiga Ilha dos Ratos, ent\u00e3o Ilha Fiscal, para sediar a festa, ocupando o pal\u00e1cio inaugurado apenas oito meses antes. Sabia-se que D. Pedro era particularmente atra\u00eddo pela vista que dali se tinha dos principais pontos do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Para alimentar todo esse povo, vestido em finas casacas de veludo e com enormes vestidos de v\u00e1rias camadas de seda, foi preciso juntar n\u00e3o s\u00f3 uma imensa equipe de trabalhadores como tamb\u00e9m uma quantidade nunca vista de animais, alguns vivos e outros j\u00e1 mortos, que chegavam sem parar no Cais Pharoux, \u00e0s margens da ba\u00eda da Guanabara. Sem falar nos ovos, nas sacas das diversas farinhas, frutas, verduras, legumes, presuntos. E centenas de caixas de cervejas, champanhes e vinhos, os mais caros, os mais finos.<\/p>\n<p>Serafim embarcou para a Ilha Fiscal junto com o pai em meio a um carregamento de frangos. Os bichos, ainda vivos, foram transportados em engradados fedidos de madeira, repletos de coc\u00f4 por todos os lados. Serafim foi colocado entre as caixas e tentava se esquivar das bicadas das aves neur\u00f3ticas quando viu o rel\u00f3gio acima do pal\u00e1cio da Ilha Fiscal, a 53 metros de altura.<\/p>\n<p>O menino nascera no Rio de Janeiro e, como filho de um cozinheiro de primeira linha, estava acostumado a ver pal\u00e1cios, por dentro e por fora. Mas deixou-se encantar pelo rel\u00f3gio, pelo pal\u00e1cio que se aproximava aos poucos, pelos barulhos dos marinheiros e dos cozinheiros. Saiu deste torpor com uma bela bicada no traseiro, dada por um frango especialmente irritado com o fato de estar encaixotado.<\/p>\n<p>No desembarque, Serafim se impressionou com a organiza\u00e7\u00e3o quase militar imposta aos cozinheiros e outros trabalhadores dom\u00e9sticos. Um homem grande, gordo e careca, vestido num incr\u00edvel conjunto branco, colocou todos os homens e mulheres em fila, confirmou nomes e fun\u00e7\u00f5es com a ajuda de uma imensa lista e foi logo dando ordens. Outros meninos al\u00e9m de Serafim haviam sido recrutados como auxiliares e faxineiros. Muitos negros tamb\u00e9m estavam ali, mas ficaram separados, esperando suas ordens.<\/p>\n<p>Serafim sabia que n\u00e3o era totalmente branco, mas deixaram que ficasse com o pai, um filho de portugueses de pele amarelada e largo bigode, junto aos cozinheiros, enquanto meninos da mesma cor que a dele eram afastados para junto dos negros. A vida inteira tinha sido desse jeito: se estava sozinho, Serafim era tratado como negro, mas, se estava com o pai ao lado, repentinamente \u201cvirava\u201d branco. Quando viva, sua m\u00e3e, uma negra bonita e inteligente, sempre dizia que o sangue negro era mais forte e que, portanto, ele sempre seria negro, com a vantagem de poder se misturar com os brancos com mais facilidade.<\/p>\n<p>At\u00e9 aquele ponto de sua vida, Serafim n\u00e3o achava que sua cor de chocolate desbotado era uma vantagem. Entre negros, era tratado como branco e, entre brancos, como negro. S\u00f3 o tratavam com certo respeito quando a forte presen\u00e7a de seu pai se impunha. E quando ele fosse adulto, como as coisas seriam? Como seria tratado quando n\u00e3o mais pudesse contar com o apoio do pai?<\/p>\n<p>Mas o menino n\u00e3o teve mais tempo de pensar nessas coisas. Logo o colocaram para carregar pilhas de pratos e come\u00e7ou assim um dia de labuta como ele nunca tivera. Ficou sob as ordens de um certo Francisco, enquanto o pai, n\u00e3o muito longe dali, era respons\u00e1vel pelo preparo dos frangos, sob o comando de um chefe de cozinha que recheava seu portugu\u00eas com palavras que s\u00f3 muito mais tarde Serafim p\u00f4de reconhecer como franc\u00eas. Na boca do cozinheiro, elas faziam ondas e se avolumavam nas bochechas como bolachinhas amanteigadas, antes de escaparem, como suspiros, num biquinho delicado, formado pelo contato daqueles l\u00e1bios finos, quase femininos.<\/p>\n<p>90 cozinheiros, a maioria homens, formavam um ex\u00e9rcito que contava ainda com o apoio de 150 gar\u00e7ons e um sem-n\u00famero de ajudantes. A cozinha come\u00e7ou a funcionar a todo vapor muitas horas antes do banquete come\u00e7ar. Afinal, era preciso limpar todos os frangos, cortar todos os legumes. Correr atr\u00e1s dos pav\u00f5es ind\u00f3ceis, que resistiam bravamente ao cutelo e se entregavam \u00e0 morte com um gorgolejar. E os molhos, finos molhos, que precisavam de horas de cozimento antes de chegar ao ponto. Potes e mais potes de especiarias caras, orientais, que haviam cruzado o mundo para chegar ali. Rasparam o fundo do mar para tirar tantos camar\u00f5es quanto fosse poss\u00edvel. Mandaram vir as trufas mais caras, l\u00e1 da It\u00e1lia. Chamaram as melhores doceiras, a maioria formada por mulheres desdentadas e gordas, mas com m\u00e3os t\u00e3o delicadas que provocavam em Serafim arrepios s\u00f3 de pensar no que elas poderiam fazer.<\/p>\n<p>Entre uma tarefa e outra, Serafim podia se dar ao luxo de andar para l\u00e1 e para c\u00e1. Desvendou todos os cantos da imensa cozinha. Viu a mulher dos quindins desmaiar com o calor do fogo. Beliscou cremes doces que ele nunca provara e arriscou-se a roubar uma coxa de frango que cozinhava num caldo marrom, de cheiro t\u00e3o bom que pedia uma prece. Mas o que mais lhe causou surpresa foram os sorvetes. Ele nunca provara um desses antes. Chegavam conservados em caixas de madeira repletas de gelo e mantinham-se durinhos. Ficavam longe da cozinha e eram guardados por um negro forte, armado com uma toalha molhada. Ele ficava na entrada do por\u00e3o \u00famido onde acondicionaram as tantas caixas, mantendo ratos e meninos longe do doce, \u00e0 custa de toalhadas espertas, direto na cabe\u00e7a de uns e de outros.<\/p>\n<p>N\u00e3o eram nem 11 horas da manh\u00e3 do dia 9 quando os primeiros convidados come\u00e7aram a chegar. Senhoras carregadas de joias preocupavam-se em como sair dos barcos sem deixar que a \u00e1gua e a areia sujassem seus lindos vestidos. Gritavam com suas negras e pediam, apavoradas, para que elas segurassem as dobras dos vestidos longe da \u00e1gua. As negras, afundando as pernas no mar, erguiam o mais que podiam as sedas, deixando \u00e0s vistas de todos, e principalmente de jovens senhores de cartola, as pernocas brancas, semicobertas por cal\u00e7olas rendadas. Algumas, mais afortunadas, tinham negros fortes para as carregarem a salvo das \u00e1guas e dos olhares.<\/p>\n<p>Faziam um barulho incr\u00edvel aqueles convidados! Serafim nunca viu tanta gente falando e rindo ao mesmo tempo. Centenas de barcos despejaram senhores de preto e senhoras de branco, marfim e rosa. Joias cintilavam. Bengalas faziam toc-toc pelos sal\u00f5es. Todos faziam o m\u00e1ximo para verem e serem vistos. Ao final de algumas horas, 4.500 convidados sentaram-se \u00e0s mesas para ouvir discursos e encher a pan\u00e7a, ao som de orquestra.<\/p>\n<p>\u00c0 cabeceira da maior e mais bela mesa, D. Pedro II saudou a todos. Serafim, que era pequeno e \u00e1gil, foi se esgueirando para chegar perto do homem e percebeu que o velho estava p\u00e1lido como cera, com um ar fraco e doentio. Ao seu lado, a mulher mais feia que o menino j\u00e1 havia visto arrumava os peitos dentro do vestido cor de vinho. Era D. Tereza Cristina, a imperatriz.<\/p>\n<p>Quando a comilan\u00e7a come\u00e7ou, Serafim sentiu-se como que transportado a um mundo louco. Os cheiros das pessoas se misturavam com os das comidas. E eram tantos e t\u00e3o variados que ele sentiu uma leve vertigem. O barulho dos garfos e colheres batendo nos pratos de fina porcelana se misturava aos risos e \u00e0s conversas. Na verdade, parecia que um queria falar mais alto do que o outro. Quanto mais a noite ca\u00eda, mais o barulho aumentava, acrescido do efeito das bebidas, que mudavam o comportamento dos homens e das mulheres.<\/p>\n<p>Foram servidos 18 pav\u00f5es, 500 perus, 64 fais\u00f5es, 800 quilos de camar\u00f5es, 300 pe\u00e7as de presuntos, 1.300 frangos \u2013 muitos dos quais Serafim tinha certeza de que haviam passado pelas m\u00e3os experientes de seu pai. Sentia orgulho a cada vez que via uma senhorinha trincando os dentes numa coxa amarela de gordura e revirando os olhinhos de prazer. Para acompanhar a nobreza das carnes, 1.200 latas de aspargos, 800 de trufas e mais travessas e travessas de acompanhamentos variados. Em poucos minutos, davam conta de pratos que demoraram horas e at\u00e9 dias de preparo. Molhos que reduziram a fogo lento durante mais de 12 horas eram consumidos junto com carnes que desmanchavam na boca, deixando fiapos entre os dentes.<\/p>\n<p>Num \u00fanico prato, era comum encontrar uma mistura louca de vitela, camar\u00e3o e frango com temperos igualmente variados. Quando conseguia surrupiar alguma sobra, Serafim percebia que, de tanta coisa, o produto final ficava com gosto de coisa alguma, apesar de n\u00e3o ser de todo desagrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>Passou na cozinha mais de uma vez para ver como ia o trabalho e encontrou o pai a fritar finos crepes em meio a uma nuvem de calor absurda.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9 isso, pai?<\/p>\n<p>\u2014 \u201cCromesquis \u00e0 La Princesse\u201d \u2013 explicou o cozinheiro. Uma massa fina de farinha, ovos, caldo de vitela e cerveja coberta por uma outra massa, a de fritar, feita com manteiga, farinha e queijo, entre outras coisas, ambas recheadas com uma outra massa, feita de frango, aspargos, creme de leite e trufas. Tudo isso frito em \u00f3leo muito quente. Depois, a gente escorre, bota num tabuleiro, cobre de queijo e leva ao forno para gratinar.<\/p>\n<p>Serafim arregalou os olhos. Seu Ant\u00f4nio olhou para os lados e, livre da vigil\u00e2ncia, pegou um dos croquetes rec\u00e9m fritinhos e colocou na boca do filho. Era bom!<\/p>\n<p>A festa foi entrando no meio da noite e ningu\u00e9m parecia com vontade de parar de comer. Os mais velhos comiam e dormiam, s\u00f3 para acordar e voltar a comer. Os mais jovens comiam e bebiam muito, e s\u00f3 paravam para encontros furtivos na escurid\u00e3o, onde saias eram levantadas e cal\u00e7olas abaixadas. Depois de tanto esfor\u00e7o, mais comida, mais bebida.<\/p>\n<p>Serafim ia de um lado para outro, at\u00e9 que come\u00e7ou a ficar enjoado de tanta comida e tanta gente. Mais de uma discuss\u00e3o acalorada quase virou briga, mas as pessoas j\u00e1 estavam um tanto cansadas e logo desistiam de defender suas convic\u00e7\u00f5es em troca de mais um pastelzinho. Muita gente sucumbiu aos 10 mil litros de cerveja e 258 caixas de champanhe e de vinho. Mais de uma jovem senhora da corte se revelou naquela noite. Um n\u00famero enorme de cornos nasceu nas frontes de vener\u00e1veis senhores.<\/p>\n<p>D. Pedro retirou-se logo, parecendo muito cansado. Serafim estava tentando pegar um pequeno filhote de cachorro que se esgueirava entre as mesas quando passou na frente do Imperador, que acabava de levantar-se de sua cadeira. Sem ver o menino agachado a seus p\u00e9s, trope\u00e7ou e quase foi ao ch\u00e3o, n\u00e3o fosse segurado por alguns nobres que estavam por perto.<\/p>\n<p>\u2014 Calma! \u2013 disse, sorrindo. \u2013 A Monarquia trope\u00e7a, mas n\u00e3o cai.<\/p>\n<p>E saiu deixando a festa avan\u00e7ar pela noite. Alguns conversavam sobre os problemas que o imp\u00e9rio vinha enfrentando, principalmente depois da Guerra do Paraguai e da crescente cobi\u00e7a dos paulistas, loucos para serem a pr\u00f3xima Corte.<\/p>\n<p>Mas a verdade \u00e9 que os comensais n\u00e3o estavam preocupados com os paulistas, nem com o partido republicano, nem com a Igreja, que se indispusera com o imperador, nem com os militares, que tamb\u00e9m estavam descontentes. O Imperador ainda era amado pelo povo, n\u00e3o era? Eles ainda eram ricos e fortes. Eram donos de um poder secular, ningu\u00e9m mexeria com eles, estavam tranquilos para comer e beber \u00e0 vontade, sem pensar no dia seguinte. Estavam mais preocupados em arranjar espa\u00e7o para as sobremesas, tantas e t\u00e3o boas.<\/p>\n<p>Os sorvetes fizeram muito sucesso e n\u00e3o sobrou nenhum dos 12 mil que foram servidos. 500 pratos de doces variados brilhavam sobre as mesas, despertando gulas em est\u00f4magos cansados, mas n\u00e3o totalmente saciados. Pessoas faziam filas nos banheiros, descarregavam os excessos por ali e voltavam, bem mais leves, para enfrentar mais um prato, mais um bolinho, s\u00f3 mais um licorzinho, por favor.<\/p>\n<p>Serafim deixou-se cair encostado numa \u00e1rvore no jardim e, quando a lua j\u00e1 cedia lugar ao sol, adormeceu. Muita gente fez o mesmo e toda a educa\u00e7\u00e3o europeia que os brasileiros nobres e ricos, assim como os portugueses e outros estrangeiros, tentavam arrotar, ca\u00eda por terra, derrotada pela comida, mas principalmente, pela bebida.<\/p>\n<p>No dia seguinte, as equipes de limpeza teriam que dar um jeito de sumir com os vest\u00edgios da festa, que n\u00e3o eram formados apenas por pratos e copos sujos, mas tamb\u00e9m por restos de nobreza como 13 len\u00e7os de seda, 9 de linho e 15 de cambraia, tudo coisa fina. 16 chap\u00e9us perderam suas cabe\u00e7as e 17 ligas deixaram suas donas de meias nas m\u00e3os, nas suas ou nas de seus parceiros.<\/p>\n<p>Foram todos embora com a cabe\u00e7a pesada de ressaca, pensando s\u00f3 em dormir.<\/p>\n<p>Serafim encontrou o pai completamente entregue ao cansa\u00e7o, sentado num degrau da cozinha.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos embora, pai?<\/p>\n<p>\u2014 Daqui a pouco.<\/p>\n<p>\u2014 Fico pensando em quando far\u00e3o outra festa como essa. Espero que nunca mais! Meu Deus, que inferno isso foi! \u2014 exclamou um gar\u00e7om moreno.<\/p>\n<p>\u2014 Inferno para quem trabalhou nesse calor todo. Para quem estava nos sal\u00f5es e nos jardins, foi o para\u00edso \u2014 interrompeu um cozinheiro baixote.<\/p>\n<p>\u2014 Sempre v\u00e3o fazer festas como esta, a gente nunca vai descansar! \u2013 reclamou Ant\u00f4nio, levantando-se.<\/p>\n<p>\u2014 Porque sempre vai ter povo para pagar a conta, meu amigo. \u2014 completou o baixinho, num sorriso amarelado de tabaco.<\/p>\n<p>Seu Ant\u00f4nio pegou o menino pelas m\u00e3os e foi para a fila de pagamento. Recebeu o que lhe fora prometido e mais algum pela ajuda do menino. Sentaram-se num barquinho fr\u00e1gil e foram para casa. Antes de ca\u00edrem na cama, seu Ant\u00f4nio ainda preparou um caldinho, s\u00f3 para dar uma \u201csustanciazinha\u201d. E foi dormir em paz, a sonhar com mil frangos.<\/p>\n<p>Serafim n\u00e3o conseguiu dormir logo. Ficou pensando em como seria bom fazer parte daquela elite endinheirada. Como seria bom poder comer e beber aquelas coisas boas todos os dias. Como seria bom ser igual a todo mundo, peidando e arrotando como qualquer marinheiro, mas com lencinho de seda e perfume franc\u00eas para disfar\u00e7ar. Acabou dormindo tamb\u00e9m e sonhou com casas feitas de bolo e cobertas com glac\u00ea, ruas com pavimento de chocolate, \u00e1rvores dando salgadinhos a quem esticasse a m\u00e3o. Rios escuros de tanto vinho.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, a vida voltou ao normal. Seis dias depois, em 15 de novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca proclamaria a Rep\u00fablica, mudando a hist\u00f3ria do pa\u00eds. Para Serafim, no entanto, mulato e pobre, pouca coisa mudou.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Fim<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pequena Observa\u00e7\u00e3o: Todos os n\u00fameros e dados hist\u00f3ricos, incluindo a fala do Imperador, s\u00e3o ver\u00eddicos. 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