{"id":401307,"date":"2026-07-06T01:15:45","date_gmt":"2026-07-06T04:15:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=401307"},"modified":"2026-07-01T13:57:39","modified_gmt":"2026-07-01T16:57:39","slug":"uma-conversa-com-everton-viesba-sobre-literatura-e-afetividade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/uma-conversa-com-everton-viesba-sobre-literatura-e-afetividade\/","title":{"rendered":"Uma conversa com Everton Viesba sobre literatura e afetividade"},"content":{"rendered":"<p>Em um mundo saturado por narrativas r\u00e1pidas, consumo digital imediato e distor\u00e7\u00f5es da p\u00f3s-verdade, a literatura de Everton Viesba surge como um ato de resist\u00eancia e desacelera\u00e7\u00e3o. Transitando com precis\u00e3o entre o rigor da observa\u00e7\u00e3o quase jornal\u00edstica e a liberdade da inven\u00e7\u00e3o ficcional, o escritor utiliza sua bagagem como educador e leitor cr\u00edtico para tecer uma densa filosofia do cotidiano. Suas p\u00e1ginas n\u00e3o buscam respostas f\u00e1ceis; antes, investigam como as pessoas sofrem, resistem e permanecem humanas em meio \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es urbanas.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir para a coluna <strong>Vozes da Literatura<\/strong>, Viesba destrincha o seu processo criativo, revelando como grandes nomes \u2014 de Machado de Assis e Castro Alves a Rubem Alves e Marilena Rosalen \u2014 moldaram sua b\u00fassola moral e seu olhar lapidado. O autor tamb\u00e9m discute o papel da cr\u00f4nica hoje, os limites da t\u00e9cnica na maturidade do escritor profissional e a import\u00e2ncia vital do fortalecimento de coletivos e redes de apoio no mercado editorial contempor\u00e2neo. Uma leitura indispens\u00e1vel para quem enxerga a palavra como compromisso e empatia.<\/p>\n<p><strong>Como a sua bagagem como leitor de grandes cl\u00e1ssicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu pr\u00f3prio processo de cria\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>A leitura dos cl\u00e1ssicos me ensinou que a literatura se fixa em n\u00f3s quando consegue tocar aquilo que \u00e9 humano \u2014 o sentimento, a emo\u00e7\u00e3o. Machado de Assis, por exemplo, em textos como <em>Um Ap\u00f3logo<\/em>, mostra que uma grande reflex\u00e3o pode nascer de uma situa\u00e7\u00e3o aparentemente simples. Uma agulha, uma linha, um di\u00e1logo breve, e de repente estamos diante de uma cr\u00edtica fina sobre vaidade, utilidade, reconhecimento e rela\u00e7\u00f5es de poder. Isso me marcou aos 12 anos e segue hoje aos 33.<\/p>\n<p>Ler criticamente me ajuda a destravar a escrita porque me ensina a olhar melhor, n\u00e3o s\u00f3 admirar os autores, mas perceber como constroem sentidos, como conduzem o sil\u00eancio, como escolhem uma palavra e n\u00e3o outra. Machado me ensinou a ironia e a precis\u00e3o; Cec\u00edlia Meireles, a delicadeza e a profundidade; Castro Alves, a for\u00e7a da palavra diante da injusti\u00e7a; Rubem Alves, a capacidade de unir pensamento, beleza e educa\u00e7\u00e3o. Quando escrevo, essa bagagem n\u00e3o aparece como imita\u00e7\u00e3o, mas como forma\u00e7\u00e3o do olhar.<\/p>\n<div id=\"attachment_401308\" style=\"width: 381px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-401308\" class=\" wp-image-401308\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Foto_Everton1-168x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"371\" height=\"663\" \/><p id=\"caption-attachment-401308\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;A minha escrita \u00e9 composta por uma filosofia do cotidiano&#8221;<\/p><\/div>\n<p><strong>A literatura contempor\u00e2nea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filos\u00f3ficas servem de b\u00fassola moral e existencial para os conflitos que voc\u00ea desenvolve em suas p\u00e1ginas?<\/strong><\/p>\n<p>A minha escrita \u00e9 composta por uma filosofia do cotidiano. Interessa-me muito a pergunta sobre como as pessoas vivem, sofrem, resistem, aprendem e permanecem humanas em meio \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es do mundo. Paulo Freire \u00e9 uma das minhas maiores refer\u00eancias. A <em>Pedagogia do Oprimido<\/em> e a <em>Pedagogia da Autonomia<\/em> n\u00e3o s\u00e3o, para mim, apenas obras pedag\u00f3gicas, mas tamb\u00e9m obras \u00e9ticas e liter\u00e1rias, porque tratam da liberdade, da escuta, da dignidade e da esperan\u00e7a como pr\u00e1ticas cotidianas. Tamb\u00e9m me inspiro em autoras e autores que pensam a educa\u00e7\u00e3o como experi\u00eancia afetiva, pr\u00e1tica e cotidiana. Marilena Rosalen, por exemplo, me ajuda a compreender que a afetividade no ensino n\u00e3o \u00e9 mero discurso sens\u00edvel, mas uma pr\u00e1tica di\u00e1ria, feita de presen\u00e7a, cuidado, responsabilidade e compromisso com o outro. Essa perspectiva aparece na minha escrita quando observo pequenos gestos, rela\u00e7\u00f5es aparentemente comuns e conflitos que revelam o modo como nos formamos na conviv\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Diante da hegemonia das m\u00eddias digitais e do consumo r\u00e1pido de informa\u00e7\u00e3o, qual \u00e9 o espa\u00e7o e a relev\u00e2ncia da cr\u00f4nica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?<\/strong><\/p>\n<p>A cr\u00f4nica urbana continua necess\u00e1ria justamente porque vivemos em um tempo acelerado demais. Ela nos devolve a possibilidade de reparar enquanto as m\u00eddias digitais muitas vezes nos empurram para o consumo imediato, a cr\u00f4nica nos convida a permanecer diante de uma cena: uma feira de livros, uma mesa de caf\u00e9, uma conversa, uma fila, um gesto m\u00ednimo de gentileza ou indiferen\u00e7a. Rubem Braga e Drummond escreveram em outro tempo hist\u00f3rico, mas a for\u00e7a da cr\u00f4nica permanece porque a cidade continua produzindo espantos. O que mudou foi o ritmo da circula\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, hoje, a cr\u00f4nica precisa disputar aten\u00e7\u00e3o com v\u00eddeos curtos, manchetes r\u00e1pidas e algoritmos. Ainda assim, ela guarda uma caracter\u00edstica singular: transformar o banal em experi\u00eancia. A cr\u00f4nica \u00e9 quase um ato de resist\u00eancia contra a pressa. Ela nos lembra que a vida n\u00e3o cabe apenas no registro apressado.<\/p>\n<p><strong>Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrela\u00e7ados no Brasil, como voc\u00ea equilibra o rigor da observa\u00e7\u00e3o dos fatos com a liberdade da inven\u00e7\u00e3o ficcional na sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p>Eu parto muito da observa\u00e7\u00e3o, n\u00e9. H\u00e1 algo de jornal\u00edstico no modo como registro o mundo, ali\u00e1s, como esbo\u00e7o meus rascunhos do mundo&#8230; presto aten\u00e7\u00e3o \u00e0s cenas, aos detalhes, \u00e0s falas, aos comportamentos, \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es. Mas, quando esse material entra na literatura, ele deixa de ser simples relato e passa a ser elabora\u00e7\u00e3o. A fidelidade, nesse caso, n\u00e3o \u00e9 sobre o fato bruto, mas \u00e0 verdade humana que ele revela. A inven\u00e7\u00e3o ficcional me permite ampliar sentidos, proteger pessoas e criar camadas. Nem tudo precisa ter acontecido exatamente como est\u00e1 no texto, mas aquilo que o texto procura dizer precisa ser verdadeiro em termos humanos. Machado de Assis fazia isso com maestria: partia de situa\u00e7\u00f5es reconhec\u00edveis e as convertia em cr\u00edtica, ironia e pensamento. Esse \u00e9 um equil\u00edbrio que me interessa muito: observar com rigor, escrever com liberdade e n\u00e3o trair a dignidade da experi\u00eancia que originou a narrativa.<\/p>\n<div id=\"attachment_401344\" style=\"width: 418px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-401344\" class=\" wp-image-401344\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Everton1-225x300.png\" alt=\"\" width=\"408\" height=\"544\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Everton1-225x300.png 225w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Everton1-768x1023.png 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Everton1.png 791w\" sizes=\"auto, (max-width: 408px) 100vw, 408px\" \/><p id=\"caption-attachment-401344\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;A palavra po\u00e9tica pode carregar beleza, mas tamb\u00e9m indigna\u00e7\u00e3o&#8221;<\/p><\/div>\n<p><strong>Escrever fic\u00e7\u00e3o em tempos de p\u00f3s-verdade imp\u00f5e novos limites. Como a literatura pode atuar como um ref\u00fagio da verdade humana ou uma ferramenta de den\u00fancia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?<\/strong><\/p>\n<p>Entendo e defendo que a literatura n\u00e3o disputa com a p\u00f3s-verdade no mesmo campo&#8230; Ela n\u00e3o precisa gritar mais alto, nem fingir neutralidade absoluta. Sua for\u00e7a est\u00e1 em revelar aquilo que as narrativas distorcidas tentam apagar: a complexidade humana, a dor, a mem\u00f3ria, a contradi\u00e7\u00e3o, a delicadeza e a responsabilidade. Castro Alves \u00e9 uma refer\u00eancia importante nesse sentido, porque mostra que a literatura tamb\u00e9m pode ser den\u00fancia. A palavra po\u00e9tica pode carregar beleza, mas tamb\u00e9m indigna\u00e7\u00e3o. Paulo Freire, por sua vez, ensina que n\u00e3o h\u00e1 palavra verdadeira que n\u00e3o seja tamb\u00e9m pr\u00e1xis, reflex\u00e3o e a\u00e7\u00e3o sobre o mundo. Assim, a literatura pode ser ref\u00fagio, mas n\u00e3o como fuga. Ela \u00e9 ref\u00fagio no sentido de lugar onde reorganizamos a consci\u00eancia e reencontramos alguma honestidade diante da vida.<\/p>\n<p><strong>O dom\u00ednio das t\u00e9cnicas espec\u00edficas de cada g\u00eanero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?<\/strong><\/p>\n<p>A t\u00e9cnica liberta quando deixa de ser uma pris\u00e3o e passa a ser instrumento, naturalmente, conhecer estrutura, ritmo, ponto de vista, constru\u00e7\u00e3o de personagem, tens\u00e3o narrativa ou s\u00edntese po\u00e9tica n\u00e3o diminui a criatividade. Ao contr\u00e1rio, oferece caminhos para que a intui\u00e7\u00e3o encontre forma. A diferen\u00e7a entre um autor amador e um escritor mais maduro n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 no talento, mas na consci\u00eancia do pr\u00f3prio fazer. O escritor revisa, corta, reorganiza e aceita que a primeira vers\u00e3o raramente \u00e9 a melhor. Rubem Alves, por exemplo, tinha uma escrita aparentemente simples, mas profundamente trabalhada. A leveza, quando \u00e9 boa, costuma ser resultado de muito rigor. A t\u00e9cnica n\u00e3o mata a emo\u00e7\u00e3o; ela impede que a emo\u00e7\u00e3o se perca.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea define o seu &#8220;lugar de fala&#8221; na literatura atual e de que maneira essa posi\u00e7\u00e3o influencia a receptividade, as cr\u00edticas e a conex\u00e3o emocional com o seu p\u00fablico leitor?<\/strong><\/p>\n<p>Meu lugar de fala \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o, pela leitura, pela experi\u00eancia editorial, pela vida urbana e pela conviv\u00eancia com professores, autores e pessoas que escrevem a partir de suas pr\u00f3prias travessias. N\u00e3o escrevo de um lugar neutro, mas escrevo como algu\u00e9m que acredita na palavra como forma de presen\u00e7a, elabora\u00e7\u00e3o e responsabilidade. Esse lugar influencia diretamente minha rela\u00e7\u00e3o com os leitores. Muitos se aproximam dos meus textos porque reconhecem neles cenas do cotidiano, ang\u00fastias comuns, mem\u00f3rias afetivas e perguntas que tamb\u00e9m carregam. A conex\u00e3o emocional nasce da\u00ed: de uma escrita que n\u00e3o pretende se colocar acima da vida, mas dentro dela. Escrever, para mim, \u00e9 tamb\u00e9m escutar.<\/p>\n<div id=\"attachment_401346\" style=\"width: 386px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-401346\" class=\" wp-image-401346\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Everton3-225x300.png\" alt=\"\" width=\"376\" height=\"501\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Everton3-225x300.png 225w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Everton3-768x1024.png 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Everton3.png 1086w\" sizes=\"auto, (max-width: 376px) 100vw, 376px\" \/><p id=\"caption-attachment-401346\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;A literatura n\u00e3o se sustenta pela genialidade individual&#8221;<\/p><\/div>\n<p><strong>O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o ego\u00edsmo de querer aparecer individualmente em prol de algo maior, que \u00e9 a pr\u00f3pria literatura, criando redes de apoio m\u00fatuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Voc\u00ea concorda com essa vis\u00e3o sobre o papel do coletivo no mercado editorial?<\/strong><\/p>\n<p>Concordo muito. A literatura n\u00e3o se sustenta pela genialidade individual, se fosse assim, estar\u00edamos vivendo outros tempos a partir da genialidade de Machado e tantos outros. A literatura depende de redes, encontros, leitores, editoras, eventos, revistas, coletivos, professores e espa\u00e7os de circula\u00e7\u00e3o. A ideia de autoria isolada \u00e9 sedutora, mas limitada, mesmo quando escrevemos sozinhos, somos formados por muitas vozes. Minha trajet\u00f3ria na educa\u00e7\u00e3o e no campo editorial refor\u00e7a essa compreens\u00e3o. Paulo Freire j\u00e1 nos ensinava que ningu\u00e9m se forma sozinho. A forma\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre rela\u00e7\u00e3o. Na literatura, isso tamb\u00e9m \u00e9 verdadeiro. Fortalecer outros autores n\u00e3o diminui a nossa pr\u00f3pria voz, pelo contr\u00e1rio, amplia o campo liter\u00e1rio. Quando um autor ajuda outro a existir publicamente, quem ganha \u00e9 a pr\u00f3pria literatura.<\/p>\n<p><strong>Escrever costuma ser um ato solit\u00e1rio, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade t\u00eam crescido. Como a troca de experi\u00eancias e o feedback desses espa\u00e7os impactam o refinamento dos seus textos?<\/strong><\/p>\n<p>A escrita tem uma dimens\u00e3o solit\u00e1ria, mas ela n\u00e3o precisa ser solit\u00e1ria o tempo todo. H\u00e1 um momento em que o texto precisa encontrar outros olhos. A troca, quando \u00e9 feita com cuidado e honestidade, ajuda o autor a perceber excessos, lacunas, repeti\u00e7\u00f5es e possibilidades que talvez ele n\u00e3o enxergasse sozinho. Na educa\u00e7\u00e3o, aprendemos que o di\u00e1logo n\u00e3o \u00e9 apenas conversa, mas m\u00e9todo de constru\u00e7\u00e3o de conhecimento e na escrita acontece algo semelhante. O feedback qualificado n\u00e3o deve apagar a singularidade do autor, mas ajud\u00e1-lo a chegar mais perto daquilo que deseja dizer. Uma boa leitura cr\u00edtica n\u00e3o imp\u00f5e uma voz externa; ela ajuda o texto a encontrar melhor a sua pr\u00f3pria voz.<\/p>\n<p><strong>O escritor Eduardo Cesario-Mart\u00ednez defende uma vis\u00e3o otimista de que a melhor gera\u00e7\u00e3o de escritores \u00e9 a atual, e que as futuras ser\u00e3o ainda melhores gra\u00e7as \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o da escrita pela internet. Como voc\u00ea enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p>Vejo a tecnologia com esperan\u00e7a e cautela. A internet democratizou o acesso \u00e0 escrita, \u00e0 publica\u00e7\u00e3o e \u00e0 circula\u00e7\u00e3o de textos. Pessoas que antes dificilmente encontrariam espa\u00e7o em editoras tradicionais hoje podem publicar, formar leitores, participar de comunidades e construir trajet\u00f3rias autorais. Isso \u00e9 muito importante. Mas democratizar a escrita n\u00e3o significa automaticamente qualificar a escrita. A tecnologia amplia possibilidades, mas o trabalho liter\u00e1rio continua exigindo leitura, revis\u00e3o, repert\u00f3rio, escuta e maturidade. Paulo Freire falava da import\u00e2ncia da autonomia, mas autonomia n\u00e3o \u00e9 espontane\u00edsmo. Na literatura, tamb\u00e9m \u00e9 assim, a internet abriu portas; cabe a cada autor atravess\u00e1-las com responsabilidade est\u00e9tica, \u00e9tica e humana. IA pode ajudar, mas nem de longe a ferramenta deve te substituir.<\/p>\n<div id=\"attachment_401348\" style=\"width: 486px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-401348\" class=\" wp-image-401348\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Everton4-225x300.png\" alt=\"\" width=\"476\" height=\"635\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Everton4-225x300.png 225w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Everton4.png 646w\" sizes=\"auto, (max-width: 476px) 100vw, 476px\" \/><p id=\"caption-attachment-401348\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Escrever me ajuda a organizar ang\u00fastias, afetos, mem\u00f3rias e inquieta\u00e7\u00f5es&#8221;<\/p><\/div>\n<p><strong>A escrita criativa \u00e9 um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho liter\u00e1rio funciona como uma ferramenta de di\u00e1logo interno com as suas pr\u00f3prias ang\u00fastias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?<\/strong><\/p>\n<p>Para mim, a escrita \u00e9 mais espelho do que fuga. Mas n\u00e3o um espelho im\u00f3vel, um espelho que devolve perguntas, desloca certezas e \u00e0s vezes mostra aquilo que eu mesmo ainda n\u00e3o tinha conseguido nomear. Escrever me ajuda a organizar ang\u00fastias, afetos, mem\u00f3rias e inquieta\u00e7\u00f5es. Ao mesmo tempo, a escrita n\u00e3o termina em mim. Ela se abre para o mundo. Quando escrevo sobre uma cena cotidiana, muitas vezes estou falando tamb\u00e9m de desigualdade, pressa, solid\u00e3o, trabalho, educa\u00e7\u00e3o, v\u00ednculos, perdas e esperan\u00e7as. Cec\u00edlia Meireles me inspira muito nesse sentido: h\u00e1 nela uma delicadeza que n\u00e3o \u00e9 fragilidade, mas profundidade. A escrita pode ser \u00edntima e, ao mesmo tempo, p\u00fablica. Pode nascer de uma dor pessoal e dialogar com uma dor coletiva.<\/p>\n<p><strong>Muitos autores constroem carreiras pol\u00edmatas, dividindo-se entre outras profiss\u00f5es (como a ci\u00eancia, o direito ou a educa\u00e7\u00e3o) e as letras. Como a sua atua\u00e7\u00e3o fora das p\u00e1ginas alimenta a profundidade e a diversidade tem\u00e1tica dos seus cen\u00e1rios e personagens?<\/strong><\/p>\n<p>A minha atua\u00e7\u00e3o na educa\u00e7\u00e3o, na pesquisa, na forma\u00e7\u00e3o de professores e no campo editorial alimenta minha escrita. A sala de aula, os eventos, os livros, os encontros com autores, as conversas com professores e estudantes, tudo isso forma um grande laborat\u00f3rio humano. N\u00e3o no sentido frio da observa\u00e7\u00e3o, mas no sentido vivo da experi\u00eancia. A educa\u00e7\u00e3o me ensinou a escutar hist\u00f3rias; a pesquisa me ensinou a olhar com m\u00e9todo; a edi\u00e7\u00e3o me ensinou a respeitar a voz do outro&#8230; Essas dimens\u00f5es entram na literatura porque ampliam meu repert\u00f3rio de cenas, conflitos e personagens. Muitas vezes, a literatura nasce justamente desse cruzamento entre o vivido, o pensado e o sentido.<\/p>\n<p><strong>O mercado editorial atual exige que o autor seja tamb\u00e9m o seu pr\u00f3prio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presen\u00e7a digital aut\u00eantica e engajar leitores sem deixar que as m\u00e9tricas de internet corrompam a ess\u00eancia e a profundidade da sua literatura?<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um dos grandes desafios do autor contempor\u00e2neo. As redes sociais podem aproximar leitores, divulgar obras e criar comunidades muito bonitas em torno da literatura. Mas tamb\u00e9m podem produzir ansiedade, compara\u00e7\u00e3o e uma busca permanente por valida\u00e7\u00e3o imediata. Acredito que a presen\u00e7a digital precisa ser extens\u00e3o da voz liter\u00e1ria, n\u00e3o sua substitui\u00e7\u00e3o. O autor pode divulgar seu trabalho sem se transformar em ref\u00e9m das m\u00e9tricas. \u00c9 preciso lembrar que curtidas n\u00e3o s\u00e3o necessariamente leitura profunda, e alcance n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de perman\u00eancia. Prefiro pensar as redes como espa\u00e7o de encontro, n\u00e3o apenas de performance. A literatura precisa circular, mas n\u00e3o pode perder sua alma tentando agradar ao algoritmo.<\/p>\n<p><strong>Pensando nos espa\u00e7os democr\u00e1ticos de publica\u00e7\u00e3o, como o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio ou portais de jornalismo cultural, qual a import\u00e2ncia desses canais na oxigena\u00e7\u00e3o do mercado e na revela\u00e7\u00e3o de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?<\/strong><\/p>\n<p>Esses espa\u00e7os s\u00e3o fundamentais, afinal, oxigenam o mercado porque criam alternativas de circula\u00e7\u00e3o, visibilidade e reconhecimento. Muitos autores n\u00e3o chegam \u00e0s grandes editoras n\u00e3o por falta de qualidade, mas por falta de acesso, rede, oportunidade ou enquadramento nos interesses comerciais do momento. Portais de jornalismo cultural, caf\u00e9s liter\u00e1rios, revistas, coletivos e editoras independentes cumprem um papel democr\u00e1tico importante. Eles ampliam a conversa liter\u00e1ria e permitem que novas vozes sejam lidas. Como editor e autor, acredito muito nesses espa\u00e7os intermedi\u00e1rios, que aproximam quem escreve de quem l\u00ea. A literatura precisa de grandes casas, mas tamb\u00e9m precisa de janelas, varandas, pra\u00e7as e mesas compartilhadas.<\/p>\n<div id=\"attachment_401347\" style=\"width: 433px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-401347\" class=\" wp-image-401347\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Everton6-200x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"423\" height=\"635\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Everton6-200x300.jpeg 200w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Everton6-682x1024.jpeg 682w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Everton6-768x1153.jpeg 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Everton6-1023x1536.jpeg 1023w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Everton6.jpeg 1066w\" sizes=\"auto, (max-width: 423px) 100vw, 423px\" \/><p id=\"caption-attachment-401347\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Escrevo porque acredito que as palavras ainda podem criar pontes&#8221;<\/p><\/div>\n<p><strong>Para encerrarmos, se voc\u00ea pudesse escolher apenas uma \u00fanica mensagem, ang\u00fastia ou reflex\u00e3o para imortalizar na mente de quem l\u00ea a sua obra hoje, qual seria?<\/strong><\/p>\n<p>Talvez eu quisesse deixar a ideia de que permanecer humano \u00e9 uma tarefa cotidiana&#8230; Se uma pessoa terminasse de ler um texto meu e sentisse vontade de olhar melhor para a vida, para algu\u00e9m ou para si mesma, eu j\u00e1 consideraria que a literatura cumpriu algo importante. Escrevo porque acredito que as palavras ainda podem criar pontes. E, em alguma medida, sigo aprendendo com Machado, Freire, Cec\u00edlia, Castro Alves, Rubem Alves e tantos outros que escrever tamb\u00e9m \u00e9 uma maneira de cuidar do mundo.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Everton Viesba \u00e9 professor, escritor, editor e pesquisador na \u00e1rea da Educa\u00e7\u00e3o. Mestre em Ci\u00eancias pela Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (UNIFESP) e doutorando em Educa\u00e7\u00e3o, atua com forma\u00e7\u00e3o docente, educa\u00e7\u00e3o ambiental, sustentabilidade, tecnologias educacionais e redes de colabora\u00e7\u00e3o. \u00c9 l\u00edder da Rede Movimentos Docentes e editor na V&amp;V Editora, com ampla experi\u00eancia na organiza\u00e7\u00e3o de obras acad\u00eamicas, liter\u00e1rias e educacionais. Sua escrita transita entre a cr\u00f4nica, a reflex\u00e3o pedag\u00f3gica e a literatura do cotidiano, marcada pelo olhar sens\u00edvel para as rela\u00e7\u00f5es humanas, a vida urbana, a educa\u00e7\u00e3o e os pequenos acontecimentos que revelam a complexidade do mundo. Ocupa a Cadeira 13 da Academia de Letras do Brasil, seccional Santo Andr\u00e9.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/linktr.ee\/eviesba\">https:\/\/linktr.ee\/eviesba<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um mundo saturado por narrativas r\u00e1pidas, consumo digital imediato e distor\u00e7\u00f5es da p\u00f3s-verdade, a literatura de Everton Viesba surge como um ato de resist\u00eancia e desacelera\u00e7\u00e3o. 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