{"id":403415,"date":"2026-07-16T01:15:41","date_gmt":"2026-07-16T04:15:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=403415"},"modified":"2026-07-14T23:02:06","modified_gmt":"2026-07-15T02:02:06","slug":"gisele-p-silva-rumin-e-a-escrita-que-questiona-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/gisele-p-silva-rumin-e-a-escrita-que-questiona-o-mundo\/","title":{"rendered":"Gisele P. Silva Rumin e a escrita que questiona o mundo"},"content":{"rendered":"<p>A nova entrevista da coluna <strong>Vozes da Literatura<\/strong> apresenta a trajet\u00f3ria e as reflex\u00f5es da escritora Gisele P. Silva Rumin, cuja indica\u00e7\u00e3o partiu de uma entusiasmada sugest\u00e3o de bastidores do autor J. Emiliano Cruz. Em conversa com Eduardo Cesario-Mart\u00ednez \u2014 escritor e coeditor do coletivo <strong>Caf\u00e9 Liter\u00e1rio<\/strong> ao lado de Daniel Marchi \u2014, Cruz n\u00e3o poupou elogios ao mapear o radar cultural da autora: &#8220;A Gisele \u00e9 uma autora que sigo no Instagram, ela \u00e9 muito l\u00fadica, prof\u00edcua e talentosa. Daria uma \u00f3tima entrevista&#8221;. O faro liter\u00e1rio provou-se certeiro, servindo de ponte para que os editores trouxessem a p\u00fablico o instigante universo intelectual de uma criadora que transita com naturalidade entre diferentes linguagens e saberes.<\/p>\n<p>Nesta sabatina exclusiva, Gisele reconecta suas origens simples na lavoura do interior paulista com a forma\u00e7\u00e3o multidisciplinar que hoje amarra o Direito, a Hist\u00f3ria, a Filosofia e as Letras. Autodefinida como uma intelectual de &#8220;mente inquieta e l\u00edngua afiada&#8221;, a criadora de fic\u00e7\u00f5es marcantes como <em>Hu-Qi<\/em> e <em>A Mandinga da Sereia<\/em> destrincha como utiliza a fic\u00e7\u00e3o para investigar os dilemas mais profundos da natureza humana. Ao longo do di\u00e1logo, ela defende a literatura como uma ferramenta engajada com o pensamento cr\u00edtico, abrindo as portas de seu processo criativo e discutindo os bastidores de suas produ\u00e7\u00f5es no ecossistema digital.<\/p>\n<p><strong>Para iniciar, fale um pouco sobre voc\u00ea, sua hist\u00f3ria de vida at\u00e9 chegar aos dias de hoje.<\/strong><\/p>\n<p>Nasci em Catanduva, no interior de S\u00e3o Paulo, mas cresci em Pirangi, uma pequena cidade vizinha, onde vivi at\u00e9 os 17 anos. Venho de uma fam\u00edlia simples, que sempre tirou, e ainda tira, o sustento do trabalho nas lavouras. Cresci vendo meus pais enfrentarem o trabalho pesado do campo, e foi com eles que aprendi o valor da disciplina, da honestidade e da perseveran\u00e7a.<\/p>\n<p>Curiosamente, foram esses mesmos pais, cuja rotina sempre esteve muito mais pr\u00f3xima da terra do que dos livros, que despertaram em mim o gosto pela literatura. Quando eu tinha sete anos, levaram-me \u00e0 pequena biblioteca municipal para fazer minha primeira carteirinha de empr\u00e9stimo. Talvez aquele tenha parecido apenas um passeio comum para eles, mas hoje percebo que foi um dos gestos mais importantes da minha vida. Eles me ensinaram que o conhecimento n\u00e3o depende da profiss\u00e3o, da renda ou da origem de uma pessoa. Depende, sobretudo, da curiosidade e da disposi\u00e7\u00e3o para aprender.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, nunca mais me afastei dos livros!<\/p>\n<p>A escrita veio alguns anos depois. Eu tinha entre 14 e 15 anos quando minha professora de Literatura, dona Rosa, prop\u00f4s um exerc\u00edcio aparentemente simples: escrever um poema. Estud\u00e1vamos o Romantismo e, depois de ler o soneto que produzi, ela me chamou para uma conversa e disse que eu deveria desenvolver aquele talento. A partir daquele dia, tanto ela como meu professor de Hist\u00f3ria, senhor Alberto, passaram a incentivar minha escrita e minha curiosidade intelectual. Os dois tiveram um papel decisivo e fundamental na forma\u00e7\u00e3o da escritora que eu viria a ser.<\/p>\n<p>Segui, ent\u00e3o, o caminho do Direito e, mais tarde, tamb\u00e9m da Hist\u00f3ria. Embora pare\u00e7am \u00e1reas diferentes, sempre enxerguei nelas uma mesma pergunta: como compreender o ser humano, a sociedade e o mundo? O Direito me ensinou a lidar com os conflitos da vida real; a Hist\u00f3ria me mostrou como esses conflitos se formam ao longo do tempo; e a Literatura me ofereceu a liberdade de explorar aquilo que nem sempre cabe nos documentos ou nos processos.<\/p>\n<p>Durante muitos anos, a escrita permaneceu em segundo plano enquanto eu constru\u00eda minha carreira profissional. Foi somente ap\u00f3s concluir a Faculdade de Direito, em um per\u00edodo em que ainda buscava minha afirma\u00e7\u00e3o profissional, que escrevi meu primeiro romance, June, uma fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e, ao mesmo tempo, um romance de forma\u00e7\u00e3o. A publica\u00e7\u00e3o desse livro marcou uma mudan\u00e7a definitiva: a partir dali, escrever deixou de ser apenas um sonho cultivado desde a adolesc\u00eancia para se tornar um projeto de vida.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, nunca mais abandonei a literatura.<\/p>\n<div id=\"attachment_403418\" style=\"width: 375px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-403418\" class=\" wp-image-403418\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/0714-1-169x300.jpg\" alt=\"\" width=\"365\" height=\"648\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/0714-1-169x300.jpg 169w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/0714-1-576x1024.jpg 576w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/0714-1-768x1365.jpg 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/0714-1-864x1536.jpg 864w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/0714-1.jpg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 365px) 100vw, 365px\" \/><p id=\"caption-attachment-403418\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;A literatura permite explorar a complexidade humana sem a obriga\u00e7\u00e3o de oferecer respostas definitivas&#8221;<\/p><\/div>\n<p><strong>Gisele, sua atua\u00e7\u00e3o profissional transita entre o Direito, a Hist\u00f3ria e a Literatura. Como essas tr\u00eas \u00e1reas conversam e se alimentam mutuamente na sua escrita acad\u00eamica e de fic\u00e7\u00e3o (como em suas obras <em>Hu-Qi<\/em> e <em>A Mandinga da Sereia<\/em>)?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acrescentaria uma quarta \u00e1rea a essa pergunta: a Filosofia!<\/p>\n<p>Embora eu n\u00e3o tenha forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica em Filosofia, ela est\u00e1 presente na minha rotina de estudos e, principalmente, na maneira como procuro compreender o mundo. No fundo, Direito, Hist\u00f3ria, Literatura e Filosofia n\u00e3o ocupam compartimentos separados na minha vida. Elas dialogam o tempo todo porque todas procuram compreender, cada uma \u00e0 sua maneira, o ser humano e a sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo em que est\u00e1 inserido.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente esse fasc\u00ednio pelo comportamento humano. Interessa-me compreender por que as pessoas amam, odeiam, acreditam, mentem, sacrificam-se, perdoam ou escolhem a viol\u00eancia. Interessa-me entender como as circunst\u00e2ncias moldam o indiv\u00edduo e, ao mesmo tempo, como as escolhas individuais podem transformar a pr\u00f3pria Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O Direito me ensinou a olhar para os conflitos concretos da sociedade e para os limites \u00e9ticos que organizam a conviv\u00eancia humana. A Hist\u00f3ria amplia esse olhar ao mostrar que nenhum acontecimento nasce do acaso: cada decis\u00e3o, cada guerra, cada transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou cultural \u00e9 resultado de um longo processo. J\u00e1 a Filosofia me convida a questionar aquilo que muitas vezes tomamos como evidente, lembrando que as melhores respostas quase sempre come\u00e7am por uma boa pergunta.<\/p>\n<p>A Literatura, por sua vez, re\u00fane tudo isso. Ela permite explorar a complexidade humana sem a obriga\u00e7\u00e3o de oferecer respostas definitivas. Enquanto o historiador trabalha com documentos e o jurista com provas, o escritor pode investigar as emo\u00e7\u00f5es, as contradi\u00e7\u00f5es, os sil\u00eancios e os dilemas que raramente aparecem nos registros oficiais.<\/p>\n<p>Acredito que seja por isso que minhas obras transitam entre g\u00eaneros t\u00e3o diferentes. Em <em>Hu-Qi<\/em>, a fantasia \u00e9 apenas o cen\u00e1rio para discutir poder, identidade, mem\u00f3ria e escolhas morais. Em <em>A Mandinga da Sereia<\/em>, o mist\u00e9rio e a heran\u00e7a cultural servem para refletir sobre nossas tradi\u00e7\u00f5es e sobre a forma como constru\u00edmos nossas narrativas. Independentemente do g\u00eanero, meus livros sempre procuram investigar aquilo que considero o tema mais inesgot\u00e1vel de todos: a natureza humana.<\/p>\n<div id=\"attachment_403416\" style=\"width: 365px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-403416\" class=\" wp-image-403416\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/IMG_20260530_113744-139x300.jpg\" alt=\"\" width=\"355\" height=\"766\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/IMG_20260530_113744-139x300.jpg 139w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/IMG_20260530_113744-474x1024.jpg 474w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/IMG_20260530_113744-768x1660.jpg 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/IMG_20260530_113744-711x1536.jpg 711w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/IMG_20260530_113744-948x2048.jpg 948w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/IMG_20260530_113744-scaled.jpg 1185w\" sizes=\"auto, (max-width: 355px) 100vw, 355px\" \/><p id=\"caption-attachment-403416\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Sempre fui movida pela curiosidade e pela necessidade de compreender as raz\u00f5es que est\u00e3o por tr\u00e1s das ideias&#8221;<\/p><\/div>\n<p><strong>Voc\u00ea se autodefine como algu\u00e9m de &#8220;mente inquieta e l\u00edngua afiada&#8221;. De que forma essa personalidade mais assertiva e questionadora se reflete no tom dos seus textos e cr\u00f4nicas autorais?<\/strong><\/p>\n<p>Sempre fui movida pela curiosidade e pela necessidade de compreender as raz\u00f5es que est\u00e3o por tr\u00e1s das ideias, dos comportamentos e das estruturas que organizam a sociedade. Tenho dificuldade em aceitar respostas prontas. Prefiro perguntar, investigar e tentar compreender por que pensamos e agimos da maneira como pensamos e agimos. Essa inquieta\u00e7\u00e3o, naturalmente, acabou encontrando espa\u00e7o na minha escrita.<\/p>\n<p>Por isso, acredito que minha literatura possa ser considerada, em certo sentido, uma literatura engajada. Mas n\u00e3o utilizo essa express\u00e3o para me referir ao alinhamento com uma corrente pol\u00edtica espec\u00edfica, seja de direita, de esquerda ou qualquer outra. Refiro-me ao compromisso da arte com o seu tempo, com a observa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da realidade e com a disposi\u00e7\u00e3o de provocar reflex\u00e3o. Gosto de construir hist\u00f3rias que convidem o leitor a olhar para al\u00e9m do senso comum, revisitar tradi\u00e7\u00f5es, questionar certezas e perceber que uma mesma realidade pode ser observada por diferentes perspectivas.<\/p>\n<p>Se a literatura tem essa capacidade de ampliar nosso olhar, acredito que ela tamb\u00e9m deve respeitar a liberdade do leitor. N\u00e3o me interessa escrever livros que entreguem respostas prontas ou digam \u00e0s pessoas o que elas devem pensar. Prefiro criar personagens, conflitos e situa\u00e7\u00f5es que despertem perguntas e revelem a complexidade da experi\u00eancia humana. Afinal, \u00e9 no questionamento que o pensamento cr\u00edtico come\u00e7a a se desenvolver.<\/p>\n<p>Talvez seja justamente por isso que nunca me identifiquei plenamente com a ideia de arte pela arte. Toda obra nasce de um olhar sobre o mundo e, de alguma maneira, dialoga com a realidade em que foi produzida. A literatura alcan\u00e7a sua maior pot\u00eancia quando consegue ampliar nossa compreens\u00e3o sobre n\u00f3s mesmos, despertar empatia e nos fazer sair da leitura um pouco diferentes de como entramos.<\/p>\n<p>Sei que um livro, sozinho, \u00e9 incapaz de mudar o mundo. Mas acredito que ele pode transformar uma pessoa. E s\u00e3o justamente as pessoas que transformam o mundo.<\/p>\n<p><strong>Em um cen\u00e1rio digital muitas vezes polarizado, voc\u00ea se posiciona no seu blog e redes como partid\u00e1ria do &#8220;bom senso e do di\u00e1logo&#8221;. Quais s\u00e3o os maiores desafios de produzir conte\u00fado focado no debate equilibrado hoje no YouTube e no podcast GPensadora?<\/strong><\/p>\n<p>O desafio \u00e9 enorme. Vivemos um momento em que o debate p\u00fablico se tornou profundamente polarizado e, talvez o mais preocupante, em que fatos objetivos s\u00e3o cada vez mais tratados como se fossem apenas uma quest\u00e3o de opini\u00e3o. Quando a realidade passa a ser constantemente reinterpretada para se adequar \u00e0s convic\u00e7\u00f5es de cada grupo, perdemos aquilo que torna o di\u00e1logo poss\u00edvel: um compromisso comum com a verdade dos fatos.<\/p>\n<p>As redes sociais acabam intensificando esse fen\u00f4meno. A velocidade da informa\u00e7\u00e3o, a l\u00f3gica dos algoritmos e a busca constante por engajamento favorecem discursos cada vez mais simplificados, emocionais e polarizados. Em um ambiente assim, refletir tornou-se mais dif\u00edcil do que reagir, e questionar passou, muitas vezes, a ser confundido com tomar partido.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, procuro construir um caminho diferente no GPensadora, no blog e nos demais espa\u00e7os em que produzo conte\u00fado. N\u00e3o acredito que o papel de um criador seja oferecer respostas prontas ou convencer as pessoas a adotarem determinada vis\u00e3o de mundo. Prefiro provocar perguntas, apresentar diferentes perspectivas e incentivar o leitor ou o espectador a desenvolver autonomia intelectual para formar suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s temos valores, cren\u00e7as e convic\u00e7\u00f5es. O compromisso que considero indispens\u00e1vel, por\u00e9m, \u00e9 n\u00e3o permitir que essas convic\u00e7\u00f5es nos autorizem a distorcer a realidade. O pensamento cr\u00edtico come\u00e7a justamente quando estamos dispostos a confrontar nossas pr\u00f3prias certezas diante dos fatos.<\/p>\n<p>Se meu trabalho conseguir despertar essa disposi\u00e7\u00e3o para refletir, dialogar e questionar com honestidade intelectual, acredito que ele j\u00e1 ter\u00e1 cumprido seu prop\u00f3sito.<\/p>\n<p><strong>O nome GPensadora carrega uma forte identidade filos\u00f3fica e reflexiva. Como surgiu a ideia do canal e qual \u00e9 o principal impacto que voc\u00ea busca gerar nos seus ouvintes e seguidores?<\/strong><\/p>\n<p>O GPensadora nasceu de um prop\u00f3sito que j\u00e1 existia antes mesmo do canal. Eu mantinha um blog em que compartilhava textos autorais e indica\u00e7\u00f5es de leitura, porque sempre acreditei que a literatura n\u00e3o existe para nos afastar da realidade, mas para nos ensinar a enxerg\u00e1-la melhor. Um bom livro amplia nosso olhar sobre n\u00f3s mesmos, sobre a sociedade e sobre a condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Quando a pandemia chegou, senti que aquele era o momento de levar esse projeto para outra plataforma. Em meio ao isolamento e \u00e0s incertezas que marcaram aquele per\u00edodo, imaginei que os livros poderiam oferecer algo muito valioso: n\u00e3o apenas entretenimento, mas tamb\u00e9m companhia, reflex\u00e3o e esperan\u00e7a. Foi assim que surgiu o canal no YouTube.<\/p>\n<p>O nome GPensadora representa exatamente essa proposta. Mais do que um espa\u00e7o para falar sobre livros, eu queria criar um ambiente em que a literatura dialogasse com a Hist\u00f3ria, o Direito, a Filosofia e os grandes temas do nosso tempo. Sempre acreditei que um livro n\u00e3o termina quando fechamos a \u00faltima p\u00e1gina. Ele continua vivo nas perguntas que desperta e na maneira como transforma nosso olhar sobre o mundo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m havia um desejo muito claro de democratizar o acesso \u00e0 literatura. Durante muito tempo, os livros foram apresentados como algo distante, elitizado ou reservado a um pequeno grupo de pessoas. Eu penso justamente o contr\u00e1rio. A boa literatura pertence a todos. Ela n\u00e3o exige um conhecimento pr\u00e9vio extraordin\u00e1rio; exige apenas curiosidade e disposi\u00e7\u00e3o para pensar.<\/p>\n<p>Se hoje existe um impacto que busco gerar por meio do GPensadora, \u00e9 mostrar que a leitura pode ser uma poderosa ferramenta de emancipa\u00e7\u00e3o intelectual. N\u00e3o porque um livro tenha o poder de mudar o mundo por si s\u00f3, como j\u00e1 mencionei, mas porque ele pode transformar a maneira como uma pessoa compreende a realidade. E quando mudamos a forma de enxergar o mundo, tamb\u00e9m mudamos a forma de agir sobre ele.<\/p>\n<div id=\"attachment_403419\" style=\"width: 448px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-403419\" class=\" wp-image-403419\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/IMG_20251220_222212223-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"438\" height=\"584\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/IMG_20251220_222212223-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/IMG_20251220_222212223-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/IMG_20251220_222212223-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/IMG_20251220_222212223-1536x2048.jpg 1536w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/IMG_20251220_222212223-rotated.jpg 1740w\" sizes=\"auto, (max-width: 438px) 100vw, 438px\" \/><p id=\"caption-attachment-403419\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Para mim, a leitura deixou de ser apenas um hobby h\u00e1 muito tempo&#8221;<\/p><\/div>\n<p><strong>No seu blog, voc\u00ea compartilha textos autorais e dicas de leitura. Como voc\u00ea organiza sua rotina para ler &#8220;nas horas vagas e nas horas de trabalho tamb\u00e9m&#8221; e como escolhe os livros que vai indicar ao seu p\u00fablico?<\/strong><\/p>\n<p>Para mim, a leitura deixou de ser apenas um hobby h\u00e1 muito tempo. Como escritora, ela faz parte do meu of\u00edcio. Escrever exige imagina\u00e7\u00e3o, mas a imagina\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m precisa ser alimentada. A criatividade n\u00e3o surge do vazio; ela nasce das experi\u00eancias que acumulamos, das ideias que encontramos pelo caminho e do di\u00e1logo constante com outros autores.<\/p>\n<p>Por isso, procuro reservar todos os dias um tempo para a leitura. Em geral, dedico pelo menos uma hora di\u00e1ria aos livros, embora muitas vezes esse tempo seja maior. Al\u00e9m da literatura, tamb\u00e9m leio obras de Hist\u00f3ria, Filosofia e outras \u00e1reas que ampliam minha compreens\u00e3o sobre o comportamento humano. Acredito que um escritor precisa cultivar uma curiosidade permanente, porque tudo o que aprendemos, mais cedo ou mais tarde, encontra um lugar na escrita.<\/p>\n<p>Para resenhas no canal GPensadora, procuro selecionar livros que ofere\u00e7am mais do que uma boa narrativa. Tenho um carinho especial pela literatura brasileira, tanto cl\u00e1ssica como contempor\u00e2nea, porque acredito que ela nos ajuda a compreender melhor quem somos enquanto sociedade brasileira. Mas, independentemente da nacionalidade da obra, busco livros que despertem perguntas, provoquem reflex\u00e3o e permane\u00e7am com o leitor mesmo depois da \u00faltima p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Mais do que recomendar uma leitura, meu objetivo \u00e9 convidar as pessoas a descobrir que os livros podem ser uma forma de compreender o mundo, e, muitas vezes, de compreender a si mesmas.<\/p>\n<p><strong>Ao escrever hist\u00f3rias que envolvem mist\u00e9rio, fantasia ou heran\u00e7a cultural, o quanto a sua bagagem como professora de Hist\u00f3ria influencia na pesquisa e na constru\u00e7\u00e3o do universo dos seus livros?<\/strong><\/p>\n<p>Minha forma\u00e7\u00e3o como professora de Hist\u00f3ria influencia profundamente a maneira como construo minhas narrativas. N\u00e3o apenas pelo rigor da pesquisa ou pela reconstru\u00e7\u00e3o de contextos hist\u00f3ricos, mas porque acredito que a literatura exerce um papel essencial na preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria coletiva. A Hist\u00f3ria registra os fatos; a literatura preserva a experi\u00eancia humana desses fatos. Ela nos permite compreender n\u00e3o apenas o que aconteceu, mas como as pessoas sentiram, pensaram e enfrentaram os desafios de seu tempo.<\/p>\n<p>Essa convic\u00e7\u00e3o acompanha todo o meu processo criativo. Mesmo quando escrevo fantasia, procuro construir universos que dialoguem com culturas, acontecimentos e estruturas sociais inspiradas na realidade. A pesquisa hist\u00f3rica oferece consist\u00eancia \u00e0 narrativa, enquanto a fic\u00e7\u00e3o me d\u00e1 a liberdade de explorar aquilo que os documentos n\u00e3o conseguem revelar: os medos, os afetos, os conflitos morais e as escolhas que moldam a exist\u00eancia humana.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente nesse encontro entre Hist\u00f3ria e imagina\u00e7\u00e3o que minha escrita encontra sua identidade. Mais do que reconstituir \u00e9pocas ou criar mundos ficcionais, procuro escrever hist\u00f3rias que dialoguem com quest\u00f5es permanentes da condi\u00e7\u00e3o humana. Afinal, embora os contextos hist\u00f3ricos mudem, os dilemas, os medos, as esperan\u00e7as e os conflitos das pessoas continuam surpreendentemente atuais. Talvez seja essa uma das maiores contribui\u00e7\u00f5es da literatura: aproximar passado e presente para que possamos compreender melhor quem somos.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea diz que adora fazer trilhas em meio \u00e0 natureza. O sil\u00eancio e o isolamento das caminhadas servem como um momento de bloqueio criativo ou, pelo contr\u00e1rio, as ideias para novas hist\u00f3rias costumam surgir no meio do mato?<\/strong><\/p>\n<p>Existe um estere\u00f3tipo curioso de que quem trabalha com livros passa o tempo livre apenas entre as estantes de uma biblioteca. Eu gosto muito de ler, \u00e9 claro, mas, como qualquer pessoa, tamb\u00e9m preciso de momentos longe do trabalho.<\/p>\n<p>Estar em contato com a natureza \u00e9 uma forma de reorganizar os pensamentos. Caminhar, conhecer lugares diferentes, observar paisagens e conversar com pessoas que t\u00eam hist\u00f3rias completamente distintas da minha, ajuda a sair da rotina e a ampliar meu olhar sobre o mundo. Acho que todo escritor precisa, antes de tudo, ser um bom observador da vida.<\/p>\n<p>Curiosamente, muitas ideias aparecem justamente quando deixo de procur\u00e1-las. Durante uma trilha ou uma viagem, a mente faz conex\u00f5es inesperadas, personagens ganham novas camadas e ideias surgem com naturalidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, viajar e fazer trilhas me recorda que a literatura n\u00e3o nasce apenas dos livros. Ela tamb\u00e9m nasce das pessoas que encontramos, das conversas que ouvimos, dos lugares que conhecemos e das experi\u00eancias que vivemos. Ler continua sendo indispens\u00e1vel para quem escreve, mas viver novas experi\u00eancias tamb\u00e9m \u00e9 uma das formas mais importantes de pesquisa.<\/p>\n<p><strong>Dizem que conviver com crian\u00e7as renova o nosso olhar sobre o mundo. Brincar com seus sobrinhos te traz inspira\u00e7\u00e3o para exercitar o lado l\u00fadico da escrita ou serve puramente como um ref\u00fagio da seriedade da advocacia?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que um pouco das duas coisas. Hoje moro longe da maior parte dos meus sobrinhos e, como acontece com todas as fam\u00edlias, eles cresceram muito mais r\u00e1pido do que eu gostaria. Por isso, cada encontro acaba se tornando ainda mais especial.<\/p>\n<p>Estar com eles sempre me lembra que a vida adulta, apesar de todas as responsabilidades que carrega, n\u00e3o precisa perder a leveza. As crian\u00e7as t\u00eam uma maneira muito pr\u00f3pria de olhar o mundo: fazem perguntas inesperadas, enxergam possibilidades onde n\u00f3s, adultos, vemos apenas rotina e nos lembram da import\u00e2ncia de valorizar os pequenos momentos.<\/p>\n<p>N\u00e3o diria que eles inspiram diretamente os personagens ou as hist\u00f3rias que escrevo, mas certamente me ajudam a preservar algo que considero muito importante para qualquer escritor: a capacidade de se encantar. Estar com eles funciona como uma ponte para a inf\u00e2ncia e, ao mesmo tempo, como um reencontro com uma parte de mim que a correria da vida adulta muitas vezes tenta esconder.<\/p>\n<p>Talvez seja justamente esse equil\u00edbrio que eu procuro cultivar. A disciplina e a responsabilidade s\u00e3o indispens\u00e1veis para quem escreve, mas a curiosidade, a imagina\u00e7\u00e3o e a capacidade de se maravilhar com o mundo continuam sendo qualidades que aprendemos muito bem com as crian\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Muitos escritores independentes enfrentam barreiras de distribui\u00e7\u00e3o. Como tem sido a sua experi\u00eancia utilizando as redes sociais (Instagram, Twitter e Facebook) para construir e engajar a sua pr\u00f3pria comunidade de leitores?<\/strong><\/p>\n<p>Construir uma comunidade de leitores nas redes sociais \u00e9 um dos maiores desafios para quem publica de forma independente. Escrever um livro \u00e9 apenas parte do trabalho. A outra \u00e9 fazer com que ele encontre seus leitores, e isso exige muito mais do que divulga\u00e7\u00e3o: exige presen\u00e7a, di\u00e1logo e consist\u00eancia.<\/p>\n<p>Quando criei o GPensadora, em 2009, ainda como um blog, meu objetivo era compartilhar minhas ideias e contribuir para dar mais visibilidade \u00e0 literatura, especialmente aos escritores brasileiros independentes. Naquele momento, o grande desafio era conquistar um espa\u00e7o onde nossa voz pudesse ser ouvida.<\/p>\n<p>Hoje, o cen\u00e1rio mudou completamente. As redes sociais democratizaram a produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado e nunca tivemos tantos canais de comunica\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o. Paradoxalmente, quanto mais vozes existem, mais dif\u00edcil se torna conquistar a aten\u00e7\u00e3o das pessoas. Se antes busc\u00e1vamos um espa\u00e7o para falar, hoje precisamos aprender a comunicar com relev\u00e2ncia em meio a um fluxo quase infinito de informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por isso, procuro enxergar as redes sociais n\u00e3o apenas como um meio de divulgar meus livros, mas como um espa\u00e7o de di\u00e1logo e de forma\u00e7\u00e3o de leitores. Meu objetivo nunca foi apenas aumentar n\u00fameros ou acumular seguidores. Quero construir uma comunidade de pessoas que compartilhem o interesse pela literatura e pela reflex\u00e3o. Se algu\u00e9m chega ao GPensadora por causa de um v\u00eddeo, de um texto ou de uma postagem e termina a experi\u00eancia com vontade de ler um bom livro ou de pensar um pouco mais sobre o mundo, acredito que todo esse trabalho j\u00e1 fez sentido.<\/p>\n<p><strong>Para encerrar o nosso bate-papo: se voc\u00ea pudesse dar apenas um conselho para quem tamb\u00e9m tem uma mente inquieta e quer come\u00e7ar a colocar suas ideias e pensamentos no papel, qual seria?<\/strong><\/p>\n<p>O conselho que eu deixo para quem tamb\u00e9m sonha em escrever \u00e9: n\u00e3o espere pelo momento perfeito. Comece agora. Escreva, leia, reescreva, aceite cr\u00edticas, aprenda continuamente. O talento \u00e9 apenas o ponto de partida. \u00c9 o estudo, a disciplina e a dedica\u00e7\u00e3o que transformam uma inclina\u00e7\u00e3o em um verdadeiro of\u00edcio.<\/p>\n<p>Escrever \u00e9 como qualquer outra profiss\u00e3o. Exige t\u00e9cnica, exige repert\u00f3rio, exige humildade para reconhecer que sempre h\u00e1 algo novo a aprender. A inspira\u00e7\u00e3o \u00e9 importante, mas ela encontra muito mais facilmente quem est\u00e1 trabalhando todos os dias.<\/p>\n<p>E, acima de tudo, escreva porque voc\u00ea tem algo a dizer. As t\u00e9cnicas podem ser aprendidas, mas a autenticidade de uma voz nasce da coragem de olhar para o mundo, fazer perguntas e compartilhar, por meio das palavras, aquilo que s\u00f3 voc\u00ea \u00e9 capaz de contar.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Redes sociais da escritora Gisele P. Silva Rumin:<\/strong><\/p>\n<div><strong>X &#8211; @GPENSADORA<\/strong><br \/>\n<strong>Tik Tok: @giselesilvarumin<\/strong><br \/>\n<strong>Youtube: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCKG7IiBcUj6-Qq8jUK3mJlw\">@gpensadora<\/a><\/strong><br \/>\n<strong>Instagram: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/silvarumin\/\">@silvarumin<\/a><\/strong><br \/>\n<strong>Bluesky: <a href=\"https:\/\/bsky.app\/profile\/silvarumin.bsky.social\">@silvarumin.bsky.social<\/a><\/strong><\/div>\n<div><strong>Blog\u00a0<a href=\"https:\/\/gpensadora.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/gpensadora.blogspot.com\/<\/a><\/strong><\/div>\n<div><strong>P\u00e1gina de escritora:<a href=\"https:\/\/uiclap.bio\/silvarumin\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/uiclap.bio\/silvarumin<\/a><\/strong><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A nova entrevista da coluna Vozes da Literatura apresenta a trajet\u00f3ria e as reflex\u00f5es da escritora Gisele P. 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