{"id":404230,"date":"2026-07-23T01:15:20","date_gmt":"2026-07-23T04:15:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=404230"},"modified":"2026-07-22T10:37:32","modified_gmt":"2026-07-22T13:37:32","slug":"quase-no-ponto-uma-proposta-irrecusavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/quase-no-ponto-uma-proposta-irrecusavel\/","title":{"rendered":"Quase no ponto: uma proposta irrecus\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>Eu estava olhando pela janela da sala. Suas duas folhas de madeira, pintadas de um vermelho indiz\u00edvel, abriam-se para fora. Reparava no beiral carcomido, no pouco movimento da rua, num carroceiro que passava com a carro\u00e7a cheia de verduras e no cavalo magro que a puxava. Fazia quase noite, e a umidade do ar, misturada ao cheiro de plantas, me oprimia.<\/p>\n<p>O barulho insistente da m\u00e1quina Singer era quase hipn\u00f3tico, ecoando numa esp\u00e9cie de vai-n\u00e3o-vai pela saleta. Era sempre aquele movimento circular, que come\u00e7ava a metralhar toda vez que Nilza acionava o pedal. Ia do adagio ao presto: um ex\u00e9rcito inteiro avan\u00e7ando sobre os inimigos.<\/p>\n<p>Fiquei reparando nos p\u00e9s de Nilza, encaixados nos sapatos pretos. Um tanto gastos. As meias cobriam as canelas roli\u00e7as e os joelhos; acima deles, o fim das meias deixava entrever, vez ou outra, um pouco das coxas, antes que tudo fosse coberto pelo vestido, um dos mais curtos que usava.<\/p>\n<p>E costurava, costurava&#8230;<\/p>\n<p>Tinha o rosto t\u00e3o concentrado que a boca parecia esquecer-se aberta. Com as m\u00e3os \u00e1geis, de vez em quando apanhava uma tesoura e, num golpe r\u00e1pido, cortava a linha. Depois, voltava a costurar, costurar. Os ex\u00e9rcitos em marcha, ao ataque, ra-ta-t\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Ao lado dela, largada numa poltrona com um romance na m\u00e3o, dona Fich\u00fa, tia de Nilza. N\u00e3o via direito se ainda lia. As p\u00e1lpebras lhe pesavam, e os olhos estavam quase fechados. Vi que adormecera quando pousou o livro delicadamente no colo e o bei\u00e7o abriu-se um pouco.<\/p>\n<p>Aproveitei o sono da velha para me achegar a Nilza. Ela, indiferente aos meus apelos, tocava a m\u00e1quina.<\/p>\n<p>Raios, o que tanto costurava aquela mulher? Enxoval? Roupa branca?<\/p>\n<p>Fiquei ali de p\u00e9, perto dela. E reparei mais uma vez nos cabelos presos num coque atr\u00e1s da cabe\u00e7a, com um prendedor da cor de uma concha do mar. A nuca nua, as orelhas. Que orelhas interessantes as de Nilza, rematadas por diminutos brincos de \u00e1gua-marinha.<\/p>\n<p>O rosto talvez n\u00e3o fosse t\u00e3o belo, mas eu estava acostumado. Definitivamente, era at\u00e9 um pouco feia. Muito espa\u00e7o entre o nariz e o l\u00e1bio superior. Os olhos grandes demais. Sim, era feia, no geral, a pobre Nilza.<\/p>\n<p>Mas era um rosto parecido com lar.<\/p>\n<p>Os ombros muito brancos, o colo. Os bra\u00e7os \u00e1geis. As m\u00e3os compridas, rematadas em dedos igualmente compridos, com unhas pequenas, esmaltadas de azul.<\/p>\n<p>Cheguei t\u00e3o perto que podia ouvir sua respira\u00e7\u00e3o quando o ra-ta-t\u00e1 da m\u00e1quina parava. Dona Fich\u00fa dormia e ressonava. E eu, mais uma vez, ainda que corresse o risco de irritar minha anfitri\u00e3 e boa amiga, insisti:<\/p>\n<p>\u2014 Acho que devias considerar a vantagem do que te proponho. Ser\u00e1 tudo mais f\u00e1cil. E podes trazer a tia. Haver\u00e1 sempre lugar.<\/p>\n<p>Ela respondeu sem tirar os olhos da costura:<\/p>\n<p>\u2014 Ah, se fosse assim f\u00e1cil. E depois? E quando enjoa? A gente fica sem eira nem beira&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu n\u00e3o enjoo. Palavra. Tu vens para ficar. Come\u00e7amos vida nova, aqui mesmo na cidade, se quiseres. Ou no campo, que \u00e9 mais arejado. N\u00e3o h\u00e1 esse cheiro sufocante.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora, o calor \u00famido da noite chegada se conservava. N\u00e3o dava um vento sequer.<\/p>\n<p>Dona Fich\u00fa dormia. Soltara o romance sobre o colo vasto.<\/p>\n<p>Continuei tentando convencer Nilza:<\/p>\n<p>\u2014 Ademais, se quiseres, poderemos ter filhos. N\u00e3o fa\u00e7o quest\u00e3o. Prefiro me devotar a ti. Ter\u00e1s tudo. Levamos a m\u00e1quina. Levamos teus m\u00f3veis, as coisas de que gostas. Fica decidido assim. At\u00e9 aquela menina que ajuda voc\u00eas aqui.<\/p>\n<p>\u2014 A Verinha?<\/p>\n<p>\u2014 Isso. A morena. Leva-se a morena. Ficamos todos l\u00e1 na fazenda. Tu, dona Fich\u00fa e a Verinha.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei&#8230; Nunca pensei em casar.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o pensaste em casar comigo ou n\u00e3o pensaste em casar?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei. Preciso de tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bem. Toma este tempo, ent\u00e3o. Mas olha, n\u00e3o demores. A oportunidade n\u00e3o passa duas vezes.<\/p>\n<p>Joguei esse blefe na cara de Nilza. Ela sequer esbo\u00e7ou rea\u00e7\u00e3o. Era como se n\u00e3o me levasse a s\u00e9rio ou estivesse com o pensamento longe, fingindo que me ouvia ou que acreditava na sinceridade de minhas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Fazia alguns meses que queria me casar. Com uma mulher boa, que entendesse de todo servi\u00e7o e pudesse mandar numa casa.<\/p>\n<p>Pensei, primeiro, numa vi\u00fava que andava ali pelos seus trinta e poucos anos. No entanto, n\u00e3o pareceu convir, pois j\u00e1 estava velha. Depois, havia a filha do Francisco, dono da botica. Mas me pareceu ing\u00eanua demais. Andava pelos treze anos. Teria de esperar, no m\u00ednimo, mais uns dois para casar, e eu queria adiantar o servi\u00e7o.<\/p>\n<p>De minha parte, j\u00e1 andava pelos trinta e sete, caindo de maduro. Ficara noivo quando tinha uns dezenove, mas a pobre coitada se foi na epidemia de gripe espanhola. Os pais dela ainda me ofereceram a irm\u00e3 ca\u00e7ula, mas esta nunca me agradara. Era feia e intrigante. Sa\u00ed daquele meio o mais r\u00e1pido que pude.<\/p>\n<p>Uns tempos depois, pus os olhos em Nilza. Vivia naquele sobrado da Rua da Esta\u00e7\u00e3o. Era honesta. Tinha, decerto, qualidades. E, entre algumas x\u00edcaras de caf\u00e9 e aquela conversazinha de cerca-louren\u00e7o, eu vinha introduzindo minhas ideias de compromisso.<\/p>\n<p>Viviam ali ela, a velha Fich\u00fa e a morena trigueira, de quem, na \u00e9poca, eu n\u00e3o sabia direito o parentesco. Depois foi que descobri. A tal Verinha era prima. Distante. Era sobrinha-neta de Fich\u00fa, que, ademais, se chamava Elvira.<\/p>\n<p>Eu, herdeiro de uma certa fortuna, estava em boas condi\u00e7\u00f5es de vida. Tinha mais de quinhentas cabe\u00e7as de gado, al\u00e9m de outros equinos e muares. Vivia numa fazenda a doze l\u00e9guas da cidade.<\/p>\n<p>Na casa da fazenda havia vinte e oito c\u00f4modos&#8230;<\/p>\n<p>Vinte e oito.<\/p>\n<p>Podia-se dormir cada noite num quarto diferente e n\u00e3o repetir nenhum durante quase um m\u00eas. Herdara todos os trastes da casa. Tinha tudo. Eram antigos, mas eu podia comprar novos, tudo o que Nilza quisesse. Era uma boa posi\u00e7\u00e3o que lhe oferecia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, eu era bem-apessoado. Sim, n\u00e3o era de se jogar fora. Magro, alto, desempenado. Um queixo regular, os olhos no eixo. Um bigode meio louro que eu cultivava. Cabelos que me sobravam na fronte. Ora, eu tinha espelho em casa. Se eu fosse repelente, ainda v\u00e1 l\u00e1. Mas n\u00e3o era o caso.<\/p>\n<p>Nilza s\u00f3 teria vantagens. Haveria de ser senhora de posi\u00e7\u00e3o, pois a gente grada local vivia me cortejando para que tomasse partido aqui ou ali. \u00c9 \u00f3bvio: eu tinha dinheiro.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que o dinheiro n\u00e3o viera pelo suor do meu rosto. Era fruto de duas ou tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es anteriores a mim, que o haviam acumulado \u00e0 custa de muito trabalho. E at\u00e9 de um pouco de explora\u00e7\u00e3o, devo confessar.<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 este mundo, desde sempre, se n\u00e3o a explora\u00e7\u00e3o do fraco pelo forte?<\/p>\n<p>N\u00e3o me cabia culpa na ordem da cria\u00e7\u00e3o. Coube-me ser filho \u00fanico e a orfandade prematura para me tornar dono de tudo. De m\u00e3o-beijada. Jamais calejei as m\u00e3os, mas tive tino suficiente para levar adiante o rebanho e acumular outro tanto al\u00e9m do que herdara.<\/p>\n<p>Agora era hora de dividir esse privil\u00e9gio com a mulher que eu escolhesse.<\/p>\n<p>Dias depois, quis sondar novamente. Apareci na hora do costume. A casa estava sempre aberta para mim. Isso aumentava minha esperan\u00e7a de que Nilza aceitasse minha proposta, embora nunca tivesse sido clara ao responder. Eu tinha certeza de agradar dona Fich\u00fa, que tinha ascend\u00eancia sobre a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Reflita bem, Nilza. \u00c9 boa a posi\u00e7\u00e3o que te ofere\u00e7o. Um vid\u00e3o. Melhor do que ficar aqui medindo bainhas. Tu costuras para fora, n\u00e3o \u00e9 isso?<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m. Fa\u00e7o uns servi\u00e7os para as pessoas mais pr\u00f3ximas. Sempre que posso.<\/p>\n<p>Ora essa, o que eu estava a oferecer era muito melhor do que ela possu\u00eda. N\u00e3o passaria qualquer necessidade. Trabalhar? S\u00f3 se fosse como trabalham as damas de caridade para a gente mais necessitada das redondezas. Fazendo enxovais para os filhos naturais das crioulinhas. Nunca por necessidade.<\/p>\n<p>O que tanto costurava aquela mulher? Como poderia ser melhor a incerteza da vida, ganhando uns caramingu\u00e1s com a costura, em vez de aceitar logo a proposta que eu fazia?<\/p>\n<p>Tinhosa. Era tinhosa, decerto. Mas eu era a op\u00e7\u00e3o mais vantajosa. Haveria, uma hora, de quebrar-lhe a resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Joguei um verde para a velha:<\/p>\n<p>\u2014 A senhora n\u00e3o se incomoda de eu vir sempre, n\u00e3o \u00e9, tia Fich\u00fa? Venho tentar amolecer a cabe\u00e7a dura dessa sua sobrinha. A senhora n\u00e3o acha que ela devia casar comigo?<\/p>\n<p>\u2014 Ah, seu mo\u00e7o, ela deve resolver o que a deixar feliz. Mas fa\u00e7o gosto, sim. Quem n\u00e3o faria? Se fosse pela minha vontade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9. Digo sempre a ela. S\u00f3 h\u00e1 vantagem.<\/p>\n<p>Nilza, sorrindo, servia o caf\u00e9 e partia a broa de milho, ainda fumegante. Descansava de comandar seu implac\u00e1vel ex\u00e9rcito e vinha sentar-se junto a n\u00f3s, perto da sacadinha.<\/p>\n<p>Naquele dia, a morena tamb\u00e9m estava na sala. Fiquei reparando em seus gestos. Era elegante, sem d\u00favida. Vestia um vestido florido, claro, que contrastava com sua pele acobreada. Tinha bra\u00e7os bonitos. Unhas bem-feitas. A boca era certa; o nariz, agrad\u00e1vel. Os cabelos cacheados estavam presos por uma fita. Os ombros largos. O passo certo.<\/p>\n<p>Nilza n\u00e3o era propriamente bonita. Apenas me acostumara a ela. Mas a morena, esta sim, era bonita. Vistosa. Daria uma esposa e tanto.<\/p>\n<p>Aquilo apenas me passou pela cabe\u00e7a. Preferi ater-me ao caminho que j\u00e1 vinha preparando.<\/p>\n<p>As semanas se passavam, e o ritual se repetia. Nilza ora parecia mais receptiva, ora mais distante. Quando eu a visitava, no come\u00e7o parecia disposta \u00e0 conversa. Respondia \u00e0s minhas indaga\u00e7\u00f5es. Fal\u00e1vamos sobre v\u00e1rios assuntos: a fun\u00e7\u00e3o de uma dona de casa, o modo de criar os filhos, a obedi\u00eancia da esposa.<\/p>\n<p>Ela sempre terminava sem dizer nem que sim, nem que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Certa feita, falamos sobre o voto feminino. Ela era favor\u00e1vel. Eu tinha minhas reservas.<\/p>\n<p>\u2014 Foi uma bela conquista. Seu Get\u00falio \u00e9 que o garantiu. Uma coisa boa, sim senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Um absurdo. Pode provocar desagrega\u00e7\u00e3o na fam\u00edlia. Ainda bem que \u00e9 facultativo. Imagine? A mulher e o marido votando em partidos distintos? Quando a mulher \u00e9 s\u00e1bia, deve votar em quem o marido manda. Ou, se for mais s\u00e1bia ainda, nem precisa votar. Deixa que o cabe\u00e7a do casal resolve essas coisas. A mulher deve cuidar da porta da casa para dentro.<\/p>\n<p>Eram exatamente essas as minhas ideias. Para que for\u00e7ar a mulher, com sua natureza fr\u00e1gil, a precisar de uma dire\u00e7\u00e3o forte, a se preocupar com esses assuntos mundanos? Deixasse o voto para o elemento masculino.<\/p>\n<p>Dona Fich\u00fa sorria; parecia concordar plenamente comigo. Nilza quis introduzir a morena na conversa:<\/p>\n<p>\u2014 E tu, Verinha, o que achas?<\/p>\n<p>\u2014 Eu nem acho nada. Ainda n\u00e3o havia atinado nesses assuntos, acreditam?<\/p>\n<p>Verinha tinha um temperamento mais manso, era de se ver. Nilza, \u00e0s vezes, encasquetava com umas bobagens. Falava em emancipa\u00e7\u00e3o feminina, em garantir igualdade de condi\u00e7\u00f5es no trabalho da mulher.<\/p>\n<p>Vi, ao acaso, numa daquelas visitas, sobre uma pilha de revistas de moda das quais ela copiava modelos, um panfleto feminista. N\u00e3o entendi direito o que era aquilo. A morena parecia ser, neste ponto, at\u00e9 mais arrazoada.<\/p>\n<p>Um dia, estava eu na fazenda, envolvido com uns neg\u00f3cios de gado, quando vi passar, pela porteira mais pr\u00f3xima da casa, uma charretinha conduzida por um moleque conhecido da cidade. Verinha vinha ao lado dele.<\/p>\n<p>Fiquei curioso com a visita.<\/p>\n<p>Quando se aproximaram, ela apeou. Os cachorros, soltos no terreiro, latiram ao ver gente que n\u00e3o era de casa. Fui correndo l\u00e1 fora, curioso para saber por que vinha. A morena tinha os olhos aflitos.<\/p>\n<p>\u2014 Seu Agenor! Acode, seu Agenor.<\/p>\n<p>\u2014 O que h\u00e1, dona Verinha?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 Nilza. Ela n\u00e3o est\u00e1 bem. Dona Fich\u00fa mandou que eu viesse avis\u00e1-lo. Ontem de manh\u00e3, ela n\u00e3o conseguiu se levantar. Passou o dia gemendo. Depois, come\u00e7ou a ficar meio abobada, n\u00e3o atinava com as coisas. Desde que anoiteceu, n\u00e3o fala mais com a gente. Vem ver ela, seu Agenor.<\/p>\n<p>Mandei selar o cavalo e cheguei \u00e0 cidade muito antes da morena, que voltava na charrete. Subi as escadas do sobrado e vi dona Fich\u00fa rezando em frente ao orat\u00f3rio, debulhando-se em l\u00e1grimas. L\u00e1 dentro, o doutor Raul de Mendon\u00e7a, um dos melhores m\u00e9dicos da regi\u00e3o, aplicava uma inje\u00e7\u00e3o em Nilza.<\/p>\n<p>Ela me pareceu muito mal.<\/p>\n<p>\u2014 Uremia, seu Agenor. Veio de repente.<\/p>\n<p>Ela j\u00e1 estava inconsciente. Parecia desprender-se do mundo. Balbuciou ainda coisas que n\u00e3o compreendi. Resistiu mais umas quatro horas e se foi para sempre.<\/p>\n<p>Dona Fich\u00fa e Verinha ficaram doidas. Era de cortar o cora\u00e7\u00e3o ver aquela cena. Sobre a mesa da sala, permaneceram as coisas que ela estava costurando. Na v\u00e9spera ainda trabalhava e, de repente, ficou daquele jeito. N\u00e3o houve recursos que a salvassem.<\/p>\n<p>Eu disse \u00e0s mulheres que n\u00e3o se preocupassem. Cuidaria de tudo.<\/p>\n<p>E cuidei.<\/p>\n<p>Vel\u00f3rio, prociss\u00e3o do enterro, jazigo perp\u00e9tuo novo, que a fam\u00edlia n\u00e3o tinha. Depois, mandei fazer uma bela l\u00e1pide para Nilza, com um retrato de lou\u00e7a e um anjo na cabeceira do t\u00famulo, apontando para o c\u00e9u.<\/p>\n<p>Deu pena. Tanto potencial desperdi\u00e7ado, mo\u00e7a cheia de prendas. Insensata em algumas coisas, mas nada que resistisse a uma boa dire\u00e7\u00e3o. E, afinal, partiu sem que eu a convencesse a se casar comigo.<\/p>\n<p>Morreu solteira.<\/p>\n<p>Que desperd\u00edcio.<\/p>\n<p>Passou um tempo. Verinha, que eu at\u00e9 cogitara como esposa, engra\u00e7ou-se para o lado de um tenente. Disseram at\u00e9 que ele era casado, mas isso era o de menos. Uma noite, ela partiu com ele da esta\u00e7\u00e3o, num r\u00e1pido que seguia para o Rio de Janeiro, e nunca mais soubemos dela.<\/p>\n<p>Ficou sozinha a velha Fich\u00fa, coitada. Andei mandando uns mantimentos para ela, pois sei que as coisas ficaram dif\u00edceis. N\u00e3o me custava essa caridade.<\/p>\n<p>\u00c0quela altura, a filha do botic\u00e1rio j\u00e1 estava com quatorze anos completos.<\/p>\n<p>\u00c9&#8230;<\/p>\n<p>Quatorze.<\/p>\n<p>Estava quase no ponto.<\/p>\n<p>J\u00e1 valia a pena esperar.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><br \/>\n<strong>Daniel Marchi \u00e9 poeta, contista, advogado e professor universit\u00e1rio no Rio de Janeiro. Editor do Caf\u00e9 Liter\u00e1rio e fundador da Editora Fava, \u00e9 autor de <em data-start=\"151\" data-end=\"172\">A Verdade nos Seres<\/em> (poesia, 2024) e <em data-start=\"198\" data-end=\"219\">Territ\u00f3rio do Sonho<\/em> (contos, 2026). @prof.danielmarchi<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu estava olhando pela janela da sala. Suas duas folhas de madeira, pintadas de um vermelho indiz\u00edvel, abriam-se para fora. 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