{"id":404626,"date":"2026-07-28T01:15:47","date_gmt":"2026-07-28T04:15:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=404626"},"modified":"2026-07-27T09:47:15","modified_gmt":"2026-07-27T12:47:15","slug":"ramos-antonio-amine-de-mocambique-para-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ramos-antonio-amine-de-mocambique-para-o-mundo\/","title":{"rendered":"Ramos Ant\u00f3nio Amine, de Mo\u00e7ambique para o mundo"},"content":{"rendered":"<p>Entre o Niassa e o mundo, <strong>Ramos Ant\u00f3nio Amine<\/strong> constr\u00f3i uma escrita que n\u00e3o pede licen\u00e7a para incomodar. Formado em Ensino de Filosofia e professor no norte de Mo\u00e7ambique, ele troca a sala de aula pela p\u00e1gina para dissecar a desumaniza\u00e7\u00e3o do nosso tempo. Com textos publicados na <strong>Revista Upile<\/strong>, no <strong>Jornal O Destaque<\/strong>, no <strong>Jornal Ngani<\/strong> e no <strong>Jornal Cultural ROL<\/strong>, do Brasil, Amine defende uma literatura que \u00e9 ao mesmo tempo den\u00fancia, alegoria e exerc\u00edcio de pensamento. Semifinalista da 4\u00aa edi\u00e7\u00e3o do <strong>Pr\u00e9mio Liter\u00e1rio Carlos Morgado<\/strong> em 2026, ele chega \u00e0 coluna falando de um gesto que para ele \u00e9 decisivo: tornar p\u00fablico aquilo que existe para ser percebido.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, o escritor fala sobre o lugar da fic\u00e7\u00e3o como abrigo da filosofia, sobre as fontes que alimentam seus contos e cr\u00f3nicas, e sobre os desafios de manter uma produ\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica num tempo que cobra visibilidade imediata. Aborda ainda a revis\u00e3o como ato de fidelidade \u00e0 pr\u00f3pria voz, a rela\u00e7\u00e3o com leitores que atravessam fronteiras lingu\u00edsticas e o papel dos portais culturais independentes na forma\u00e7\u00e3o de novos p\u00fablicos. Para Amine, escrever \u00e9 recusar o sil\u00eancio c\u00famplice. E \u00e9 a partir desse princ\u00edpio \u00e9tico que ele projeta livros, di\u00e1logos e um projeto liter\u00e1rio em permanente constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Qual foi o primeiro gesto de escrita que, hoje, voc\u00ea reconhece como decisivo em sua trajet\u00f3ria? O que o levou a tornar seus textos p\u00fablicos?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 sempre \u00e9tico, antes de tudo, agradecer pela iniciativa e pela oportunidade que me \u00e9 concedida de, por este meio, falar do mundo para o mundo, a partir do mundo.<\/p>\n<p>Movido pelo desejo de devolver, em forma de talento e excel\u00eancia, aquilo que a natureza me concedeu em forma de dons, venho escrevendo h\u00e1 quase uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Entretanto, considero o ano em curso (2026) como o p\u00edncaro da minha aventura liter\u00e1ria, pois foi neste ano que, de tanto insistir, vi abrirem-se as portas de v\u00e1rias plataformas de circula\u00e7\u00e3o digital. Refiro-me \u00e0 emergente <strong><a href=\"https:\/\/revistaupile.com\/\">Revista Upile<\/a><\/strong>, dedicada \u00e0 promo\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o da cultura do Niassa; ao <strong><a href=\"https:\/\/ngani.co.mz\/\">Jornal Ngani<\/a><\/strong> (Nampula); ao <strong><a href=\"https:\/\/odestaque.co.mz\/\">Jornal O Destaque (Maputo)<\/a><\/strong>; e ao <strong><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/\">Jornal Cultural ROL<\/a><\/strong> (Brasil).<\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista, pode parecer um gesto trivial para os esp\u00edritos que se julgam grandes. Para mim, por\u00e9m, trata-se de um marco sublime, jamais alcan\u00e7ado por mera casualidade. Orgulho-me desse percurso porque aos poucos vou rompendo as barreiras convencionadas pela ind\u00fastria liter\u00e1ria e, hoje, conto com textos in\u00e9ditos a circularem em plataformas de reconhecido prest\u00edgio.<\/p>\n<p>Decidi tornar p\u00fablicos os meus textos n\u00e3o apenas quando tomei consci\u00eancia de que tinha um mundo a desvendar para o mundo, mas tamb\u00e9m quando, por meio de George Berkeley, compreendi que existir implica ser percebido. E uma das formas de ser percebido consiste precisamente em tornar p\u00fablico o meu pensamento.<\/p>\n<div id=\"attachment_404635\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-404635\" class=\" wp-image-404635\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WhatsApp-Image-2026-07-25-at-09.33.43-200x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"586\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WhatsApp-Image-2026-07-25-at-09.33.43-200x300.jpeg 200w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WhatsApp-Image-2026-07-25-at-09.33.43-683x1024.jpeg 683w\" sizes=\"auto, (max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><p id=\"caption-attachment-404635\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;A fic\u00e7\u00e3o permite ao escritor desenterrar as causas \u00faltimas ocultas por detr\u00e1s de um mundo que se despeda\u00e7a&#8221;<\/p><\/div>\n<p><strong>Entre conto, cr\u00f3nica, poesia, artigo ou outra forma de escrita, em qual g\u00e9nero voc\u00ea encontra maior liberdade e precis\u00e3o para dizer o que deseja? Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Julgo ser a fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, na sua esp\u00e9cie de conto. Trata-se de um ju\u00edzo que se torna defens\u00e1vel a partir da minha forma\u00e7\u00e3o em Ensino de Filosofia.<\/p>\n<p>Nos tempos que correm e, de certo modo, desde Voltaire, autor de <em>C\u00e2ndido<\/em>, at\u00e9 Sartre, autor de <em>A N\u00e1usea<\/em>, a fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria foi frequentemente colocada ao servi\u00e7o da Filosofia, assim como esta \u00faltima estivera, durante a Idade M\u00e9dia, ao servi\u00e7o da Teologia.<\/p>\n<p>Esta escolha revela-se ainda mais pertinente num tempo em que escrever Filosofia de forma directa, no sentido mais rigoroso do termo, se tornou um exerc\u00edcio cada vez mais comprometedor. \u00c9 precisamente a\u00ed que a fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria se afirma como uma via privilegiada, por conservar em si a for\u00e7a da alegoria.<\/p>\n<p>A fic\u00e7\u00e3o permite ao escritor desenterrar as causas \u00faltimas ocultas por detr\u00e1s de um mundo que se despeda\u00e7a, sem que aqueles que o despeda\u00e7am se reconhe\u00e7am de imediato nas p\u00e1ginas que leem. N\u00e3o se trata de medo da morte. Nada disso. O que est\u00e1 em causa \u00e9 o desejo de permanecer vivo para continuar a exumar as causas da desumaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_404634\" style=\"width: 356px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-404634\" class=\" wp-image-404634\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WhatsApp-Image-2026-07-25-at-09.33.43-1-201x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"346\" height=\"516\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WhatsApp-Image-2026-07-25-at-09.33.43-1-201x300.jpeg 201w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WhatsApp-Image-2026-07-25-at-09.33.43-1-685x1024.jpeg 685w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WhatsApp-Image-2026-07-25-at-09.33.43-1.jpeg 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 346px) 100vw, 346px\" \/><p id=\"caption-attachment-404634\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;A escrita nunca nasce de uma \u00fanica nascente&#8221;<\/p><\/div>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as fontes mais recorrentes da sua escrita: experi\u00eancias pessoais, observa\u00e7\u00e3o do quotidiano, mem\u00f3ria, leitura de outros autores, pesquisa, di\u00e1logo com outras artes ou algo diferente?<\/strong><\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma quest\u00e3o que, muitas vezes, coloca \u00e0 superf\u00edcie a arrog\u00e2ncia de certos escritores. Diante dela, parece ter-se tornado paradigma afirmar que cada escritor \u00e9 a sua pr\u00f3pria influ\u00eancia. Em \u00faltima an\u00e1lise, por\u00e9m, isso n\u00e3o passa de orgulho inflamado, pois tornamo-nos cada vez mais humanos na rela\u00e7\u00e3o com o outro, com o trabalho e com a natureza.<\/p>\n<p>Para ser sincero, n\u00e3o existe, para mim, uma \u00fanica fonte que se imponha como a mais recorrente na minha escrita. O mais justo \u00e9 dizer que ela resulta da conflu\u00eancia de experi\u00eancias pessoais, da observa\u00e7\u00e3o do quotidiano, da mem\u00f3ria, da leitura de outros autores, da pesquisa e do di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Por isso, um leitor atento encontrar\u00e1 nos meus textos a presen\u00e7a de todas essas fontes. Encontrar\u00e1 experi\u00eancias pessoais, como em <em>A Guardi\u00e3 dos Avisos Ignorados<\/em>; a observa\u00e7\u00e3o do quotidiano, em textos como <em>A Urna Veio?<\/em>, <em>A Prostituta Ressuscitada<\/em> e o <em>Altar da Hipocrisia<\/em> e <em>O C\u00e1lice da Prostituta<\/em> e a <em>Comunh\u00e3o dos \u00cdmpios<\/em>; e tamb\u00e9m a mem\u00f3ria, a pesquisa e o di\u00e1logo permanente com outros autores.<\/p>\n<p>A escrita nunca nasce de uma \u00fanica nascente. Ela \u00e9 sempre o resultado de um encontro entre a experi\u00eancia vivida, a leitura do mundo e a capacidade de imaginar aquilo que ainda n\u00e3o existe.<\/p>\n<p><strong>Que condi\u00e7\u00f5es de trabalho sustentam a sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria? Voc\u00ea depende de rotina, metas e reescrita ou costuma partir de est\u00edmulos mais circunstanciais?<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de resultar da conflu\u00eancia de v\u00e1rias fontes, a minha escrita n\u00e3o \u00e9 espor\u00e1dica, nem nasce de est\u00edmulos meramente circunstanciais. Ela assenta na consist\u00eancia, na coer\u00eancia e na sistematicidade, qualidades que devo, em grande medida, \u00e0 forma\u00e7\u00e3o em Ensino de Filosofia e aos anos de lecciona\u00e7\u00e3o desta disciplina.<\/p>\n<p>Essa disciplina faz com que a minha escrita seja facilmente compil\u00e1vel em livro, porque os textos obedecem a uma estrutura interna coerente. Basta observar o edif\u00edcio liter\u00e1rio que venho construindo em <em>A Quinta dos \u00cdmpios<\/em>. Do poema inaugural at\u00e9 <em>O S\u00e9timo Sinal<\/em>, cada texto representa uma etapa de uma mesma constru\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente essa continuidade que me permite afirmar que n\u00e3o escrevo apenas textos isolados. Escrevo um projecto liter\u00e1rio em permanente edifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Quando trabalha com fic\u00e7\u00e3o narrativa, como descobre o que uma personagem quer, teme ou esconde?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um exerc\u00edcio de permanente gin\u00e1stica criativa.<\/p>\n<p>Tive essa sensa\u00e7\u00e3o quando conduzi, de forma consciente, o protagonista principal de <em>Os Sinais da Quinta<\/em> para o santu\u00e1rio. Contudo, \u00e0 medida que a hist\u00f3ria avan\u00e7ava, compreendi que aquele espa\u00e7o n\u00e3o podia esgotar todo o edif\u00edcio liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que me senti encurralado pela pr\u00f3pria fic\u00e7\u00e3o. Esse impasse obrigou-me a reinventar o enredo e a encontrar uma sa\u00edda para o protagonista.<\/p>\n<p>\u00c9 nesses momentos que a personagem come\u00e7a a ganhar autonomia. Ela deixa de obedecer apenas aos des\u00edgnios do autor e passa a impor as exig\u00eancias da pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o acredito que exista um instante exacto em que uma personagem se torne suficientemente complexa. A sua densidade constr\u00f3i-se \u00e0 medida que a narrativa avan\u00e7a, at\u00e9 alcan\u00e7ar uma s\u00edntese que poder\u00e1 converter-se na tese de uma nova fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_404633\" style=\"width: 433px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-404633\" class=\" wp-image-404633\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WhatsApp-Image-2026-07-25-at-09.33.43-2-200x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"423\" height=\"635\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WhatsApp-Image-2026-07-25-at-09.33.43-2-200x300.jpeg 200w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WhatsApp-Image-2026-07-25-at-09.33.43-2-683x1024.jpeg 683w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WhatsApp-Image-2026-07-25-at-09.33.43-2.jpeg 694w\" sizes=\"auto, (max-width: 423px) 100vw, 423px\" \/><p id=\"caption-attachment-404633\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Uma boa revis\u00e3o n\u00e3o deve produzir um texto diferente do original&#8221;<\/p><\/div>\n<p><strong>Como funciona a revis\u00e3o no seu processo? O que costuma mudar, de modo decisivo, entre a primeira vers\u00e3o de um texto e aquela que voc\u00ea considera public\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n<p>A revis\u00e3o \u00e9, tamb\u00e9m, o momento mais decisivo para qualquer escritor que preze pelo rigor conceptual e pela profundidade que a escrita exige. \u00c9 a\u00ed que reside um dos maiores desafios da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Rever um texto pressup\u00f5e dom\u00ednio da l\u00edngua e das suas regras. Significa que, para al\u00e9m de saber escrever, o escritor deve ser tamb\u00e9m um bom revisor, sob pena de entregar a sua voz a quem, muitas vezes, n\u00e3o compreende a ess\u00eancia da sua escrita.<\/p>\n<p>Senti isso nos prim\u00f3rdios da minha aventura liter\u00e1ria. Naquela altura, limitava-me a escrever e confiava a revis\u00e3o a terceiros. O problema \u00e9 que alguns n\u00e3o se limitavam a corrigir a ortografia ou a gram\u00e1tica. Entravam no pulsar da fic\u00e7\u00e3o, alteravam o enredo, aparavam as arestas, acrescentavam o seu pr\u00f3prio suor \u00e0 escrita e, desse modo, modificavam-lhe o f\u00f4lego. Havia at\u00e9 quem, em vez de rever o texto, o reescrevesse por completo. O resultado era uma obra diferente da original. E isso frustra, sobretudo quando o autor sabe exactamente o que pretende dizer.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que fiz uma promessa a mim mesmo: antes de qualquer cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, deveria blindar a minha mente com o dom\u00ednio das regras fundamentais da l\u00edngua em que escrevo. Essa decis\u00e3o transformou profundamente a minha rela\u00e7\u00e3o com a escrita. \u00c0 medida que fui conquistando maior dom\u00ednio das palavras, aprendi tamb\u00e9m a manuse\u00e1-las com mais precis\u00e3o e liberdade.<\/p>\n<p>Hoje, posso afirmar que uma boa revis\u00e3o n\u00e3o deve produzir um texto diferente do original. Deve apenas torn\u00e1-lo mais rigoroso, mais claro e mais fiel \u00e0 inten\u00e7\u00e3o do autor. O segredo est\u00e1 justamente a\u00ed: rever sem deixar de soar a si mesmo. Os meus leitores devem ser capazes de reconhecer a minha voz em qualquer texto que assine.<\/p>\n<p>Infelizmente, essa identidade autoral tem-se perdido com frequ\u00eancia, sobretudo quando escritores emergentes entregam cegamente o processo criativo \u00e0 intelig\u00eancia artificial. Como consequ\u00eancia, multiplicam-se textos tecnicamente correctos, mas destitu\u00eddos de voz pr\u00f3pria, escritos e reescritos at\u00e9 adquirirem um evidente cheiro \u00e0 automa\u00e7\u00e3o, sinal do progressivo empobrecimento do esp\u00edrito criador.<\/p>\n<p>\u00c9 tempo de contrariarmos essa tend\u00eancia, come\u00e7ando pela educa\u00e7\u00e3o. Os nossos filhos precisam de compreender que a literatura sempre exigiu tempo, concentra\u00e7\u00e3o e pensamento cr\u00edtico: tempo para amadurecer a escrita; concentra\u00e7\u00e3o para resistir \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o do reconhecimento imediato; e pensamento cr\u00edtico para distinguir aquilo que merece ser publicado daquilo que ainda precisa de ser trabalhado.<\/p>\n<p><strong>O que a publica\u00e7\u00e3o no <a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/\">Jornal Cultural ROL<\/a> alterou \u2014 ou confirmou \u2014 na sua rela\u00e7\u00e3o com a escrita, com os leitores e com outros autores de l\u00edngua portuguesa?<\/strong><\/p>\n<p>Por uma quest\u00e3o de foco, senti a necessidade de organizar a minha escrita em duas vertentes. Uma de natureza cient\u00edfica; outra, essencialmente liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Na primeira, publicada todas as segundas-feiras no <strong>Jornal O Destaque (Maputo)<\/strong>, dedico-me \u00e0 escrita de artigos de opini\u00e3o e ensaios filos\u00f3ficos centrados em Mo\u00e7ambique, em \u00c1frica e no mundo. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 reuni-los, oportunamente, num livro de pensatentos, \u00e0 semelhan\u00e7a do percurso feito por Mia Couto com muitos dos seus textos publicados na imprensa.<\/p>\n<p>A segunda vertente encontra espa\u00e7o no <strong>Jornal Cultural ROL<\/strong> (Brasil). \u00c9 nela que desenvolvo a minha escrita liter\u00e1ria por meio da poesia cr\u00edtica, das cr\u00f3nicas de interven\u00e7\u00e3o social e dos contos de inspira\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica.<\/p>\n<p>Se me perguntassem em qual dessas vertentes mais me reconhe\u00e7o, responderia que ambas me definem. No entanto, neste momento da minha traject\u00f3ria, \u00e9 a literatura que melhor traduz a fase que atravesso. Foi ela que me conduziu \u00e0 lista dos semifinalistas do Pr\u00e9mio Liter\u00e1rio Carlos Morgado &#8211; 4.\u00aa edi\u00e7\u00e3o (Mo\u00e7ambique, 2026), distin\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ada gra\u00e7as a um dos textos publicados no <strong>Jornal Cultural ROL<\/strong>.<\/p>\n<p>Esse reconhecimento veio confirmar aquilo em que sempre acreditei: a minha fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria encontrou leitores para al\u00e9m das fronteiras do meu pa\u00eds. Ao mesmo tempo, confirmou a import\u00e2ncia do <strong>Jornal Cultural ROL<\/strong> enquanto projecto que procura unir o mundo por meio da cultura, dando continuidade ao ideal do seu fundador, <a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=72035\">H\u00e9lio Rubens<\/a>, hoje prosseguido pelo editor <a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?page_id=55338\">Sergio Diniz<\/a>.<\/p>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, outro aspecto que considero igualmente relevante. Foi atrav\u00e9s do <strong>Jornal Cultural ROL<\/strong>\u00a0que conheci pessoas extraordin\u00e1rias, capazes de traduzir alguns dos meus textos para o \u00e1rabe e para o italiano. Para Mo\u00e7ambique, poder\u00e1 parecer um gesto discreto; para mim, representa um marco significativo, pois significa que a minha escrita come\u00e7ou a dialogar com leitores pertencentes a outras geografias lingu\u00edsticas.<\/p>\n<p>O desafio que agora assumo \u00e9 o de incentivar mais escritores mo\u00e7ambicanos a integrarem o quadro de colunistas do <strong>Jornal Cultural ROL<\/strong>. At\u00e9 ao momento, o jornal conta apenas com dois escritores mo\u00e7ambicanos, ambos oriundos do norte do pa\u00eds. Estou convencido de que a presen\u00e7a de mais vozes mo\u00e7ambicanas enriqueceria ainda mais esse espa\u00e7o de encontro entre culturas.<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7o, contudo, que esse objectivo n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil de concretizar. A linha editorial do jornal exige regularidade, disciplina e compromisso permanente com a escrita. Encontrar autores dispostos a manter esse ritmo de publica\u00e7\u00e3o cont\u00ednua n\u00e3o \u00e9 tarefa simples, sobretudo num pa\u00eds de forte tradi\u00e7\u00e3o oral e onde a escola ainda faz pouco para cultivar, de forma consistente, o h\u00e1bito da escrita.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 algum retorno de leitor recebido por meio do ROL que tenha mudado a sua percep\u00e7\u00e3o sobre um texto, sobre o p\u00fablico ou sobre a fun\u00e7\u00e3o daquilo que escreve?<\/strong><\/p>\n<p>Sem sombra de d\u00favida. Refiro-me, em particular, ao meu texto po\u00e9tico <em>A Quinta dos \u00cdmpios<\/em>. Trata-se de uma poesia cr\u00edtica e de interven\u00e7\u00e3o social que pode resumir-se numa \u00fanica express\u00e3o: \u201cO sil\u00eancio \u00e9 c\u00famplice.\u201d<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a sua publica\u00e7\u00e3o no <strong>Jornal Cultural ROL<\/strong>, fui conquistando novos leitores em diferentes espa\u00e7os da lusofonia. Nos primeiros tempos, muitos n\u00e3o compreendiam o n\u00facleo da minha escrita. Recebiam os textos com alguma indiferen\u00e7a. Atribuo esse desinteresse, em parte, ao facto de vivermos num tempo em que as pessoas se habituaram ao consumo r\u00e1pido de conte\u00fados imediatos, apelativos e ef\u00e9meros, deixando pouco espa\u00e7o para uma literatura que exige contempla\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, por\u00e9m, e gra\u00e7as \u00e0 persist\u00eancia na divulga\u00e7\u00e3o do meu trabalho, comecei a despertar a aten\u00e7\u00e3o de novos leitores. Recordo-me de um epis\u00f3dio que nunca esquecerei. Um antigo colega da universidade, depois de durante muito tempo acompanhar silenciosamente as minhas publica\u00e7\u00f5es, escreveu-me um dia:<\/p>\n<p>\u201cSabes, s\u00f3 hoje decidi ler os teus textos.\u201d<\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista, aquela confiss\u00e3o magoou-me. Revelava que eu vinha partilhando os meus escritos com algu\u00e9m que nunca lhes tinha dedicado aten\u00e7\u00e3o. No entanto, ap\u00f3s a surpresa inicial, compreendi que a literatura tamb\u00e9m exige paci\u00eancia. Nem todas as sementes encontram imediatamente um solo f\u00e9rtil. E, fazendo minhas as palavras de Albert Einstein, nenhuma mente que se abre a uma nova ideia volta alguma vez ao seu tamanho original.<\/p>\n<p>Apesar dos dissabores, houve quem acreditasse desde cedo na minha escrita e nela visse algo digno de ser desenvolvido. Refiro-me a Miguel Chiyo Tom\u00e1s, jovem angolano e estudante de Ci\u00eancias Sociais e Humanas, que, ao comentar regularmente os meus textos publicados no <strong>Jornal Cultural ROL<\/strong>, acabou por se familiarizar profundamente com eles.<\/p>\n<p>Foi dessa leitura atenta que nasceu a iniciativa de reeditar, sob a forma de di\u00e1logos, alguns dos meus artigos publicados no <strong>Jornal O Destaque<\/strong>, tornando-os mais acess\u00edveis a leitores menos habituados \u00e0 densidade filos\u00f3fica da escrita ensa\u00edstica.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m dele a sugest\u00e3o que considero decisiva para o futuro da minha obra: interromper a publica\u00e7\u00e3o sequencial dos textos sobre <em>A Quinta dos \u00cdmpios<\/em> e avan\u00e7ar para a sua compila\u00e7\u00e3o em livro. Essa ideia abriu caminho \u00e0 possibilidade de publicar a obra em dois volumes, preservando a curiosidade dos leitores e permitindo que a narrativa amadurecesse como um verdadeiro projecto liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que espero da literatura: que continue a suscitar perguntas, a prolongar a curiosidade e a impedir que o sil\u00eancio se torne c\u00famplice.<\/p>\n<p><strong>Na pr\u00e1tica, o que os jornais culturais independentes e a circula\u00e7\u00e3o digital tornam poss\u00edvel para um escritor hoje? Quais barreiras de acesso, visibilidade ou remunera\u00e7\u00e3o continuam presentes?<\/strong><\/p>\n<p>Depende do foco de cada escritor. Entendo que existem, em termos gerais, dois perfis de escritores.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 constitu\u00eddo por aqueles que escrevem para agradar, entreter e contemplar o lado mais l\u00edrico e confort\u00e1vel da exist\u00eancia. S\u00e3o, por isso, mais facilmente acolhidos pelo mercado editorial e, muitas vezes, promovidos pela pr\u00f3pria ind\u00fastria liter\u00e1ria, porque n\u00e3o representam uma amea\u00e7a \u00e0 ordem estabelecida. A desvantagem, por\u00e9m, \u00e9 que a sua escrita tende a envelhecer mais depressa.<\/p>\n<p>O segundo perfil \u00e9 o dos escritores que escrevem para dissecar a podrid\u00e3o da alma humana e denunciar as nuances do seu tempo. Esses n\u00e3o procuram agradar, nem esperam autoriza\u00e7\u00e3o para existir. Escrevem porque sentem que precisam de o fazer. Interpelam, incomodam e, por isso mesmo, a sua escrita tende a resistir melhor ao tempo.<\/p>\n<p>Dependendo do caminho que cada autor escolhe, os jornais culturais independentes e a circula\u00e7\u00e3o digital podem representar tanto uma oportunidade de afirma\u00e7\u00e3o como um percurso particularmente dif\u00edcil. Em qualquer dos casos, os desafios continuam a ser maiores do que as facilidades.<\/p>\n<p>A circula\u00e7\u00e3o digital exige do escritor uma presen\u00e7a constante nas redes sociais. Primeiro, \u00e9 preciso conquistar leitores. Chamo a essa etapa a ca\u00e7a aos leitores. Depois, \u00e9 necess\u00e1rio manter viva a rela\u00e7\u00e3o com aqueles que foram conquistados, oferecendo-lhes novas reflex\u00f5es, novos textos e novas raz\u00f5es para permanecerem. Caso contr\u00e1rio, facilmente se afastam. Por fim, torna-se indispens\u00e1vel ampliar continuamente esse c\u00edrculo, alcan\u00e7ando novos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Tudo isso exige dedica\u00e7\u00e3o quase permanente: tempo, acesso \u00e0 internet, investimento na divulga\u00e7\u00e3o, gest\u00e3o da pr\u00f3pria imagem e uma rede de pessoas dispostas a partilhar e ampliar o alcance do trabalho realizado.<\/p>\n<p>Como se pode perceber, trata-se de um esfor\u00e7o exigente e, por vezes, desgastante. H\u00e1 ainda um risco silencioso: o escritor pode acabar por confundir a necessidade de divulgar a sua obra com a necessidade de estar constantemente presente. A escrita deixa, ent\u00e3o, de ocupar o centro, cedendo espa\u00e7o \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acresce que se trata de um investimento cujos resultados raramente s\u00e3o imediatos. Muitos escritores passam anos sem colher os frutos do seu trabalho e alguns nem chegam a v\u00ea-los em vida.<\/p>\n<p>Apesar disso, considero que vale a pena enfrentar esse caminho. No caso do <strong>Jornal Cultural ROL<\/strong>, os escritores t\u00eam a felicidade de contar com uma equipa editorial que n\u00e3o exige qualquer contrapartida financeira para publicar os textos. Exige apenas aquilo que verdadeiramente importa: qualidade, rigor, coer\u00eancia e ineditismo.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que muitos desistem pelo caminho. Ainda assim, continuo convencido de que os desafios da escrita justificam plenamente o esfor\u00e7o que ela exige. Afinal, uma literatura que n\u00e3o custa a construir dificilmente deixar\u00e1 marcas duradouras.<\/p>\n<p><strong>Para quem publica tanto no Jornal Cultural ROL quanto no <a href=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/editoria\/cafe-literario\/\">Caf\u00e9 Liter\u00e1rio\/Notibras<\/a>: que diferen\u00e7as voc\u00ea percebe entre esses p\u00fablicos e entre as formas de recep\u00e7\u00e3o dos textos em cada ve\u00edculo?<\/strong><\/p>\n<p>Conheci o <strong>Caf\u00e9 Liter\u00e1rio\/Notibras<\/strong> por interm\u00e9dio do <strong>Jornal Cultural ROL<\/strong>. Por isso, seria precipitado da minha parte estabelecer uma compara\u00e7\u00e3o definitiva entre os dois p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Ainda assim, penso que existem diferen\u00e7as evidentes entre ambos os projectos. O <strong>Caf\u00e9 Liter\u00e1rio\/Notibras<\/strong> dedica-se, sobretudo, a dar visibilidade a escritores independentes que dificilmente encontram espa\u00e7o nas grandes editoras. O <strong>Jornal Cultural ROL<\/strong>, por sua vez, persegue uma ambi\u00e7\u00e3o mais ampla: unir o mundo por meio da cultura.<\/p>\n<p>Essa voca\u00e7\u00e3o torna-se vis\u00edvel na sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Com mais de tr\u00eas d\u00e9cadas de exist\u00eancia, o <strong>ROL<\/strong> construiu uma rede de colunistas e correspondentes distribu\u00eddos por v\u00e1rios continentes, alcan\u00e7ando uma presen\u00e7a internacional dif\u00edcil de ignorar. O <strong>Caf\u00e9 Liter\u00e1rio\/Notibras<\/strong>, sendo um projecto mais recente, iniciado no final de 2024, percorre naturalmente um caminho diferente, ainda em consolida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar dessas diferen\u00e7as, considero que ambos cumprem, com m\u00e9rito, a miss\u00e3o que assumiram. Um oferece visibilidade a escritores independentes; o outro promove o encontro entre culturas por meio da literatura. Longe de se exclu\u00edrem, completam-se.<\/p>\n<p>Se assim n\u00e3o fosse, dificilmente esta entrevista teria acontecido. Ela pr\u00f3pria demonstra que continuam a surgir espa\u00e7os capazes de aproximar escritores, leitores e diferentes comunidades da l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n<p><strong>Que sentido h\u00e1 em manter fic\u00e7\u00e3o, poesia e cr\u00edtica cultural dentro de um portal jornal\u00edstico marcado pelo fluxo das not\u00edcias? Essa conviv\u00eancia altera a maneira de escrever, editar ou divulgar literatura?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista, poder\u00e1 parecer pouco natural reunir fic\u00e7\u00e3o, poesia, cr\u00edtica cultural e not\u00edcias num mesmo espa\u00e7o editorial. S\u00e3o linguagens com ritmos e finalidades distintas. No entanto, o mundo digital desafia constantemente as fronteiras tradicionais entre os g\u00e9neros e leva muitos portais a oferecer conte\u00fados diversificados num \u00fanico lugar.<\/p>\n<p>Essa conviv\u00eancia produz consequ\u00eancias. O escritor pode sentir-se tentado a ajustar a sua escrita ao ritmo acelerado da actualidade ou \u00e0s expectativas da plataforma que o acolhe. Quando isso acontece, corre-se o risco de entrar naquilo a que chamo <strong>a literatura da conveni\u00eancia<\/strong>: uma literatura moldada mais pelas exig\u00eancias da circula\u00e7\u00e3o do que pela fidelidade ao projecto est\u00e9tico do autor.<\/p>\n<p>Creio, por\u00e9m, que os portais que preservam uma identidade editorial clara acabam por prestar um servi\u00e7o mais duradouro \u00e0 literatura. Quando o leitor sabe exactamente o que encontrar\u00e1 num determinado espa\u00e7o, cria-se uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a que beneficia tanto quem escreve como quem l\u00ea.<\/p>\n<p>Num tempo dominado pelo instant\u00e2neo, o maior acto de resist\u00eancia passa necessariamente por preservar um lugar onde a literatura continue a ser reconhecida como literatura.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9, hoje, o obst\u00e1culo mais concreto para um escritor independente formar leitores recorrentes? Que estrat\u00e9gia tem funcionado e qual voc\u00ea considera superestimada?<\/strong><\/p>\n<p>Mais do que falar de obst\u00e1culos, prefiro falar de desafios. Formar leitores recorrentes \u00e9, sim, o maior desafio de um escritor independente.<\/p>\n<p>Escrever com regularidade e divulgar continuamente o pr\u00f3prio trabalho s\u00e3o exig\u00eancias insepar\u00e1veis. Nenhuma delas \u00e9 simples. A aus\u00eancia de foco e de determina\u00e7\u00e3o pode levar muitos escritores a desistirem antes mesmo de encontrarem os seus leitores.<\/p>\n<p>No meu caso, a estrat\u00e9gia que mais resultados tem produzido consiste em anunciar previamente cada publica\u00e7\u00e3o nas minhas p\u00e1ginas oficiais do Facebook, WhatsApp, Instagram e por correio electr\u00f3nico. As imagens que acompanham esses an\u00fancios despertam a expectativa dos leitores e criam um compromisso silencioso entre quem escreve e quem espera pela pr\u00f3xima publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O trabalho, por\u00e9m, n\u00e3o termina quando o texto \u00e9 publicado. Considero igualmente importante promover debates com os leitores, procurando compreender de que forma interpretaram o texto e at\u00e9 que ponto as ideias nele contidas suscitaram reflex\u00e3o. \u00c9 nesse di\u00e1logo que a escrita continua a amadurecer.<\/p>\n<p>Como se pode perceber, trata-se de uma actividade exigente. Em larga medida, \u00e9 quase uma vida dedicada \u00e0s redes sociais. \u00c9 a\u00ed que reside o maior desgaste.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s estrat\u00e9gias que considero sobrestimadas, penso que muitos escritores depositam excessiva confian\u00e7a na procura imediata de reac\u00e7\u00f5es, partilhas e n\u00fameros. Acredito mais na constru\u00e7\u00e3o paciente de uma comunidade de leitores do que na ilus\u00e3o de uma popularidade instant\u00e2nea.<\/p>\n<p><strong>Ao imaginar algu\u00e9m lendo sua obra, que tipo de experi\u00eancia voc\u00ea espera provocar? H\u00e1 efeitos que voc\u00ea deliberadamente evita buscar no leitor?<\/strong><\/p>\n<p>Entendo que o papel do escritor \u00e9, antes de tudo, escrever. O leitor, esse, \u00e9 soberano. Por isso, prefiro deixar que cada um construa o seu pr\u00f3prio mundo a partir daquele que proponho nos meus textos.<\/p>\n<p>N\u00e3o cultivo expectativas r\u00edgidas sobre aquilo que o leitor deve sentir ou pensar. Cada pessoa chega \u00e0 literatura com experi\u00eancias, refer\u00eancias e percursos diferentes, e s\u00e3o essas diferen\u00e7as que tornam cada leitura \u00fanica.<\/p>\n<p>H\u00e1 leitores que acompanham <em>A Quinta dos \u00cdmpios<\/em> imaginando-se no lugar do protagonista. Outros identificam nessa personagem algu\u00e9m pr\u00f3ximo de si. Alguns chegam mesmo a pensar que o protagonista sou eu pr\u00f3prio. H\u00e1 ainda aqueles que percorrem caminhos completamente distintos. Todas essas possibilidades s\u00e3o leg\u00edtimas.<\/p>\n<p>A literatura torna-se mais rica quando permite ao leitor participar activamente na constru\u00e7\u00e3o do sentido. Depois da leitura, pouco importa se ele termina a viagem embriagado, inquieto, apaixonado ou at\u00e9 ressentido. Essas experi\u00eancias pertencem-lhe. A obra apenas abre a porta; o percurso passa a ser do leitor.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 um projecto em curso \u2014 livro, colect\u00e2nea, pesquisa, novo g\u00e9nero, revista, oficina ou outra iniciativa \u2014 que ajude a compreender o momento actual da sua escrita?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Para al\u00e9m do livro que publicarei oportunamente, h\u00e1 uma iniciativa que considero particularmente promissora. Trata-se da reedi\u00e7\u00e3o, em forma de di\u00e1logos, dos meus textos sobre <strong><em>A Quinta dos \u00cdmpios<\/em><\/strong>, conduzida por Miguel Chiyo Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>Segundo a sua leitura, muitos leitores encontraram dificuldades para acompanhar a densidade filos\u00f3fica da obra. Da\u00ed nasceu a proposta de converter parte desses textos em di\u00e1logos, tornando-os mais acess\u00edveis sem sacrificar a ess\u00eancia do pensamento que os sustenta.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de ajustar a escrita aos gostos do p\u00fablico, nem de simplificar as ideias para conquistar leitores. Trata-se, antes, de encontrar novas formas de comunica\u00e7\u00e3o que preservem a profundidade da obra e, ao mesmo tempo, ampliem o seu alcance.<\/p>\n<p>Continuo convencido de que o mundo n\u00e3o deixou de ler por falta de tempo; est\u00e1, isso sim, cansado de textos neutros, incapazes de tomar posi\u00e7\u00e3o diante da realidade.<\/p>\n<p>\u00c9 por essa raz\u00e3o que os di\u00e1logos e os cartazes de divulga\u00e7\u00e3o fazem parte de uma mesma estrat\u00e9gia: aproximar novos leitores de uma literatura que procura interpelar o seu tempo, e n\u00e3o apenas entret\u00ea-lo.<\/p>\n<p><strong>Que pr\u00e1tica, escolha ou disciplina recomendaria a quem come\u00e7a a publicar agora? E que conselho comum sobre escrita considera insuficiente ou enganoso?<\/strong><\/p>\n<p>A quem come\u00e7a a publicar, recomendaria, antes de tudo, foco e determina\u00e7\u00e3o. A literatura exige ambos.<\/p>\n<p>Mais do que ler os cl\u00e1ssicos, cultivar experi\u00eancias pessoais ou dialogar com outros autores, aconselharia o escritor principiante a preservar uma faculdade que frequentemente \u00e9 negligenciada: a imagina\u00e7\u00e3o. \u00c9 ela que, muitas vezes, move mundos e torna poss\u00edvel aquilo que parecia irrealiz\u00e1vel.<\/p>\n<p>Diria tamb\u00e9m que n\u00e3o se deixe seduzir pela literatura apressada nem pela escrita com cheiro de automa\u00e7\u00e3o. A boa literatura deixa sempre transparecer o trabalho humano que a sustenta.<\/p>\n<p>Outro conselho \u00e9 que nunca escreva movido exclusivamente pela expectativa da fama. A literatura raramente recompensa de imediato. Exige tempo, persist\u00eancia e, n\u00e3o poucas vezes, solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois da publica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se deixe medir apenas pelo n\u00famero de reac\u00e7\u00f5es, coment\u00e1rios, partilhas ou &#8220;gostos&#8221;. Esses indicadores dizem pouco sobre o verdadeiro alcance de uma obra.<\/p>\n<p>Escreva porque sente que deve escrever. Se o texto possuir valor intr\u00ednseco, ser\u00e1 o tempo e n\u00e3o o algoritmo a encarregar-se de lhe fazer justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Estou convencido de que muitos escritores n\u00e3o fracassam por falta de talento ou de profundidade, mas porque se tornam excessivamente dependentes da aprova\u00e7\u00e3o social. A escrita come\u00e7a quando essa depend\u00eancia termina.<\/p>\n<p><strong>Que pergunta sobre a sua escrita ou sobre a literatura contempor\u00e2nea deveria ter sido feita nesta entrevista e ainda n\u00e3o apa<\/strong>receu?<\/p>\n<p>Perguntar-me-ia qual \u00e9 a palavra que melhor resume a minha escrita.<\/p>\n<p>Responderia sem hesita\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>O sil\u00eancio \u00e9 c\u00famplice.<\/p>\n<p>Mais do que uma frase, \u00e9 um princ\u00edpio \u00e9tico. \u00c9 a ideia que atravessa a minha literatura, os meus ensaios e a forma como procuro olhar para o mundo.<\/p>\n<p>Escrever, para mim, nunca foi um simples exerc\u00edcio est\u00e9tico. \u00c9 uma forma de recusar a cumplicidade diante da injusti\u00e7a, da desumaniza\u00e7\u00e3o e da indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Se, depois da leitura, o sil\u00eancio deixar de parecer uma op\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o a literatura j\u00e1 ter\u00e1 cumprido a sua parte.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/strong><\/p>\n<p><strong>Biografia do escritor<\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?s=Ramos+Ant%C3%B3nio+Amine\">Ramos Ant\u00f3nio Amine<\/a><\/strong>\u00a0consagrou-se como semifinalista da 4\u00aa. do Pr\u00e9mio Liter\u00e1rio Carlos Morgado &#8211; edi\u00e7\u00e3o de 2026. \u00c9 mo\u00e7ambicano, formado em Ensino de Filosofia. Leccionou a disciplina de Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Filosofia, na Escola Secund\u00e1ria S\u00e3o Martinho de Lima &#8211; Diocese de Lichinga, no Niassa e no Col\u00e9gio Nelson Mandela, Cidade de Lichinga. Actualmente, lecciona a disciplina de Filosofia em Massangulo, na prov\u00edncia do Niassa. Dedica-se \u00e0 escrita de poesia cr\u00edtica e de textos liter\u00e1rios marcados pela reflex\u00e3o filos\u00f3fica e social. Tem textos publicados na revista Upile &#8211; uma plataforma digital que promove a divulga\u00e7\u00e3o da cultura do Niassa, n\u00e3o s\u00f3. \u00c9 colunista residente do Jornal Destaque (Maputo) onde assina artigos de opini\u00e3o e textos liter\u00e1rios. Tamb\u00e9m \u00e9 colunista do Jornal Cultural ROL (Brasil), tendo publicado textos dentre eles, \u2018A guardi\u00e3 dos avisos ignorados\u2019, \u2018A prostituta ressuscitada&#8221;, \u2018O c\u00e1lice da prostituta\u2019, \u2018O altar da hipocrisia\u2019, \u2018A comunh\u00e3o dos \u00edmpios\u2019, \u2018A quinta dos \u00edmpios\u2019, \u2018Depois da quinta\u2019, \u2018O terceiro sinal\u2019 e \u2018O quarto sinal\u2019. Produz ainda v\u00eddeos de teor po\u00e9tico, nos quais cruza palavra, pensamento e sensibilidade est\u00e9tica. A sua escrita dialoga com os dilemas contempor\u00e2neos da sociedade mo\u00e7ambicana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre o Niassa e o mundo, Ramos Ant\u00f3nio Amine constr\u00f3i uma escrita que n\u00e3o pede licen\u00e7a para incomodar. Formado em Ensino de Filosofia e professor no norte de Mo\u00e7ambique, ele troca a sala de aula pela p\u00e1gina para dissecar a desumaniza\u00e7\u00e3o do nosso tempo. 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