{"id":40472,"date":"2015-03-19T22:41:07","date_gmt":"2015-03-20T01:41:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=40472"},"modified":"2015-03-19T22:43:30","modified_gmt":"2015-03-20T01:43:30","slug":"racismo-agrava-desigualdade-de-genero-em-brasilia-e-entorno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/racismo-agrava-desigualdade-de-genero-em-brasilia-e-entorno\/","title":{"rendered":"Racismo agrava a desigualdade de g\u00eanero em Bras\u00edlia e Entorno"},"content":{"rendered":"<p>Moradora do Jardim C\u00e9u Azul, em Valpara\u00edso de Goi\u00e1s (GO), P\u00e2mela Valero, de 24 anos, estuda administra\u00e7\u00e3o de empresas e faz est\u00e1gio na Asa Sul. Daqui a alguns semestres, ela integrar\u00e1 a porcentagem de menos de 3% das mulheres negras da periferia metropolitana de Bras\u00edlia com curso superior completo. A jovem sabe que para ela as coisas s\u00e3o mais dif\u00edceis. A m\u00e3e nunca estudou e trabalha como diarista. &#8220;Jamais vou deixar de estudar porque sei que posso mudar minha realidade com o conhecimento; quero ser empres\u00e1ria.&#8221;<\/p>\n<p>A periferia metropolitana de Bras\u00edlia, regi\u00e3o em que P\u00e2mela vive, \u00e9 formada por 12 munic\u00edpios goianos que rodeiam o DF. L\u00e1, 68,83% das mulheres sem instru\u00e7\u00e3o ou com o ensino fundamental incompleto s\u00e3o negras. S\u00e3o negras tamb\u00e9m 68,27% das 90 mil mulheres que ganham at\u00e9 um sal\u00e1rio m\u00ednimo por m\u00eas \u2014 mais da metade das 179 mil mulheres (negras e n\u00e3o negras) que declaram alguma renda (44,76% da popula\u00e7\u00e3o feminina da periferia).<\/p>\n<p>Pr\u00f3ximo ao Dia Internacional de Combate ao Racismo, comemorado em 21 de mar\u00e7o, os n\u00fameros mostram que, aparentemente, as negras t\u00eam um lugar social marcado: a base da pir\u00e2mide.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais grave se compararmos os universos feminino e masculino. Enquanto a renda m\u00e9dia dos homens \u00e9 de R$ 3.439 no DF e de R$ 1.403,66 na periferia metropolitana, a das mulheres \u00e9 de R$ 2.680 e R$ 812,61, respectivamente.<\/p>\n<p>No Distrito Federal, as negras representam 63,94% das mulheres que estudaram pouco e 34,75% daquelas com curso superior. A vendedora ambulante Gabriela Ribeiro Dias, de 21 anos, moradora do Riacho Fundo II, n\u00e3o conseguiu terminar os estudos. &#8220;J\u00e1 fui empregada dom\u00e9stica, cuidei de crian\u00e7a e trabalho na Rodovi\u00e1ria do Plano Piloto h\u00e1 quatro anos&#8221;, conta a jovem. Ela trabalha desde os 13 anos e estudou at\u00e9 o 2\u00ba ano do ensino m\u00e9dio. &#8220;Meu sonho \u00e9 ser bombeira, mas ainda n\u00e3o sei quando vou conseguir realiz\u00e1-lo.&#8221;<\/p>\n<blockquote><p>Dos quase 2 milh\u00f5es de mulheres do DF e da periferia metropolitana de Bras\u00edlia, mais da metade \u00e9 negra. Elas comp\u00f5em 55,01% do quase 1,5 milh\u00e3o de mulheres que vive na unidade da Federa\u00e7\u00e3o. Na periferia metropolitana, representam 65,55% das quase 500 mil mulheres que vivem nos munic\u00edpios. Mesmo assim, ficam menos tempo na escola, ganham sal\u00e1rios mais baixos e s\u00e3o maioria entre as que trabalham na informalidade (no DF, as negras representam 68,77% das trabalhadoras sem carteira de trabalho assinada).<\/p><\/blockquote>\n<p>Os dados foram divulgados em 5 de mar\u00e7o, por meio da pesquisa Mulheres no Distrito Federal e nos Munic\u00edpios Metropolitanos: Perfis da Desigualdade, feita pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) com base no censo demogr\u00e1fico de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/p>\n<p>O estudo trata de diferen\u00e7as socioecon\u00f4micas das mulheres sob a \u00f3tica do racismo e do machismo no Distrito Federal e nos 12 munic\u00edpios goianos que comp\u00f5em a periferia metropolitana de Bras\u00edlia: \u00c1guas Lindas, Alex\u00e2nia, Cidade Ocidental, Cristalina, Cocalzinho, Formosa, Luzi\u00e2nia, Novo Gama, Padre Bernardo, Planaltina, Santo Ant\u00f4nio do Descoberto e Valpara\u00edso.<\/p>\n<p>As estat\u00edsticas mostram que o quadro das desigualdades \u00e9 amplo e interconectado. Para a secret\u00e1ria de Pol\u00edticas para as Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, Marise Nogueira, presente no dia da divulga\u00e7\u00e3o do estudo da Codeplan, a realidade expressa pelos n\u00fameros refor\u00e7a que as diferen\u00e7as entre homens, mulheres negras e n\u00e3o negras s\u00e3o reais.<\/p>\n<p>Ela ressaltou que o racismo faz mais diferen\u00e7a no tecido social do que o pr\u00f3prio machismo da sociedade brasileira, e que ambos s\u00e3o bases da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Com o objetivo de atenuar as disparidades, a secret\u00e1ria adiantou que a pasta, criada em 1\u00ba de janeiro, desenhar\u00e1 pol\u00edticas p\u00fablicas que promovam cidadania plena, digna e para todos com base nos dados. &#8220;Represento uma mulher negra que fugiu a esse quadro, mas isso n\u00e3o deveria ser visto positivamente, porque sou uma exce\u00e7\u00e3o. O papel do Estado \u00e9 criar oportunidades iguais para todos, ainda que n\u00e3o sejamos todos iguais&#8221;, acrescentou Marise.<\/p>\n<p>Segundo a secret\u00e1ria-adjunta de Pol\u00edticas para Igualdade Racial, da Secretaria de Pol\u00edticas para as Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, Vera L\u00facia Ara\u00fajo, as estat\u00edsticas da Codeplan fundamentam teorias e embasam pol\u00edticas p\u00fablicas espec\u00edficas para mulheres negras no DF e na periferia metropolitana.<\/p>\n<p>&#8220;A desigualdade e a diferen\u00e7a salarial marcadas pelo corte de ra\u00e7a \u00e9 determinante para pensarmos a ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o feminino&#8221;, afirma. Vera ressalta que, em todo o Pa\u00eds, as mulheres negras s\u00e3o majoritariamente representadas no mercado de trabalho por empregadas dom\u00e9sticas \u2014 o que varia entre as unidades federativas \u00e9 o sal\u00e1rio recebido: &#8220;A responsabilidade pela exclus\u00e3o da mulher e principalmente da mulher negra \u00e9 responsabilidade total do Estado.&#8221;<\/p>\n<p>Ela lembra que a secretaria formula pol\u00edticas de inclus\u00e3o voltadas para o mercado de trabalho. &#8220;Estudamos fazer um projeto que institui uma pol\u00edtica do afroempreendedorismo, em parceria com a iniciativa privada.&#8221; A ideia \u00e9 capacitar homens e mulheres negros para o mercado de trabalho e investir na est\u00e9tica afro para o aporte das atividades de produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o, como na ind\u00fastria da moda.<\/p>\n<blockquote><p>Para a empregada dom\u00e9stica Ivani de Jesus, de 29 anos, a ideia parece boa. Moradora de Alex\u00e2nia (GO), ela largou os estudos para trabalhar, mas n\u00e3o v\u00ea crescimento na profiss\u00e3o. &#8220;Gostaria de fazer qualquer outro servi\u00e7o. N\u00f3s, mulheres negras, somos mais batalhadoras e sempre estivemos no mercado, pena que n\u00e3o conseguimos os melhores empregos&#8221;, lamenta.<\/p><\/blockquote>\n<p>A secret\u00e1ria-adjunta da pasta acredita que a maior desigualdade entre as mulheres negras e as n\u00e3o negras est\u00e1 no preconceito. &#8220;Homens e mulheres se equiparam em situa\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas&#8221;, explica Vera L\u00facia. Segundo ela, a solidariedade das mulheres n\u00e3o negras em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s negras \u00e9 restrita. &#8220;Comumente, s\u00e3o elas as empregadoras, aquelas que se negam a assinar uma carteira de trabalho&#8221;, observa.<\/p>\n<p>A professora da Universidade de Bras\u00edlia T\u00e2nia Montoro, p\u00f3s-doutora em comunica\u00e7\u00e3o e cultura, acrescenta que, historicamente, a mulher negra brasileira sofre todas as opress\u00f5es de forma transversal: classe, g\u00eanero, idade e ra\u00e7a. &#8220;O homem negro \u00e9 muito machista; as mulheres homossexuais tamb\u00e9m s\u00e3o rejeitadas pela comunidade negra&#8221;, explica. Para ela, a pol\u00edtica atual de combate ao racismo e ao machismo no Brasil \u00e9 fraca, e o foco do Estado deve ser o investimento em educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica de qualidade. &#8220;As negras que hoje chegam \u00e0 universidade e que ascendem no mercado de trabalho dificilmente s\u00e3o as da base social&#8221;, diz.<\/p>\n<p>A pesquisadora ressalta que as pol\u00edticas devem ser voltadas \u00e0 cultura negra, principalmente porque o Brasil \u00e9 um pa\u00eds diverso. &#8220;H\u00e1 um universo da negritude que n\u00e3o conhecemos&#8221;, aponta. &#8220;Temos que usar nossas pol\u00edticas afirmativas para valorizar a cultura e a est\u00e9tica negra e n\u00e3o apenas mascar\u00e1-las.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Gabriela Moll, Ag\u00eancia Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Moradora do Jardim C\u00e9u Azul, em Valpara\u00edso de Goi\u00e1s (GO), P\u00e2mela Valero, de 24 anos, estuda administra\u00e7\u00e3o de empresas e faz est\u00e1gio na Asa Sul. 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