{"id":405450,"date":"2026-08-02T01:15:21","date_gmt":"2026-08-02T04:15:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=405450"},"modified":"2026-08-01T23:03:40","modified_gmt":"2026-08-02T02:03:40","slug":"rodrigo-melo-franco-o-escritor-que-salvou-a-memoria-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/rodrigo-melo-franco-o-escritor-que-salvou-a-memoria-do-brasil\/","title":{"rendered":"Rodrigo Melo Franco, o escritor que salvou a mem\u00f3ria do Brasil"},"content":{"rendered":"<p class=\"PDq2pG_selectionAnchorContainer\" data-start=\"66\" data-end=\"249\">Rodrigo Melo Franco de Andrade dedicou trinta anos a impedir que o Brasil perdesse os vest\u00edgios materiais de sua hist\u00f3ria. Seu pr\u00f3prio livro, no entanto, se perdeu pelo caminho.<\/p>\n<p data-start=\"251\" data-end=\"506\">Em 1936, publicou <em data-start=\"269\" data-end=\"279\">Vel\u00f3rios<\/em>, reuni\u00e3o de oito contos atravessados pela morte, pelos rituais que a cercam e pelo comportamento dos que permanecem vivos. Foi seu \u00fanico livro de fic\u00e7\u00e3o. O t\u00edtulo, seco e exato, nasceu de uma sugest\u00e3o do amigo Manuel Bandeira.<\/p>\n<p>A primeira edi\u00e7\u00e3o foi pequena, custeada pelo pr\u00f3prio autor. Pouco depois do lan\u00e7amento, segundo registrou a imprensa da \u00e9poca, Rodrigo andou recolhendo os exemplares, para espanto dos amigos. N\u00e3o deixou uma explica\u00e7\u00e3o definitiva para o gesto. Pode ter sido excesso de autocr\u00edtica, pudor ou simplesmente a mudan\u00e7a de rumo de quem j\u00e1 come\u00e7ava a ser absorvido por outra obra. O fato \u00e9 que <em data-start=\"894\" data-end=\"904\">Vel\u00f3rios<\/em> desapareceu das livrarias e somente voltaria a ser publicado em 1974, cinco anos depois da morte de seu autor.<\/p>\n<p>Esse contista quase esquecido nasceu em Belo Horizonte, em 1898, no interior de uma fam\u00edlia em que as letras, o Direito e a vida p\u00fablica circulavam com naturalidade. Perdeu o pai aos tr\u00eas anos e foi, em grande parte, criado pelo tio materno Afonso Arinos de Melo Franco, autor de <em data-start=\"1335\" data-end=\"1348\">Pelo sert\u00e3o<\/em>, um dos nomes importantes da literatura regionalista brasileira.<\/p>\n<p data-start=\"1415\" data-end=\"1774\">Aos doze anos, Rodrigo seguiu para Paris, onde viveu na casa do tio e estudou no Lyc\u00e9e Janson-de-Sailly. O ambiente dom\u00e9stico era frequentado por escritores, artistas, pol\u00edticos e intelectuais brasileiros de passagem pela Fran\u00e7a. Antes mesmo de tomar parte nas discuss\u00f5es modernistas, portanto, Rodrigo j\u00e1 havia crescido entre livros e conversas sobre o pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"PDq2pG_selectionAnchorContainer\" data-start=\"2160\" data-end=\"2480\">Rodrigo tamb\u00e9m se formou em Direito. Na juventude, sonhou tornar-se jurista e produzir um alentado estudo sobre a a\u00e7\u00e3o declarat\u00f3ria. O tratado jamais foi escrito. A advocacia, assim como a literatura, acabaria cedendo espa\u00e7o a uma atividade que, naquele momento, ainda nem sequer existia de maneira organizada no Brasil.<\/p>\n<p data-start=\"2482\" data-end=\"2871\">Sua produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica foi m\u00ednima. Manuel Bandeira o incluiu entre os poetas bissextos, aqueles que escreviam versos apenas em ocasi\u00f5es raras. No caso de Rodrigo, talvez fosse o mais bissexto de todos: publicou poemas na revista <em data-start=\"2709\" data-end=\"2719\">Est\u00e9tica<\/em>, mas deixou apenas uma presen\u00e7a discreta no g\u00eanero. A prosa de fic\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se resumiu aos contos de <em data-start=\"2822\" data-end=\"2832\">Vel\u00f3rios<\/em>.<\/p>\n<p class=\"PDq2pG_selectionAnchorContainer\" data-start=\"2873\" data-end=\"3250\">A escassez da obra n\u00e3o deve ser confundida com afastamento do meio liter\u00e1rio. Rodrigo participou ativamente da vida intelectual de seu tempo. Come\u00e7ou no jornalismo em 1921, escreveu cr\u00edtica liter\u00e1ria, trabalhou em <em data-start=\"3087\" data-end=\"3097\">O Jornal<\/em> e passou pela <em data-start=\"3112\" data-end=\"3131\">Revista do Brasil<\/em>. Aproximou-se de M\u00e1rio de Andrade e conviveu com os jovens escritores que consolidavam o Modernismo no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p data-start=\"3252\" data-end=\"3613\">Ele n\u00e3o esteve entre os protagonistas da Semana de Arte Moderna de 1922. Sua participa\u00e7\u00e3o ocorreu depois, quando o movimento deixava de ser apenas um gesto de ruptura e come\u00e7ava a se transformar numa investiga\u00e7\u00e3o do Brasil. Rodrigo pertenceu \u00e0 gera\u00e7\u00e3o que procurou reconhecer o pa\u00eds em sua arquitetura, em suas cidades antigas, em seus documentos e em sua arte.<\/p>\n<p data-start=\"3615\" data-end=\"3852\">Com Manuel Bandeira, a rela\u00e7\u00e3o ultrapassava os encontros liter\u00e1rios. Eram amigos muito pr\u00f3ximos. Na intimidade, Rodrigo chamava o poeta de Manula. Bandeira, por sua vez, encontrou poucos versos para definir o amigo em <em data-start=\"3833\" data-end=\"3851\">Mafu\u00e1 do Malungo<\/em>:<\/p>\n<p><em>Como melhor precisar<\/em><br data-start=\"3876\" data-end=\"3879\" \/><em>esta palavra amizade?<\/em><br data-start=\"3902\" data-end=\"3905\" \/><em>Nomeando o amigo exemplar:<\/em><br data-start=\"3933\" data-end=\"3936\" \/><em>Rodrigo M. F. de Andrade.<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o foi casual, portanto, que Bandeira tenha sugerido o t\u00edtulo de <em data-start=\"4031\" data-end=\"4041\">Vel\u00f3rios<\/em>. A amizade continuou dentro da casa de Rodrigo. O poeta tornou-se padrinho de seu filho Joaquim Pedro de Andrade, que seria um dos grandes diretores do Cinema Novo, autor de filmes como <em data-start=\"4228\" data-end=\"4239\">Macuna\u00edma<\/em> e <em data-start=\"4242\" data-end=\"4260\">Os inconfidentes<\/em>.<\/p>\n<p data-start=\"4263\" data-end=\"4677\">Em 1959, Joaquim Pedro filmou o padrinho em <em data-start=\"4307\" data-end=\"4327\">O poeta do Castelo<\/em>. O curta-metragem acompanha Bandeira em seu apartamento e nas ruas do centro do Rio, em cenas simples de sua rotina. O poeta cozinha, arruma a casa, caminha pela cidade e l\u00ea os pr\u00f3prios versos. Por tr\u00e1s daquele filme estava uma conviv\u00eancia iniciada muito antes de o jovem cineasta pensar em empunhar uma c\u00e2mera.<\/p>\n<p class=\"PDq2pG_selectionAnchorContainer\" data-start=\"4679\" data-end=\"4999\">No mesmo ano em que publicou <em data-start=\"4708\" data-end=\"4718\">Vel\u00f3rios<\/em>, Rodrigo come\u00e7ou a participar do projeto que mudaria sua vida. Em 1936, por indica\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio de Andrade e do pr\u00f3prio Manuel Bandeira, foi chamado pelo ministro Gustavo Capanema para organizar o servi\u00e7o federal destinado \u00e0 prote\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e art\u00edstico brasileiro.<\/p>\n<p data-start=\"5001\" data-end=\"5391\">O Servi\u00e7o do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional foi oficialmente institu\u00eddo em 1937. Rodrigo assumiu sua dire\u00e7\u00e3o e permaneceu no cargo at\u00e9 1967, atravessando governos, crises pol\u00edticas e mudan\u00e7as administrativas. Durante tr\u00eas d\u00e9cadas, o patrim\u00f4nio tornou-se sua ocupa\u00e7\u00e3o principal. A literatura, o jornalismo e o Direito foram ficando para tr\u00e1s.<\/p>\n<p class=\"PDq2pG_selectionAnchorContainer\" data-start=\"5393\" data-end=\"5782\">O SPHAN encontrou um pa\u00eds que conhecia mal os pr\u00f3prios monumentos. Igrejas, casar\u00f5es, esculturas, pinturas, documentos e conjuntos urbanos permaneciam expostos ao abandono, \u00e0s reformas destrutivas e ao interesse de comerciantes que retiravam obras de seus lugares de origem. N\u00e3o havia invent\u00e1rio abrangente, pol\u00edtica continuada de conserva\u00e7\u00e3o nem uma estrutura p\u00fablica preparada para agir.<\/p>\n<p data-start=\"5784\" data-end=\"6146\">Sob a dire\u00e7\u00e3o de Rodrigo, come\u00e7aram os levantamentos, os tombamentos e as obras de restaura\u00e7\u00e3o. Formaram-se arquivos, reuniu-se um acervo fotogr\u00e1fico e criou-se uma biblioteca especializada. Museus foram organizados. Pesquisadores passaram a percorrer cidades antigas, localizar documentos e estudar artistas cuja obra ainda permanecia dispersa ou mal conhecida.<\/p>\n<p data-start=\"6148\" data-end=\"6485\">Rodrigo tamb\u00e9m compreendeu que n\u00e3o bastava preservar edif\u00edcios. Era necess\u00e1rio produzir conhecimento sobre eles. Criou uma linha editorial pr\u00f3pria, da qual fizeram parte as publica\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas do \u00f3rg\u00e3o e a <em data-start=\"6355\" data-end=\"6409\">Revista do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional<\/em>. O SPHAN tornou-se, ao mesmo tempo, reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica e centro de estudos.<\/p>\n<p class=\"PDq2pG_selectionAnchorContainer\" data-start=\"6487\" data-end=\"6928\">Para isso, ele mobilizou a rede intelectual de que fazia parte. M\u00e1rio de Andrade participou da formula\u00e7\u00e3o inicial do projeto. Manuel Bandeira escreveu o <em data-start=\"6640\" data-end=\"6660\">Guia de Ouro Preto<\/em>. Carlos Drummond de Andrade trabalhou durante anos na institui\u00e7\u00e3o. Arquitetos, historiadores e pesquisadores foram chamados a colaborar. Rodrigo tinha a capacidade de reunir pessoas muito diferentes em torno de um trabalho comum.<\/p>\n<p data-start=\"6930\" data-end=\"7215\">O Modernismo chegava, assim, ao interior do Estado. A gera\u00e7\u00e3o que havia come\u00e7ado contestando a cultura oficial passou a decidir o que deveria ser reconhecido como patrim\u00f4nio nacional. Aquilo que antes era assunto de escritores, artistas e estudiosos transformou-se em pol\u00edtica p\u00fablica.<\/p>\n<p data-start=\"7217\" data-end=\"7526\">N\u00e3o se tratava apenas de conservar pr\u00e9dios antigos. Ao escolher os bens que mereciam prote\u00e7\u00e3o, o SPHAN ajudava a formar uma imagem do Brasil. Durante os primeiros anos, essa imagem foi constru\u00edda principalmente em torno da arquitetura colonial, das cidades hist\u00f3ricas mineiras, do barroco e da arte religiosa.<\/p>\n<p data-start=\"7528\" data-end=\"7913\">Era uma escolha compreens\u00edvel dentro daquele momento, mas n\u00e3o abrangia toda a experi\u00eancia cultural brasileira. Durante muito tempo, manifesta\u00e7\u00f5es populares e bens ligados a outros grupos sociais permaneceram fora do centro da pol\u00edtica patrimonial. Preservar nunca \u00e9 um ato neutro. Aquilo que se protege adquire visibilidade; o que fica de fora corre o risco de desaparecer em sil\u00eancio.<\/p>\n<p class=\"PDq2pG_selectionAnchorContainer\" data-start=\"7915\" data-end=\"8241\">A limita\u00e7\u00e3o n\u00e3o diminui a import\u00e2ncia da obra realizada. Antes de Rodrigo Melo Franco de Andrade, a prote\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio dependia de iniciativas isoladas e frequentemente tardias. Depois dele, passou a existir uma responsabilidade p\u00fablica definida, acompanhada de conhecimento t\u00e9cnico, documenta\u00e7\u00e3o e instrumentos jur\u00eddicos.<\/p>\n<p data-start=\"8243\" data-end=\"8550\">A imprensa tra\u00e7ou certa vez o retrato de um homem recolhido em seu gabinete, atormentado pela perda de uma igreja, de um convento ou de uma imagem antiga. Enquanto outros viam apenas constru\u00e7\u00f5es envelhecidas, Rodrigo enxergava partes de uma hist\u00f3ria comum que n\u00e3o poderiam ser refeitas depois de destru\u00eddas.<\/p>\n<p data-start=\"8552\" data-end=\"8869\">A mesma reportagem dizia que ele havia renunciado, ainda jovem, a v\u00e1rios futuros. Poderia ter seguido carreira no Direito, continuado no jornalismo ou insistido na literatura. Preferiu dedicar a maior parte da vida a uma institui\u00e7\u00e3o ainda incerta, em um pa\u00eds que raramente se mostrava cuidadoso com o pr\u00f3prio passado.<\/p>\n<p data-start=\"8871\" data-end=\"9133\">Essa escolha acabou encobrindo o escritor. Rodrigo Melo Franco de Andrade tornou-se uma refer\u00eancia incontorn\u00e1vel na hist\u00f3ria da preserva\u00e7\u00e3o cultural brasileira, mas <em data-start=\"9036\" data-end=\"9046\">Vel\u00f3rios<\/em> permaneceu durante d\u00e9cadas como uma lembran\u00e7a entre amigos, cr\u00edticos e colecionadores.<\/p>\n<p>Rodrigo morreu no Rio de Janeiro, em 1969. Deixou um \u00fanico volume de fic\u00e7\u00e3o e uma outra obra, a de preserva\u00e7\u00e3o, at\u00e9 hoje espalhada pelo Brasil.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><br \/>\n<strong>Daniel Marchi \u00e9 poeta, contista, advogado e professor universit\u00e1rio no Rio de Janeiro. Editor do Caf\u00e9 Liter\u00e1rio e fundador da Editora Fava. Autor de <em data-start=\"149\" data-end=\"170\">A Verdade nos Seres<\/em> (poesia, 2024) e <em data-start=\"196\" data-end=\"217\">Territ\u00f3rio do Sonho<\/em> (contos, 2026). @prof.danielmarchi.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rodrigo Melo Franco de Andrade dedicou trinta anos a impedir que o Brasil perdesse os vest\u00edgios materiais de sua hist\u00f3ria. Seu pr\u00f3prio livro, no entanto, se perdeu pelo caminho. Em 1936, publicou Vel\u00f3rios, reuni\u00e3o de oito contos atravessados pela morte, pelos rituais que a cercam e pelo comportamento dos que permanecem vivos. 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