{"id":405466,"date":"2026-08-02T08:48:08","date_gmt":"2026-08-02T11:48:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=405466"},"modified":"2026-08-02T10:53:29","modified_gmt":"2026-08-02T13:53:29","slug":"conquista-do-voto-feminino-no-brasil-resistiu-a-misoginia-historica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/conquista-do-voto-feminino-no-brasil-resistiu-a-misoginia-historica\/","title":{"rendered":"Conquista do voto feminino no Brasil resistiu \u00e0 misoginia hist\u00f3rica"},"content":{"rendered":"<p>Os ataques ecoam pelo tempo. \u201cMinha mulher n\u00e3o ir\u00e1 votar\u201d, disse o senador constituinte Coelho e Campos, em 1891. No mesmo ano, outro parlamentar, Serzedelo Corr\u00eaa, afirmou que jogar a mulher no meio das paix\u00f5es e das lutas pol\u00edticas \u00e9 \u201ctirar-lhe a santidade\u201d.<\/p>\n<p>Depois de 135 anos, mais discursos violentos reaparecem. &#8220;Mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras. As casadas costumam acompanhar o marido&#8221;, afirmou o influenciador Paulo Figueiredo (neto do ex-presidente Jo\u00e3o Figueiredo).<\/p>\n<p>Os reiterados discursos machistas que atacam o voto feminino ao longo da hist\u00f3ria do Brasil podem ser compreendidos em diferentes facetas como rea\u00e7\u00f5es aos avan\u00e7os da cidadania das mulheres, segundo afirmam estudiosas do tema do sufr\u00e1gio em entrevistas \u00e0 Ag\u00eancia Brasil. Elas explicam que, do ponto de vista hist\u00f3rico e pol\u00edtico, o que chama a aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o ineditismo do discurso, mas a continuidade e as amea\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>\u201cLuta permanente\u201d<\/strong><br \/>\nPor outro lado, h\u00e1 inspira\u00e7\u00f5es concretas hist\u00f3ricas, por parte das experi\u00eancias da luta sufragista, para a\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia. \u201cA linguagem mudou, mas a l\u00f3gica patriarcal, mis\u00f3gina e machista \u00e9 a mesma\u201d, afirma a professora de direito Fernanda Abreu, da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN).<\/p>\n<p>A estudiosa destaca que o voto feminino no Brasil foi uma conquista obtida contra a resist\u00eancia do Estado e da sociedade machista. N\u00e3o foi uma concess\u00e3o espont\u00e2nea. \u201cDireitos n\u00e3o se mant\u00eam sozinhos. Eles exigem luta permanente\u201d, diz.<\/p>\n<p>Fernanda avalia que essas manifesta\u00e7\u00f5es questionando o voto da mulher ressurgiram, em 2026, com uma for\u00e7a \u201cperturbadora\u201d.<\/p>\n<p>\u201cParece absurdo, mas \u00e9 verdade. Do ponto de vista jur\u00eddico-constitucional, qualquer discurso que questione o voto feminino no Brasil viola o Artigo 14 da Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, que estabelece o sufr\u00e1gio universal sem distin\u00e7\u00e3o de sexo\u201d, explica.<\/p>\n<p>A professora acrescenta que o discurso ataca o Artigo 5\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o, que veda qualquer tipo de discrimina\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de inconstitucionais, as manifesta\u00e7\u00f5es operariam um discurso criminoso. Ela pondera que h\u00e1 iniciativas para acionar a Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica para tratar \u201cdessa quest\u00e3o grav\u00edssima\u201d.<\/p>\n<p>A pesquisadora diz que as falas do influenciador Paulo Figueiredo conectam-se diretamente com o movimento antifeminista norte-americano, que defende abertamente o fim do sufr\u00e1gio feminino.<\/p>\n<p><strong>Intelig\u00eancia diferenciada<\/strong><br \/>\nDo ponto de vista hist\u00f3rico, a pesquisadora Cibele Ten\u00f3rio, da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), assinala que a recorr\u00eancia dos ataques em mais de um s\u00e9culo \u00e9 \u201cabsurda\u201d, mas n\u00e3o surpreende em uma estrutura de machismo estrutural.<\/p>\n<p>\u201cAs sufragistas do s\u00e9culo 20 lutaram e tiveram intelig\u00eancia diferenciada para garantir o direito para todas n\u00f3s\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Jornalista e doutoranda em hist\u00f3ria, Cibele \u00e9 bi\u00f3grafa da sufragista alagoana Almerinda Gama (1899 &#8211; 1999). Almerinda foi uma das primeiras mulheres negras a atuar na pol\u00edtica brasileira.<\/p>\n<p>Cibele Ten\u00f3rio pondera que, diante de ataques que chegam ao tempo presente, \u00e9 necess\u00e1rio manter aten\u00e7\u00e3o a toda e qualquer amea\u00e7a, ainda que n\u00e3o se transforme em uma hipot\u00e9tica e inimagin\u00e1vel proposta de revoga\u00e7\u00e3o de direitos de mulheres. No entanto, as ofensivas antig\u00eanero podem fazer parte de uma estrat\u00e9gia que barre evolu\u00e7\u00f5es de direitos.<\/p>\n<p>\u201cMas podem, de alguma forma, gerar inc\u00f4modo ou desest\u00edmulo \u00e0 participa\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 muito perigoso.\u201d Cibele lembra que, em 1890, a Constituinte brasileira rejeitou o sufr\u00e1gio feminino, alegando incapacidade da mulher para a pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Intimida\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>\nEm 2026, em um cen\u00e1rio em que as mulheres representam mais de 53% do eleitorado brasileiro, atacar o voto feminino reveste-se tamb\u00e9m em uma estrat\u00e9gia de intimida\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, apontam as pesquisadores.<\/p>\n<p>Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), est\u00e3o aptas a votar, em 2026, 83.877.126 brasileiras. Os homens somam 74.845.001. Em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel educacional formal, a maior faixa das mulheres est\u00e1 no ensino m\u00e9dio completo (29,28%, contra 26,35% dos homens). Terminaram a faculdade 13,08% das eleitoras (contra 9,1% dos homens).<\/p>\n<p>Eis um cen\u00e1rio de resist\u00eancia: as mulheres s\u00e3o maioria da popula\u00e7\u00e3o brasileira (51,5%), minorizadas em direitos, e desestimuladas ao mercado de trabalho ou para a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Conforme explica a professora Hildete Pereira, pesquisadora de economia e g\u00eanero da Universidade Federal Fluminense (UFF), a luta n\u00e3o se tornou simples porque, no Brasil, o est\u00edmulo \u00e0s mulheres \u00e9 para a fun\u00e7\u00e3o de cuidadora, e n\u00e3o de representante.<\/p>\n<p>Entre as mulheres que v\u00e3o votar neste ano, 51,76% s\u00e3o pardas, 10,96%, pretas e 35,71% brancas. Outras estat\u00edsticas divulgadas pelo TSE d\u00e3o conta que 50% das eleitoras declararam-se solteiras.<\/p>\n<p>As pesquisadoras ouvidas pela reportagem dizem que esses discursos integram o que a teoria feminista tem chamado de backlash (express\u00e3o que pode ser traduzida como \u201cretalia\u00e7\u00e3o\u201d) por parte dos homens. A cada evolu\u00e7\u00e3o de direitos, surge pela estrutura mis\u00f3gina alguma tentativa de viola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cQuanto mais as mulheres avan\u00e7am, mais as estruturas que sustentam a misoginia, o patriarcado e o machismo resistem\u201d, diz Fernanda Abreu, da UERN.<\/p>\n<p><strong>Espa\u00e7os de viol\u00eancia<\/strong><br \/>\nAs pesquisadoras identificam que a primeira Constitui\u00e7\u00e3o Republicana, a de 1891, rejeitou explicitamente o sufr\u00e1gio feminino com o argumento oficial de que a mulher era intelectualmente incapaz para a vida p\u00fablica e que ela deveria se limitar ao espa\u00e7o dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>Entre os ataques comuns, no plano social e cultural, as sufragistas eram ridicularizadas inclusive na imprensa, nas rodas sociais, e chamadas de \u201cmulheres-homens\u201d. Isso porque a mulher casada era legalmente definida como dependente do marido, e a solteira, dependente do pai.<\/p>\n<p>A professora e historiadora Ana Prestes, da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), acrescenta que a ridiculariza\u00e7\u00e3o na imprensa, inclusive, ocorria, por exemplo, de forma ilustrada.<\/p>\n<p>\u201cA gente tem, nessa \u00e9poca, muitas charges em que aparecem o homem de avental na casa e a mulher com o terno na rua para ridicularizar. Principalmente aqueles homens que chegaram a defender o voto da mulher.\u201d<\/p>\n<p>Segundo contextualiza a professora Fernanda Abreu, da UERN, esse argumento era usado para negar \u00e0s mulheres a capacidade do voto consciente. \u201cNo \u00e2mbito jur\u00eddico individual, em 1919, a Leolinda Daltro [1859-1935], que foi a fundadora do Partido Republicano Feminino e uma das l\u00edderes mais combativas do sufragismo, teve sua candidatura \u00e0 Intend\u00eancia Municipal do Distrito Federal negada pelo Poder P\u00fablico.\u201d<\/p>\n<p>Inclusive, Leolinda Daltro foi uma das pessoas mais massacradas pela imprensa brasileira da \u00e9poca, segundo a professora e historiadora Ana Prestes. \u201c[Os jornais] encontravam forma de colocar a atividade dela como se fosse praticamente uma baderneira, uma mulher que queria quebrar tudo\u201d, afirma.<\/p>\n<p>As pesquisadoras exemplificam que o C\u00f3digo Eleitoral de 1932 chegou a incluir a exig\u00eancia de autoriza\u00e7\u00e3o do marido para que a mulher casada pudesse votar. A cl\u00e1usula s\u00f3 foi retirada do texto final depois de muita press\u00e3o das sufragistas. \u201cNada ocorreu sem luta e intelig\u00eancia estrat\u00e9gica para conseguir aliados nessa causa\u201d, explica Cibele Ten\u00f3rio, doutoranda na UnB.<\/p>\n<p>Elas s\u00e3o da opini\u00e3o de que a resist\u00eancia ao voto feminino n\u00e3o foi ligada \u00e0 quest\u00e3o de um conservadorismo pontual. Foi institucionalizada como pol\u00edtica p\u00fablica e norma jur\u00eddica.<\/p>\n<p>As estudiosas assinalam que a trajet\u00f3ria de press\u00e3o feminina tem um marco no ano de 1910 com o Partido Republicano Feminino, a primeira legenda desse g\u00eanero que, em 1917, promoveu uma marcha de 90 mulheres pelo centro do Rio de Janeiro defendendo a causa.<\/p>\n<p>As sufragistas criaram jornais e escolas para debater o tema. Inclusive para contrapor os discursos machistas que escorriam pelas p\u00e1ginas dos jornais tradicionais.<\/p>\n<p>Diante dessa efervesc\u00eancia cultural e cient\u00edfica das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20, as mulheres buscavam diferentes direitos, segundo explica a professora de ci\u00eancia pol\u00edtica Marlise Matos, do N\u00facleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).<\/p>\n<p>Ela explica que as mulheres lutavam por duas outras grandes agendas \u2013 maior acesso \u00e0 escolariza\u00e7\u00e3o e ao mercado de trabalho. \u201cMas, sem d\u00favida, a conquista do voto feminino era fundamental para a cidadania efetiva. Isso foi travado com muita tens\u00e3o e disputas\u201d, diz.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso que Bertha Lutz (1894-1976) ficou reconhecida como um dos principais nomes dessa batalha. \u201cEla sabia acionar pessoas e conversar inclusive com os mais conservadores em busca de aliados\u201d, diz Cibele Ten\u00f3rio.<\/p>\n<p>A Federa\u00e7\u00e3o Brasileira pelo Progresso Feminino, em 1922, articulou governadores, pressionou o Congresso e organizou manifesta\u00e7\u00f5es. \u201cUsou a imprensa nacional e internacional e estabeleceu muitas conex\u00f5es com o movimento sufragista global\u201d, acrescenta a estudiosa Fernanda Abreu, da UERN.<\/p>\n<p><strong>Avan\u00e7o legislativo<\/strong><br \/>\nAs pesquisadoras ouvidas pela Ag\u00eancia Brasil entendem que o marco mais importante \u00e9 o Decreto 21.076 de 1932, o primeiro c\u00f3digo eleitoral brasileiro a garantir o direito de as mulheres irem \u00e0s urnas e tamb\u00e9m de votarem secretamente. O direito foi solidificado na Constitui\u00e7\u00e3o de 1934. O Brasil tornou-se o quarto pa\u00eds do Ocidente a garantir o sufr\u00e1gio feminino (depois do Canad\u00e1, Estados Unidos e Equador).<\/p>\n<p>No C\u00f3digo Eleitoral de 1946, o voto feminino passa a ser obrigat\u00f3rio para mulheres alfabetizadas. Esse novo marco completou 80 anos em maio. A Constitui\u00e7\u00e3o, promulgada em 18 setembro do mesmo ano, confirma a regra. A \u00faltima Carta, a de 1988, eliminou o requisito da alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para a professora da UFMG Marlise Matos, o Estado brasileiro tem que reafirmar o seu compromisso com os direitos pol\u00edticos das mulheres brasileiras e refor\u00e7ar campanhas informativas e publicit\u00e1rias sobre a participa\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ana Prestes, da UnB, aponta que um caminho da resist\u00eancia \u00e9 o refor\u00e7o nos processos de educa\u00e7\u00e3o formal. \u201cUma coisa que eu observo nas minhas pesquisas \u00e9 que muitas sufragistas eram professoras ou atuavam em cursos.&#8221;<\/p>\n<p>\u201cEram pessoas que defendiam o ensinamento e a criatividade tamb\u00e9m\u201d, completa. Ela recorda que Bertha Lutz chegou a arrumar um avi\u00e3o para fazer um sobrevoo com panfletos, no Rio de Janeiro. \u201cEram ousadas, persistentes e h\u00e1beis articuladoras\u201d, diz a professora e historiadora<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio romper com o apagamento e com a invisibilidade de mulheres que lutaram por grandes causas, como a do voto feminino, a da educa\u00e7\u00e3o e a do trabalho, defende a professora Hildete Pereira, pesquisadora da UFF.<\/p>\n<p>A depend\u00eancia financeira funcionaria como um obst\u00e1culo social de subalternidade, inclusive no tempo presente. Al\u00e9m disso, o pr\u00f3prio mercado de trabalho garante sal\u00e1rios melhores aos homens em vista do machismo estrutural. Historicamente, segundo salienta, pol\u00edticas p\u00fablicas devem refor\u00e7ar o papel da mulher na sociedade, como em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u201cEssas mulheres do final do s\u00e9culo 19 e in\u00edcio do s\u00e9culo 20 nos ensinam, tanto tempo depois, que \u00e9 preciso participar e n\u00e3o desistir\u201d, ressalta Hildete Pereira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os ataques ecoam pelo tempo. \u201cMinha mulher n\u00e3o ir\u00e1 votar\u201d, disse o senador constituinte Coelho e Campos, em 1891. No mesmo ano, outro parlamentar, Serzedelo Corr\u00eaa, afirmou que jogar a mulher no meio das paix\u00f5es e das lutas pol\u00edticas \u00e9 \u201ctirar-lhe a santidade\u201d. 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