{"id":405910,"date":"2026-08-08T01:00:28","date_gmt":"2026-08-08T04:00:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=405910"},"modified":"2026-08-05T18:07:06","modified_gmt":"2026-08-05T21:07:06","slug":"adega-do-bairro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/adega-do-bairro\/","title":{"rendered":"Adega do bairro"},"content":{"rendered":"<p>Sempre comprei vinho no mercado, os de l\u00e1 me parecem suficientemente bons, n\u00e3o me deixam mal no dia seguinte e os pre\u00e7os cabem em meu bolso de assalariado m\u00e9dio. Mas \u00e9 que haver\u00e1 um jantar. N\u00e3o \u00e9 nenhum baile de gala, mas \u00e9 de um pessoal bem transado, que fala de lugares, pa\u00edses, o tipo descolado, ou que se faz de, e certamente manja de bebida, especialmente de vinho. Eu n\u00e3o entendo muito, somente o necess\u00e1rio para me sentir bem bebendo e n\u00e3o me desfalcar as contas no fim do m\u00eas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o esse jantar me parece a ocasi\u00e3o de entrar ali pela primeira vez. Ao abrir a porta, recebo um golpe suave de ar climatizado e sinto um perfume bom de desodorizador misturado ao cheiro de madeira de m\u00f3vel bom, certamente s\u00e3o as estantes em que repousam garrafas inclinadas com o gargalo para baixo. Tudo bem diferente do mercado.<\/p>\n<p>Um sujeito, n\u00e3o sei se o dono, me recebe bem, o que \u00e9 o m\u00ednimo que se exige de quem ganha a vida vendendo alguma coisa. Explico a situa\u00e7\u00e3o, diminuo a voz para falar do pre\u00e7o. \u00c9 que al\u00e9m dele h\u00e1 um outro homem na loja, encostado \u00e0 ponta do balc\u00e3o. \u00c9 gordo, cara vermelha sanguinolenta, cabelo grosso quase todo branco. Belo e bem tratado cabelo. Usa ray-ban tradicional, aquele de aviador. Mesmo dentro da loja, mant\u00e9m os \u00f3culos. Lembra aqueles generais americanos dos filmes sobre a Guerra do Vietn\u00e3. Os dois conversam quando entro, mas se calam comigo perto do balc\u00e3o. \u00c9 quando o dono, ou sei l\u00e1 o que ele \u00e9 ali, vem com aten\u00e7\u00e3o para cima de mim. O dubl\u00ea de general\u00e3o se cala, bebe um gole de vinho, e \u00e9 quando reparo que h\u00e1 uma ta\u00e7a em cima do balc\u00e3o. Reparo tamb\u00e9m que me olha. Ou melhor, pressinto que me olha, pois n\u00e3o tira os \u00f3culos. Na verdade, mais do que olha: me examina, de alto a baixo, eu tenho certeza.<\/p>\n<p>\u201cCom esse aqui voc\u00ea n\u00e3o faz vergonha\u201d, o outro sujeito me estende uma garrafa de r\u00f3tulo gren\u00e1 com uma bicicleta antiga desenhada em dourado. \u201cTouriga nacional, portugu\u00eas padr\u00e3o que funciona com tudo. 2013. 46, dentro do seu or\u00e7amento. Bom custo-benef\u00edcio\u201d, ele resume enquanto decido. O general se anima, e d\u00e1 de falar sobre a produ\u00e7\u00e3o do vinho. Explica a qualidade da terra, a inclina\u00e7\u00e3o do terreno das videiras, a madeira da barrica. Ou\u00e7o sem querer ouvir, sem interesse. Meu interesse por vinhos se limita a beb\u00ea-los. N\u00e3o me importa como s\u00e3o produzidos, de modo que nada da explana\u00e7\u00e3o influir\u00e1 em minha decis\u00e3o, mas sorrio, cordato, em sua dire\u00e7\u00e3o. \u201cVou levar\u201d, e entrego a garrafa ao sujeito que vende. Ele e a garrafa me passam seguran\u00e7a, muito mais do que minhas escolhas no mercado, \u00e0s vezes feito loteria. Saio satisfeito com uma bolsinha comprida, de palha e a marca da loja, mas antes de fechar a porta, escuto o sujeito do ray-ban fazer pouco caso da minha compra. Parece-me que desmerece a vin\u00edcola, ou mesmo a uva, sei l\u00e1, diz algo como \u201clugar comum demais\u201d. Mas n\u00e3o me importo. Sigo confiante na compra e na certeza de que n\u00e3o farei vergonha.<\/p>\n<p>E realmente n\u00e3o fa\u00e7o. \u201cDelicioso! Foi voc\u00ea quem escolheu?\u201d, e a anfitri\u00e3 pergunta. Respondo que sim com um gesto de cabe\u00e7a e falsa humildade, mas sei que n\u00e3o devo me embevecer. A minha garrafa \u00e9 a quarta ou quinta a ser aberta, quando todo vinho que se bebe n\u00e3o parece mal. Mas incentivado pela performance convincente, volto \u00e0 loja duas semanas depois. Vou pedir pizza de pepperoni, ser\u00e1 apenas eu comigo, nada nem ningu\u00e9m de especial, e nesses casos a compra no mercado resolve bem demais. Mas, v\u00e1 l\u00e1, \u00e9 in\u00edcio de m\u00eas, h\u00e1 ainda algum f\u00f4lego para o sal\u00e1rio, e o vinho do sujeito atencioso que parece dono pode n\u00e3o ser da outra gal\u00e1xia, mas ganha com algumas cabe\u00e7as de vantagem de minhas op\u00e7\u00f5es de sempre no mercado.<\/p>\n<p>\u201cEsse sangiovese vai resolver o seu problema\u201d, e ele me estende uma garrafa em que leio Prodotto in Italia. 52 pratas, mais caro que o portugu\u00eas da primeira vez. J\u00e1 se garante que ganhou o fregu\u00eas e come\u00e7a a me empurrar os mais caros, penso r\u00e1pido, mas aceito, o pre\u00e7o ainda est\u00e1 no quadrado do or\u00e7amento. \u201cOs italianos que chegam ao Brasil est\u00e3o bem abaixo do que eles produzem l\u00e1, \u00e9 uma estranha regra do mercado que tem uma explica\u00e7\u00e3o\u201d, e algu\u00e9m diz do canto do balc\u00e3o. Quem? Eu n\u00e3o havia reparado, mas, virando uma ta\u00e7a, est\u00e1 o ros\u00e1ceo general de filmes, escorado ao balc\u00e3o. Desta vez, o ray-ban est\u00e1 pendurado no bolso da camisa, um camis\u00e3o branco, bem largo para caber seu tamanho, por isso noto que olha com uma v\u00edrgula de desprezo para a garrafa que ser\u00e1 minha t\u00e3o logo a maquininha do cart\u00e3o aceite minha senha. \u201cOs verdadeiros italianos chegam aqui por 400, 450 mangos\u201d, e ele desfia um ros\u00e1rio de supostas raz\u00f5es para o pre\u00e7o. N\u00e3o sei se realmente manja de vinhos, mas h\u00e1 algo em que ele \u00e9 realmente bom: dar opini\u00e3o sem ser consultado. Sorrio. Pego a bolsinha com a garrafa e vou embora pensando na pizza.<\/p>\n<p>\u201cSuponho que voc\u00ea saiba que um tempranillo harmoniza com carnes grelhadas. Tamb\u00e9m vai bem com massa\u201d, e novamente sem que eu pe\u00e7a ou pergunte algo, aquela vermelhid\u00e3o grisalha e balofa, de ta\u00e7a na m\u00e3o, se imiscui na minha conversa com o dono, ou o que quer que o outro seja ali (\u00e9 a terceira vez na loja e n\u00e3o descubro nem me interesso muito por sua fun\u00e7\u00e3o). \u201cN\u00e3o, n\u00e3o sei\u201d, respondo com educa\u00e7\u00e3o. Quero apenas resolver o vinho e voltar para casa, sem ter aulas que n\u00e3o pedi. Mesmo com o ambiente climatizado, a rubra criatura sua na testa, enquanto despeja com emp\u00e1fia um conhecimento de en\u00f3logo que n\u00e3o tenho como comprovar. Estou ali por causa da sugest\u00e3o de algu\u00e9m do trabalho \u2013 \u201cesse espanhol \u00e9 fora de s\u00e9rie\u201d \u2013 e mostro o nome do vinho nas notas do celular. \u201cN\u00e3o estamos tendo, mas este aqui \u00e9 espanhol tamb\u00e9m e \u00e9 ainda melhor\u201d, e o da loja vem com o outro vinho, o tal tempranillo, movimento suficiente para que red ballom se meta de novo onde n\u00e3o \u00e9 chamado, onde, ali\u00e1s, nunca \u00e9 chamado. \u201c\u00c9 porque as pessoas acham que obrigatoriamente o vinho s\u00f3 por ser espanhol deve ser bebido com o paella. \u00c9 o mesmo erro de achar que todo portugu\u00eas vai bem com bacalhau. Isso \u00e9 ignor\u00e2ncia que, creio, n\u00e3o seja o caso do amigo\u201d, e remexe a ta\u00e7a, fazendo girar os dois dedos de tinto que h\u00e1 l\u00e1 dentro. Est\u00e1 sem \u00f3culos. No esc\u00e1rnio dos olhos, me chama de burro. \u201cN\u00e3o, amigo, n\u00e3o \u00e9 pra paella, nem sou de frutos do mar\u201d, respondo, com sorriso de civilidade. \u201c98\u201d, e o que vende diz o pre\u00e7o quando pergunto. Enrugo a testa e lamento. Estou fora, estourou o or\u00e7amento, ainda mais em fim de m\u00eas. \u201cProcuro algo na faixa de 50, no m\u00e1ximo\u201d, digo baixo, como se fizesse uma confiss\u00e3o de envergonhar pai, m\u00e3e e filhos. Na verdade, nem \u00e9 tanto por vergonha, \u00e9 sim para que o homem ao lado n\u00e3o escute e n\u00e3o continue enfiando sua colher. Mas \u00e9 em v\u00e3o, ele insiste em opinar e agora faz at\u00e9 muxoxo: \u201cUm vinho decente n\u00e3o se encontra por menos de 300\u201d. Sorrio, protocolar. Isso era quase dez por cento do meu sal\u00e1rio. Invi\u00e1vel, portanto. O dois j\u00e1 devem ter pescado que sou um desbravador com limites curtos nesse mundo papagaiado do vinho. \u201cAbaixo desse patamar\u201d, prossegue a figura vermelha que parece acoplada ao balc\u00e3o, \u201csai mais neg\u00f3cio tomar \u2018litr\u00e3o\u2019 da Skol ali na esquina\u201d, e aponta, debochado, na dire\u00e7\u00e3o do boteco. Sinto o golpe. De vez em quando dou as caras no botequim, mas n\u00e3o encaro qualquer cerveja, ao contr\u00e1rio do que ele pensa, ou parece que pensa. Eu deveria explicar isso, mas me fa\u00e7o de desentendido. O dono, ou sei l\u00e1 o qu\u00ea, sorri amarelo, constrangido. Parece perceber que aquele ap\u00eandice do mobili\u00e1rio pode at\u00e9 gastar bastante na loja, mas sua boca irrefre\u00e1vel talvez em algum momento impe\u00e7a que outros gastem, mesmo que nem tanto. Penso no mercado. Talvez esteja mesmo l\u00e1 o meu patamar.<\/p>\n<p>O rinoceronte rosa-choque guarda uma caracter\u00edstica comum aos pingu\u00e7os, sejam de que n\u00edvel for: a incontin\u00eancia verbal. \u201cQuando voc\u00ea leva um vinho prum evento, ele diz muito de voc\u00ea. Vinho mais ou menos \u00e9 sinal de uma vida mais ou menos, que o cara arrasta na mediocridade. Agora, se voc\u00ea leva um r\u00f3tulo de respeito, as pessoas te olham com respeito. Pensam \u2018esse cara a\u00ed n\u00e3o \u00e9 qualquer coisa, \u00e9 um cara diferenciado\u201d. Acho que \u00e9 uma maneira rasa de se classificar algu\u00e9m que n\u00e3o se conhece, mas permane\u00e7o calado, com um sorriso indecifr\u00e1vel. Tenho essa caracter\u00edstica, as pessoas nunca sabem o que me passa pela cabe\u00e7a. Por sua vez, ele prossegue em sua infelicidade vocabular. \u201cEsse a\u00ed que voc\u00ea pensa em levar deve ser para temperar a salada, n\u00e9, amigo? Para limpar o frango antes de assar\u201d, e d\u00e1 uma gargalhada confessa de esc\u00e1rnio. O que creio como dono ri sem gra\u00e7a, sabendo que na verdade o melhor seria n\u00e3o acompanhar a piada. \u201cEu volto outro dia\u201d, e, sorrindo, sustentando simpatia, devolvo a garrafa que cheguei a examinar com certo interesse. Tomo o rumo de casa, perco a vontade de vinho, desisto at\u00e9 do mercado, e saio achando que n\u00e3o pisarei mais ali.<\/p>\n<p>Mas passa a semana, a quinzena, passa o m\u00eas. Indo para casa, um cheiro de pizza na lenha, que abriram ali perto, me vem \u00e0s narinas como fazem as flores mais perfumadas. Entro no mercado; afinal, ali \u00e9 o meu lugar. O problema \u00e9 que sou tomado por um fastio tal daqueles r\u00f3tulos, que eles me parecem at\u00e9 desbotados. N\u00e3o pode dar certo guardar vinho daquele jeito, as garrafas na vertical, com luz e calor do dia batendo em cima. Vinho n\u00e3o \u00e9 groselha. Sem me atinar, olho com desd\u00e9m aquelas garrafas que me passam acidez exagerada e nenhum veludo. Saio sem nada nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u201cCom licen\u00e7a\u201d, abro a porta da loja decidido e animado a contar sobre a vontade de pizza. O anexo ros\u00e1ceo do balc\u00e3o n\u00e3o est\u00e1, mas logo noto a ta\u00e7a com dois dedos de tinto no canto do balc\u00e3o em que ele costuma ficar. \u00c9 improv\u00e1vel que seja de outra pessoa. O que me atende com ares de dono me pergunta que sabor ser\u00e1 a pizza, e ent\u00e3o quando digo que devo me decidir por uma napolitana, ou\u00e7o um barulho de descarga no fundo da loja e em seguida um baque de porta fechando. O rubro paquiderme retoma seu posto. Realmente o sujeito parece n\u00e3o fazer nada na vida que n\u00e3o seja beber vinho empoleirado naquele balc\u00e3o. Mant\u00e9m a praxe de me olhar de alto a baixo, mas dessa vez fica calado, n\u00e3o mete o bedelho quando fecho a compra de um italiano que me sai por 60 \u201ce que \u00e9 produzido em regi\u00f5es com tradi\u00e7\u00e3o de pratos com presunto, portanto, cair\u00e1 bem com a napolitana\u201d, conforme me garante o sujeito que sempre saca da manga alguma explica\u00e7\u00e3o para que eu tenha a certeza de que estou fazendo um \u00f3timo neg\u00f3cio. Enquanto pego o cart\u00e3o na carteira, me ocorre que o dono, gerente, sommelier ou um simples vendedor afiado, tenha se virado com raiva para a baleia rosa, pedindo \u201cveja se cala essa boca quando tiver cliente na loja, sen\u00e3o daqui a pouco n\u00e3o vendo mais uma garrafa\u201d.<\/p>\n<p>Mas parece que n\u00e3o. Se disse, o efeito foi passageiro.<\/p>\n<p>\u00c9 o que constato dez dias depois. Invariavelmente, o sujeito est\u00e1 l\u00e1 na mesma posi\u00e7\u00e3o, como se fosse realmente um dos m\u00f3veis da loja. Uma ta\u00e7a cheia est\u00e1 \u00e0 sua frente. O rosto vermelho absorve a r\u00e9stia de luz da tarde que transpassa a pel\u00edcula dos vidros da porta. Seus olhos me perscrutam, \u00e0 espreita do momento em que poder\u00e1 esnobar. Trago uma embalagem pl\u00e1stica em que carrego um belo contrafil\u00e9, pronto para virar destro\u00e7o em minha boca. \u00c9 do mesmo mercado dos vinhos que tenho desprezado ultimamente. Agora l\u00e1 vende comida pronta, de olho em gente que, feito eu, \u00e9 in\u00fatil na beira de um fog\u00e3o. Falo do bife. \u201c\u00c9 tannat, malbec ou cabernet sauvignon, n\u00e3o tem erro. Com carne, n\u00e3o h\u00e1 como fugir do Uruguai, da Argentina ou do Chile\u201d, e o que vende d\u00e1 a senten\u00e7a. Mesmo com meus poucos conhecimentos, sei que est\u00e1 correto, a julgar pelo que leio de vez em quando nessas colunas sobre vinho. Escolho a cabernet, n\u00e3o porque prefira o Chile, mas porque \u00e9 a garrafa que sai mais em conta, uns 10 paus a menos. \u201cTem um corpo intenso, voc\u00ea n\u00e3o vai se arrepender\u201d, e recebo os parab\u00e9ns quando fecho a compra. O outro, o cativo do balc\u00e3o, me olha, bebe do vinho, desvia os olhos para a parede, faz aquela cara de quem foi chamado a dar um parecer, a cara de quem cuja opini\u00e3o o mundo n\u00e3o pode passar sem. Ri, n\u00e3o se segura. \u201cVoc\u00ea est\u00e1 de brincadeira\u201d, e eu e o dono o fitamos: quem est\u00e1 de brincadeira? \u00c9 como se pergunt\u00e1ssemos. \u201cCorpo \u00e9 isso aqui\u201d, e ergue a ta\u00e7a, girando-a. A luz da tarde rompe o cristal, provoca um belo efeito girante na bebida. \u201cCorpo intenso, toque de amora. E que final! Voc\u00ea deveria experimentar\u201d, e se volta para mim, s\u00f3 que \u00e9 como se lamentasse c\u00ednica e maldosamente: \u201cMas sei que n\u00e3o tem como. \u201c400. N\u00e3o \u00e9 isso?\u201d, e se volta para o que parece dono, querendo confirmar o pre\u00e7o. \u201cE 20. 420\u201d, sem gra\u00e7a, o outro corrige. A caricatura de general veste um camis\u00e3o azul. Com a pele vermelha feito pau-brasil e a cabeleira branca, parece mesmo a bandeira dos yankees. Faz cara de \u201c\u00e9 pros que podem\u201d olhando o vinho que toma, e acaba<br \/>\nsoltando \u201cQue uva batida \u00e9 essa cabernet. Qualquer Z\u00e9 Ruela toma\u201d, fazendo com um dos bra\u00e7os um gesto largo carregado de desprezo. S\u00f3 n\u00e3o contava esbarrar na garrafa da qual toma. Ela mergulha de ponta-cabe\u00e7a, se espatifa no ch\u00e3o, e em um segundo, o vinho que ainda havia l\u00e1 dentro \u2013 metade praticamente \u2013 se espalha pelo piso de cimento queimado que banca o estilo r\u00fastico-chique. Recebo na barra da cal\u00e7a alguns respingos daquelas 420 pratas. Noto que o gargalo est\u00e1 inteiro, bem como o alto da garrafa, e dele sai uma ponta de cerca de um palmo em forma de lan\u00e7a. Parece haver um leve desn\u00edvel no piso, pois, tendo mantido na queda a forma circular, o enorme caco rola e acaba junto aos meus p\u00e9s. \u00c9 uma arma forjada pelo acaso do incidente. Curvo-me e apanho o destro\u00e7o pontiagudo, molho levemente de vinho a m\u00e3o esquerda, a que uso para segurar facas e ferramentas. \u201cQue merda que eu fiz\u201d, o sujeito lamenta-se. \u201cBem, desce outra\u201d, e imediatamente ordena, sustentando a emp\u00e1fia. Mas quando se volta novamente para mim, arregala os olhos, aqueles mesmos com os quais costuma me observar, superior. S\u00f3 que agora, no lugar de superioridade, deboche, desd\u00e9m e esc\u00e1rnio, h\u00e1 um pavor repentino. \u201cCom qual uva deve se parecer o sangue de um homem?\u201d, eu pergunto, sorriso tranquilo no canto dos l\u00e1bios, chegando com o caco perto de seu pesco\u00e7o. \u201cAragonez? Shirah? Nero D\u2019Avola?\u201d, e aproximo ainda mais o vidro daquele pesco\u00e7o que se assemelha ao de um sapo. A vermelhid\u00e3o de seu rosto perde rapidamente o vi\u00e7o, em segundos torna-se um acinzentado empalidecido. \u201cCarmenere? Merlot?\u201d, e encosto levemente a ponta do caco na jugular que salta de horror. \u201cHein? Ser\u00e1 que o aspecto do sangue de um homem depende do organismo de cada um, assim como a qualidade da uva depende da terra e da inclina\u00e7\u00e3o do solo?\u201d, e sorrio calmo, como se estivesse em um mosteiro. O dono da adega tamb\u00e9m empalidece, faz uma express\u00e3o de quem n\u00e3o tem como avaliar se sou realmente um louco, talvez um psicopata em surto. Com o caco encostado ao pesco\u00e7o do balofo, sorrio, e sem desviar os olhos dele, pergunto ao dono qual vinho ali harmoniza com um belo peda\u00e7o de art\u00e9ria picada em rodelas. Solto uma gargalhada, mas logo me recomponho, sereno na apar\u00eancia. \u201cQue brincadeira boba, amigo&#8230; vamos ficar de boa\u201d, e a r\u00e9plica barata de general das tropas no Vietn\u00e3 inicia um tom de s\u00faplica. \u201cPensando bem, acho que essa coisa inchada que t\u00e1 saltando do teu pesco\u00e7o s\u00f3 merece mesmo Skol litr\u00e3o\u201d, e solto outra gargalhada. O dono tamb\u00e9m ri, n\u00e3o se segura, mas \u00e9 \u00f3bvio que \u00e9 um riso de pavor, pavor que eu d\u00ea um banho de sangue naquele piso bem transado e na madeira refinada do balc\u00e3o. \u201cE o corpo do sangue de um homem? Um homem babaca, por exemplo. Ser\u00e1 m\u00e9dio? Intenso?\u201d, e for\u00e7o mais a ponta do caco em sua pele. Ele agora treme e esbarra na ta\u00e7a, que tamb\u00e9m vai ao ch\u00e3o e se espatifa. L\u00e1 se foi o resto dos 420 mangos. \u201cHoje voc\u00ea est\u00e1 desperdi\u00e7ando muito, amigo\u201d, e agora sou eu o dono do esc\u00e1rnio. \u201cPerd\u00e3o, por favor, vamos parar com isso\u201d, ele balbucia. O dono n\u00e3o age, certamente porque tem a certeza de que a qualquer movimento seu, eu rasgo aquele porco inteiro pelo pesco\u00e7o e sua loja ficar\u00e1 conhecida pela desgra\u00e7a e n\u00e3o pela qualidade dos vinhos. \u201cEnt\u00e3o, responda: que tipo de corpo deve ter o sangue de um homem? Um cara escroto, ot\u00e1rio. Quer que eu te ajude a conferir?\u201d, e a ponta do caco esfola levemente a pele. \u201cPelo amor de Deus, amigo&#8230;\u201d. Falta pouco para chorar. Onde a emp\u00e1fia, o deboche? \u201cResponde! Qual o corpo do sangue de um filho da puta que tem o pesco\u00e7o rasgado por um caco de vidro?\u201d, e grito at\u00e9 o meio da frase, reduzindo drasticamente a voz dali at\u00e9 a interroga\u00e7\u00e3o. \u201cM\u00e9dio&#8230;talvez\u201d, e ele sua, mas agora a temperatura de seu suor \u00e9 certamente mais baixa do que a da climatiza\u00e7\u00e3o da adega. \u201cTem certeza?\u201d, e grito, for\u00e7ando mais o caco. Um pouco mais e realmente furo o cara. \u201cSer\u00e1 mesmo? Voc\u00ea com esse tanto de colesterol que deve ter \u00e9 capaz de ser corpo intenso\u201d, e solto outra gargalhada. \u201cSim, certamente deve ser\u201d, ele concorda, e dessa vez o tom \u00e9 o de pedir clem\u00eancia. \u00c9 quando um cheiro forte de merda sobe pelo ambiente, superando o desodorizador e o perfume da madeira. \u201cAmigo, por favor, ele t\u00e1 passando mal&#8230;\u201d, e o dono, apavorado, aponta para baixo, para as pernas do general\u00e3o. \u201cQue coisa feia, que falta de educa\u00e7\u00e3o\u201d, sorrio debochado, \u201cum homem t\u00e3o requintado, t\u00e3o conhecedor dos melhores vinhos&#8230; cagando nas cal\u00e7as\u201d, e solto uma meia gargalhada. \u201cVamos, ent\u00e3o, resolver logo isso\u201d, e imprenso com mais for\u00e7a em sua carne o caco da garrafa. Ele treme, geme, parece certo de que morrer\u00e1 ali, cagando, ap\u00f3s meia garrafa de vinho caro. Ent\u00e3o deslizo o caco pelo seu pesco\u00e7o, abrindo um pouco a pele, mas sem sangrar. Passo pelo ombro e paro no alto do bra\u00e7o. Nesse ponto, enfio o vidro e abro um corte de uns cinco cent\u00edmetros. O sangue escorre, rapidamente chega ao balc\u00e3o. Ele grita. O dono congela. Volto logo com o caco na dire\u00e7\u00e3o de seu pesco\u00e7o, e mesmo nauseado com o cheiro de bosta, consigo dizer que \u201cIsso \u00e9 para voc\u00ea toda vez que olhar esse rasgo, parar e repetir para voc\u00ea mesmo: como eu sou um babaca, como eu sou um escroto, como eu sou um ot\u00e1rio. Combinado?\u201d e for\u00e7o o vidro contra a pele, abrindo uma pequena ferida que certamente sumir\u00e1 com mertiolate. Entre l\u00e1grimas, ele solu\u00e7a \u201cSim, sim\u201d. Pego a garrafa que comprei e vou andando de costas, sempre empunhando o caco. Quando abro a porta e ponho o primeiro p\u00e9 na cal\u00e7ada, o dono, enfim, vai acudi-lo. Sua roupa est\u00e1 vermelha e h\u00e1 uma po\u00e7a de sangue no balc\u00e3o, pingando no soalho r\u00fastico-chique, formando outra po\u00e7a que mistura tamb\u00e9m vinho e o l\u00edquido marrom viscoso da merda que lhe desceu pelas pernas.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Andr\u00e9 Giusti, do livro As Filhas Moravam com Ele, Editora Caos e Letras, 2023<\/strong><br \/>\n<strong>Semifinalista do Pr\u00eamio Oceanos<\/strong><\/p>\n<p><strong>*<a href=\"https:\/\/www.andregiusti.com.br\/site\/\">https:\/\/www.andregiusti.com.br\/site\/<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre comprei vinho no mercado, os de l\u00e1 me parecem suficientemente bons, n\u00e3o me deixam mal no dia seguinte e os pre\u00e7os cabem em meu bolso de assalariado m\u00e9dio. Mas \u00e9 que haver\u00e1 um jantar. 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