{"id":406272,"date":"2026-08-15T01:15:35","date_gmt":"2026-08-15T04:15:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=406272"},"modified":"2026-08-08T21:37:18","modified_gmt":"2026-08-09T00:37:18","slug":"memorias-que-o-cacto-guardou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/memorias-que-o-cacto-guardou\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias que o cacto guardou"},"content":{"rendered":"<p>Quatro casas, onde viviam quatro n\u00facleos de uma mesma fam\u00edlia, davam para o mesmo p\u00e1tio, separado da rua por um antigo port\u00e3o de ferro. O ch\u00e3o, coberto de cimento grosseiro e pedras dispostas a intervalos irregulares, guardava as marcas do tempo e dos muitos passos daquela fam\u00edlia. Ao centro, em um grande canteiro quadrado cercado por vasos de plantas, erguia-se, sobranceiro e generoso, o cacto.<\/p>\n<p>Era enorme e crescera abrindo seus muitos bra\u00e7os. Forte e grosso, resistia ao vento que, vez ou outra, atravessava o p\u00e1tio e chegava \u00e0s janelas das casas, onde assobiava feroz. Testemunha silenciosa de tudo que o cercava, tolerava, manso, as crian\u00e7as menores, que temiam seus espinhos e se admiravam com suas raras flores, e as maiores, que lhe deixavam marcas com estiletes.<\/p>\n<p>Gravavam nomes e datas, fazendo escorrer o leite que minha av\u00f3 classificava como perigoso:<\/p>\n<p>\u2014 Cuidado, menino. Lave bem a m\u00e3o. Esse leite cega.<\/p>\n<p>Os cortes cicatrizavam e deixavam mensagens para os anos vindouros. Mensagens que subiam com o crescimento do cacto, tornando-se maiores e mais largas.<\/p>\n<p>A casa ficava em outra cidade, no interior, onde eu passava as f\u00e9rias. Ao fundo do p\u00e1tio ficava a casa de meus av\u00f3s maternos. Na casa ao lado vivia uma filha deles, minha tia, com o marido e tr\u00eas filhos, meus primos. No lado oposto, morava outra tia, vi\u00fava, m\u00e3e de uma prima que vivia longe. Na \u00faltima casa, uma prima mais distante com seus filhos.<\/p>\n<p>A chegada das f\u00e9rias era o momento que eu mais aguardava no ano. Desde que me entendia por gente, passava-as na casa de minha av\u00f3. Ali, eu, garoto da cidade, sentia-me livre. Podia brincar na rua, andar de bicicleta e sair com meus primos e outros garotos em busca de aventuras que, para mim, eram sempre desafiadoras, embora n\u00e3o passassem de pescarias e subidas a um morro pr\u00f3ximo, de onde se avistava uma bela paisagem.<\/p>\n<p>Mas era no p\u00e1tio, bem maior do que nosso apartamento, que eu encontrava tudo de que precisava: mais c\u00e9u, mais sol e o vento no rosto. Passava horas \u00e0 toa no ch\u00e3o ou sobre uma esteirinha de vime, perto do cacto, contemplando a imensid\u00e3o do c\u00e9u sem perceber o tempo.<\/p>\n<p>Nem sempre, por\u00e9m, quis ficar pr\u00f3ximo daquele vegetal imenso.<\/p>\n<p>Lembro-me das recomenda\u00e7\u00f5es de minha av\u00f3. N\u00e3o podia chegar t\u00e3o perto nem p\u00f4r a m\u00e3o no cacto. Tinha de tomar cuidado com os espinhos quando passava de bicicleta. Meu primo ca\u00e7ula e eu apost\u00e1vamos para ver quem completava mais depressa a volta inteira no p\u00e1tio, contornando o cacto, passando junto ao port\u00e3o que dava para a rua e, no sentido oposto, pela porta do barrac\u00e3o existente nos fundos. O barrac\u00e3o tinha sa\u00edda para a rua de tr\u00e1s e abrigava a oficina mec\u00e2nica de meu av\u00f4.<\/p>\n<p>Com tantos alertas, justificava-se \u2014 ou eu justificava para mim mesmo \u2014 o medo que crescia dentro de mim.<\/p>\n<p>O cacto.<\/p>\n<p>Mergulho ainda mais fundo em minhas lembran\u00e7as e o vejo durante as chuvas de ver\u00e3o, iluminado \u00e0 noite pelos rel\u00e2mpagos. Da janela do quarto onde dormia, enxergava-o por detr\u00e1s de uma parede de \u00e1gua que ca\u00eda do c\u00e9u em torrentes. Nas noites de tempestade, sua silhueta fazia dele uma criatura sinistra, cheia de bra\u00e7os que pareciam tent\u00e1culos irregulares e amea\u00e7adores, com uma pele p\u00e1lida e esverdeada sob a claridade azulada dos rel\u00e2mpagos.<\/p>\n<p>Durante o dia, n\u00e3o me inspirava menos terror. Houve per\u00edodos em que eu evitava ficar sozinho perto dele. Temia que se convertesse em uma criatura capaz de se mover e tocar meu ombro. Mesmo depois de crescer, ainda respeitava seu sil\u00eancio misterioso e n\u00e3o ousava ferir-lhe a carne com um estilete.<\/p>\n<p>At\u00e9 que conheci Ana.<\/p>\n<p>Tinha cabelos pretos e longos e vestia-se toda de rosa. Do alto de meus doze anos, apaixonei-me instantaneamente por ela, que tinha apenas dez. Talvez me atra\u00edsse sua apar\u00eancia de menina intoc\u00e1vel e distante, que n\u00e3o se comovia com meus galanteios infantis, ou a franja que lhe completava a express\u00e3o brava. Havia nela alguma coisa misteriosa, que me inspirava quase o mesmo receio que o cacto. Uma forma silenciosa de dizer: \u201cN\u00e3o chegue t\u00e3o perto.\u201d<\/p>\n<p>Ela parecia maior do que era. Eu, menor.<\/p>\n<p>Ana tamb\u00e9m viera passar as f\u00e9rias com parentes na cidade. Fez amizade com minhas primas e logo estava brincando conosco no p\u00e1tio.<\/p>\n<p>As meninas nunca haviam despertado minha aten\u00e7\u00e3o. Ana foi a primeira. Julguei-me crescido, quase um homem, diante do que sentia por ela. Bastava ouvir sua voz no p\u00e1tio para que eu interrompesse o que estivesse fazendo e me aproximasse. Ela gostava de brincar comigo, embora nem desconfiasse do que despertara em mim. As horas ao seu lado passavam voando.<\/p>\n<p>Ana ficou poucos dias e depois foi embora. Prometi escrever-lhe, e ela me deu seu endere\u00e7o. Escrevi.<\/p>\n<p>Passei um ano esperando que voltasse. Nas f\u00e9rias seguintes, l\u00e1 estava ela, ainda mais linda a meus olhos, depois dos intermin\u00e1veis dias que antecederam nosso reencontro.<\/p>\n<p>Foi ali, perto do cacto, que, num arroubo de coragem, me declarei a meu modo.<\/p>\n<p>Meu av\u00f4 me dera um canivete de cabo preto marmorizado, cuja bainha cheirava a couro. Aquele objeto, que conservo at\u00e9 hoje, me dera uma enorme alegria. Com o canivete, tornei-me valente. Sentia-me invenc\u00edvel, cheio de habilidades. Fui ent\u00e3o fustigar o corpo do cacto, tatuando em um de seus bra\u00e7os as palavras: \u201cAna \u2014 Danilo \u2014 Amor\u201d.<\/p>\n<p>O leite escorria generoso das veias profundas daquele monstro inerte, brotando \u00e0 medida que eu abria em sua carne as letras irregulares com a ponta do canivete. Quando terminei, chamei Ana para ver a inscri\u00e7\u00e3o. Surpresa, ainda sem compreender a dimens\u00e3o que aquele sentimento tinha para mim, ela segurou minha m\u00e3o e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Que lindo, Petit.<\/p>\n<p>Ana sempre usava, para se dirigir a mim, o apelido que minhas primas me haviam dado por eu ser bem menor do que os outros meninos de minha idade. A princ\u00edpio, n\u00e3o gostava do ep\u00edteto, mas havia algo diferente e carinhoso na maneira como ela me chamava. Meus olhos se encheram de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Dali em diante, at\u00e9 o fim de sua estada, n\u00e3o nos desgrudamos mais. \u00cdamos juntos aos passeios organizados pela garotada, brinc\u00e1vamos em dupla e pass\u00e1vamos longos minutos sentados no ch\u00e3o, perto do cacto e da inscri\u00e7\u00e3o que eu fizera.<\/p>\n<p>Em uma daquelas manh\u00e3s, eu estava na varanda ao lado de minha av\u00f3. Ela bordava sentada em uma cadeira de vime. Enquanto esperava que me chamassem para o caf\u00e9 da manh\u00e3, tamb\u00e9m aguardava a chegada de Ana. Em determinado momento, ouvi a voz de minha m\u00e3e, l\u00e1 de dentro:<\/p>\n<p>\u2014 Danilinho, vem pegar seu caf\u00e9 com leite!<\/p>\n<p>Corri para dentro, pretendendo retornar logo para junto de minha av\u00f3. Quando me aproximava da varanda, percebi que Ana j\u00e1 havia chegado. Sem que ela me visse, ouvi o di\u00e1logo entre as duas:<\/p>\n<p>\u2014 Bom dia, dona Nena!<\/p>\n<p>\u2014 Bom dia, minha linda! Madrugou para vir brincar com as meninas?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Na verdade, vim ver o Petit.<\/p>\n<p>Naquele instante, tive certeza de que eu era seu favorito, a raz\u00e3o de ter vindo t\u00e3o cedo \u00e0 nossa casa.<\/p>\n<p>O dia de nos despedirmos chegou novamente. Ana deixaria a cidade antes de mim. Naquela tarde, vi-a entrar no carro da fam\u00edlia para voltar para casa. Depois, fui para o p\u00e1tio e chorei de saudade, deitado na esteirinha de vime sob a sombra angulosa do cacto.<\/p>\n<p>Troquei v\u00e1rias cartinhas com ela antes das f\u00e9rias seguintes. Encontramo-nos de novo no outro ano. Eu j\u00e1 tinha catorze anos. Ela, doze.<\/p>\n<p>Dessa vez, por\u00e9m, foi diferente. Ana j\u00e1 n\u00e3o permanecia t\u00e3o pr\u00f3xima de mim e preferia passar as horas com minhas primas. Eu ouvia risinhos e cochichos quando me aproximava. De alguma forma, ela me evitava. Senti-me menos querido e menos importante, mas n\u00e3o compreendia o que estava acontecendo.<\/p>\n<p>At\u00e9 que, de dentro de casa, ouvi uma conversa entre ela e minhas primas na varanda. Ana dizia que gostava de um tal Wagner, seu colega de turma. Minhas primas, interessadas, queriam saber como era o rapaz.<\/p>\n<p>Naquela tarde e em v\u00e1rias outras, chorei sozinho perto do cacto, sem me interessar pelas brincadeiras ou pelas aventuras do grupo. Aquela dor durou muito al\u00e9m das f\u00e9rias.<\/p>\n<p>A primeira vez que fui \u00e0 casa de meus av\u00f3s fora do per\u00edodo de f\u00e9rias come\u00e7ou com um telefonema. N\u00e3o est\u00e1vamos em casa, e nossa secret\u00e1ria eletr\u00f4nica gravara o recado. Quando chegamos, ouvimos uma \u00fanica mensagem. Era meu tio, que dizia laconicamente:<\/p>\n<p>\u2014 Quando puderem, liguem para c\u00e1. Dona Nena n\u00e3o est\u00e1 bem.<\/p>\n<p>Na casa de meus av\u00f3s n\u00e3o havia telefone. Certamente meu tio ligara da casa de dona Regina, uma das vizinhas. Minha m\u00e3e telefonou imediatamente para ela, que confirmou que ele estivera ali e contou que minha av\u00f3 passara mal depois do almo\u00e7o e estava internada.<\/p>\n<p>Partimos naquela mesma noite. Era inverno e fazia muito frio. Quando chegamos, minha av\u00f3 j\u00e1 havia morrido, e a casa estava sendo arrumada para o vel\u00f3rio, realizado, como se fazia ent\u00e3o, na sala. Pomp\u00edlio, dono da \u00fanica funer\u00e1ria da cidade, colocara os suportes para o caix\u00e3o, o crucifixo prateado e os pedestais para os c\u00edrios. J\u00e1 sa\u00eda com meu tio em dire\u00e7\u00e3o ao hospital da cidade vizinha, a fim de providenciar a libera\u00e7\u00e3o do corpo.<\/p>\n<p>Nunca vira os meus t\u00e3o transtornados. Tampouco estivera t\u00e3o pr\u00f3ximo da morte repentina de algu\u00e9m que amava.<\/p>\n<p>Velamos durante toda a noite o corpo de minha pobre av\u00f3. Pensei que n\u00e3o suportaria olhar para ela quando chegasse, mas v\u00ea-la ali, cercada de flores e coberta por um v\u00e9u, trouxe-me uma serenidade que n\u00e3o compreendi.<\/p>\n<p>No ver\u00e3o seguinte, minha maior preocupa\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o estava nas brincadeiras com minhas primas nem nas aventuras com a garotada da vizinhan\u00e7a. Eu queria passar mais tempo com meu velho av\u00f4, que fechara a oficina mec\u00e2nica e n\u00e3o estava bem de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Pela primeira vez, entraria naquela casa t\u00e3o querida sem encontrar a figura alegre e amorosa de minha av\u00f3. N\u00e3o vi mais a inscri\u00e7\u00e3o: \u201cAna \u2014 Danilo \u2014 Amor\u201d.<\/p>\n<p>Contaram-me que, poucas semanas depois da morte de minha av\u00f3, minha tia mexia nos vasos dispostos ao redor do cacto, replantando algumas mudas que precisavam de cuidados. Nessa ocasi\u00e3o, uma prima entrou de bicicleta no p\u00e1tio, desequilibrou-se e caiu sobre o cacto.<\/p>\n<p>Ela chorava, com o bra\u00e7o ensanguentado. Meu av\u00f4, ao v\u00ea-la, pegou um fac\u00e3o que guardava na oficina e decepou o velho cacto rente ao ch\u00e3o. Depois, cobriu com cimento o lugar onde ele estivera plantado por tantos anos. Os vasos que o cercavam foram dispostos sobre sua l\u00e1pide.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 estava com quinze anos e quase n\u00e3o pensava em Ana. Ainda assim, parei diante daquele quadrado de cimento e procurei, entre os vasos, alguma coisa que j\u00e1 n\u00e3o estava ali: o cacto, nossos nomes, minha av\u00f3, talvez o menino que eu havia sido.<\/p>\n<p>Meu av\u00f4, envelhecido de repente, chamou-me da varanda.<\/p>\n<p>Senti o canivete dentro do bolso e fui sentar-me ao lado dele.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><br \/>\n<strong>Daniel Marchi \u00e9 poeta, contista, advogado e professor universit\u00e1rio no Rio de Janeiro. Editor do Caf\u00e9 Liter\u00e1rio e fundador da Editora Fava, \u00e9 autor de <em>A Verdade nos Seres<\/em> (poesia, 2024) e\u00a0 <em>Territ\u00f3rio do Sonho<\/em> (contos, 2026). Instagram: @prof.danielmarchi.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quatro casas, onde viviam quatro n\u00facleos de uma mesma fam\u00edlia, davam para o mesmo p\u00e1tio, separado da rua por um antigo port\u00e3o de ferro. 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