{"id":407049,"date":"2026-08-22T01:15:36","date_gmt":"2026-08-22T04:15:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=407049"},"modified":"2026-08-15T01:27:38","modified_gmt":"2026-08-15T04:27:38","slug":"os-pilares-da-escrita-de-elaine-dos-santos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/os-pilares-da-escrita-de-elaine-dos-santos\/","title":{"rendered":"Os pilares da escrita de Elaine dos Santos"},"content":{"rendered":"<p>O despertar liter\u00e1rio da escritora e ensa\u00edsta <strong>Elaine dos Santos<\/strong> remonta aos oito anos de idade, quando sua primeira &#8220;composi\u00e7\u00e3o&#8221; escolar foi dissecada e elogiada, marcando o in\u00edcio de uma rela\u00e7\u00e3o vital com a palavra escrita. Embora a vida tenha exigido o pragmatismo do trabalho formal, a paix\u00e3o pelos livros seguiu inabal\u00e1vel e se consolidou em uma carreira acad\u00eamica e docente de duas d\u00e9cadas na \u00e1rea de Letras. Como pesquisadora financiada pelo CNPq, sua escrita amadureceu entre resumos, fichamentos e orienta\u00e7\u00f5es, desaguando em uma vasta produ\u00e7\u00e3o profissional de 39 artigos cient\u00edficos qualificados, teses e disserta\u00e7\u00f5es, que pavimentaram seu caminho natural rumo \u00e0 literatura autoral.<\/p>\n<p>Nesta entrevista exclusiva para <strong>Vozes da Literatura,<\/strong> a professora aposentada e especialista em Sociologia da Literatura compartilha as nuances de seu processo criativo, revelando sua prefer\u00eancia clara pela cr\u00f4nica devido \u00e0 agilidade do formato e \u00e0 necessidade de corre\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica para tratar de temas cotidianos. Ao analisar a literatura sob a \u00f3tica da <em>Est\u00e9tica da Recep\u00e7\u00e3o<\/em>, Elaine reflete sobre a mimese aristot\u00e9lica, o di\u00e1logo necess\u00e1rio entre cl\u00e1ssicos como Graciliano Ramos e Itamar Vieira J\u00fanior nas salas de aula, e o papel dos jornais independentes como pontes de resist\u00eancia e debate em um pa\u00eds que ainda l\u00ea pouco. Acompanhe a entrevista na \u00edntegra.<\/p>\n<p><strong>Qual foi o primeiro gesto de escrita que, hoje, voc\u00ea reconhece como decisivo em sua trajet\u00f3ria? O que o levou a tornar seus textos p\u00fablicos?<\/strong><\/p>\n<p>A primeira lembran\u00e7a sobre a escrita de textos remete-me \u00e0 segunda s\u00e9rie prim\u00e1ria, quando a nossa professora nos levou para ler as nossas \u201ccomposi\u00e7\u00f5es\u201d (hoje, denominadas reda\u00e7\u00f5es) para os alunos da quarta s\u00e9rie. Lemos \u2013 eu e mais duas colegas \u2013 e a professora da turma de quarta s\u00e9rie decidiu esmiu\u00e7ar justamente o meu texto (talvez, tenha feito processo semelhante com os demais textos, mas foi marcante o fato de ela ter analisado com relativo detalhamento o texto que uma menina, ent\u00e3o, com oito anos escrevera: eu).<\/p>\n<p>\u00c9 preciso reconhecer o esfor\u00e7o da nossa professora de primeira e segunda s\u00e9ries, a dona <strong>Neli Rubin<\/strong> (in memoriam), lia, contava hist\u00f3rias, pedia-nos para desenhar, para escrever, para contar, para encenar as hist\u00f3rias que contava. O seu incentivo foi fundamental. Sou-lhe muito grata.<\/p>\n<p>O tempo passou e a vida cobrou trabalho formal. Ainda assim, sempre fui uma leitora voraz. Finalmente, veio a Faculdade de Letras, em 1992, e a dificuldade para escrever. Costumo dizer que os meus textos pareciam estar com solu\u00e7o. Era uma frase e um ponto, mais uma frase e mais um ponto. Foram alguns semestres de exerc\u00edcio constante.<\/p>\n<p>Como bolsista do Programa de Bolsas de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica do CNPq, passei a ser tamb\u00e9m pesquisadora: ler, resumir, fazer fichamento. Os textos que entregava para o meu orientador costumavam voltar \u201cbordados\u201d com caneta vermelha e in\u00fameros questionamentos. Eles exigiam novas leituras, novas escritas.<\/p>\n<p>Houve uma ocasi\u00e3o, por\u00e9m, que o texto, um resumo expandido, foi liberado para apresenta\u00e7\u00e3o em uma mostra de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. De l\u00e1 para c\u00e1, foram 39 artigos cient\u00edficos publicados em revistas com qualifica\u00e7\u00e3o Qualis pelo CNPq, uma grande quantidade de resumos expandidos, um incont\u00e1vel n\u00famero de resumos, uma disserta\u00e7\u00e3o, uma tese. A publiciza\u00e7\u00e3o dos meus textos foi decorr\u00eancia da minha atividade profissional.<\/p>\n<p>Nessa mesma esteira, vieram cr\u00f4nicas para jornais, para antologias.<\/p>\n<div id=\"attachment_407053\" style=\"width: 315px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-407053\" class=\" wp-image-407053\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-14-at-19.22.31-224x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"305\" height=\"408\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-14-at-19.22.31-224x300.jpeg 224w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-14-at-19.22.31.jpeg 296w\" sizes=\"auto, (max-width: 305px) 100vw, 305px\" \/><p id=\"caption-attachment-407053\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Considero a poesia extremamente subjetiva&#8221;<\/p><\/div>\n<p><strong>Entre conto, cr\u00f4nica, poesia, artigo ou outra forma de escrita, em qual g\u00eanero voc\u00ea encontra maior liberdade e precis\u00e3o para dizer o que deseja? Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Atuei como professora de Literatura durante 20 anos, considero a poesia extremamente subjetiva, \u00e9 a express\u00e3o de um \u201ceu\u201d em determinado momento da sua exist\u00eancia, que o faz em uma l\u00edngua, a portuguesa, que \u00e9 extremamente poliss\u00eamica (com palavras que variam muito de sentido). N\u00e3o sei me expressar em versos.<\/p>\n<p>Pela minha forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, tenho facilidade para produzir artigos e ensaios, de cunho acad\u00eamico ou n\u00e3o, mas a cr\u00f4nica, enfocando os temas do cotidiano, da sociedade, da exist\u00eancia humana, \u00e9 a minha preferida.<\/p>\n<p>A cr\u00f4nica n\u00e3o \u00e9 um texto longo, n\u00e3o demanda erudi\u00e7\u00e3o, mas corre\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica \u00e9 fundamental, e trata normalmente de temas que est\u00e3o em discuss\u00e3o na sociedade, creio que, por isso, a minha prefer\u00eancia. A minha \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o sempre foi a Sociologia da Literatura, as rela\u00e7\u00f5es entre obra e sociedade, entre sociedade e leitor.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as fontes mais recorrentes de sua escrita: experi\u00eancias pessoais, observa\u00e7\u00e3o do cotidiano, mem\u00f3ria, leitura de outros autores, pesquisa, di\u00e1logo com outras artes ou algo diferente?<\/strong><\/p>\n<p>Eu creio que nunca me interessei pela produ\u00e7\u00e3o de contos ou romances, porque eu sou muito inspira\u00e7\u00e3o. Sou aquela pessoa que senta diante do computador e escreve, pautada pelas circunst\u00e2ncias, pela propositura do tema (no caso de antologias) e isso faz com que recorra \u00e0 mem\u00f3ria familiar, \u00e0 mem\u00f3ria da minha comunidade \u2013 os meus estudos de mestrado e doutorado foram calcados na mem\u00f3ria coletiva, gosto do assunto. Tamb\u00e9m gosto muito do di\u00e1logo com a mitologia grega, com os cl\u00e1ssicos da literatura universal, particularmente, as grandes epopeias (<em>Il\u00edada<\/em>, de Homero, \u00e9 a minha preferida!)<\/p>\n<p><strong>Que condi\u00e7\u00f5es de trabalho sustentam a sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria? Voc\u00ea depende de rotina, metas e reescrita ou costuma partir de est\u00edmulos mais circunstanciais?<\/strong><\/p>\n<p>Quando eu lecionava e orientava monografias de conclus\u00e3o de curso, eu costumava dizer para os meus alunos, se o cursor come\u00e7ar a piscar amea\u00e7adoramente diante de voc\u00eas na tela do computador, desistam. \u00c9 preciso ler mais, estudar mais, refletir mais. No meu caso, no per\u00edodo de mestrado (1999-2001), o cursor era \u201caterrador\u201d, hoje em dia, temos um bom relacionamento, mas, conforme j\u00e1 referi, a minha prefer\u00eancia \u00e9 a escrita de cr\u00f4nica. Deixo-a maturar alguns dias no pensamento, quando sento para escrever, ela j\u00e1 est\u00e1 mais ou menos pronta, basta digitar e revisar.<\/p>\n<p><strong>Quando trabalha com fic\u00e7\u00e3o narrativa, como voc\u00ea descobre o que uma personagem quer, teme ou esconde? Em que momento percebe que ela se tornou suficientemente complexa para sustentar a hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se aplica.<\/p>\n<p><strong>Como funciona a revis\u00e3o no seu processo? O que costuma mudar de modo decisivo entre a primeira vers\u00e3o de um texto e aquela que voc\u00ea considera public\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n<p>Nas cr\u00f4nicas, que s\u00e3o os meus textos preferenciais, fa\u00e7o alguns ajustes de linguagem, de vocabul\u00e1rio. No caso de artigos ou ensaios, fa\u00e7o revis\u00e3o de conte\u00fado, de bibliografia. Uma das minhas professoras no mestrado costumava dizer que \u00e9 preciso \u201cdeixar o texto dormir\u201d, ou seja, escrever e deix\u00e1-lo na gaveta por um ou dois dias. Na sequ\u00eancia, revisar, fazer ajustes de linguagem ou eventuais acr\u00e9scimos. H\u00e1 um te\u00f3rico de Literatura, Hans Robert Jauss, que, em 1967, lan\u00e7ou a corrente cr\u00edtica da <em>Est\u00e9tica da Recep\u00e7\u00e3o<\/em>. Para ele, quando publicamos um texto, ele deixa de ser nosso, pertence inteiramente ao leitor, aos limites de interpreta\u00e7\u00e3o do leitor, \u00e0s experi\u00eancias anteriores de leitura daquele que se debru\u00e7a sobre o nosso texto. Na pr\u00e1tica, seria como criar um filho e entreg\u00e1-lo ao mundo.<\/p>\n<p><strong>O que a publica\u00e7\u00e3o no Jornal Cultural ROL alterou \u2014 ou confirmou \u2014 em sua rela\u00e7\u00e3o com a escrita, com os leitores e com outros autores de l\u00edngua portuguesa?<\/strong><\/p>\n<p>A minha escrita para o <a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/\"><strong>Jornal Cultural ROL<\/strong><\/a> sempre procurou focar a Literatura e as suas rela\u00e7\u00f5es com a sociedade. Tenho uma forte tend\u00eancia a instigar o leitor a voltar-se para a leitura de textos da literatura j\u00e1 consagrada em autores como Graciliano Ramos, Erico Verissimo. Entre <em>Vidas secas<\/em>, de Graciliano Ramos, por exemplo, e <em>Torto Arado<\/em>, de Itamar Vieira J\u00fanior, h\u00e1 um prof\u00edcuo di\u00e1logo a ser explorado, discutido, levado para a sala de aula. Por\u00e9m, nem sempre sinto a compreens\u00e3o e a resposta a esse prop\u00f3sito, por isso, por vezes, procuro mudar o enfoque, abordar temas cotidianos, quest\u00f5es candentes em nossa sociedade e, nestes casos, a Literatura entra como exemplo, entendida aqui como reapresenta\u00e7\u00e3o do mundo real (aquela quest\u00e3o da mimese que est\u00e1 em Arist\u00f3teles).<\/p>\n<div id=\"attachment_407052\" style=\"width: 609px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-407052\" class=\" wp-image-407052\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-14-at-19.21.53-300x169.jpeg\" alt=\"\" width=\"599\" height=\"337\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-14-at-19.21.53-300x169.jpeg 300w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-14-at-19.21.53.jpeg 622w\" sizes=\"auto, (max-width: 599px) 100vw, 599px\" \/><p id=\"caption-attachment-407052\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Tenho tentado adequar-me a temas presentes, que digam respeito \u00e0 sociedade contempor\u00e2nea&#8221;<\/p><\/div>\n<p><strong>H\u00e1 algum retorno de leitor recebido por meio do ROL que tenha mudado sua percep\u00e7\u00e3o sobre um texto, sobre o p\u00fablico ou sobre a fun\u00e7\u00e3o daquilo que escreve?<\/strong><\/p>\n<p>Conforme mencionei antes, tenho tentado adequar-me a temas presentes, que digam respeito \u00e0 sociedade contempor\u00e2nea. Estudei, por muito tempo, a figura da mulher na sociedade de todos os tempos e, como agora, vivemos essa viol\u00eancia contra o feminino, busco exemplos hist\u00f3ricos, discuss\u00f5es filos\u00f3ficos para embasar um certo senso comum, que nos faz pensar, como sociedade, o que est\u00e1 posto e propor a mudan\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Na pr\u00e1tica, o que os jornais culturais independentes e a circula\u00e7\u00e3o digital tornam poss\u00edvel para um escritor hoje? Quais barreiras de acesso, visibilidade ou remunera\u00e7\u00e3o continuam presentes?<\/strong><\/p>\n<p>Na condi\u00e7\u00e3o de professora aposentada, mas que permanece apaixonada pela Literatura, eles t\u00eam propiciado algum di\u00e1logo com autores independentes, com acad\u00eamicos de Letras, com professores de L\u00edngua Portuguesa, troca de ideias. Do ponto de vista financeiro, n\u00e3o existe retorno e n\u00e3o creio que haja para a maioria dos que escrevem. No Brasil, as pessoas leem menos.<\/p>\n<p><strong>Para quem publica tanto no Jornal Cultural ROL quanto no <a href=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/editoria\/cafe-literario\/\">Caf\u00e9 Liter\u00e1rio\/Notibras<\/a>: que diferen\u00e7as voc\u00ea percebe entre esses p\u00fablicos e entre as formas de recep\u00e7\u00e3o dos textos em cada ve\u00edculo?<\/strong><\/p>\n<p>Dias atr\u00e1s, o atendente da mercearia me disse que a professora dele dava um \u201cpr\u00eamio\u201d para o aluno que errasse mais quest\u00f5es em uma prova ou trabalho individual. Evidentemente, ele riu matreiramente e completou: \u201cHoje em dia, as pessoas n\u00e3o aceitam cr\u00edticas, elas t\u00eam as suas verdades e n\u00e3o querem abrir m\u00e3o delas\u201d. Eu ri tamb\u00e9m. Vivemos um tempo em que os indiv\u00edduos nos explicam os motivos pelos quais est\u00e3o certos e n\u00e3o aceitam questionamentos. Escrever para um p\u00fablico abrangente nem sempre \u00e9 ser totalmente aceito, conseguir um di\u00e1logo amplo, ainda assim, \u00e9 manter-se em di\u00e1logo ou aberto ao di\u00e1logo.<\/p>\n<p><strong>Que sentido h\u00e1 em manter fic\u00e7\u00e3o, poesia e cr\u00edtica cultural dentro de um portal jornal\u00edstico marcado pelo fluxo das not\u00edcias? Essa conviv\u00eancia altera a maneira de escrever, editar ou divulgar literatura?<\/strong><\/p>\n<p>Havia um livro did\u00e1tico de Literatura para ensino m\u00e9dio que trazia dois exemplos de linguagem, a denotativa, que predomina no jornal, por exemplo, e a conotativa, comumente usada pela poesia. O assunto era o mesmo, mas o enfoque era diferente. Acredito que ludicidade seja necess\u00e1ria. Um olhar diferente sobre esse mundo conturbado \u00e9 necess\u00e1rio. Olhar para p\u00e1ssaros, crian\u00e7as, c\u00e3es, gatos n\u00e3o se restringe aos v\u00eddeos curtos de redes sociais, mas deveria ser viv\u00eancia plena e, se n\u00e3o o for, que seja pela palavra, pelo emaranhado de sentimentos que a palavra produz. Sem aliena\u00e7\u00e3o, claro! N\u00e3o se deve esquecer a crueza do mundo, mas encontrar a suavidade de alguns momentos.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9, hoje, o obst\u00e1culo mais concreto para um escritor independente formar leitores recorrentes? Que estrat\u00e9gia tem funcionado \u2014 e qual voc\u00ea considera superestimada?<\/strong><\/p>\n<p>Quando lancei um livro de cr\u00f4nicas, presenteei 20 amigos. Apenas dois deles deram-me retorno efetivo. Uma leitora chegou a fazer uma resenha e escreveu fragmentos de texto que estabeleciam uma \u201cconversa\u201d com os meus textos. O segundo relacionou a leitura com a minha hist\u00f3ria de vida. De resto, a informa\u00e7\u00e3o era: \u201cLi o teu livro\u201d e eu n\u00e3o ousava perguntar: \u201cO que te pareceu?\u201d Se eu tivesse a f\u00f3rmula m\u00e1gica, eu adoraria compartilhar.<\/p>\n<p><strong>Ao imaginar algu\u00e9m lendo sua obra, que tipo de experi\u00eancia voc\u00ea espera provocar? H\u00e1 efeitos que voc\u00ea deliberadamente evita buscar no leitor?<\/strong><\/p>\n<p>Nem imagino o que esperaria provocar no leitor. N\u00e3o tenho um leitor bem delineado, porque cada pessoa \u00e9 uma pessoa, com suas experi\u00eancias de vida, com os seus medos, as suas d\u00favidas, as suas ang\u00fastias, as suas esperan\u00e7as. Por vezes, eu tenho forte tend\u00eancia ao barroquismo, a certeza da passagem do tempo, a ideia da morte e isso n\u00e3o se coaduna com a sociedade atual, a sociedade do glamour, da imagem perfeita, da juventude, talvez evitasse tal choque, acredito que cada coisa a seu tempo: \u00e9 preciso viver para aprender, sentir.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 um projeto em curso \u2014 livro, colet\u00e2nea, pesquisa, novo g\u00eanero, revista, oficina ou outra iniciativa \u2014 que ajude a compreender o momento atual de sua escrita?<\/strong><\/p>\n<p>Centrei, j\u00e1 faz algum tempo, os meus esfor\u00e7os de pesquisa na Hist\u00f3ria do meu munic\u00edpio. H\u00e1 um livro publicado em 1983 que \u00e9 o \u00faltimo registro oficial que temos e, de l\u00e1 para c\u00e1, muita hist\u00f3ria oficiosa apareceu. Com os recursos dispon\u00edveis on-line para pesquisa, j\u00e1 ampliei bastante os registros, valendo-me de Arquivos Hist\u00f3ricos, com material digitalizado.<\/p>\n<p><strong>Que pr\u00e1tica, escolha ou disciplina voc\u00ea recomendaria a quem come\u00e7a a publicar agora? E que conselho comum sobre escrita voc\u00ea considera insuficiente ou enganoso?<\/strong><\/p>\n<p>Eu trabalhei como orientadora de alunos de gradua\u00e7\u00e3o em seus trabalhos finais e sempre lhes disse: \u201cLeiam muito antes de come\u00e7ar a escrever!\u201d Isso me lembra uma professora de portugu\u00eas da escola de ensino m\u00e9dio em que trabalhei: \u201cEscrevam uma vers\u00e3o, duas vers\u00f5es, dez vers\u00f5es de um mesmo texto e v\u00e3o colocando no lixo. A partir da d\u00e9cima vers\u00e3o comecem o polimento, melhorem constru\u00e7\u00e3o frasal, vocabul\u00e1rio etc.<\/p>\n<p>Resumiria isso a um conselho do professor Cl\u00f3vis Barros: \u201cTenha brio\u201d. Desafie-se. Escreva, jogue fora, reescreva. Leia bons autores, aqueles j\u00e1 consagrados, como eles resolveram certas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, esse costuma ser o conselho para quem est\u00e1 come\u00e7ando no universo da escrita cient\u00edfica: leia autores que j\u00e1 tematizaram o assunto que lhe agrada tratar, que lhe instiga e veja o andamento, o racioc\u00ednio adotado. Comece a pensar a partir dali.<\/p>\n<p><strong>Que pergunta sobre sua escrita ou sobre a literatura contempor\u00e2nea deveria ter sido feita nesta entrevista e ainda n\u00e3o apareceu?<\/strong><\/p>\n<p>Creio que as quest\u00f5es foram bem abrangentes, conseguiram que fossem tratados diferentes aspectos daquilo que me guia como \u201cescrevinhadora\u201d de textos.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/jornalrol.com.br\/?p=61633\">Elaine dos Santos<\/a> nasceu em Restinga Seca, regi\u00e3o central do Rio Grande do Sul. \u00c9 licenciada em Letras, L\u00edngua Portuguesa e respectivas literaturas (1997); Mestre e Doutora em Estudos Liter\u00e1rios pelo Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), respectivamente, conclu\u00eddos em 2001 e 2013. Possui experi\u00eancia docente no ensino m\u00e9dio, gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, atuando, preferencialmente, na disciplina de Literatura, abrangendo a Literatura produzida no Rio Grande do Sul, Literatura Brasileira e Literatura Portuguesa. \u00c9 autora do livro <em>Entre l\u00e1grimas e risos: as representa\u00e7\u00f5es do melodrama no teatro mambembe<\/em> (2019), adapta\u00e7\u00e3o de sua tese de doutorado, e <a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Coisas-Minhas-Outras-Hist%C3%B3rias-Elaine\/dp\/6587290922\/ref=sr_1_3?dib=eyJ2IjoiMSJ9.kRwuvpl9VnafQYKPyPQVh3AsVXucZvHSJrI5VVMdIvNt5rAQutPvwxUSdZImx4ZfpVyqaiFq0lgfgG4CG9Zkfm3Wv6LtKKRs5DPTA9_x5HH-t1p0R2Qpbx3EI9kTXPJtrIG-rOOX_V1HlXqXTm8rCyX3O83bO_fUFra7y-si64EjV8gxR5vMyZF9ZUWjRX3EmRl9K2LGD-rvM31cUc1hdna7t8UHpNlBgkRXb3QTOqc.6uAiHc7jguQ-VnrMY_Iu_LMP1r-v-VyiuElFisBhcUE&amp;dib_tag=se&amp;qid=1786767787&amp;refinements=p_27%3AElaine+Santos&amp;s=books&amp;sr=1-3\"><em>Coisas minhas Outras hist\u00f3rias<\/em><\/a>\u00a0(2025), colet\u00e2nea de cr\u00f4nicas de tom memorialista. Nos \u00faltimos anos, tem se dedicado, principalmente, \u00e0s pesquisas sobre a Hist\u00f3ria oficial de seu munic\u00edpio de nascimento.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Instagram: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/@profe.elainerevisoradetextos\">@profe.elainerevisoradetextos<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O despertar liter\u00e1rio da escritora e ensa\u00edsta Elaine dos Santos remonta aos oito anos de idade, quando sua primeira &#8220;composi\u00e7\u00e3o&#8221; escolar foi dissecada e elogiada, marcando o in\u00edcio de uma rela\u00e7\u00e3o vital com a palavra escrita. 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