{"id":407580,"date":"2026-08-22T00:45:10","date_gmt":"2026-08-22T03:45:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=407580"},"modified":"2026-08-19T12:10:24","modified_gmt":"2026-08-19T15:10:24","slug":"o-menino-de-taguatinga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-menino-de-taguatinga\/","title":{"rendered":"O menino de Taguatinga"},"content":{"rendered":"<p>Ele cresceu junto com a cidade. Viu a nascer entre as \u00e1rvores e a terra vermelha, e fincou ali ra\u00edzes t\u00e3o fundas quanto as que o cerrado tecia no ch\u00e3o. Taguatinga crescia devagar, tomando forma, e ele crescia junto \u2014 passo a passo, ch\u00e3o a ch\u00e3o.<\/p>\n<p>As casas eram de madeira, levantadas \u00e0 pressa, com t\u00e1buas que rangiam ao vento e frestas por onde a chuva entrava e deixava tudo \u00famido. As ruas eram de barro \u2014 quando chovia, virava uma lama que grudava nos p\u00e9s at\u00e9 os tornozelos, e ele e os meninos corriam assim, descal\u00e7os, sentindo a terra fria e macia entre os dedos. Mais tarde cobriram de cascalho, que do\u00eda nos p\u00e9s, mas nem por isso paravam de correr. A cidade se fazia, e eles tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Chovia muito. \u00c0s vezes parecia que o c\u00e9u ia desabar de tanta \u00e1gua. E quando chegava maio, vinha o frio \u2014 um frio que penetrava os ossos, que fazia tremer debaixo dos cobertores finos. N\u00e3o havia aquecedor, n\u00e3o havia parede grossa. S\u00f3 o calor do corpo do irm\u00e3o ao lado, e a certeza de que o sol voltava amanh\u00e3. A cidade ainda n\u00e3o tinha muros, e nem precisava. S\u00f3 uma cerca baixa de madeira, que qualquer um podia saltar.<\/p>\n<p>As \u00e1rvores do cerrado estavam por toda parte \u2014 com seus galhos retorcidos e flores t\u00edpicas. E o ar cheirava a terra molhada.<\/p>\n<p>E nas ruas eram todos donos. Brincavam de roda, de boca de forno, de pique, de bete, de bola, bolas de gude, descal\u00e7os sobre o cascalho que arranhavam os p\u00e9s. Escondiam-se entre as \u00e1rvores. Corriam at\u00e9 o c\u00f3rrego, aquela \u00e1gua gelada e l\u00edmpida que descia do planalto, e mergulhavam nus, rindo \u00e0 toa, sem medo, sem hora, sem ningu\u00e9m mandando sair. A cidade crescia devagar, e o espa\u00e7o parecia n\u00e3o acabar.<\/p>\n<p>Estudavam na escola que tamb\u00e9m se erguera junto com tudo, salas simples, carteiras marcadas pela sede do saber.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, quem tinha televis\u00e3o deixava a porta aberta. Os meninos se amontoavam l\u00e1 dentro, no ch\u00e3o, nas janelas, todos olhando para aquela tela pequena vendo filmes de bang-bang, e se emocionando com a novela \u201cO Direito de Nascer\u201d.<\/p>\n<p>Diziam que no Plano Piloto era diferente \u2014 ruas sim\u00e9tricas, casas bonitas, tudo organizado. Ele nunca invejou. O mundo dele era pequeno, mas cabia todo nele, e era seu.<\/p>\n<p>A maioria era pobre. Pobre de verdade. As roupas eram poucas, muitas vezes passadas de irm\u00e3o para irm\u00e3o.<\/p>\n<p>Algumas vezes a comida n\u00e3o chegava para todos. Sentavam-se \u00e0 mesa e dividiam o pouco que tinham \u2014 o p\u00e3o partido em fatias finas, o feij\u00e3o servido com cuidado. Ningu\u00e9m comia sozinho.<\/p>\n<p>As visitas chegavam sem avisar. Batiam palmas na porta e entravam. Sempre bem-vindas. A m\u00e3e arrumava um lugar na mesa, fazia um caf\u00e9 que parecia brotar do nada, e a conversa se estendia noite adentro.<\/p>\n<p>Os pais exigiam respeito. Se respondesse, se fizesse arte, levava uma corre\u00e7\u00e3o \u2014 do\u00eda na hora, sim. Mas hoje ele sabe: do\u00eda mais no cora\u00e7\u00e3o do pai e da m\u00e3e do que nele. Eles sabiam que a vida ia ser dura, e queriam prepar\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Os anos passaram. Ele cresceu. A cidade tamb\u00e9m. E ent\u00e3o ele partiu. Foi estudar, trabalhar, viver em lugares onde as ruas s\u00e3o de asfalto liso, os muros s\u00e3o altos e as portas ficam trancadas com chave. Onde ningu\u00e9m sabe o nome do vizinho e visita s\u00f3 vai se avisar antes. Viveu assim por muito tempo, enquanto Taguatinga continuava crescendo sem ele. E ent\u00e3o, um dia, resolveu voltar.<\/p>\n<p>Chegou e quase n\u00e3o reconheceu. As ruas eram de asfalto. Os c\u00f3rregos onde mergulhara estavam cobertos, escondidos, esquecidos. As \u00e1rvores do cerrado rareavam. As casas tinham muros altos, port\u00f5es de ferro, janelas fechadas. Nenhuma cerca baixa de madeira. Nenhuma porta aberta. N\u00e3o viu meninos correndo descal\u00e7os, ningu\u00e9m brincando na rua. Tudo parecia mais confort\u00e1vel, mais seguro, mais cheio de coisas. E mais vazio. A cidade havia crescido, mudado, se vestido de outro jeito. Mas o menino que ali crescera junto com ela n\u00e3o encontrava mais a sua cidade.<\/p>\n<p>Um dia algu\u00e9m conseguiu junt\u00e1-lo com outros velhos amigos. Cabelos brancos, passos lentos, mas os mesmos olhos. Conversaram. Falaram do que mudou, do que se perdeu. E ent\u00e3o algu\u00e9m sorriu e disse baixinho: \u2014 Sabe de uma coisa? Fomos t\u00e3o felizes naquele tempo&#8230;<\/p>\n<p>Naquele instante, tudo se iluminou dentro dele.<\/p>\n<p>Compreendeu, de uma vez por todas, que riqueza n\u00e3o era fartura, paredes fortes, conforto, seguran\u00e7a. E ali, diante dos amigos, com o cora\u00e7\u00e3o apertado e os olhos \u00famidos, descobriu que tinha sido imensamente rico muito antes de possuir qualquer bem.<\/p>\n<p>Porque a verdadeira riqueza n\u00e3o est\u00e1 no que se guarda atr\u00e1s de muros altos, mas no que se repartia quando n\u00e3o havia muros nenhuns. N\u00e3o est\u00e1 em ter muito, mas em faltar a solid\u00e3o. N\u00e3o est\u00e1 em viver sem dificuldades, mas em descobrir, justamente quando tudo \u00e9 escasso, que o amor e a partilha s\u00e3o suficientes para preencher qualquer vazio.<\/p>\n<p>A cidade cresceu, enriqueceu de coisas, e perdeu na partilha. Ele, por\u00e9m, crescera junto com ela, e carregava dentro de si aquilo que o tempo n\u00e3o consegue levar.<\/p>\n<p>A terra vermelha j\u00e1 n\u00e3o aparecia sob o asfalto. Mas aquela terra, aquela inf\u00e2ncia, aquela verdade \u2014 tudo isso continuava vivo, pulsando dentro do peito, mais forte que o tempo, mais forte que a mudan\u00e7a, mais forte que tudo. E compreendeu, por fim, a grande li\u00e7\u00e3o que Taguatinga lhe ensinara sem palavras: as constru\u00e7\u00f5es se erguem e se renovam, os caminhos se cobrem e se transformam, mas aquilo que se constr\u00f3i no cora\u00e7\u00e3o \u2014 o afeto, a gratid\u00e3o, a uni\u00e3o \u2014 isso cresce junto com a gente, permanece para sempre, e \u00e9 a \u00fanica riqueza que jamais se perde.<\/p>\n<p>Levantou-se e foi embora, sorrindo com os olhos brilhantes. A cidade era outra, sim. Mas o menino que crescera junto com ela permanecia inteiro, intacto, feliz.<\/p>\n<p>E entendeu: eles foram, sem nunca suspeitar, os meninos mais ricos das Cidades-Sat\u00e9lites, do Distrito Federal, do Brasil, do mundo. Donos de uma riqueza chamada FELICIDADE.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele cresceu junto com a cidade. Viu a nascer entre as \u00e1rvores e a terra vermelha, e fincou ali ra\u00edzes t\u00e3o fundas quanto as que o cerrado tecia no ch\u00e3o. Taguatinga crescia devagar, tomando forma, e ele crescia junto \u2014 passo a passo, ch\u00e3o a ch\u00e3o. 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