{"id":40767,"date":"2015-03-22T13:03:09","date_gmt":"2015-03-22T16:03:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=40767"},"modified":"2015-03-22T14:15:23","modified_gmt":"2015-03-22T17:15:23","slug":"por-falar-em-agua-o-quinze-de-rachel-continua-atual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/por-falar-em-agua-o-quinze-de-rachel-continua-atual\/","title":{"rendered":"Por falar em \u00e1gua, O 15, de Rachel, se mant\u00e9m bem atual"},"content":{"rendered":"<p>O c\u00e9u transparente de Quixad\u00e1 narrado por Rachel de Queiroz se deixou encobrir por densas nuvens em pleno m\u00eas de mar\u00e7o. Pelos progn\u00f3sticos da Funda\u00e7\u00e3o Cearense de Meteorologia e Recursos H\u00eddricos (Funceme), 2015 ser\u00e1 um ano de seca no Sert\u00e3o Central, a 169 quil\u00f4metros de Fortaleza. Apesar das previs\u00f5es de poucas chuvas para o Cear\u00e1, o sertanejo mant\u00e9m a esperan\u00e7a de que as nuvens que deixavam o c\u00e9u bonito para chover s\u00e3o um sinal de que a estiagem n\u00e3o castigar\u00e1 o nordestino. E de que o cen\u00e1rio deste ano ser\u00e1 diferente do de um s\u00e9culo atr\u00e1s quando a chamada Seca do 15 deixou milhares de nordestinos \u00e0 merc\u00ea da fome e da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>O livro O Quinze, o primeiro da carreira da escritora cearense Rachel de Queiroz, narra hist\u00f3rias fict\u00edcias baseadas no sofrimento real de quem perdeu tudo por causa da seca de 1915, uma das mais devastadoras da hist\u00f3ria. Mas assim como a personagem Dona In\u00e1cia, o sertanejo segue mantendo a f\u00e9 e rezando para S\u00e3o Jos\u00e9, padroeiro do Cear\u00e1. Entre os nordestinos h\u00e1 a cren\u00e7a de que se chover no dia 19 de mar\u00e7o, dia do santo, o \u201cinverno\u201d ser\u00e1 bom \u2013 e haver\u00e1 chuva at\u00e9 maio.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea sabe por que, n\u00f3s, do sert\u00e3o, ficamos velhos cedo?\u201d, indaga o aposentado Ribamar Lima, 66 anos. \u201c\u00c9 de fazer careta olhando para o sol para ver se vai chover. A\u00ed engelha tudo\u201d. Ribamar \u00e9 um dos profetas da chuva, grupo de sertanejos cearenses que se re\u00fane todos os anos em Quixad\u00e1 e faz progn\u00f3sticos do tempo baseados na observa\u00e7\u00e3o de elementos da natureza. \u201cSe as formigas caminham de uma \u00e1rea baixa para uma alta, \u00e9 sinal de que ali vai alagar. Mas se os p\u00e1ssaros fazem ninho no ch\u00e3o, n\u00e3o vai chover\u201d, ensina Ribamar, segundo o que aprendeu com o pai.<\/p>\n<blockquote><p>Apesar da seca que assola o Nordeste h\u00e1 tr\u00eas anos e da previs\u00e3o da Funceme de manuten\u00e7\u00e3o desse cen\u00e1rio, l\u00e1 estava ela: a chuva. Entre o fim de fevereiro e o in\u00edcio de mar\u00e7o, havia chovido durante v\u00e1rios dias em quase todas as regi\u00f5es do Cear\u00e1. E o agricultor, aproveitando a terra \u00famida, j\u00e1 come\u00e7ava a preparar o terreno ou plantava milho, feij\u00e3o e a palma que servir\u00e1 de alimento para o gado no \u201cver\u00e3o\u201d. \u00c0s primeiras gotas de \u00e1gua, como que por milagre, a vegeta\u00e7\u00e3o do semi\u00e1rido, antes cinza, explode em tons exuberantes de verde.<\/p><\/blockquote>\n<p>Mesmo diante dessas chuvas, n\u00e3o h\u00e1 como prever como ser\u00e1 o restante da quadra chuvosa, que come\u00e7a em fevereiro e vai at\u00e9 maio. A Zona de Converg\u00eancia Intertropical vem mudando a din\u00e2mica do Oceano Atl\u00e2ntico e trazendo chuvas regulares para o estado. Esse movimento, no entanto, tamb\u00e9m pode sofrer altera\u00e7\u00f5es. \u201cAinda n\u00e3o temos indica\u00e7\u00f5es seguras de que as mudan\u00e7as no Atl\u00e2ntico v\u00e3o persistir. Desejamos que elas continuem como est\u00e3o e tragam mais chuvas para recarregar nossos reservat\u00f3rios\u201d, explica o meteorologista Raul Fritz, da Funceme.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o confunda chuvas com inverno\u201d, alerta o profeta Ribamar Lima. No encontro realizado em janeiro, a maioria dos profetas e profetizas disse que o inverno (termo usado pelo cearense para se referir \u00e0 quadra chuvosa) n\u00e3o seria suficiente para encher os a\u00e7udes.<\/p>\n<p>At\u00e9 o momento, eles est\u00e3o certos. Os 149 a\u00e7udes monitorados pela Companhia de Gest\u00e3o dos Recursos H\u00eddricos (Cogerh) tinham, juntos, at\u00e9 o dia 9 de mar\u00e7o, apenas 19% da capacidade total. Alguns deles chegaram a zero. \u00c9 o caso do A\u00e7ude Carnaubal, que abastece o munic\u00edpio de Crate\u00fas, a 355 quil\u00f4metros da capital, Fortaleza.<\/p>\n<p>No Cear\u00e1, 70% da \u00e1gua dos reservat\u00f3rios s\u00e3o usados pela agricultura. Para especialistas, trata-se de uma \u201cinjusti\u00e7a h\u00eddrica\u201d que s\u00f3 ser\u00e1 revertida quando o governo priorizar a destina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua \u00e0 popula\u00e7\u00e3o \u2013 e n\u00e3o aos setores produtivos.<\/p>\n<p>Apesar das dificuldades devido \u00e0 escassez de \u00e1gua e do acesso desigual ao recurso, a seguran\u00e7a h\u00eddrica \u00e9 apenas um dos pontos importantes para que o sertanejo crie ra\u00edzes e permane\u00e7a no semi\u00e1rido. A integrante da coordena\u00e7\u00e3o estadual da Articula\u00e7\u00e3o no Semi\u00e1rido (ASA) Odal\u00e9a Severo acredita que \u00e9 preciso garantir ainda o acesso \u00e0 terra e formas de estocar alimentos para pessoas e animais. \u201cSeca n\u00e3o se combate. \u00c9 preciso criar mecanismos para viver bem no semi\u00e1rido\u201d, defende.<\/p>\n<p>Mas antes de desenvolver formas de conviver com o semi\u00e1rido, o sertanejo foi obrigado a migrar em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. A hist\u00f3ria das secas no Cear\u00e1 \u00e9 marcada pela figura do retirante que, no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, foi usado como m\u00e3o de obra barata e foi alvo de a\u00e7\u00f5es higienistas e de isolamento em \u00e1reas que ficaram conhecidas como campos de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>Na luta por uma conviv\u00eancia harmoniosa com os efeitos da seca, muitas obras j\u00e1 foram feitas com o intuito de levar \u00e1gua para a popula\u00e7\u00e3o. Desde o in\u00edcio do s\u00e9culo passado, o Poder P\u00fablico mant\u00e9m \u00f3rg\u00e3os para realiza\u00e7\u00e3o de grandes obras e a\u00e7udes \u2013 que serviam mais a interesses p\u00fablicos que ao sertanejo pobre. Hoje, 106 anos ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o do Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs), o \u00f3rg\u00e3o espera por uma reestrutura\u00e7\u00e3o e pela renova\u00e7\u00e3o do quadro de pessoal \u2013 formado, em sua maioria, por servidores prestes a se aposentar.<\/p><\/blockquote>\n<p>No \u00faltimo dia 5 de mar\u00e7o, os t\u00e9cnicos que mantinham uma estrutura de po\u00e7os e bombas para a retirada de \u00e1gua do len\u00e7ol fre\u00e1tico decretaram o fim dos trabalhos. Eles retiravam os equipamentos e as tubula\u00e7\u00f5es que sugavam o pouco que havia restado do reservat\u00f3rio Carnaubal, em Crate\u00fas. Em anos anteriores, o local onde os canos estavam instalados estaria submerso a, pelo menos, 10 metros de profundidade.<\/p>\n<p>\u201cQuando voc\u00ea v\u00ea isso tudo seco \u00e9 que voc\u00ea aprende a valorizar a \u00e1gua\u201d, confessa o t\u00e9cnico agr\u00edcola Wanderley Alves, que trabalha na Secretaria da Agricultura de Crate\u00fas. Os t\u00e9cnicos mal tiveram tempo de finalizar a retirada dos equipamentos e a esperan\u00e7a do sertanejo veio de novo em forma de \u00e1gua: a chuva.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O c\u00e9u transparente de Quixad\u00e1 narrado por Rachel de Queiroz se deixou encobrir por densas nuvens em pleno m\u00eas de mar\u00e7o. Pelos progn\u00f3sticos da Funda\u00e7\u00e3o Cearense de Meteorologia e Recursos H\u00eddricos (Funceme), 2015 ser\u00e1 um ano de seca no Sert\u00e3o Central, a 169 quil\u00f4metros de Fortaleza. 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