{"id":407848,"date":"2026-08-26T00:15:06","date_gmt":"2026-08-26T03:15:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=407848"},"modified":"2026-08-21T17:08:36","modified_gmt":"2026-08-21T20:08:36","slug":"naquela-tarde-o-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/naquela-tarde-o-cinema\/","title":{"rendered":"Naquela tarde, o cinema"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Sempre que for ao banheiro: leve a sua arma, man!&#8221;<br \/>\n(Tarantino\/Pulp Fiction, 1994)<\/p>\n<p>1.<br \/>\nCara de bandido. Jeito de marginal. Roupa de periferia. Ideias de rato. O sujeito ganhava a vida com pequenos &#8220;trabalhos&#8221; para a turma da pesada. Entre cobran\u00e7as de pequenos comerciantes e um &#8220;avi\u00e3ozinho&#8221; com &#8220;p\u00f3 blue&#8221; pra bacanas da Zona Sul, dava uns tiros e era viciado em cinema. Nas tardes calorentas, nos velhos cinemas dos sub\u00farbios.<\/p>\n<p>2.<br \/>\nNaquela tarde, entrou no mercadinho e comprou seis latinhas de cerveja \u2013 nenhuma a menos nem a mais -, um pote de pepino em conserva, mortadela e p\u00e3o. Sentado na pra\u00e7a, em frente ao Cine Cairo, realizou o ritual. Tirou a navalha da mochila, abriu o pote e cortou simetricamente os pepinos no sentido longitudinal. Depois o p\u00e3o e a mortadela. Abriu a cerveja e depois de um longo gole, mastigou sempre por dez vezes o sandu\u00edche antes de engolir. Era mesmo um cara disciplinado.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o, man&#8230; sou de-ter-mi-na-do e movido pela raz\u00e3o&#8230; a raz\u00e3o de minhas regras&#8230; Sac\u00f4, man?&#8221;.<\/p>\n<p>3.<br \/>\nDez para \u00e0s tr\u00eas da tarde. O homem nasceu em fam\u00edlia classe m\u00e9dia e frequentou boa escola onde conheceu o Cine Clube e se apaixonou pelo cinema. Na juventude, alistou-se na Marinha e conheceu muitos portos no Brasil e pelo mundo. Foi expulso da institui\u00e7\u00e3o por trambicagem. Aos 16 anos, pegou uma mochila e sumiu de casa para sempre. E assim, aos trancos e barrancos, chegara at\u00e9 a porta do Cine Cairo naquela tarde de 40 graus \u00e0 sombra. Comprou o ingresso, entrou e sentou-se na d\u00e9cima terceira fila, pois jamais sentaria em outra. Na tela, Pulp Fiction, de Tarantino.<\/p>\n<p>4.<br \/>\nRepetia cada palavra, cada di\u00e1logo &#8220;quente&#8221; dos personagens; sabia todos de cor. E curtia as trilhas sonoras imbat\u00edveis dos filmes de Tarantino. Filme rolando na tela e o cara abrindo e tomando calmamente as latinhas de cerveja; e comendo os sandu\u00edches de mortadela com pepinos em conserva. Cinema vazio &#8211; e ele sabia que seria assim -, pois conhecia a rotina do Velho Cairo. Segundas-feiras, dia de pessoas com &#8220;cabe\u00e7as de camar\u00e3o&#8221; zanzando pelas ruas, pelos hot\u00e9is baratos e banheiros fedorentos. E o Cine Cairo sempre vazio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-407850 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/image-35-225x300.png\" alt=\"\" width=\"395\" height=\"527\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/image-35-225x300.png 225w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/image-35.png 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 395px) 100vw, 395px\" \/><\/p>\n<p>5.<br \/>\nNaquela tarde, o cinema na sess\u00e3o das 15h lhe guardara uma surpresa. Luzes acesas, o cara levantou e buscou a sa\u00edda da sala. Percebeu um vulto caminhando lentamente atr\u00e1s dele. N\u00e3o demonstrou qualquer rea\u00e7\u00e3o; apenas chegou ao hall do cinema e foi ao banheiro. De l\u00e1 pode ver a mo\u00e7a de cabelos presos em coque, camisa abotoada no pesco\u00e7o, mangas compridas, vestido at\u00e9 as canelas, sapatos pesados e levando nas m\u00e3os um livro. Mulher mo\u00e7a, bem jovem. Ela esperou ele deixar o banheiro e continuou caminhando mantendo certa dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&#8220;Mas que diabo ser\u00e1 isso?&#8230; Essa mulher est\u00e1 me seguindo, sei que est\u00e1!&#8221;<\/p>\n<p>J\u00e1 na cal\u00e7ada, ele atravessou a rua e sentou-se no banco da pra\u00e7a. A mulher fez o mesmo. Chegou at\u00e9 ele e sentou-se no banco ao seu lado.<\/p>\n<p>6.<br \/>\n&#8220;Girl, You&#8217;ll Be a Woman Soon \/ Garota, logo voc\u00ea ser\u00e1 uma mulher&#8221;<br \/>\n(Urge Overkill \/ Filme Pulp Fiction \u2013 Tarantino)<\/p>\n<p>\u2014 O sr. se incomoda de conversar comigo um minutinho? \u2013 disse a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>O homem olhou meio desconfiado e respondeu curto.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 sentou, n\u00e9? Ok.<\/p>\n<p>A mulher n\u00e3o perdeu o jeito s\u00e9rio, concentrada e foi direta.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho observado o sr., nas \u00faltimas segundas-feiras, sempre vindo ao cinema na sess\u00e3o das 3 da tarde, fa\u00e7a chuva ou Sol.<\/p>\n<p>O cara mediu a mo\u00e7a, fez segundos de sil\u00eancio e tamb\u00e9m foi direto.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea anda me seguindo? O qu\u00ea que h\u00e1, hein?<\/p>\n<p>A mo\u00e7a abriu o livro de capa grossa de couro preto e respondeu, suavemente, lendo uma frase.<\/p>\n<p>\u2014 &#8220;Tenho-vos dito estas coisas, para que em mim tenhais paz. No mundo tereis tribula\u00e7\u00f5es; mas tendo bom \u00e2nimo, eu venci o mundo: Jo\u00e3o 16:33&#8221;.<\/p>\n<p>O homem sentiu um calafrio. Meio at\u00f4nito, n\u00e3o sabia como continuar. Disse ent\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Jo\u00e3o? Quem \u00e9 Jo\u00e3o? Ele te mandou aqui?<\/p>\n<p>\u2014 Calma&#8230; De certa forma, sim. Se o sr. permitir eu posso explicar.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1 ok. T\u00f4 te ouvindo, mo\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>A mulher falou das palavras prof\u00e9ticas de Jo\u00e3o, do livro que trazia nas m\u00e3os, da vida, da morte e do depois. Nada de verdades absolutas, apenas toques de f\u00e9 e esperan\u00e7a. Explicou que era mission\u00e1ria de uma irmandade centrada nas palavras de Jesus Cristo e que n\u00e3o queria nada al\u00e9m da aten\u00e7\u00e3o do cara.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 isso, nada mais do que um bom encontro e uma conversa boa. \u2013 Finalizou.<\/p>\n<p>\u2014 Entendi. \u2013 disse o homem. Mas voc\u00ea vai tentar me vender esse livro a\u00ed, n\u00e3o vai?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, sr. Esse fica &#8220;emprestado&#8221; para o sr. ler e para a gente se encontrar nas pr\u00f3ximas segundas-feiras por aqui.<\/p>\n<p>A mulher levantou e despediu-se dele com um sorriso:<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o, at\u00e9 Segunda-feira&#8221;.<\/p>\n<p>7.<br \/>\nA vida nas grandes cidades corre desenfreada feito galinha fugindo da panela em festa no morro em que o homem mora num pequeno &#8220;cafofo&#8221;. Durante a semana, aquele encontro casual ficou martelando na cabe\u00e7a do cara. Tentava desligar, mas a presen\u00e7a forte e suave da mo\u00e7a insistia em n\u00e3o deixar a cena. Perambulou por horas pela cidade, buscou inventar algo para fazer e nada. Ela ali presente. Decidiu abrir o livro de capa de couro e l\u00e1 estava: A B\u00edblia Sagrada.<\/p>\n<p>&#8220;Porra! Agora essa de religi\u00e3o? Coisas de harmonia, comunh\u00e3o, vida eterna&#8230;Cacete&#8230; Era s\u00f3 o que me faltava, &#8220;man&#8221;!<\/p>\n<p>No pequeno mercado, comprou p\u00e3o, mortadela e o insepar\u00e1vel vidro de pepinos em conserva. Sentou na pra\u00e7a do metr\u00f4 e fez o sandu\u00edche detalhadamente. Para matar o tempo, come\u00e7ou a ler o Novo Testamento, pois conhecia alguma coisa do tal de Jesus e achava o cara &#8220;bem maneiro, man&#8221;, apesar de meio bob\u00e3o. E assim foi ao longo da semana at\u00e9 chegar a Segunda-feira.<\/p>\n<p>8.<br \/>\n&#8220;Existir\u00e1 mesmo a felicidade eterna, meu querido? Talvez nem exista essa tal&#8230; Amanh\u00e3, restar\u00e3o len\u00e7\u00f3is manchados, em desalinho, rostos amarrotados e dois cora\u00e7\u00f5es eternamente a vagar&#8221;<br \/>\n(Miolo: C\u00e2ntico para Ninar Pirados e Piradas, Gilberto Motta 1979)<\/p>\n<p>Dez para as 3h da tarde, Ela estava l\u00e1; mesmo banco, mesma roupa austera, a mesma imagem de &#8220;santinha&#8221; que o acompanharia daqueles dias em diante. Ao lado do banco, com ela, uma pequena mala amarrada com um cinto vermelho como trinco improvisado. O cara estranhou, mas era acostumado a situa\u00e7\u00f5es absurdas e tocou a vida em frente. Trocaram um aperto de m\u00e3o, se olharam nos olhos e nada disseram. Atravessaram a rua; o homem comprou os ingressos e dois saquinhos de pipoca da amiga de sempre, a vendedora do cinema, Rosa, a gorda. Entraram no Cine Cairo e sentaram na d\u00e9cima fileira com a sala j\u00e1 \u00e0s escuras. Na tela, o filme &#8220;Giants: Assim Caminha a Humanidade&#8221;, cl\u00e1ssico antigo do diretor George Stevens 1956. Com o filme rolando, a mo\u00e7a comia nervosamente a pipoca e come\u00e7ou a chorar suavemente, baixinho. E o cara travado. Surpreso, pois j\u00e1 estava mais acostumado a essas &#8220;pessoalidades&#8221; t\u00e3o humanas. Duas horas e meia de filme. Grande hist\u00f3ria: amores tra\u00eddos, briga em fam\u00edlia, cobi\u00e7a, petr\u00f3leo, alcoolismo, vingan\u00e7a e amor\/desamor. &#8220;Trag\u00e9dias de amor&#8221;, pensou o homem&#8230;Vidas que se encontram e se perdem. Depois de anos \u2013 e v\u00e1rias sess\u00f5es especialmente de filmes de Tarantino -, aquele filme tocou fundo o ainda existente cora\u00e7\u00e3o emocional do cara. The End.<\/p>\n<p>9.<br \/>\n&#8220;H\u00e1 encontros e desencontros e as pessoas n\u00e3o saem as mesmas que entraram neles&#8221;<br \/>\n(Miolo: C\u00e2ntico para Ninar Pirados e Piradas, Gilberto Motta 1979)<\/p>\n<p>Na sa\u00edda do Cine Cairo, a rua ainda calma, num segundo, virou pra\u00e7a de guerra: bombas, granadas explodindo, a PM com o t\u00e1tico m\u00f3vel Brucutu e as gangues\/mil\u00edcias em luta pelo dom\u00ednio do territ\u00f3rio do velho cinema. Luta de falanges pelo tr\u00e1fico de drogas e prote\u00e7\u00e3o dos comerciantes em troca de pesadas taxas de explora\u00e7\u00e3o. O cara conhecia bem a situa\u00e7\u00e3o causada por seus &#8220;empregadores&#8221; para pequenos trabalhos de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;ABAIXA!!!&#8221;, gritou Rosa, a pipoqueira.<\/p>\n<p>E bala e gente gritando e crian\u00e7as chorando.<\/p>\n<p>Caos, conflito e repress\u00e3o nas bandas do velho Cairo.<\/p>\n<p>O cara puxou a mo\u00e7a pelo bra\u00e7o, por\u00e9m sem tempo de impedir o tiro certeiro. Ela caiu na cal\u00e7ada de entrada do cinema. Primeiro soltou no ch\u00e3o a pequena mala com o cinto vermelho, depois olhou para o homem e caiu sem vida. Ele abra\u00e7ou a mo\u00e7a\/mulher, pegou a mala e sumiu pela ladeira j\u00e1 escura, na noite eterna que caia sobre a cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; line-height: 18.0pt; background: white; margin: 0cm 0cm 12.0pt 0cm;\"><strong><span style=\"color: black;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..\u00a0<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; line-height: 18.0pt; background: white; box-sizing: border-box; font-variant-ligatures: normal; font-variant-caps: normal; orphans: 2; widows: 2; -webkit-text-stroke-width: 0px; text-decoration-thickness: initial; text-decoration-style: initial; text-decoration-color: initial; background-image: initial; background-position: initial; background-size: initial; background-repeat: initial; background-origin: initial; background-clip: initial; word-spacing: 0px; margin: 0cm 0cm 12.0pt 0cm;\"><strong><span style=\"box-sizing: border-box;\"><span style=\"color: black;\">*Trilha para o conto:\u00a0<br style=\"box-sizing: border-box;\" \/><\/span><a style=\"box-sizing: border-box;\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=s9PcpkMqtp8&amp;list=RDohNqsS0sh6w&amp;index=27\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"color: #00acff;\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=s9PcpkMqtp8&amp;list=RDohNqsS0sh6w&amp;index=27<\/span><\/a>\u00a0<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; line-height: 18.0pt; background: white; box-sizing: border-box; font-variant-ligatures: normal; font-variant-caps: normal; orphans: 2; widows: 2; -webkit-text-stroke-width: 0px; text-decoration-thickness: initial; text-decoration-style: initial; text-decoration-color: initial; background-image: initial; background-position: initial; background-size: initial; background-repeat: initial; background-origin: initial; background-clip: initial; word-spacing: 0px; margin: 0cm 0cm 12.0pt 0cm;\"><strong><span style=\"color: black;\">*NOTA DO AUTOR: a sequ\u00eancia deste conto escrito em Agosto de 2026 \u00e9 o conto Miolo: C\u00e2ntico para Ninar Pirados e Piradas, escrito em 1979, ampa SP.<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; background: white; box-sizing: border-box; font-variant-ligatures: normal; font-variant-caps: normal; orphans: 2; widows: 2; -webkit-text-stroke-width: 0px; text-decoration-thickness: initial; text-decoration-style: initial; text-decoration-color: initial; background-image: initial; background-position: initial; background-size: initial; background-repeat: initial; background-origin: initial; background-clip: initial; word-spacing: 0px; margin: 0cm 0cm 12.0pt 0cm;\"><b style=\"box-sizing: border-box;\"><span style=\"box-sizing: border-box;\"><span style=\"color: black;\"><strong>Gilberto Motta \u00e9 escritor, jornalista, pesquisador de encontros e desencontros em torno da sobreviv\u00eancia e do amor casual. Vive na Guarda do Emba\u00fa, litoral Sul de SC.<\/strong><\/span><\/span><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Sempre que for ao banheiro: leve a sua arma, man!&#8221; (Tarantino\/Pulp Fiction, 1994) 1. Cara de bandido. Jeito de marginal. Roupa de periferia. Ideias de rato. O sujeito ganhava a vida com pequenos &#8220;trabalhos&#8221; para a turma da pesada. 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