{"id":41855,"date":"2015-03-29T17:31:03","date_gmt":"2015-03-29T17:31:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=41758"},"modified":"2015-03-29T14:33:38","modified_gmt":"2015-03-29T17:33:38","slug":"a-luta-de-hitler-ninguem-quer-ler-um-livro-que-precisa-ser-lido-diz-historiador-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-luta-de-hitler-ninguem-quer-ler-um-livro-que-precisa-ser-lido-diz-historiador-2\/","title":{"rendered":"A luta de Hitler. Ningu\u00e9m quer ler o que precisa ser lido"},"content":{"rendered":"<p><em>Minha luta <\/em>(<em>Mein Kampf<\/em>) de Adolf Hitler \u00e9 o livro tabu por defini\u00e7\u00e3o. Banido na Alemanha desde o fim da Segunda Guerra Mundial, no \u00faltimo dia de 2015 ele cai em dom\u00ednio p\u00fablico na Europa. Assim, estaria aberto o caminho para sua reedi\u00e7\u00e3o, comentada ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, \u00f3rg\u00e3os governamentais querem manter a proibi\u00e7\u00e3o, alegando tratar-se de um panfleto de incita\u00e7\u00e3o racista. Apenas recentemente o Instituto de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea (IfZ, na sigla em alem\u00e3o) conseguiu impor definitivamente sua inten\u00e7\u00e3o de lan\u00e7ar uma edi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-cr\u00edtica.<\/p>\n<blockquote><p>O misto de panfleto e autobiografia que o futuro ditador nazista lan\u00e7ou em dois volumes, em 1925 e 1926, voltou agora \u00e0s manchetes. Juntamente com outros itens hitleristas, uma casa de leil\u00f5es de Los Angeles anunciava para esta quinta-feira (26\/03) a venda online de dois volumes da primeira edi\u00e7\u00e3o, assinados por Hitler e presenteados a um dos primeiros seguidores de seu Partido Nacional-Socialista Alem\u00e3o dos Trabalhadores.<\/p><\/blockquote>\n<p>A casa de leil\u00f5es classificava o lance inicial de 35 mil d\u00f3lares como &#8220;um pouco cauteloso&#8221;, considerando-se que um comprador pagou 64.850 d\u00f3lares por um conjunto semelhante em 2014. No entanto, a transa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se concretizou, pois a &#8220;pechincha&#8221; n\u00e3o encontrou nenhum comprador.<\/p>\n<p>A Deutsche Welle entrevistou o soci\u00f3logo Horst P\u00f6ttker, ex-docente de jornalismo da Universidade de Dortmund e professor em\u00e9rito da Universidade de Hamburgo. Para o projeto <em>Zeitungszeugen 1933-1945<\/em>, de reprodu\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias jornal\u00edsticas da era nazista, ele comentou trechos de <em>Mein Kampf<\/em>, mas sua publica\u00e7\u00e3o, planejada para janeiro de 2012, foi sustada.<\/p>\n<p><strong>DW: <\/strong><em> Uma edi\u00e7\u00e3o autografada do <\/em>Minha luta <em>foi leiloada em Los Angeles, com lance inicial de 35 mil d\u00f3lares. O que o senhor acha de leil\u00f5es desse tipo?<\/em><\/p>\n<p><strong>Horst P\u00f6ttker:<\/strong> Isso \u00e9 um com\u00e9rcio de rel\u00edquias obsceno. Sou totalmente contra, mas tamb\u00e9m sei, claro, que no contexto da livre economia \u00e9 imposs\u00edvel proibir algo assim.<\/p>\n<p><em>O que aparentemente se pode proibir \u00e9 a publica\u00e7\u00e3o na Alemanha do panfleto agitador de Hitler. A partir de 1\u00ba de janeiro de 2016, caem os seus direitos autorais. Ainda assim, em meados do ano passado, as secretarias estaduais de Justi\u00e7a alem\u00e3s decidiram seguir interditando a divulga\u00e7\u00e3o do livro. O que o senhor pensa dessa decis\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 preciso tomar cuidado com a palavra &#8220;proibir&#8221;. N\u00e3o \u00e9 proibido ler esse livro: pode-se v\u00ea-lo em bibliotecas. Tampouco existe uma lei penal proibindo sua reedi\u00e7\u00e3o. Mas h\u00e1 direitos autorais, e eles ficam no nome do autor da obra por 70 anos [ap\u00f3s sua morte].<\/p>\n<p>Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, os Aliados transferiram os direitos de <em>Mein Kampf<\/em> da Editora Eher para o estado da Baviera. Dentro de uns nove meses, o livro entra em dom\u00ednio p\u00fablico. Se os secret\u00e1rios de Justi\u00e7a deliberaram proibir a reedi\u00e7\u00e3o em alem\u00e3o e na Alemanha, eles precisam fazer uma lei que pro\u00edba a difus\u00e3o. At\u00e9 agora, n\u00e3o vi isso acontecer.<\/p>\n<p><em>Os secret\u00e1rios da Justi\u00e7a dizem que o crime de incita\u00e7\u00e3o popular basta para impedir uma publica\u00e7\u00e3o. O senhor concorda que o livro cont\u00e9m incita\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o concordo, pois, na minha opini\u00e3o, esse livro \u00e9 um documento hist\u00f3rico. N\u00e3o \u00e9 um texto pol\u00edtico atual. Podem-se declarar anticonstitucionais textos redigidos ap\u00f3s a entrada em vigor da Constitui\u00e7\u00e3o: o que foi feito antes s\u00e3o documentos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>De resto, n\u00e3o considero inteiramente procedente o termo &#8220;panfleto de incita\u00e7\u00e3o popular&#8221;, pois, em parte, ele n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o incitador assim. Conhecer esse livro \u00e9 \u00fatil para entender por que tanta gente seguiu o nazismo nos anos 1930 e tamb\u00e9m 1920.<\/p>\n<p>O ent\u00e3o presidente Theodor Heuss j\u00e1 dizia na d\u00e9cada de 50 que se devia public\u00e1-lo, para que os alem\u00e3es soubessem como os nazistas pensavam e de que crimes eram capazes.<\/p>\n<p><em>Qual \u00e9 o conte\u00fado de <\/em>Minha luta<em>?<\/em><\/p>\n<p>A argumenta\u00e7\u00e3o que permeia o livro \u00e9 a ideologia racial. Em primeira linha, trata-se da luta entre as &#8220;ra\u00e7as&#8221; germ\u00e2nica e judaica. A &#8220;ra\u00e7a judia&#8221; \u00e9, para Hitler, o principal inimigo, que cabe combater e exterminar, em nome da autopreserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Portanto, j\u00e1 em 1925, quando ele foi lan\u00e7ado, se podia saber que os nazistas planejavam exterminar a &#8220;ra\u00e7a judia&#8221;. At\u00e9 o fim da guerra, foram impressos 13 milh\u00f5es de exemplares. O argumento de muitos alem\u00e3es, depois de 1945, de que as pessoas n\u00e3o sabiam de nada, \u00e9, assim, improcedente.<\/p>\n<p><em>O Instituto de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea de Munique trabalha h\u00e1 anos numa edi\u00e7\u00e3o comentada, que, depois de muito vaiv\u00e9m, possivelmente vai sair no in\u00edcio de 2016. N\u00e3o seria esta a solu\u00e7\u00e3o certa, impedir edi\u00e7\u00f5es n\u00e3o comentadas, mas permitir as comentadas?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o precisamos de uma edi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-cr\u00edtica \u2013 muito menos de uma que custa tanta verba p\u00fablica \u2013, porque n\u00e3o temos necessidade de saber o que o autor Adolf Hitler queria dizer exatamente. &#8220;Hist\u00f3rico-cr\u00edtico&#8221; tamb\u00e9m significa, afinal, compreender diferentes camadas do desenvolvimento do texto. Ser\u00e1 que filologia textual \u00e9 realmente importante, aqui? Na minha opini\u00e3o, \u00e9 importante um p\u00fablico amplo finalmente ficar conhecendo o conte\u00fado desse livro e desenvolver uma avalia\u00e7\u00e3o realista, criticamente fundamentada.<\/p>\n<p><em>O senhor mesmo trabalhou h\u00e1 alguns anos num coment\u00e1rio de <\/em>Mein Kampf <em>para o projeto <\/em>Zeitungszeugen<em>, antes que ele fosse sustado pela secretaria de Finan\u00e7as da Baviera. Qual era a inten\u00e7\u00e3o do <\/em>Zeitungszeugen<em>, ao publicar o panfleto do ditador e genocida?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s hav\u00edamos planejado tr\u00eas brochuras com excertos de <em>Minha luta<\/em>, comentados por mim. Minha meta era esclarecer a respeito desse livro e responder \u00e0 pergunta: por que tantos alem\u00e3es o compraram e leram. E por que seguiram o que constava dele. Eu queria examinar os argumentos aparentemente atraentes de Hitler, buscando sua pertin\u00eancia, e mostrar, justamente, que eles n\u00e3o s\u00e3o pertinentes, por s\u00f3 serem plaus\u00edveis no contexto de uma ideologia brutalmente racista.<\/p>\n<p>Eu temo que, no momento em que esse livro seja lan\u00e7ado, ele adquira uma certa atratividade, por todos estarem munidos da falsa no\u00e7\u00e3o de que se trata exclusivamente de um panfleto grosseiro, onde o mal se anuncia imediatamente, por toda parte. N\u00e3o se devia t\u00ea-lo mantido tabu por tanto tempo. Eu queria combater isso com a publica\u00e7\u00e3o dos trechos e das explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><em>Em outros pa\u00edses, a difus\u00e3o de <\/em>Mein Kampf<em> n\u00e3o \u00e9, em absoluto, problem\u00e1tica \u2013 veja-se o leil\u00e3o de uma edi\u00e7\u00e3o autografada nos Estados Unidos. Por que os alem\u00e3es t\u00eam tantos problemas com o livro de Hitler?<\/em><\/p>\n<p>Impedir que esse livro seja lido por muitos na Alemanha, fazendo justamente uso do direito autoral, \u00e9 um absurdo. Isso quase lan\u00e7a a tese de que os alem\u00e3es s\u00e3o mais seduz\u00edveis do que outras na\u00e7\u00f5es. Eu, realmente, tor\u00e7o para que os nossos pol\u00edticos n\u00e3o sejam dessa opini\u00e3o, mas sim que \u2013 70 anos ap\u00f3s o fim desse terr\u00edvel regime \u2013 confiem que os alem\u00e3es possuem maturidade suficiente.<\/p>\n<p>Pode-se comprar o livro por todo o mundo em tradu\u00e7\u00f5es; com as tecnologias digitais \u00e9 at\u00e9 bem f\u00e1cil ter acesso a elas. N\u00e3o percebo o que se pretende com a planejada proibi\u00e7\u00e3o. Quem vem da [extrema] direita, consegue o livro, de qualquer jeito.<\/p>\n<p><strong>DW<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha luta (Mein Kampf) de Adolf Hitler \u00e9 o livro tabu por defini\u00e7\u00e3o. Banido na Alemanha desde o fim da Segunda Guerra Mundial, no \u00faltimo dia de 2015 ele cai em dom\u00ednio p\u00fablico na Europa. Assim, estaria aberto o caminho para sua reedi\u00e7\u00e3o, comentada ou n\u00e3o. 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