{"id":44846,"date":"2015-04-21T11:14:35","date_gmt":"2015-04-21T14:14:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=44846"},"modified":"2016-07-30T16:54:56","modified_gmt":"2016-07-30T19:54:56","slug":"feche-os-olhos-e-responda-por-que-e-dificil-aceitar-a-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/feche-os-olhos-e-responda-por-que-e-dificil-aceitar-a-morte\/","title":{"rendered":"Feche os olhos e responda r\u00e1pido. Por que \u00e9 dif\u00edcil aceitar a morte?"},"content":{"rendered":"<p>Desde que o ser humano existe \u00e9 assim: todo mundo nasce, cresce e, um dia, morre. Mas apesar de conviver com essa inevit\u00e1vel verdade h\u00e1 quase 200 mil anos &#8212; estimativa da presen\u00e7a do Homo sapiens na Terra &#8212; ningu\u00e9m lida muito bem com a ideia de morrer ou perder um ente querido.<\/p>\n<p>Ainda que tenha perdido dezenas de amigos e parentes ao longo da vida, voc\u00ea vai sofrer de novo quando outro mais se for. E o pior: voc\u00ea \u00e9 capaz de sofrer at\u00e9 pela perda de algu\u00e9m que n\u00e3o conheceu pessoalmente, como um campe\u00e3o de F\u00f3rmula 1 ou uma princesa que vivia do outro lado do oceano.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que existe alguma raz\u00e3o para tanta dor? A psicologia evolucionista, que analisa aspectos da mente e do comportamento sob o prisma da adapta\u00e7\u00e3o do homem na Terra, n\u00e3o tem uma resposta definitiva para essa pergunta. Entretanto, alguns estudiosos tentam lan\u00e7ar luz sobre o tema.<\/p>\n<blockquote><p>Para Randolph Nesse, professor do Centro de Evolu\u00e7\u00e3o e Medicina da Universidade do Arizona, nos EUA, existe uma fun\u00e7\u00e3o adaptativa para o luto. Assim como uma dor forte no lado esquerdo do peito chama aten\u00e7\u00e3o para um poss\u00edvel infarto, o pesar profundo no cora\u00e7\u00e3o pode deflagrar o restabelecimento de prioridades, o cuidado pelos que ficam e consigo pr\u00f3prio. Seguindo a mesma l\u00f3gica, muitos estudiosos acreditam que a depress\u00e3o \u00e9 uma forma de pedir socorro.<\/p><\/blockquote>\n<p>Outro autor a pesquisar bastante sobre o assunto sob o vi\u00e9s da psicologia evolucionista, John Archer, da Universidade Central de Lancashire, no Reino Unido, pensa justamente o contr\u00e1rio. Para ele, o luto \u00e9, na verdade, uma m\u00e1 adapta\u00e7\u00e3o, tanto que, ap\u00f3s a perda de algu\u00e9m querido, h\u00e1 redu\u00e7\u00e3o do desejo sexual, da fome e da imunidade. H\u00e1 gente at\u00e9 que morre depois que o parceiro se vai. Archer acredita que sofrer pela morte \u00e9 um efeito colateral da maneira como o ser humano se relaciona, um subproduto dessa mania que as pessoas t\u00eam de amar e se apegar umas \u00e0s outras.<\/p>\n<p>Em um artigo sobre a teoria de Archer, Nesse comenta que a vis\u00e3o do brit\u00e2nico leva a crer que, se existisse um antidepressivo capaz de anular o sofrimento pela morte de algu\u00e9m, a humanidade n\u00e3o perderia nada &#8212; pelo contr\u00e1rio, s\u00f3 ganharia.<\/p>\n<p>Para Randolph Nesse, isso seria t\u00e3o arriscado quanto dar morfina a um jogador de futebol que quebrou a perna e faz\u00ea-lo voltar ao jogo, sob o risco de sofrer uma fratura ainda mais grave e ter de largar o esporte para sempre.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Se a vida n\u00e3o tem valor pessoal, a morte pode ser uma boa possibilidade de encerr\u00e1-la, situa\u00e7\u00e3o presente na hist\u00f3ria de v\u00e1rios suicidas&#8221;, observa Maria Julia Kov\u00e1cs, coordenadora do Laborat\u00f3rio de Estudos sobre a Morte\u00a0 do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de S\u00e3o Paulo).<\/p><\/blockquote>\n<p>A ideia de que a dor do luto \u00e9 um mal necess\u00e1rio para a valoriza\u00e7\u00e3o da vida \u00e9 reconfortante, mas n\u00e3o faz ningu\u00e9m sofrer menos. E nem mesmo os bichos escapam desse terr\u00edvel efeito colateral do apego. &#8220;H\u00e1 registros que animais de estima\u00e7\u00e3o podem viver processo de luto ao acompanhar os donos mesmo quando j\u00e1 morreram, n\u00e3o abandonar o leito do dono doente, ou de ficar com olhar triste, sem comer ou at\u00e9 morrer junto&#8221;, comenta a especialista da USP.<\/p>\n<p>De fato, n\u00e3o faltam hist\u00f3rias de c\u00e3es que parecem velar o corpo dos donos que se foram, como Rambo, um vira-latas que se mudou para um cemit\u00e9rio no interior do Paran\u00e1 ap\u00f3s a morte do dono, recentemente. E tamb\u00e9m Pipoca, cachorrinha do menino Eduardo de Jesus Ferreira, de 10 anos, morto no Complexo do Alem\u00e3o, no Rio de Janeiro. Depois da perda, o animal passava a maior parte do dia quieto, num canto.<\/p>\n<p>John Bowlby, psiquiatra e psicanalista ingl\u00eas que \u00e9 refer\u00eancia entre os estudiosos do assunto, dizia que, quanto maior o apego, maior o sofrimento do luto. Foi ele, tamb\u00e9m, quem descreveu as quatro fases que, em geral, s\u00e3o enfrentadas ap\u00f3s a perda de algu\u00e9m querido.<\/p>\n<blockquote><p>A primeira \u00e9 a fase de choque ou entorpecimento: \u00e9 dif\u00edcil acreditar que aquilo est\u00e1 acontecendo e, por isso, a dor ainda n\u00e3o existe. A segunda \u00e9 a de anseio e busca pela figura perdida, que gera des\u00e2nimo e choro. Na terceira, vem a desorganiza\u00e7\u00e3o e o desespero, e, na quarta, a reorganiza\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>Se a primeira fase pode durar de algumas horas a cerca de uma semana, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel prever o tempo de dura\u00e7\u00e3o das outras. Tudo depende dos recursos internos de cada um e da rela\u00e7\u00e3o com a figura perdida, entre outras quest\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;O sofrimento humano \u00e9 dimensionado pela pessoa segundo aspectos pessoais, caracter\u00edsticas de personalidade e hist\u00f3rias vividas. Entretanto, a cultura tem influ\u00eancia forte ao autorizar ou n\u00e3o certas manifesta\u00e7\u00f5es da dor e oferecer rituais de prote\u00e7\u00e3o ao enlutado que s\u00e3o coletivas&#8221;, diz Kov\u00e1cs. &#8220;Deve-se levar em conta, tamb\u00e9m, quest\u00f5es religiosas na manifesta\u00e7\u00e3o do sofrimento&#8221;, acrescenta. Se n\u00e3o d\u00e1 para evitar a ang\u00fastia, \u00e9 poss\u00edvel buscar algum sentido e contar com apoio de quem j\u00e1 enfrentou o luto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde que o ser humano existe \u00e9 assim: todo mundo nasce, cresce e, um dia, morre. Mas apesar de conviver com essa inevit\u00e1vel verdade h\u00e1 quase 200 mil anos &#8212; estimativa da presen\u00e7a do Homo sapiens na Terra &#8212; ningu\u00e9m lida muito bem com a ideia de morrer ou perder um ente querido. 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