{"id":4805,"date":"2014-03-20T01:31:37","date_gmt":"2014-03-20T04:31:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=4805"},"modified":"2014-03-20T12:40:04","modified_gmt":"2014-03-20T15:40:04","slug":"eu-agnelo-traindo-e-mentindo-vou-levando-a-vida-e-acabando-com-brasilia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/eu-agnelo-traindo-e-mentindo-vou-levando-a-vida-e-acabando-com-brasilia\/","title":{"rendered":"Eu, Agnelo. Traindo e mentindo, vou levando e acabando Bras\u00edlia"},"content":{"rendered":"<p>Eu nasci predestinado ao sucesso e a ganhar muito dinheiro. Desde pequeno, em Itapetinga, onde fui parido, aprendi a levar vantagem em tudo. Penso mesmo que a campanha publicit\u00e1ria do jeitinho brasileiro, protagonizada por Gerson, foi inspirada em mim.<\/p>\n<p>Minha fam\u00edlia \u00e9 de origem humilde. Meu pai, servidor p\u00fablico do munic\u00edpio. Minha m\u00e3e, para ajudar na compra da feira, mantinha um sal\u00e3o de beleza em casa.<\/p>\n<p>Tudo isso, por\u00e9m, \u00e9 coisa do passado. Hoje tenho as chaves de uma famosa caverna. Basta-me bater as m\u00e3os e balbuciar palavras m\u00e1gicas, como fazia Ali Bab\u00e1, para que o dinheiro jorre com a for\u00e7a de uma cachoeira.<\/p>\n<p>Meu nome \u00e9 Agnelo dos Santos Queiroz Filho. Estamos em fins de mar\u00e7o de 2014. Ainda sou governador do Distrito Federal. Ouvi dizer que o Jos\u00e9 Seabra est\u00e1 escrevendo minha biografia n\u00e3o autorizada. Isso mesmo. Ouvi dizer. Mesmo porque, quando se trata do Seabra, eu sempre ou\u00e7o dizer. Ele deve escrever algumas inverdades. Mas isso faz parte do jogo. Quem sabe pode servir como resposta \u00e0s muitas mentiras que eu contei (inclusive a respeito dele) ao longo dos meus cinquenta anos de vida. E como menti.<\/p>\n<p>A maior de todas as minhas muitas mentiras n\u00e3o foi dizer ao povo de Bras\u00edlia que seria um grande governador; que seria probo. Isso foi atemporal, valeu para a campanha, para ganhar a simpatia do povo, ter voto e ser eleito.<\/p>\n<p>Eu menti feio, na realidade, quando disse que n\u00e3o o conhe\u00e7o. Logo ele (estou dizendo a verdade) que compartilhou de momentos memor\u00e1veis da minha vida. Sempre o tratei por Seabrinha. Gosto dele. Talvez por isso entendo o fato de ele hoje dizer por a\u00ed que n\u00e3o \u00e9 mais meu amigo. Tamb\u00e9m, pudera. O que eu fiz de sacanagem com ele, n\u00e3o estava escrito \u2013 ao menos at\u00e9 agora. Ali\u00e1s, sacanagem \u00e9 meu hobby. Seja com quem for.<\/p>\n<p>Mas, vamos deixar isso de lado. Biografia \u00e9 coisa s\u00e9ria. As intrigas ficam para quem gosta de fofoca. O importante \u00e9 me conhecer. Virtudes, eu as tenho poucas \u2013 acho mesmo que nenhuma. Mas defeitos, esses eu tenho para vender, como vendi minha consci\u00eancia, como vendi a confian\u00e7a que o povo depositou em mim, como tenho vendido uma p\u00e9ssima imagem.<\/p>\n<p>Gostei da ideia de a biografia come\u00e7ar pelos dias atuais. \u00c9 bom apresentar logo meus podres. Fica a vantagem de, no fim do livro, eu estar nascendo. E serei, como todo beb\u00ea, uma crian\u00e7a inocente. Ao menos isso, eu saberei apreciar.<\/p>\n<p>Vamos ver onde eu errei. \u00c9 f\u00e1cil descobrir. Para tanto n\u00e3o preciso remoer meus neur\u00f4nios remanescentes. J\u00e1 pequeno, reitero, gostava de sair no lucro. E fui me acostumando a isso at\u00e9 virar adulto, embora n\u00e3o necessariamente homem, na concep\u00e7\u00e3o da palavra.<\/p>\n<p>Para que voc\u00ea, leitor, tenha uma ideia, lembro em r\u00e1pidas pinceladas que quando crian\u00e7a \u2013 per\u00edodo em que todos n\u00f3s brincamos de m\u00e9dico, de papai e mam\u00e3e \u2013 eu trocava com os amiguinhos a vez de examinar as meninas. Como compensa\u00e7\u00e3o, eu ficava com os pi\u00f5es, pipas e bolas de gude deles. Como voc\u00ea pode notar, esperteza era\u00a0\u2013 como \u00e9 hoje\u00a0\u2013 meu lema.<\/p>\n<p>Mas, voltemos ao Eu governador \u2013 ou um pouco antes, ao Eu candidato. Desnecess\u00e1rio dizer que entrei na disputa com o bolso, se n\u00e3o necessariamente cheio, ao menos com o suficiente para derrotar Geraldo Magela nas pr\u00e9vias do partido. Consumada essa vit\u00f3ria (me resguardo manter sob reserva a que pre\u00e7o) partimos, eu e um seleto grupo de amigos \u2013 muitos dos quais, hoje sou for\u00e7ado a reconhecer, ex-amigos \u2013 para colocar a campanha na rua.<\/p>\n<p>A esses velhos camaradas, cujos nomes ser\u00e3o conhecidos ao longo desta biografia, eu fui imperativo: era preciso arrecadar o m\u00e1ximo poss\u00edvel, porque a campanha poderia ser cara e, em caso de derrota \u2013 o que, convenhamos, seria improv\u00e1vel \u2013, era preciso ter f\u00f4lego para sobreviver at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es seguintes.<\/p>\n<p>Os bolsos, portanto, encheram como nunca. N\u00e3o interessava saber a origem. O que valia era a firme disposi\u00e7\u00e3o de vender a ideia de que toda contribui\u00e7\u00e3o seria devolvida em dobro, embora abatido algum percentual, mediante contratos na p\u00f3s-posse.<\/p>\n<p>Esse foi o meu mal. Assumi muitos compromissos, menti, tra\u00ed. E me vi crucificado logo nos primeiros meses de governo, com den\u00fancias que pululavam como uma cachoeira que exalava \u00e1gua podre, embora com um ligeiro aroma de pequi.<\/p>\n<p>Os pap\u00e9is eram arrecadados por muitos amigos (ou seriam ex?). N\u00e3o importa. O que vale dizer \u00e9 que alguns continuam ao meu lado. Um, por exemplo, vende as terras de Bras\u00edlia a pre\u00e7o de banana para cobrir o rombo com a constru\u00e7\u00e3o do meu elefante branco de pernas tortas. Outro age como vampiro dos cofres p\u00fablicos, ao mandar que pacientes dos hospitais do SUS fa\u00e7am hemodi\u00e1lise em cl\u00ednicas particulares, que por sua vez apresentam a fatura nem sempre condizente com a realidade do servi\u00e7o prestado. A \u00e1rea de Sa\u00fade, ali\u00e1s, \u00e9 um fil\u00e3o. Eu sou m\u00e9dico, sei disso. E esse amigo, que se passou por um dos tesoureiros da campanha, tamb\u00e9m entende muito bem de como ganhar dinheiro com um jaleco branco.<\/p>\n<p>Sobre os pap\u00e9is arrecadados, sempre lembro a alguns correligion\u00e1rios que quem tem papel, gasta uma pequena parte com papel. Para n\u00e3o fugir \u00e0 regra, fiz justamente isso. Afinal, est\u00e1vamos em plena campanha eleitoral e precis\u00e1vamos levar nosso discurso ao eleitor. Mandei, portanto, que o coordenador-vampiro dos cofres p\u00fablicos procurasse um interlocutor capaz de convencer o Seabrinha a se incorporar \u00e0 campanha. (vixe, mainha, que esse nome n\u00e3o me sai da cabe\u00e7a). N\u00e3o foi f\u00e1cil, mas ele, a quem confiei escrever minha biografia n\u00e3o autorizada, cedeu.<\/p>\n<p>Vou abrir um par\u00eantese. Preciso vasculhar minha mem\u00f3ria. Pouco me recordo dessa parte da campanha. Tenho, contudo, a convic\u00e7\u00e3o de que uma vez por semana gente do meu comit\u00ea se encontrava com Seabrinha no caf\u00e9 do Garvey. L\u00e1 definiam a pauta de um jornal semanal. E deixavam um pacote cheio de garoupas para cobrir os custos com impress\u00e3o e a equipe de reda\u00e7\u00e3o. Entretanto, como as recorda\u00e7\u00f5es s\u00e3o vagas, vou deixar para contar essa parte da minha biografia mais adiante.<\/p>\n<p><strong>Nota da Reda\u00e7\u00e3o<\/strong> \u2013 Consultados por <strong>Notibras<\/strong>, os assinantes do livro \u2018<em>Biografia n\u00e3o autorizada de Agnelo Queiroz<\/em>\u2019, concordaram em que os primeiros cap\u00edtulos sejam abertos ao p\u00fablico. O autor, jornalista Jos\u00e9 Seabra, ter\u00e1 a prerrogativa de decidir em que cap\u00edtulo o livro ser\u00e1 destinado apenas para assinantes. A assinatura custa 120 reais. O assinante deve depositar esse valor na conta corrente do autor, Caixa Econ\u00f4mica Federal, Ag\u00eancia 007, conta 4276-1. Trechos do livro (e eventualmente cap\u00edtulos inteiros) ser\u00e3o editados at\u00e9 tr\u00eas vezes por semana em <strong>Notibras.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu nasci predestinado ao sucesso e a ganhar muito dinheiro. Desde pequeno, em Itapetinga, onde fui parido, aprendi a levar vantagem em tudo. Penso mesmo que a campanha publicit\u00e1ria do jeitinho brasileiro, protagonizada por Gerson, foi inspirada em mim. Minha fam\u00edlia \u00e9 de origem humilde. Meu pai, servidor p\u00fablico do munic\u00edpio. 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