{"id":50468,"date":"2015-05-26T07:05:42","date_gmt":"2015-05-26T10:05:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=50468"},"modified":"2015-05-26T07:05:42","modified_gmt":"2015-05-26T10:05:42","slug":"alteracao-em-gene-desencadeia-doenca-autoimune-em-bebes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/alteracao-em-gene-desencadeia-doenca-autoimune-em-bebes\/","title":{"rendered":"Altera\u00e7\u00e3o em gene desencadeia doen\u00e7a autoimune em beb\u00eas"},"content":{"rendered":"<p>As doen\u00e7as autoimunes, nas quais o sistema de defesa se volta contra o pr\u00f3prio organismo, podem surgir mais cedo do que se imaginava. Em casos raros, descobriu-se agora, podem se instalar antes mesmo do nascimento. Pesquisadores brasileiros identificaram em duas fam\u00edlias \u2013 uma do interior de S\u00e3o Paulo e outra do interior do Paran\u00e1 \u2013 casos de crian\u00e7as que logo ap\u00f3s o parto j\u00e1 apresentavam sinais de uma enfermidade autoimune incomum e grave: a s\u00edndrome da imunodesregula\u00e7\u00e3o, poliendocrinopatia e enteropatia ligada ao cromossomo X (IPEX).<\/p>\n<p>Nessa s\u00edndrome, c\u00e9lulas de defesa da pr\u00f3pria crian\u00e7a atacam m\u00faltiplos \u00f3rg\u00e3os, que depois de semanas ou meses de agress\u00e3o cont\u00ednua deixam de funcionar adequadamente e geram os sinais cl\u00ednicos reconhecidos pelos pediatras. Como os beb\u00eas de S\u00e3o Paulo e do Paran\u00e1 manifestaram os sinais da IPEX nas primeiras horas de vida, os pesquisadores conclu\u00edram que o ataque imunol\u00f3gico s\u00f3 poderia ter come\u00e7ado muito antes, ainda na gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O achado foi publicado em dezembro de 2014 na Clinical Immunology e surpreendeu os especialistas. &#8220;N\u00e3o pens\u00e1vamos que doen\u00e7as autoimunes pudessem ocorrer durante a vida intrauterina&#8221;, conta a pediatra Magda Carneiro-Sampaio, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (FMUSP) e coordenadora da pesquisa.<\/p>\n<p>Doen\u00e7as imunol\u00f3gicas do feto iniciadas durante a gesta\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o incomuns. A mais conhecida \u00e9 a eritroblastose fetal, causada pela incompatibilidade entre o grupo sangu\u00edneo da m\u00e3e e o do beb\u00ea. Nessa enfermidade, por\u00e9m, o problema \u00e9 provocado por anticorpos produzidos pelas c\u00e9lulas de defesa maternas, transferidos para a crian\u00e7a por meio da placenta e do cord\u00e3o umbilical. A diferen\u00e7a com os casos descritos pelo grupo de Magda na Clinical Immunology \u00e9 que, nestes, s\u00e3o as c\u00e9lulas do sistema imunol\u00f3gico do pr\u00f3prio feto que lesam o organismo. &#8220;At\u00e9 onde se sabe, esses s\u00e3o os primeiros casos comprovados de doen\u00e7a autoimune iniciada na gravidez&#8221;, diz Magda.<\/p>\n<blockquote><p>Os casos descritos na Clinical Immunology s\u00e3o decorrentes de altera\u00e7\u00f5es em um gene que comprometem o amadurecimento de um grupo espec\u00edfico de c\u00e9lulas de defesa: os linf\u00f3citos T reguladores. Respons\u00e1veis por coordenar a a\u00e7\u00e3o de outras c\u00e9lulas de defesa, esses linf\u00f3citos passam por uma fase de matura\u00e7\u00e3o no timo, \u00f3rg\u00e3o situado no alto peito, na qual aprendem a identificar as c\u00e9lulas do pr\u00f3prio organismo e preserv\u00e1-las do ataque a c\u00e9lulas de organismos invasores. Problemas nessa etapa de amadurecimento levam esses linf\u00f3citos a desencadear agress\u00f5es contra o pr\u00f3prio corpo.<\/p><\/blockquote>\n<p>Desde 2008 o grupo de Magda investiga as doen\u00e7as autoimunes que acometem beb\u00eas e crian\u00e7as nos primeiros anos de vida. Os pesquisadores s\u00f3 n\u00e3o esperavam chegar aos fetos \u2013 embora alguns imunologistas j\u00e1 trabalhassem com a ideia de que os problemas autoimunes pudessem come\u00e7ar na fase fetal. &#8220;H\u00e1 casos na literatura m\u00e9dica de beb\u00eas com imunodefici\u00eancias graves ao nascer&#8221;, conta Magda. &#8220;Uma doen\u00e7a dessa natureza n\u00e3o se instala de um dia para outro.&#8221;<\/p>\n<p>O primeiro dos casos apresentados na Clinical Immunology chegou ao conhecimento de Magda anos atr\u00e1s, relatado pelo pediatra Edson Suzuki, da Faculdade de Medicina de Mar\u00edlia. Mas a confirma\u00e7\u00e3o s\u00f3 veio com o estudo de outros dois fetos masculinos da mesma fam\u00edlia, mortos em consequ\u00eancia de uma complica\u00e7\u00e3o no desenvolvimento, e de um caso em outra fam\u00edlia, identificado pela endocrinologista Mariana Xavier da Silva, pesquisadora da Universidade Estadual de Londrina que fez resid\u00eancia m\u00e9dica no Instituto da Crian\u00e7a da USP.<\/p>\n<p>Nessa cidade do interior do Paran\u00e1, Mariana havia atendido um beb\u00ea do sexo masculino que nasceu prematuro e apresentou diabetes de dif\u00edcil controle nas primeiras horas de vida. Exames laboratoriais mostraram que seu organismo j\u00e1 produzia anticorpos contra as c\u00e9lulas do p\u00e2ncreas produtoras de insulina. Sinais de inflama\u00e7\u00e3o na pele, nos intestinos e em outros \u00f3rg\u00e3os permitiram caracterizar o problema como IPEX.<\/p>\n<p>Essa s\u00edndrome se manifesta em 93% das vezes no primeiro ano de vida, embora alguns casos sejam identificados logo ap\u00f3s o nascimento. Sua origem s\u00e3o altera\u00e7\u00f5es pontuais no gene forkhead box P3 (FOXP3), que controla o amadurecimento dos linf\u00f3citos T reguladores.<\/p>\n<p>Situado no cromossomo X, esse gene existe em c\u00f3pia dupla nas mulheres e simples nos homens. Por essa raz\u00e3o, nas duas fam\u00edlias as m\u00e3es n\u00e3o haviam desenvolvido a s\u00edndrome, embora apresentassem uma das c\u00f3pias alterada, herdada pelos filhos com Ipex. Ao investigar a hist\u00f3ria de doen\u00e7as nessas fam\u00edlias, os pesquisadores viram ainda que as m\u00e3es e as av\u00f3s (em uma das fam\u00edlias tamb\u00e9m a bisav\u00f3) j\u00e1 haviam perdido outros beb\u00eas do sexo masculino durante a gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os pesquisadores buscaram na literatura m\u00e9dica outros relatos de aborto e nascimento de prematuros associados \u00e0 Ipex, sinal de que a s\u00edndrome teria se manifestado ainda na gesta\u00e7\u00e3o. De 2000 a 2014, encontraram outros 130 casos. &#8220;Em 45% desses casos, as manifesta\u00e7\u00f5es autoimunes surgiram no primeiro m\u00eas de vida e, em 11 deles, no primeiro dia&#8221;, diz Magda. &#8220;Mas nenhum pesquisador prop\u00f4s que a doen\u00e7a havia come\u00e7ado durante a vida intrauterina&#8221;, conta.<\/p>\n<p>A constata\u00e7\u00e3o de que o problema pode come\u00e7ar na gravidez levou o grupo a propor um novo mecanismo para explicar o desenvolvimento da IPEX. Nas escolas m\u00e9dicas se ensina que doen\u00e7as autoimunes como essa surgem quando os linf\u00f3citos T reguladores perdem a capacidade de distinguir as c\u00e9lulas do corpo das de microrganismos invasores. Segundo esse modelo, conhecido como quebra de toler\u00e2ncia, o problema s\u00f3 se instala depois que o sistema imune passa por uma fase de amadurecimento, antes considerado imposs\u00edvel na vida fetal. &#8220;Nesses casos n\u00e3o haveria quebra de toler\u00e2ncia, uma vez que a toler\u00e2ncia nem chegou a se estabelecer&#8221;, explica Magda.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o do imunologista portugu\u00eas Ant\u00f3nio Coutinho, do Instituto Gulbenkian de Ci\u00eancia, colaborador do grupo, trata-se de uma mudan\u00e7a substancial no pensamento que predominou por muito tempo entre os especialistas. Ele acredita que esse trabalho deve servir para pediatras e neonatologistas ficarem atentos \u00e0 possibilidade de rec\u00e9m-nascidos apresentarem doen\u00e7as autoimunes. Quanto antes forem identificadas, melhores s\u00e3o os resultados do tratamento e maiores as chances de cura \u2013 a maioria das doen\u00e7as autoimunes \u00e9 tratada com imunossupressores e a IPEX, com transplante de c\u00e9lulas-tronco. &#8220;S\u00e3o procedimentos que podem salvar a crian\u00e7a&#8221;, diz Coutinho.<\/p>\n<p>Obstetras podem usar as novas informa\u00e7\u00f5es para encaminhar as pacientes para o aconselhamento gen\u00e9tico quando h\u00e1 casos de abortos repetidos ou perdas de rec\u00e9m-nascidos do sexo masculino na fam\u00edlia. &#8220;Se houver o risco de a gesta\u00e7\u00e3o resultar em s\u00edndromes graves que atingem s\u00f3 os meninos, como a IPEX, a alternativa \u00e9 fazer uma fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro e escolher um embri\u00e3o feminino&#8221;, conta Maria de Lourdes Brizot, especialista em medicina fetal da FMUSP. Uma resolu\u00e7\u00e3o do Conselho Federal de Medicina autoriza esse procedimento com a finalidade de evitar doen\u00e7as ligadas ao sexo da crian\u00e7a. &#8220;Nesse caso&#8221;, diz Maria de Lourdes, &#8220;a escolha n\u00e3o \u00e9 discriminat\u00f3ria, mas em favor da sa\u00fade e da vida do beb\u00ea.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As doen\u00e7as autoimunes, nas quais o sistema de defesa se volta contra o pr\u00f3prio organismo, podem surgir mais cedo do que se imaginava. Em casos raros, descobriu-se agora, podem se instalar antes mesmo do nascimento. 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