{"id":55344,"date":"2015-06-28T18:42:43","date_gmt":"2015-06-28T21:42:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=55344"},"modified":"2015-06-28T18:43:52","modified_gmt":"2015-06-28T21:43:52","slug":"raul-seixas-o-mito-vivo-apos-25-anos-da-morte-do-cantor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/raul-seixas-o-mito-vivo-apos-25-anos-da-morte-do-cantor\/","title":{"rendered":"Raul Seixas, o mito vivo mesmo passados os 25 anos da morte do cantor"},"content":{"rendered":"<p>Se ainda estivesse vivo, o cantor e compositor Raul Seixas (1945-1989) estaria completando neste 28 de junho 70 anos de idade e entrando assim numa etapa da vida em que j\u00e1 encontram \u2013 ou est\u00e3o em vias de ingressar \u2013 v\u00e1rios contempor\u00e2neos seus, igualmente \u00eddolos da m\u00fasica popular brasileira.<\/p>\n<p>Como nos versos de um de seus primeiros sucessos, poderia continuar sendo \u201cuma metamorfose ambulante\u201d, sem ter \u201caquela velha opini\u00e3o formada sobre tudo\u201d. Ou ent\u00e3o, contradizendo o que pregava para si mesmo na letra de outra can\u00e7\u00e3o, Ouro de Tolo, estar sentado \u201cno trono de um apartamento, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar\u201d.<\/p>\n<p>Morto prematuramente h\u00e1 quase 26 anos, Raul Seixas \u00e9 um mito que permanece vivo e que a cada dia conquista novos f\u00e3s. \u00c9 um \u00edcone do rock brasileiro, que sucessivas gera\u00e7\u00f5es cultuam de forma espont\u00e2nea, sem nenhuma estrat\u00e9gia de marketing neste sentido, como \u00e9 comum nas \u00faltimas d\u00e9cadas com diversos \u00eddolos do cen\u00e1rio pop mundial.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cEu n\u00e3o tenho medo de morrer. Tenho medo de que me esque\u00e7am\u201d, disse Raul em uma das in\u00fameras fitas que deixou em seu famoso ba\u00fa. Como acontece com muitos artistas, Raul Seixas tinha medo de ser esquecido e preocupado com a posteridade cultivava o curioso h\u00e1bito de se autoentrevistar, gravando essas entrevistas em fitas de rolo ou cassete.<\/p><\/blockquote>\n<p>Hoje os escritos e depoimentos gravados do \u201cmaluco beleza\u201d percorrem o Brasil na voz do ator Roberto Bontempo, que h\u00e1 15 anos encena o espet\u00e1culo Raul fora da lei \u2013 a hist\u00f3ria de Raul Seixas. A pe\u00e7a \u00e9 um musical diferente, em que n\u00e3o h\u00e1 o texto de um autor para contar a hist\u00f3ria do artista.<\/p>\n<p>\u201cTudo o que eu falo na pe\u00e7a s\u00e3o escritos do pr\u00f3prio Raul. E acho que \u00e9 por isso que o p\u00fablico se identifica demais com o espet\u00e1culo, o que explica a longevidade dele\u201d, comenta Bontempo, que nos \u00faltimos dias 19 e 20 apresentou mais uma vez no Rio, no Teatro Rival, o musical, que tem dire\u00e7\u00e3o de Luiz Arthur Nunes e Jos\u00e9 Joffily.<\/p>\n<p>F\u00e3 de Raul desde jovem, o ator conta que a ideia de montar o espet\u00e1culo surgiu quando leu O Ba\u00fa do Raul, livro que re\u00fane os escritos dos di\u00e1rios do cantor. Organizado pela pen\u00faltima mulher de Ra\u00fal, Kika Seixas e pelo cr\u00edtico musical T\u00e1rik de Souza, o livro foi lan\u00e7ado em 1992 e desde ent\u00e3o j\u00e1 teve sucessivas edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cResolvi fazer o espet\u00e1culo para botar o pensamento do Raul no palco. E a\u00ed entrei em contato com a fam\u00edlia dele, com a filha, com a Kika Seixas, com a m\u00e3e do Raul, ainda viva na \u00e9poca. Fui me aproximando das pessoas que conviveram com o Raul. E a partir da\u00ed fiz o roteiro do espet\u00e1culo, juntamente com os diretores,\u201d conta Bontempo.<\/p>\n<blockquote><p>Para o ator, Raul Seixas foi uma pessoa muito \u00e0 frente de seu tempo e isso assegura a atualidade de seus escritos, de suas ideias \u2013 como a da Sociedade Alternativa &#8211; e de suas m\u00fasicas. \u201c\u00c9 uma obra atemporal. O Raul falava do universo, do mundo, de uma forma muito ampla, abrangente, metaf\u00f3rica e isso acaba n\u00e3o envelhecendo. Pelo contr\u00e1rio, se torna eterno\u201d, avalia.<\/p><\/blockquote>\n<p>Nascido em Salvador, no dia 28 de junho de 1945, Raul Seixas era um adolescente quando o rock surgiu no cen\u00e1rio musical dos anos 50 e chegou ao Brasil. Uma febre que contagiou jovens nordestinos em plena \u00e9poca em que o bai\u00e3o e seu criador, Luiz Gonzaga, predominavam nas r\u00e1dios e nos bailes da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Fascinado pelo rock e pelo gestual de Elvis Presley, o adolescente Raul assistia a todas as sess\u00f5es de um filme do cantor, Balada Sangrenta (1958), em cartaz na capital baiana naquela \u00e9poca. Em outro estado do Nordeste, um adolescente paraibano, dois anos mais novo que Raul, via o mesmo filme com id\u00eantica fascina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Admirador de Raul, embora nunca tenha sido exatamente um f\u00e3 dele, o cineasta Walter Carvalho \u2013 o adolescente paraibano que tamb\u00e9m curtia Elvis \u2013 veio a se tornar o diretor do document\u00e1rio Raul, o in\u00edcio, o fim e o meio, filme biogr\u00e1fico sobre a obra do cantor e compositor, lan\u00e7ado em 2012. Convidado pela distribuidora Paramount, Carvalho, documentarista e diretor de fotografia consagrado, aceitou dirigir o filme.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o escolhi o Raul. O Raul me escolheu\u201d, diz o cineasta, que para fazer o filme gravou mais de 250 horas de entrevistas e reuniu outras 200 imagens de arquivo. \u201cEu entrevistei 93 pessoas e coloquei 54 no filme. Na montagem, alternei entrevistas que falavam da vida privada de Raul com outras sobre a trajet\u00f3ria art\u00edstica dele,\u201d conta.<\/p>\n<p>Assistido por 171 mil espectadores, algo dif\u00edcil de alcan\u00e7ar no g\u00eanero, o filme \u00e9 recordista de bilheteria entre os document\u00e1rios nacionais. \u201cO filme saiu de cartaz na chamada curva ascendente, quando estava sendo exibido em 1,4 mil salas do pa\u00eds. Saiu para dar lugar a filmes da pr\u00f3pria Paramount, que estavam na fila para serem exibidos\u201d, destaca o diretor.<\/p>\n<p>Com 17 discos lan\u00e7ados em 26 anos de uma carreira iniciada em 1968, quando ele ainda integrava a banda Os Panteras, Raul Seixas \u00e9 reconhecido pela cr\u00edtica musical como um dos pais do rock brasileiro. Seu estilo musical, na verdade, tem muito de rock e outro tanto de bai\u00e3o, g\u00eaneros que ele conseguiu unir em m\u00fasicas como Let Me Sing, Let Me Sing.<\/p>\n<p>\u201cNa verdade, ele \u00e9 o cruzamento do Elvis Presley com o Luiz Gonzaga e o Jackson do Pandeiro\u201d, opina Walter Carvalho, que deixou isso claro na abertura do document\u00e1rio. \u201cN\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que eu decidi come\u00e7ar o filme com Easy Rider, um filme emblem\u00e1tico da contracultura, passando para o Elvis e caindo no sert\u00e3o com o Luiz Gonzaga,\u201d ressalta.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe como come\u00e7ou, quem foi o primeiro. No meio de um show de rock, algu\u00e9m gritou e isso virou um bord\u00e3o, sempre repetido em shows pelo Brasil afora. De t\u00e3o repetido, o Toca Raul! acabou virando em 2007 tema de uma m\u00fasica do cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cMal eu subo no palco<br \/>\nUm mala um maluco j\u00e1 grita de l\u00e1<br \/>\n-Toca raul!<br \/>\nA vontade que me d\u00e1 \u00e9 de mandar<br \/>\nO cara tomar naquele lugar<br \/>\nMas a\u00ed eu paro penso e reflito<br \/>\ncomo \u00e9 poderoso esse raulzito<br \/>\nPuxa vida esse cara \u00e9 mesmo um mito\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Desde 2011, o bord\u00e3o d\u00e1 nome a um bloco do carnaval de rua carioca, criado por um grupo de amigos para reverenciar Raul Seixas. A cada ano, o bloco Toca Rauuul! leva cerca de 20 mil pessoas ao seu desfile na Pra\u00e7a Tiradentes, com um repert\u00f3rio que atravessa todas as fases da trajet\u00f3ria do \u201cmaluco beleza\u201d, em ritmos diversos.<\/p>\n<p>Fen\u00f4meno de comunica\u00e7\u00e3o de massa, o culto a Raul tem outros rituais. Um deles \u00e9 a passeata que todos os anos acontece no dia 20 de agosto \u2013 data da morte dele \u2013 em S\u00e3o Paulo, com os f\u00e3s saindo do Teatro Municipal em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Pra\u00e7a da S\u00e9. \u201cNingu\u00e9m organiza isto, \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea, as pessoas v\u00e3o chegando e se juntando, j\u00e1 virou uma tradi\u00e7\u00e3o\u201d, diz Walter Carvalho, que registrou o fato em seu filme.<\/p>\n<p>Em agosto do ano passado, por ocasi\u00e3o dos 25 anos da morte de Raul, uma exposi\u00e7\u00e3o no Teatro Sesi, no centro do Rio, apresentou fotos in\u00e9ditas do artista, datadas de 1973, ano em que ele lan\u00e7ou o \u00e1lbum Krig-ha, bandolo! e alcan\u00e7ou notoriedade nacional. De autoria do falecido fot\u00f3grafo Cl\u00e1udio Fortuna, as fotos mostravam o gestual marcante do cantor, no show de lan\u00e7amento do \u00e1lbum, em 16 de outubro daquele ano, no ent\u00e3o Teatro Tereza Rachel, em Copacabana.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o foi a execu\u00e7\u00e3o de um sonho para sua curadora, Kika Seixas. Fortuna foi o respons\u00e1vel por levar naquele dia a ent\u00e3o jovem ao show do artista do qual se tornaria f\u00e3 e com quem viria a se casar anos depois.<\/p>\n<p>\u201cO show me impressionou muito. Assisti 11 vezes. Ainda naquele ano, fui morar fora do Brasil e voltei em 1977, para trabalhar na gravadora Warner, da qual Raul era contratado. Em 1979, dei uma carona pra ele e foi amor \u00e0 primeira vista. A gente ficou junto durante cinco anos, at\u00e9 1985, quando nos separamos\u201d, conta Kika, guardi\u00e3o do Ba\u00fa do Raul e a \u00fanica das cinco mulheres do cantor a manter uma liga\u00e7ao direta com a obra do artista.<\/p>\n<p>O depoimento de Paulo Coelho, parceiro de Raul Seixas entre 1973 e 1978, numa rela\u00e7\u00e3o conflitante &#8211; \u201c\u00e9ramos amigos e inimigos \u00edntimos\u201d, disse o escritor numa entrevista em 2007 \u2013 \u00e9 um dos momentos mais marcantes do filme de Walter Carvalho. O cineasta considera a mosca que apareceu de repente durante o depoimento o equivalente, para um documentarista, \u00e0 sorte que um goleiro tem ao agarrar um p\u00eanalti.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cFoi dif\u00edcil a entrevista. O Paulo, que mora em Genebra, na Su\u00ed\u00e7a, tem muitos compromissos na agenda e j\u00e1 considerei um tento ele concordar em fazer a entrevista. No meio, aparece uma mosca [coisa rara em Genebra] e o Paulo diz: &#8216;\u00c9 o Raul&#8230;Essa eu n\u00e3o vou matar&#8217;. Mas ele acaba matando a mosca, e isso para mim revela a rela\u00e7\u00e3o de conflito entre os dois\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>O reencontro de Paulo Coelho com Raul Seixas se deu numa das \u00faltimas apresenta\u00e7\u00f5es do roqueiro, quatro meses antes de sua morte, em um show no Canec\u00e3o, no Rio de Janeiro. O escritor, que estava na plateia, subiu ao palco e cantou com Raul o refr\u00e3o &#8220;Viva, viva, a Sociedade Alternativa&#8221;.<\/p>\n<p>No depoimento para o filme, Paulo Coelho diz que n\u00e3o h\u00e1 como explicar o mito em torno do cantor: \u201cO Raul \u00e9 uma lenda, e lenda n\u00e3o se explica\u201d.<\/p>\n<p>Para Walter Carvalho, se ainda vivesse Raul Seixas continuaria sendo a metamorfose ambulante, a mosca na sopa. \u201cEu comparo ele com outro baiano, Glauber Rocha, que se n\u00e3o tivesse morrido cedo tamb\u00e9m continuaria com o seu esp\u00edrito provocador. Os dois faziam parte de um mesmo tipo: o artista da contesta\u00e7\u00e3o que mesmo envelhecendo mant\u00eam a irrever\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o pol\u00edtica e \u00e0 quest\u00e3o mercadol\u00f3gica.\u201d.<\/p>\n<p><strong>Paulo Virg\u00edlio, ABr<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se ainda estivesse vivo, o cantor e compositor Raul Seixas (1945-1989) estaria completando neste 28 de junho 70 anos de idade e entrando assim numa etapa da vida em que j\u00e1 encontram \u2013 ou est\u00e3o em vias de ingressar \u2013 v\u00e1rios contempor\u00e2neos seus, igualmente \u00eddolos da m\u00fasica popular brasileira. 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