{"id":56299,"date":"2015-07-05T12:34:28","date_gmt":"2015-07-05T15:34:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=56299"},"modified":"2015-07-05T12:59:52","modified_gmt":"2015-07-05T15:59:52","slug":"corrupcao-no-brasil-lava-mais-dinheiro-do-que-o-trafico-de-drogas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/corrupcao-no-brasil-lava-mais-dinheiro-do-que-o-trafico-de-drogas\/","title":{"rendered":"Corrup\u00e7\u00e3o no Brasil lava mais dinheiro do que o que vem dos traficantes"},"content":{"rendered":"<p>O volume de recursos p\u00fablicos desviados no pa\u00eds fez surgir uma sofisticada ind\u00fastria de lavagem de dinheiro a servi\u00e7o de pol\u00edticos, empres\u00e1rios e servidores p\u00fablicos. A lavanderia brasileira tem hoje estrutura profissional, com m\u00e9todos cada vez mais dif\u00edceis de serem descobertos. Na avalia\u00e7\u00e3o de investigadores, os crimes contra a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica direcionam mais recursos sujos para a lavagem que o tr\u00e1fico de drogas &#8211; que tradicionalmente movimenta somas expressivas e sempre desafiou as autoridades de combate a il\u00edcitos.<\/p>\n<p>S\u00f3 nos inqu\u00e9ritos em curso a Pol\u00edcia Federal apura, atualmente, desvios de R$ 43 bilh\u00f5es dos cofres da Uni\u00e3o. Desse total, R$ 19 bilh\u00f5es se referem \u00e0s perdas da Petrobras investigadas na opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. O montante \u00e9 o triplo do admitido at\u00e9 agora pela estatal. O valor recuperado ou bloqueado somente nessa opera\u00e7\u00e3o \u00e9, por ora, de R$ 2,5 bilh\u00f5es &#8211; oito vezes mais que o valor de bens apreendidos de traficantes em todo o ano passado.<\/p>\n<p>&#8220;O dinheiro sujo hoje no Brasil n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 droga, \u00e9 principalmente desvio de recursos p\u00fablicos, porque \u00e9 muito f\u00e1cil. \u00c9 bi (bilh\u00e3o), bi e bi. A lavagem \u00e9 assustadora&#8221;, diz um dos chefes do combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o na Pol\u00edcia Federal. Estimativa da ONU divulgada em 2012 indica que, considerando todas as esferas de governo, o desvio de recursos p\u00fablicos j\u00e1 chega a R$ 200 bilh\u00f5es por ano no Pa\u00eds.<\/p>\n<blockquote><p>Para o diretor do DRCI (Departamento de Recupera\u00e7\u00e3o de Ativos e Coopera\u00e7\u00e3o Jur\u00eddica Internacional) do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, Ricardo Saad, essa constata\u00e7\u00e3o \u00e9 resultado da mudan\u00e7a de foco. &#8220;Antes tinha-se a percep\u00e7\u00e3o de que era o tr\u00e1fico (que mais lavava dinheiro); hoje as autoridades est\u00e3o mais voltadas em combater a corrup\u00e7\u00e3o. O n\u00famero de processos est\u00e1 muito nivelado.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Nas \u00faltimas duas semanas, o Estado ouviu 15 autoridades que atuam em casos de corrup\u00e7\u00e3o sobre os novos mecanismos utilizados para reciclar as riquezas obtidas por organiza\u00e7\u00f5es criminosas e dar a elas fachada legal. Para delegados, procuradores, ju\u00edzes e respons\u00e1veis pelo setor de intelig\u00eancia financeira, essa arte ficou mais complexa. &#8220;Tudo ocorre no mundo das sombras. Mas, para ambos os crimes, as cifras s\u00e3o expressivas, considerando apenas os casos conhecidos&#8221;, disse o juiz federal S\u00e9rgio Moro, que atua na Lava Jato.<\/p>\n<p>De meros operadores do mercado clandestino de c\u00e2mbio, doleiros viraram &#8220;bancos&#8221; de dinheiro sujo e especialistas em gerir o caixa 2 de empres\u00e1rios corruptores. Bancos internacionais oferecem a clientes VIP produtos para ocultar suas fortunas no exterior, seja qual for a origem. O dinheiro das quadrilhas brasileiras se desloca de tradicionais para\u00edsos fiscais na Europa e no Caribe para destinos na \u00c1sia e Oceania, cujas autoridades n\u00e3o t\u00eam tradi\u00e7\u00e3o de colaborar com os investigadores brasileiros.<\/p>\n<blockquote><p>Principalmente em casos de corrup\u00e7\u00e3o, que envolvem a blindagem de pol\u00edticos e altos funcion\u00e1rios p\u00fablicos, as organiza\u00e7\u00f5es criminosas contratam profissionais altamente especializados, os chamados &#8220;gatekeepers&#8221; (porteiros ou &#8220;abridores de portas&#8221;), como consultores financeiros, contadores e advogados. A tarefa \u00e9 organizar as opera\u00e7\u00f5es financeiras complexas para movimentar o dinheiro de origem il\u00edcita e criar estruturas societ\u00e1rias para ocultar a real propriedade dos valores.<\/p><\/blockquote>\n<p>&#8220;Uma das caracter\u00edsticas da lavagem de dinheiro moderna \u00e9 a profissionaliza\u00e7\u00e3o, outra \u00e9 a complexidade, e outra, a internacionalidade. Essas pessoas, como o (doleiro Alberto) Youssef, s\u00e3o lavadores de dinheiro terceirizados&#8221;, afirma o procurador da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato Deltan Martinazzo Dallagnol. Ele explica que os criminosos de colarinho branco est\u00e3o dispostos a pagar altas comiss\u00f5es por uma opera\u00e7\u00e3o supostamente indetect\u00e1vel.<\/p>\n<p>Em depoimentos prestados em regime de dela\u00e7\u00e3o premiada na Lava Jato, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobr\u00e1s Paulo Roberto Costa disse que, ao dividir as propinas milion\u00e1rias do esquema na estatal, 60% dos valores ficavam com partidos pol\u00edticos e 20% cobriam custos, como a montagem de empresas de fachada, o pagamento de tributos, a emiss\u00e3o de notas frias e o pagamento de &#8220;gatekeepers&#8221;. Os outros 20% eram divididos entre ele pr\u00f3prio e o doleiro Alberto Youssef. &#8220;Se voc\u00ea for pensar, ningu\u00e9m precisava de Youssef ou de operador. Mas eles entram como catalisadores, para facilitar a lavagem&#8221;, acrescenta o procurador.<\/p>\n<p>Novas formas de &#8220;reciclar&#8221; dinheiro sujo est\u00e3o surgindo com a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. \u00c9 o caso das moedas virtuais, como as &#8220;bitcoins&#8221;, e dos meios de pagamento como cart\u00f5es pr\u00e9-pagos, formas f\u00e1ceis de fazer transitar fortunas sem chamar a aten\u00e7\u00e3o. &#8220;S\u00e3o eles (os criminosos) correndo na frente e n\u00f3s atr\u00e1s&#8221;, diz um dos chefes do combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal. O que n\u00e3o significa que m\u00e9todos arcaicos tenham sido abandonados.<\/p>\n<p>Um outro dirigente da corpora\u00e7\u00e3o faz uma autocr\u00edtica: &#8220;As pessoas tamb\u00e9m utilizam as estruturas mais simples porque est\u00e1 correndo frouxo. A repress\u00e3o do Estado n\u00e3o est\u00e1 sendo a contento para as pessoas deixarem de faz\u00ea-lo&#8221;.<\/p>\n<p>O diretor-geral de Combate ao Crime Organizado da Pol\u00edcia Federal, Oslaim Santana, afirma que o Brasil tem feito nos \u00faltimos anos acordos com outros pa\u00edses para receber informa\u00e7\u00f5es sobre recursos desviados da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, escondidos no exterior, em troca de fornecer dados sobre organiza\u00e7\u00f5es internacionais de tr\u00e1fico de drogas. &#8220;O que nos interessa, o que mais aflige a popula\u00e7\u00e3o brasileira, \u00e9 a corrup\u00e7\u00e3o. Eu digo a eles: &#8216;Eu combato o tr\u00e1fico internacional, mas preciso saber quais s\u00e3o os brasileiros que t\u00eam dinheiro l\u00e1 fora&#8217;. Ingleses, franceses, americanos come\u00e7aram a repassar reportes (relat\u00f3rios) a partir disso&#8221;, diz.<\/p>\n<blockquote><p>Na avalia\u00e7\u00e3o do secret\u00e1rio nacional de Justi\u00e7a, Beto Vasconcelos, &#8220;n\u00e3o h\u00e1 afrouxamento, mas endurecimento da atua\u00e7\u00e3o do Estado&#8221; no combate ao crime. Ele cita como exemplo a cria\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia financeira, como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a SuperReceita e o pr\u00f3prio Departamento de Recupera\u00e7\u00e3o de Ativos e Coopera\u00e7\u00e3o Jur\u00eddica Internacional do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a.<\/p><\/blockquote>\n<p>Tem ainda o fator sorte: &#8220;Uma coisa que a gente aprende \u00e9 que n\u00e3o existe segredo eterno. Sempre vai ter algu\u00e9m que vai contar, um desentendimento no grupo criminoso e, sobretudo, a t\u00e9cnica do ex: ex-mulher, ex-s\u00f3cio, ex-empregado.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O volume de recursos p\u00fablicos desviados no pa\u00eds fez surgir uma sofisticada ind\u00fastria de lavagem de dinheiro a servi\u00e7o de pol\u00edticos, empres\u00e1rios e servidores p\u00fablicos. A lavanderia brasileira tem hoje estrutura profissional, com m\u00e9todos cada vez mais dif\u00edceis de serem descobertos. 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