{"id":5664,"date":"2014-03-31T12:31:00","date_gmt":"2014-03-31T15:31:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=5664"},"modified":"2014-03-31T13:34:49","modified_gmt":"2014-03-31T16:34:49","slug":"o-golpe-50-anos-depois-tanques-nas-ruas-oposicao-e-povo-na-cadeia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-golpe-50-anos-depois-tanques-nas-ruas-oposicao-e-povo-na-cadeia\/","title":{"rendered":"O golpe, 50 anos depois. Tanques nas ruas&#8230; e oposi\u00e7\u00e3o e povo na cadeia"},"content":{"rendered":"<p>Tanques nas ruas, popula\u00e7\u00e3o dividida e um presidente da Rep\u00fablica acuado e sem apoio. Nesse cen\u00e1rio, h\u00e1 50 anos, se iniciava no Brasil o mais longo e duro per\u00edodo de ditadura do pa\u00eds, que perduraria 21 anos. Nas primeiras horas do dia 31 de mar\u00e7o de 1964, tropas comandadas pelo general Ol\u00edmpio Mour\u00e3o partiram de Juiz de Fora (MG) em dire\u00e7\u00e3o ao Rio de Janeiro consumando um golpe h\u00e1 muito tempo planejado pelas for\u00e7as militares.<\/p>\n<p>Isolado, o ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica Jo\u00e3o Goulart, conhecido como Jango, pouco p\u00f4de fazer para evitar o golpe. Com a economia do pa\u00eds em crise e sem for\u00e7as para promover as reformas de base, principal bandeira de seu governo, ele deixa Bras\u00edlia rumo ao Rio Grande do Sul no dia 1\u00ba de abril.<\/p>\n<p>Alguns dias depois, e dando o golpe como irrevers\u00edvel, o presidente parte com a fam\u00edlia rumo ao Uruguai em um carro preto, escoltado por militares que ainda mantinham lealdade \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o. Jango morre na Argentina 12 anos depois. Inicialmente apontada como infarto, a causa da morte de Jo\u00e3o Goulart \u00e9 investigada at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Para o doutor em hist\u00f3ria e professor da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) Antonio Barbosa, os militares j\u00e1 haviam orquestrado uma esp\u00e9cie de golpe contra a democracia brasileira tr\u00eas anos antes. Com a ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros, em 1961, os militares atuaram para impedir a posse do vice, Jango, e o Congresso Nacional aprovou a mudan\u00e7a de sistema de governo, que passou do presidencialismo para o parlamentarismo, no qual o presidente da Rep\u00fablica n\u00e3o det\u00e9m a chefia de governo.<\/p>\n<p>\u201c[Os militares] permitiram que Jo\u00e3o Goulart chegasse ao poder [em 1961], mas tiraram os poderes dele. Por isso, do dia 7 de setembro de 1961 at\u00e9 janeiro de 1963, quando houve o plebiscito e o n\u00e3o [ao parlamentarismo] venceu, Jango teve os poderes limitados\u201d, relembra.<\/p>\n<p>Depois das elei\u00e7\u00f5es gerais de 1962, cujos resultados foram influenciados pela inje\u00e7\u00e3o de recursos norte-americanos que buscava eleger parlamentares favor\u00e1veis aos interesses daquele pa\u00eds e ainda influenciar os meios de comunica\u00e7\u00e3o em favor das teses conservadoras, Jango fica isolado, sem conseguir levar adiante as reformas de base.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o imagina o que foi o pa\u00eds naquele per\u00edodo, a partir de 1963, depois que os eleitos tomaram posse no Congresso Nacional, at\u00e9 31 de mar\u00e7o de 1964. Foram coisas que os jovens de hoje nem conseguiriam imaginar\u201d, conta Barbosa.<\/p>\n<p>\u201cNos \u00faltimos dois meses que antecederam o 31 de mar\u00e7o, era muito comum no pa\u00eds inteiro as aulas serem interrompidas, especialmente nas escolas p\u00fablicas, para as professoras levarem os alunos para rezar o ter\u00e7o. A cada conjunto de dez Ave-Marias, se fazia uma exorta\u00e7\u00e3o, que naquela \u00e9poca era &#8216;Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, livrai-nos do comunismo, Am\u00e9m&#8217;. Era esse o ambiente, o clima.\u201d<\/p>\n<p>O temor dos militares de que o comunismo aflorasse no Brasil foi uma das justificativas para o golpe. No entanto, para o professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Paulo Ribeiro da Cunha, o golpe foi sendo constru\u00eddo ao longo dos anos pelos comandantes das For\u00e7as Armadas. \u201cEm 1954, j\u00e1 foi uma tentativa, um pre\u00e2mbulo, abortado, principalmente, pelo suic\u00eddio de Get\u00falio Vargas. Mas, em seguida, tivemos v\u00e1rias tentativas de golpe\u201d, explica. A tese \u00e9 refor\u00e7ada por Antonio Barbosa: \u201cJango era um homem de centro-esquerda, n\u00e3o era comunista, n\u00e3o era socialista\u201d.<\/p>\n<p>Dois momentos foram cruciais para fortalecer a linha golpista das For\u00e7as Armadas e precipitar a derrubada da democracia: o com\u00edcio de Jango na Central do Brasil, na sexta-feira 13 de mar\u00e7o de 1964, com o palanque montado em frente ao Minist\u00e9rio da Guerra. Na ocasi\u00e3o, Jo\u00e3o Goulart fez um discurso duro em defesa do mandato e das reformas de base, o que soou como uma afronta aos militares. Uma semana depois, a resposta da direita veio com a Marcha da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade.<\/p>\n<p>\u201cOs militares se sentiram apoiados. Mais de 500 mil pessoas foram \u00e0s ruas em S\u00e3o Paulo. Isso h\u00e1 50 anos, sem internet e redes sociais. E ali sim, se radicaliza, e os l\u00edderes, que h\u00e1 muito tempo preparavam um golpe, perceberam que era o momento\u201d, analisa Barbosa.<\/p>\n<p>\u201cO curioso \u00e9 que foi em nome da democracia que se suprimiu a democracia no pa\u00eds\u201d, ressalta o coordenador do Curso de Especializa\u00e7\u00e3o em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), Pio Penna.<\/p>\n<p>Segundo Antonio Barbosa, ningu\u00e9m se levantou para defender Jo\u00e3o Goulart. \u201cFoi uma revolu\u00e7\u00e3o absolutamente sem sangue e sem tiro. O pa\u00eds completamente mobilizado, ideologicamente falando. Mas n\u00e3o podemos esquecer que o Brasil era um pa\u00eds de popula\u00e7\u00e3o com mais de 75% de analfabetos e mais de 95% de religiosos que seguiam a Igreja Cat\u00f3lica. E a igreja, naquele momento, estava completamente imbu\u00edda da luta anticomunista. Padres, no pa\u00eds inteiro &#8211; por dez anos eu vi isso &#8211; procurando alertar as pessoas de que o comunismo estava chegando.\u201d<\/p>\n<p>O golpe definiu a vit\u00f3ria da op\u00e7\u00e3o conservadora em um pa\u00eds que se desenvolvera ao longo do s\u00e9culo 20, mas n\u00e3o havia modernizado suas rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>\u201cDiria que, no Brasil, no in\u00edcio dos anos 1960, havia dois projetos em luta: um reformista, capitaneado por Goulart, que queria, na minha opini\u00e3o, oferecer uma face mais humana para o capitalismo brasileiro. De outro, um projeto de moderniza\u00e7\u00e3o do capitalismo brasileiro, inserindo-o em escala global, pela via politicamente autorit\u00e1ria. E quem venceu foi esse grupo. Ent\u00e3o, o regime de 1964 come\u00e7a sem enganar ningu\u00e9m: \u00e9 um regime de exce\u00e7\u00e3o\u201d, lembra Barbosa.<\/p>\n<p>Ao longo de 21 anos, cinco generais se sucedem no comando do pa\u00eds, no que ficou conhecido como \u201canos de chumbo\u201d. Uma gera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica foi suprimida pela ditadura, milhares de pessoas foram torturadas e mortas e o pa\u00eds \u00e9 devolvido \u00e0 sociedade economicamente quebrado, v\u00edtima do endividamento acumulado no per\u00edodo militar.<\/p>\n<p>Jango s\u00f3 voltaria ao Brasil morto, no dia 7 de dezembro de 1976, para ser enterrado em S\u00e3o Borja, sua cidade natal. \u00c9 o \u00fanico presidente da Rep\u00fablica que morreu no ex\u00edlio. Em 1985, o col\u00e9gio eleitoral elege Tancredo Neves como o primeiro presidente civil desde 1964.<\/p>\n<p><strong>Ivan Richard, ABr<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tanques nas ruas, popula\u00e7\u00e3o dividida e um presidente da Rep\u00fablica acuado e sem apoio. Nesse cen\u00e1rio, h\u00e1 50 anos, se iniciava no Brasil o mais longo e duro per\u00edodo de ditadura do pa\u00eds, que perduraria 21 anos. 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