{"id":5669,"date":"2014-03-31T09:47:25","date_gmt":"2014-03-31T12:47:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=5669"},"modified":"2014-03-31T13:35:40","modified_gmt":"2014-03-31T16:35:40","slug":"censura-e-artistas-tentavam-driblar-com-versos-a-forca-dos-militares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/censura-e-artistas-tentavam-driblar-com-versos-a-forca-dos-militares\/","title":{"rendered":"Censura. E artistas tentavam driblar o fuzil com versos"},"content":{"rendered":"<p>Driblar a censura foi um aprendizado para todos os artistas e intelectuais que, a partir de 1964, se engajaram na resist\u00eancia ao regime militar. Os que estavam vinculados \u00e0 m\u00fasica popular encontraram nas letras das can\u00e7\u00f5es uma forma de protesto, quase sempre se valendo de met\u00e1foras, na tentativa de despistar o olhar vigilante da ditadura. Houve tamb\u00e9m uma mudan\u00e7a de foco da produ\u00e7\u00e3o cultural brasileira, que antes do golpe buscava, como se dizia \u00e0 \u00e9poca, \u201cdespertar a vis\u00e3o cr\u00edtica e promover o protagonismo\u201d das classes populares.<\/p>\n<p>\u201cAntes de 64, a cultura estava procurando falar para os oper\u00e1rios, para os camponeses, ia \u00e0s favelas. Agora [na resist\u00eancia \u00e0 ditadura] era a classe m\u00e9dia falando para a pr\u00f3pria classe m\u00e9dia, mas com muito vigor, muito talento e muita garra\u201d, explica a professora Heloisa Buarque de Hollanda, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). De acordo com ela, antes havia muito debate sobre a reforma agr\u00e1ria e outras medidas de justi\u00e7a social. \u201cEsse projeto n\u00e3o dava mais, mas cantar, a coisa dava. Foi uma resist\u00eancia que entrou no lugar da pol\u00edtica, da participa\u00e7\u00e3o direta na luta pelas reformas\u201d, conta.<\/p>\n<p>Caetano Veloso, Milton Nascimento e Gonzaguinha integram a longa lista de compositores que tiveram m\u00fasicas censuradas durante o regime militar. O caso mais emblem\u00e1tico, por\u00e9m, foi o da proibi\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o Pra N\u00e3o Dizer que N\u00e3o Falei das Flores, de Geraldo Vandr\u00e9, segunda colocada na fase nacional do Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o de 1968, no Rio de Janeiro. A m\u00fasica acabou se tornando um hino da resist\u00eancia \u00e0 ditadura e levou seu autor ao ex\u00edlio, ap\u00f3s o Ato Institucional 5, o AI-5, baixado naquele mesmo ano, que ampliou o poder de arb\u00edtrio do regime.<\/p>\n<p>As met\u00e1foras foram usadas para evitar o choque direto com a censura. Um exemplo \u00e9 a can\u00e7\u00e3o <em>C\u00e1lice<\/em>, de Chico Buarque e Gilberto Gil, em que a palavra que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 composi\u00e7\u00e3o tem som id\u00eantico \u00e0 express\u00e3o \u201ccale-se\u201d. Alvo predileto da censura, sobretudo a partir da decreta\u00e7\u00e3o do AI-5, em 1968, Chico Buarque chegou a adotar, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, o pseud\u00f4nimo Julinho da Adelaide para ter suas m\u00fasicas aprovadas. Com esse nome, conseguiu passar a m\u00fasica <em>Acorda, Amor<\/em>, uma clara refer\u00eancia \u00e0 repress\u00e3o policial do regime.<\/p>\n<p>Nem mesmo as escolas de samba ficaram imunes \u00e0 censura do regime militar. A Acad\u00eamicos do Salgueiro, escola que renovou a est\u00e9tica dos desfiles do carnaval carioca, foi a primeira a enfrentar o olhar vigilante da ditadura, em 1967, com o enredo <em>A Hist\u00f3ria da Liberdade no Brasil<\/em>, do carnavalesco Fernando Pamplona. Segundo o pesquisador e historiador do carnaval Haroldo Costa, em seu livro Salgueiro, 50 Anos de Gl\u00f3ria, os agentes do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops), a pol\u00edcia pol\u00edtica do regime, tinham cadeira cativa nos ensaios da escola, devido ao tema.<\/p>\n<p>Martinho da Vila foi outro sambista que enfrentou a press\u00e3o da censura, tendo sua composi\u00e7\u00e3o exclu\u00edda da disputa de samba-enredo da Unidos de Vila Isabel, em 1974. O pr\u00f3prio enredo da escola, <em>Aruan\u00e3-A\u00e7u<\/em>, sobre a tribo dos Caraj\u00e1s, de cr\u00edtica \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da Floresta Amaz\u00f4nica e ao exterm\u00ednio dos \u00edndios, teve que ser mudado, passando a exaltar a Transamaz\u00f4nica, rodovia que simboliza o fracasso das obras fara\u00f4nicas do regime militar.<\/p>\n<p>Para se contrapor, a ditadura tentou usar a cultura para promover a ideologia oficial. O governo do general M\u00e9dici, o mais fechado do ciclo militar, se valeu da propaganda pol\u00edtica em can\u00e7\u00f5es como <em>Eu Te Amo, Meu Brasil<\/em>, da dupla Dom e Ravel, e pressionou escolas de samba para que produzissem enredos ufanistas e enaltecedores das realiza\u00e7\u00f5es do regime. A Beija-Flor de Nil\u00f3polis, ent\u00e3o rec\u00e9m-chegada ao desfile principal, ficou famosa por enredos que falavam de temas governamentais, como o Movimento Brasileiro de Alfabetiza\u00e7\u00e3o (Mobral) e o Fundo de Assist\u00eancia ao Trabalhador Rural (Funrural).<\/p>\n<p>No cinema, a opress\u00e3o n\u00e3o foi diferente. O document\u00e1rio <em>Cabra Marcado para Morrer<\/em>, obra do recentemente falecido cineasta Eduardo Coutinho, \u00e9 um filme cuja produ\u00e7\u00e3o foi interrompida pelo golpe e s\u00f3 p\u00f4de ser terminada 20 anos depois. \u201cCoutinho n\u00e3o teve alternativa. Ningu\u00e9m poderia fazer naquele momento um filme que falasse de reforma agr\u00e1ria, ligas camponesas, seria um risco de pris\u00e3o, tortura e at\u00e9 desaparecimento para o realizador\u201d, ressalta o produtor cultural Fabiano Canosa, um dos respons\u00e1veis pela programa\u00e7\u00e3o do Cine Paissandu, s\u00edmbolo de resist\u00eancia cultural do Rio de Janeiro nos anos 1960 e 1970.<\/p>\n<p>Outros documentaristas enfrentaram problemas com o regime militar, mas o caso mais not\u00e1vel, segundo Canosa, foi o de Olney S\u00e3o Paulo. Seus filmes, como <em>Manh\u00e3 Cinzenta<\/em>, filmado entre 1968 e 1969, continham cenas das manifesta\u00e7\u00f5es de rua daquela \u00e9poca e foram proibidos. \u201cA gente assistia clandestinamente. Olney pagou por isso com a vida dele. Foi preso, torturado, fizeram gato e sapato dele, que ficou tuberculoso e acabou morrendo\u201d, conta Canosa.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o ao Cinema Novo, movimento inaugurado por Nelson Pereira dos Santos e que teve como nome mais conhecido o do cineasta Glauber Rocha, Canossa tem outra vis\u00e3o. \u201cEles achavam que poderiam permitir a exibi\u00e7\u00e3o de certos filmes porque eram incompreens\u00edveis para o povo brasileiro, em um claro menosprezo pelo povo e pelos cin\u00e9filos. <em>Terra em Transe<\/em>, de Glauber, lan\u00e7ado em agosto de 1967, chegou a ser proibido, mas a censura voltou atr\u00e1s com base nessa justificativa, a de que o povo brasileiro n\u00e3o entenderia o filme\u201d, comenta.<\/p>\n<p>Documentarista que iniciou trabalho nos \u00faltimos anos do regime militar, o cineasta Silvio Tendler conta que enfrentou dificuldades para realizar seu trabalho. \u201cQuando fiz meu document\u00e1rio sobre os anos JK [1980], muitas pessoas tinham medo de dar entrevista. Faltavam imagens como a de [Geraldo] Vandr\u00e9 cantando <em>Caminhando<\/em> [can\u00e7\u00e3o mais conhecida como <em>Pra N\u00e3o Dizer que N\u00e3o Falei das Flores<\/em>]. Os \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o sumiram com aquelas imagens. Em 1965, os artistas vaiaram o general Castello Branco [ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica empossado pelo golpe] no Hotel Gl\u00f3ria e s\u00f3 h\u00e1 fotos, e poucas, disso. N\u00e3o h\u00e1 registro em filmes\u201d, diz.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio do Hotel Gl\u00f3ria ocorreu em novembro de 1965, quando Castello Branco chegava ao Hotel Gl\u00f3ria, no Rio de Janeiro, para participar da 2\u00aa Confer\u00eancia Extraordin\u00e1ria da Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA). Um dos presos foi o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony. Segundo ele, fazer a confer\u00eancia no Brasil, naquele ano, foi o resultado de um esfor\u00e7o diplom\u00e1tico do regime militar para mostrar que o pa\u00eds continuava sendo uma democracia, apesar do golpe do ano anterior.<\/p>\n<p>Cony guarda na mem\u00f3ria as dificuldades de se lidar com a censura do regime militar, mesmo antes do fechamento total da ditadura, que ocorreu ap\u00f3s o AI-5. \u201cA gente contava com dois fatores, um a favor e outro contra. O a favor era o seguinte: os censores eram muito burros, ent\u00e3o n\u00e3o percebiam certas nuances. Por sua vez, por serem muito burros, muitas vezes cismavam com coisas que n\u00e3o tinham nada demais e proibiam uma pe\u00e7a ou uma m\u00fasica\u201d, conta o membro da Academia Brasileira de Letras.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o aos jornais, a maioria apoiou o golpe militar, mas logo depois passou a criticar o regime e foi censurada. A repress\u00e3o n\u00e3o tardou a chegar \u00e0 imprensa. Cony, que trabalhava no carioca<em> Correio da Manh\u00e3<\/em>, conta que, nos dias 31 de mar\u00e7o e 1\u00ba de abril de 1964, o jornal publicou em sua primeira p\u00e1gina dois veementes editoriais, com os t\u00edtulos de \u201cBasta!\u201d e \u201cFora!\u201d, pedindo a derrubada do Jango. Logo depois, no entanto, passou a noticiar os protestos nas ruas. A resposta da ditadura foi a pris\u00e3o da propriet\u00e1ria do jornal, Niomar Moniz Sodr\u00e9 Bittencourt, e dos principais redatores, entre eles o pr\u00f3prio escritor.<\/p>\n<p>Os grandes jornais, de maneira geral, come\u00e7aram a retirar o apoio ao golpe assim que a classe m\u00e9dia e o o empresariado nacional se viam afastados das decis\u00f5es de poder e percebiam que a vida politica se restringia \u00e0 submiss\u00e3o ao regime militar. Surgiram as primeiras revistas semanais voltadas para o noticiario politico, nos moldes da <em>Time<\/em> americana. A <em>Veja<\/em>, criada em 1968, foi a primeira do g\u00eanero e teve v\u00e1rios exemplares apreendidos pela policia, ainda nas bancas. O jornal <em>O Estado de S. Paulo<\/em>, tradicional porta-voz do empresariado paulista, passou a publicar poemas no lugar das reportagens cortadas pela censura.<\/p>\n<p><strong>Paulo Virg\u00edlio, ABr<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Driblar a censura foi um aprendizado para todos os artistas e intelectuais que, a partir de 1964, se engajaram na resist\u00eancia ao regime militar. Os que estavam vinculados \u00e0 m\u00fasica popular encontraram nas letras das can\u00e7\u00f5es uma forma de protesto, quase sempre se valendo de met\u00e1foras, na tentativa de despistar o olhar vigilante da ditadura. 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