{"id":5673,"date":"2014-03-31T08:51:51","date_gmt":"2014-03-31T11:51:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=5673"},"modified":"2014-03-31T09:53:30","modified_gmt":"2014-03-31T12:53:30","slug":"diretas-ja-mostra-o-caminho-dos-quarteis-aos-militares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/diretas-ja-mostra-o-caminho-dos-quarteis-aos-militares\/","title":{"rendered":"Diretas J\u00e1 mostra o caminho dos quart\u00e9is aos militares"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil j\u00e1 estava sob comando dos militares h\u00e1 quase 20 anos, quando a insatisfa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o irrompeu. Paulatinamente, as ruas foram tomadas por protestos que cobravam elei\u00e7\u00f5es diretas e o fim da ditadura. Era a explos\u00e3o de uma resist\u00eancia c\u00edvica que nunca cessou mesmo nos anos mais duros do regime militar, como na campanha pela anistia ampla, geral e irrestrita que resultou na lei aprovada no governo do general Jo\u00e3o Batista Figueiredo, em 1979.<\/p>\n<p>Agora, no entanto, o clima era de que a hora havia chegado. No in\u00edcio dos anos 1980, a campanha \u201cDiretas J\u00e1!\u201d, iniciada a partir da proposta de emenda constitucional apresentada pelo deputado Dante de Oliveira, tomava corpo. A proposta alterava o sistema de elei\u00e7\u00e3o institu\u00eddo pelos militares, no qual um col\u00e9gio eleitoral formado por parlamentares era que elegia o presidente da Rep\u00fablica. A premissa era a de que o povo tamb\u00e9m votava para presidente, ainda que indiretamente, j\u00e1 que havia escolhido os parlamentares.<\/p>\n<p>O deputado Ulysses Guimar\u00e3es (MDB-SP) e o ent\u00e3o l\u00edder sindical Luiz In\u00e1cio Lula da Silva deram in\u00edcio \u00e0 campanha ainda no Congresso e foram atraindo o apoio de outros l\u00edderes pol\u00edticos, artistas e intelectuais. O movimento cresceu \u00e0 medida em que se aproximava a data da vota\u00e7\u00e3o da emenda, 25 de abril de 1984.<\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o popular levou milhares de pessoas aos cerca de 30 com\u00edcios organizados em 1983 e 1984.<\/p>\n<p>\u201cO movimento ganhou for\u00e7a a partir de janeiro de 1984, quando os governadores, particularmente [Franco] Montoro, em S\u00e3o Paulo; [Leonel] Brizola, no Rio [de Janeiro] e Tancredo [Neves], em Minas, aderiram e houve uma s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es em todo o pa\u00eds. No entanto, a proposta inicial veio do PT [Partido dos Trabalhadores] e de setores mais de esquerda\u201d, ressalta o professor de sociologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Marcelo Ridenti.<\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o contou com o apoio de v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es, entre elas, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE), a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa (ABI), a Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Central \u00danica dos Trabalhadores (CUT). Quase todos os setores da sociedade, de todas as classes sociais, participaram.<\/p>\n<p>\u201cPara entender isso, \u00e9 preciso pensar primeiro em uma insatisfa\u00e7\u00e3o popular grande que havia com o desgaste da ditadura, que j\u00e1 durava quase 20 anos. Agravada pelo fato de que havia, no come\u00e7o dos anos 1980, uma certa crise econ\u00f4mica que afetava a infla\u00e7\u00e3o, a vida das pessoas. E tinha o fato de haver governos de oposi\u00e7\u00e3o em estados importantes apoiando. Enfim, havia uma vontade geral de mudan\u00e7a\u201d, destaca Ridenti.<\/p>\n<p>Apesar da infla\u00e7\u00e3o, a ditadura mantinha uma pol\u00edtica extremamente restritiva em rela\u00e7\u00e3o aos sal\u00e1rios. O descontentamento gerado pela pol\u00edtica de arrocho salarial e a restri\u00e7\u00e3o aos direitos civis acabaram desaguando nos grandes movimentos sociais iniciados pelos metal\u00fargicos de S\u00e3o Bernardo e que se espalharam pelas demais cidades industriais da periferia de S\u00e3o Paulo, especialmente do ABC (Santo Andr\u00e9, S\u00e3o Bernardo e S\u00e3o Caetano).<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o t\u00ednhamos direito nenhum. Dentro das empresas, viv\u00edamos a conjuntura da ditadura militar. Na Mercedes Benz, era um verdadeiro quartel do Ex\u00e9rcito. A pessoa indicada pela Mercedes para fazer contato com a diretoria do nosso sindicato era um general do Ex\u00e9rcito, o general Queiroz\u201d, conta Djalma Bom, ex-diretor do Sindicato dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Bernardo e Diadema e ex-trabalhador da Mercedes Benz.<\/p>\n<p>Bom destaca que, al\u00e9m de atuar dentro das f\u00e1bricas, as greves desafiavam o regime militar. \u201cAs greves dos metal\u00fargicos eram econ\u00f4micas. Lutando por melhores sal\u00e1rios e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Mas a conjuntura daquele momento, com v\u00e1rios setores da sociedade brasileira que se posicionavam pela redemocratiza\u00e7\u00e3o do Brasil, acabou levando os companheiros a se juntarem ao movimento estudantil, aos intelectuais, aos companheiros da igreja, e aos demais setores insatisfeitos da sociedade\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>A press\u00e3o para que o Congresso aprovasse a emenda das Diretas foi tomando conta do pa\u00eds. E encontrou um caminho de certa forma aplainado pelo movimento sindical. Os primeiros com\u00edcios das Diretas J\u00e1! ocorreram em mar\u00e7o de 1983. Em junho, uma frente suprapartid\u00e1ria reuniu os governadores Leonel Brizola, do Rio de Janeiro, e Franco Montoro, de S\u00e3o Paulo, e o presidente nacional do PT, Luiz In\u00e1cio Lula da Silva.<\/p>\n<p>Outros governadores se engajam ao movimento, entre eles Waldir Pires (PMDB), da Bahia; Roberto Magalh\u00e3es (PDS), de Pernambuco; Jos\u00e9 Richa (PMDB), do Paran\u00e1; e Gerson Camata (PMDB), do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Jornalista e autor do livro <em>Di\u00e1rio da Campanha das Diretas<\/em>, Ricardo Kotscho, disse concordar com a tese do escritor Laurentino Gomes, autor do livro <em>1889<\/em>: \u201cA Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica foi em 1889, mas a verdadeira funda\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica brasileira se deu em 1984, quando povo foi para a rua. Na proclama\u00e7\u00e3o, o povo n\u00e3o foi. Foi uma coisa de meia d\u00fazia, o povo ficou assustado com o que estava acontecendo. E, em 1984, as autoridades ficaram assustadas, o povo tomou o destino na m\u00e3o\u201d, destaca.<\/p>\n<p>O PT, o PMDB e o PDT fizeram um encontro pelas Diretas em 27 de novembro de 1983, no Est\u00e1dio do Pacaembu (SP), com cerca de 15 mil pessoas. Mesmo sem grande cobertura da imprensa, as manifesta\u00e7\u00f5es ganharam corpo \u2013 com a divulga\u00e7\u00e3o boca a boca e panfletos \u2013 e chegaram a reunir milhares de pessoas. Os com\u00edcios gigantes, na reta final da campanha, ocorreram no Rio de Janeiro, em 10 de abril; e em S\u00e3o Paulo, em 16 de abril de 1984.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso lembrar que, naquela \u00e9poca, n\u00e3o tinha celular, n\u00e3o tinha internet, Facebook, essas coisas todas. A grande imprensa, no in\u00edcio, boicotou a campanha das Diretas. Procurou esconder. N\u00e3o mostrou a dimens\u00e3o que tinha esse movimento. Com exce\u00e7\u00e3o da Folha de S.Paulo, onde, por sorte, eu trabalhava\u201d, diz Kotscho, que acompanhou todos os com\u00edcios pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, milhares de pessoas se concentraram na Pra\u00e7a da Candel\u00e1ria, no maior com\u00edcio do estado. Em S\u00e3o Paulo, os organizadores contabilizaram mais de 1 milh\u00e3o no Vale do Anhangaba\u00fa. Nos palanques, ao lado dos pol\u00edticos, artistas e intelectuais discursavam.<\/p>\n<p>\u201cUma coisa dava para sentir: a cada com\u00edcio ia crescendo o movimento, cada cidade queria fazer mais do que a anterior. Se, por exemplo, em S\u00e3o Paulo teve 300 mil pessoas, Belo Horizonte queria p\u00f4r 500 mil pessoas na rua. A\u00ed o Rio colocou 1 milh\u00e3o, a\u00ed S\u00e3o Paulo depois, 1,5 milh\u00e3o. E assim por diante. As pessoas queriam participar. N\u00e3o precisava chamar\u201d, ressalta Kotscho.<\/p>\n<p>Historiadora e pesquisadora, Jana\u00edna Teles tinha 16 anos na \u00e9poca dos grandes com\u00edcios das Diretas e participava do movimento estudantil. Ela lembra como eram as a\u00e7\u00f5es dos estudantes em apoio ao movimento. \u201cEu ia todo dia no final da tarde para a Pra\u00e7a da S\u00e9 e montava uma urna gigante, bem grande, um metro e meio de altura. E a gente tinha um palanque pequeno, um microfone e a gente soltava o microfone para todo mundo\u201d, diz a historiadora da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>Apesar da press\u00e3o popular, a Emenda Dante de Oliveira, que estabelecia elei\u00e7\u00f5es diretas para presidente da Rep\u00fablica no Brasil, \u00e9 derrotada na madrugada do dia 26 de abril de 1984. Para que fosse aprovada, era necess\u00e1rio o voto favor\u00e1vel de dois ter\u00e7os da Casa, composta por 320 deputados. Com 298 votos a favor e 65 contr\u00e1rios, a emenda foi rejeitada. Para se alcan\u00e7ar a maioria, faltaram 22 votos.<\/p>\n<p>\u201cAs Diretas J\u00e1 foram derrotadas porque n\u00e3o houve volta da elei\u00e7\u00e3o direta, mas geraram uma consequ\u00eancia pol\u00edtica que foi a vit\u00f3ria de Tancredo [Neves] nas elei\u00e7\u00f5es, o que \u00e9 considerado, em geral, como fim da ditadura no Brasil\u201d, destaca o professor Marcelo Ridenti, da Unicamp.<\/p>\n<p>Faf\u00e1 de Bel\u00e9m, umas das artistas mais atuantes nos com\u00edcios das Diretas, lembra do clima que tomou o pa\u00eds ap\u00f3s a derrota da Emenda Dante de Oliveira. A cantora foi int\u00e9rprete da m\u00fasica <em>Menestrel das Alagoas,<\/em> de autoria de Milton Nascimento e Fernando Brant, que virou s\u00edmbolo das Diretas.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o houve quebra-quebra. Houve um luto coletivo. Quando o col\u00e9gio eleitoral n\u00e3o aprovou as diretas, foi uma aula de insensibilidade de alguns. Naquela altura, eu era menina, eu fiquei t\u00e3o indignada, t\u00e3o revoltada, que eu n\u00e3o conseguia falar\u201d, relata.<\/p>\n<p>Para Faf\u00e1, mesmo derrotado, o movimento das Diretas saiu vitorioso. Conseguiu colocar o voto direto definitivamente em pauta. \u201cO voto popular j\u00e1 estava dentro de todas as veias, dentro de todas as vozes. Era o pa\u00eds explodindo, se reconhecendo, retomando o verde-amarelo, retomando o <em>Hino Nacional<\/em>, retomando os s\u00edmbolos p\u00e1trios que tinham sido usurpados pela ditadura.\u201d<\/p>\n<p>Com a rejei\u00e7\u00e3o da emenda, a elei\u00e7\u00e3o para presidente da Rep\u00fablica de 1985 ocorre de forma indireta. A chapa oposicionista, encabe\u00e7ada por Tancredo Neves (PMDB-MG), derrotou, em 15 de janeiro de 1985, a do ex-prefeito de S\u00e3o Paulo Paulo Maluf (PDS), candidato que tinha o apoio dos militares.<\/p>\n<p>\u201cHouve frustra\u00e7\u00e3o e resultados pol\u00edticos muito mais conciliadores e moderados do que se queria inicialmente. Mas, ao mesmo tempo, gerou a elei\u00e7\u00e3o indireta do Tancredo e depois, como desdobramento, a pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o de uma Assembleia Constituinte no Brasil, que viria em 1988\u201d, destaca o professor da Unicamp.<\/p>\n<p><strong>Bruno Bocchini, ABr<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil j\u00e1 estava sob comando dos militares h\u00e1 quase 20 anos, quando a insatisfa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o irrompeu. Paulatinamente, as ruas foram tomadas por protestos que cobravam elei\u00e7\u00f5es diretas e o fim da ditadura. 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