{"id":5677,"date":"2014-03-31T08:56:05","date_gmt":"2014-03-31T11:56:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=5677"},"modified":"2014-03-31T09:56:17","modified_gmt":"2014-03-31T12:56:17","slug":"milagre-economico-do-sonho-ao-pesadelo-da-frustracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/milagre-economico-do-sonho-ao-pesadelo-da-frustracao\/","title":{"rendered":"Milagre econ\u00f4mico, do sonho ao pesadelo da frustra\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O forte crescimento da economia do pa\u00eds no per\u00edodo conhecido como milagre econ\u00f4mico, ocorrido no final dos anos 1960 e in\u00edcio dos 1970, durante a ditadura militar, ganhou destaque gra\u00e7as aos \u00edndices de crescimento obtidos pelo Produto Interno Bruto (PIB). No entanto, a riqueza gerada n\u00e3o foi distribu\u00edda igualmente entre os setores da economia. Para aqueles que viviam de sal\u00e1rio m\u00ednimo, por exemplo, o per\u00edodo representou um retrocesso.<\/p>\n<p>\u201cNos anos 60 e 70, houve uma retomada do investimento p\u00fablico em infraestrutura, apoio ao processo de industrializa\u00e7\u00e3o, combinado muitas vezes com restri\u00e7\u00f5es ao crescimento do sal\u00e1rio, especialmente do sal\u00e1rio m\u00ednimo. Portanto, um contingenciamento do crescimento de base na economia, favorecendo uma forma\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os sem press\u00e3o de custo de sal\u00e1rio\u201d, destaca o diretor do Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese), Clemente Ganz.<\/p>\n<p>De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), em 1960, 20% dos brasileiros mais pobres detinham 3,9% do total da renda nacional. Vinte anos depois, em 1980, 20% da popula\u00e7\u00e3o mais pobre concentravam apenas 2,8% da renda produzida no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cO per\u00edodo do milagre econ\u00f4mico \u00e9 um per\u00edodo de forte concentra\u00e7\u00e3o de renda, tanto \u00e9 que nesse per\u00edodo voc\u00ea tem a famosa frase que se atribui ao Delfim [Netto, ex-ministro da Fazenda] de que \u00e9 preciso crescer para depois distribuir. Mas n\u00f3s s\u00f3 conseguimos desconcentrar a renda a partir de meados do ano 2000\u201d, destaca Clemente.<\/p>\n<p>Segundo o professor da Faculdade de Economia e Administra\u00e7\u00e3o (FEA) da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e presidente da Ordem dos Economistas do Brasil (OEB), Manuel Enriquez Garcia, as reformas econ\u00f4micas feitas nos primeiros anos da ditadura militar, nos anos de 1964 a 1968, foram os principais fatores para a cria\u00e7\u00e3o de um ambiente favor\u00e1vel ao chamado milagre econ\u00f4mico, nos anos de 1968 a 1973.<\/p>\n<p>\u201cFoi a \u00fanica ocasi\u00e3o em que se realizaram reformas de peso, do ponto de vista econ\u00f4mico. Reformas important\u00edssimas. Foi criado o Banco Central, a lei que gere todo o Banco Central e o Sistema Financeiro Nacional. Foi criado todo o mercado de capitais, todo o sistema tribut\u00e1rio\u201d, relata.<\/p>\n<p>No entanto, em 1974, ap\u00f3s o chamado milagre econ\u00f4mico, o sal\u00e1rio m\u00ednimo tinha a metade do poder de compra de 1960. Em contrapartida, nos anos do milagre (1968 a 1973), a taxa de crescimento econ\u00f4mico ficou em torno de 10%, com picos de 14%. A ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o cresceu quase 25%. Entre 1965 e 1974, o sal\u00e1rio m\u00ednimo manteve, no entanto, na m\u00e9dia anual, apenas 69% do poder aquisitivo de 1940.<\/p>\n<p>\u201cNa verdade, houve um aumento da receita do Estado, um aumento da receita do capital e uma queda na receita do trabalho\u201d, destaca o diretor do Dieese.<\/p>\n<p>\u201cHouve, muitas vezes, cr\u00edticas de que teria havido uma concentra\u00e7\u00e3o de renda por conta da pol\u00edtica salarial. Mas o fato \u00e9 que os setores de bens dur\u00e1veis &#8211; geladeiras, televisores &#8211; cresceram muito. E os setores de bem de capital &#8211; m\u00e1quinas e equipamentos &#8211; e de bens intermedi\u00e1rios cresceram muito tamb\u00e9m. Isso acabou criando um mercado interno muito forte, que ajudou muito o crescimento econ\u00f4mico\u201d, ressalva o professor da USP.<\/p>\n<p>O pa\u00eds ficava mais rico, mas boa parte da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o era beneficiada na mesma propor\u00e7\u00e3o. De acordo com o professor, a pol\u00edtica salarial do regime procurava n\u00e3o dar aumentos salariais acima dos ganhos de produtividade. Apenas recompunha as taxas de infla\u00e7\u00e3o passadas. \u00c0 classe trabalhadora, por exemplo, restaram poucas oportunidades.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 alguns setores, em fun\u00e7\u00e3o da falta de m\u00e3o de obra mais especializada, passaram a pagar sal\u00e1rios bem acima da taxa de infla\u00e7\u00e3o. Mas foi pela necessidade imperiosa do setor industrial em demandar uma m\u00e3o de obra mais qualificada.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m da concentra\u00e7\u00e3o de renda, o pa\u00eds passou a enfrentar problemas com o choque do petr\u00f3leo, em 1973. \u201cOs problemas come\u00e7aram a surgir, ligados \u00e0 d\u00edvida p\u00fablica do ponto de vista interno e do ponto de vista externo\u201d, ressalta o professor da USP.<\/p>\n<p>Terminado o ciclo do milagre, a economia do pa\u00eds ingressa nos anos 1980 e 1990 profundamente debilitada para conduzir qualquer estrat\u00e9gia de investimento, o que agrava a capacidade de crescimento.<\/p>\n<p>\u201cA debilidade de estado era sempre fragilizada pelas crises internacionais, todas elas fragilizavam a nossa economia. As contas p\u00fablicas eram prejudicadas pelo d\u00e9ficit que n\u00f3s t\u00ednhamos em conta corrente, pelo valor de nossa d\u00edvida externa\u201d, destaca Clemente.<\/p>\n<p><strong>Bruno Bocchinii, ABr<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O forte crescimento da economia do pa\u00eds no per\u00edodo conhecido como milagre econ\u00f4mico, ocorrido no final dos anos 1960 e in\u00edcio dos 1970, durante a ditadura militar, ganhou destaque gra\u00e7as aos \u00edndices de crescimento obtidos pelo Produto Interno Bruto (PIB). No entanto, a riqueza gerada n\u00e3o foi distribu\u00edda igualmente entre os setores da economia. 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