{"id":57059,"date":"2015-07-10T08:32:27","date_gmt":"2015-07-10T11:32:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=57059"},"modified":"2015-07-10T08:33:03","modified_gmt":"2015-07-10T11:33:03","slug":"cultura-machista-inibe-casais-gays-de-demonstrar-carinho-em-publico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cultura-machista-inibe-casais-gays-de-demonstrar-carinho-em-publico\/","title":{"rendered":"Cultura machista inibe gays de demonstrar carinho em p\u00fablico"},"content":{"rendered":"<p>Chegar \u00e0 rua de casa de m\u00e3os dadas, passear abra\u00e7adas no shopping ou tomar uma cerveja no bar da esquina, trocando beijos e olhares no fim do expediente, s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que fazem parte da rotina de muitos casais heterossexuais. Por\u00e9m, quando querem fazer coisas simples como essas, Mara Vargas e Ana Paula Vargas, casadas e moradoras de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, viajam mais de 30 quil\u00f4metros para se sentir mais \u00e0 vontade, na orla da zona sul do Rio. No lugar onde moram, evitam &#8220;se expor&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A gente gosta de sair para dan\u00e7ar, em boate LGBT [sigla para l\u00e9sbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais], para curtir e beber. Em qualquer outro lugar, n\u00e3o vai ser a mesma coisa. Do jeito que est\u00e1 a viol\u00eancia hoje em dia, \u00e0s vezes, \u00e9 prefer\u00edvel nem sair&#8221;, diz Mara, que completa, junto com Ana Paula, um ano de casada em dezembro.<\/p>\n<p>Mesmo com os direitos garantidos civilmente, casais homoafetivos muitas vezes enfrentam constrangimentos e inseguran\u00e7as na hora de demonstrar publicamente os sentimentos, o que a Justi\u00e7a j\u00e1 resguardou. &#8220;Embora j\u00e1 se tenha um reconhecimento civil, formal e burocr\u00e1tico, existe preconceito muito forte que inviabiliza que essas pessoas tenham tranquilidade para manifestar seu afeto e falar disso abertamente&#8221;, explica a psic\u00f3loga Daniela Murta, assessora de Sa\u00fade da Coordenadoria de Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio de Janeiro.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Nem sempre \u00e9 a homofobia da agress\u00e3o f\u00edsica, embora um dos motivos seja o risco de isso acontecer. Um beijo, um carinho, \u00e0s vezes, s\u00e3o vistos como falta de respeito por quem est\u00e1 em torno. Eles [os homossexuais] n\u00e3o reproduzem o preconceito contra si mesmos e, sim, respondem a um preconceito ao qual s\u00e3o submetidos. Se voc\u00ea est\u00e1 em uma situa\u00e7\u00e3o em que se considera vulner\u00e1vel, n\u00e3o vai se expor&#8221;, analisa Daniela.\u00a0<span style=\"font-size: 1em; line-height: 1.5;\">&#8220;As pessoas t\u00eam direito \u00e0 livre manifesta\u00e7\u00e3o do afeto, e esse \u00e9 um reconhecimento que ainda n\u00e3o foi introjetado por toda a sociedade.&#8221;<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>No Brasil, o casamento homoafetivo \u00e9 estendido a todo o pa\u00eds desde maio de 2013, quando entrou em vigor a Resolu\u00e7\u00e3o 175, de 14 de maio de 2013, do Conselho Nacional de Justi\u00e7a (CNJ). Segundo o texto, os cart\u00f3rios de todo o pa\u00eds n\u00e3o podem se recusar a celebrar casamentos civis de pessoas do mesmo sexo. Antes disso, j\u00e1 havia decis\u00f5es do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ).<\/p>\n<p>Apesar de j\u00e1 garantir esse direito, o Brasil ainda est\u00e1 entre os que mais registram mortes por homofobia. Em 2014, ocorreram 326 mortes, segundo relat\u00f3rio do Grupo Gay da Bahia.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais de um ano juntos, Marcelo e Eric Graciolli programaram a viagem de lua de mel e marcaram uma festa informal, um churrasco, para celebrar o casamento que conquistaram ap\u00f3s uma saga burocr\u00e1tica de mais de 100 dias. Encomendaram doces e um bolo de casamento e chamaram a fam\u00edlia para compartilhar a festa, que s\u00f3 teve um beijo, &#8220;selinho&#8221;, que veio acompanhado de uma mem\u00f3ria que permanece nas lembran\u00e7as que guardam da festa. &#8220;A m\u00e3e dele virou o rosto. Um sobrinho correu para a cozinha e vimos risadinhas&#8221;, conta Marcelo, que tem 40 anos.<\/p>\n<p>&#8220;Nesse dia, combinamos de n\u00e3o nos beijar na frente da fam\u00edlia. Percebemos que eles n\u00e3o est\u00e3o prontos. O problema n\u00e3o somos n\u00f3s, mas preferimos ter uma conviv\u00eancia mais tranquila&#8221;, lembra o publicit\u00e1rio, que mora em Florian\u00f3polis, cidade que ele considera liberal e, mesmo assim, onde n\u00e3o se sente seguro para demonstrar afeto publicamente.<\/p>\n<p>Os dois est\u00e3o acostumados a promover festas em casa, a cuidar dos sobrinhos e a hospedar a fam\u00edlia, mas, sempre sem demonstra\u00e7\u00f5es de afeto. &#8220;Meus sobrinhos sabem que somos casados e desenham a gente com cora\u00e7\u00e3ozinho. As crian\u00e7as entendem melhor que os adultos&#8221;, diz Marcelo.<\/p>\n<p>A regra de n\u00e3o demonstrar amor em p\u00fablico vale para qualquer situa\u00e7\u00e3o em que n\u00e3o estejam sozinhos. Uma vez, por acidente, a diarista que contratavam para limpar o apartamento entrou no quarto e flagrou um beijo. &#8220;Ela foi embora e nunca mais retornou nossas liga\u00e7\u00f5es. Ela sabia que a gente morava junto, tinha foto pela casa toda, us\u00e1vamos alian\u00e7as e s\u00f3 tinha uma cama de casal, e, mesmo assim, se escandalizou. Parecia que trabalhava para Sat\u00e3.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Vin\u00edcius Lisboa, ABr<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chegar \u00e0 rua de casa de m\u00e3os dadas, passear abra\u00e7adas no shopping ou tomar uma cerveja no bar da esquina, trocando beijos e olhares no fim do expediente, s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que fazem parte da rotina de muitos casais heterossexuais. 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