{"id":57657,"date":"2015-07-15T10:01:38","date_gmt":"2015-07-15T13:01:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=57657"},"modified":"2015-07-15T10:04:12","modified_gmt":"2015-07-15T13:04:12","slug":"symmy-travesti-que-cuida-dos-gays-no-governo-dilma-se-diz-excluida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/symmy-travesti-que-cuida-dos-gays-no-governo-dilma-se-diz-excluida\/","title":{"rendered":"Symmy Larrat, travesti que cuida dos gays no governo, se diz exclu\u00edda"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o me sinto inserida, me sinto exclu\u00edda, mesmo ocupando um cargo como eu ocupo\u201d. Esse \u00e9 o desabafo de Symmy Larrat, a primeira travesti a ocupar a fun\u00e7\u00e3o de coordenadora-geral de Promo\u00e7\u00e3o dos Direitos LGBT (L\u00e9sbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) da Secretaria de Direitos Humanos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>A paraense, de 37 anos, faz parte de uma minoria de trans que conseguiu superar os obst\u00e1culos do preconceito para estudar e ocupar um lugar no mercado de trabalho. At\u00e9 se formar em comunica\u00e7\u00e3o social e chegar ao escrit\u00f3rio pol\u00edtico em Bras\u00edlia, percorreu um longo caminho. Como a maioria dos homens e mulheres transexuais e travestis, Symmy primeiro teve que se entender, aceitar-se, para s\u00f3 ent\u00e3o se assumir.<\/p>\n<p>Em entrevista, Symmy fala da realidade e das lutas desse grupo que ainda vive \u00e0 margem da sociedade \u2013 a maioria condenada \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia e morte precoce. Homens e mulheres transexuais e as travestis s\u00e3o pessoas que nascem com um sexo biol\u00f3gico, mas se identificam e reconhecem como sendo do outro g\u00eanero. &#8220;Os transexuais se incomodam com o sexo biol\u00f3gico e almejam a cirurgia&#8221;. As travestis n\u00e3o rejeitam seu sexo biol\u00f3gico. &#8220;Entendem que podem assumir o g\u00eanero feminino tendo um sexo masculino, e que isso n\u00e3o \u00e9 conflitante&#8221;, explica Symmy. &#8220;Meu g\u00eanero \u00e9 feminino e eu sou mulher. A minha genit\u00e1lia n\u00e3o me faz homem&#8221;, ressalta.<\/p>\n<blockquote><p>De fam\u00edlia cat\u00f3lica e com uma irm\u00e3 mais velha, ela afirma que desde crian\u00e7a j\u00e1 tinha no\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o era como a maioria, e os parentes e colegas de escola percebiam. Sempre preferiu as bonecas da irm\u00e3 aos pr\u00f3prios brinquedos, por exemplo. &#8220;Eu sabia que se falasse como eu me sentia eu seria recriminada ou tratada de forma diferente. Mas eu n\u00e3o tinha nitidez de que eu era uma menina no corpo de um menino, at\u00e9 porque a crian\u00e7a n\u00e3o trata a quest\u00e3o dessa forma.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Quando chegou \u00e0 puberdade, teve mais certeza do que queria ser. \u201cQuando eu soube do processo hormonal, eu tentei. Tinha 15, 16 anos. Com o tratamento, as mudan\u00e7as ficaram not\u00f3rias&#8221;. Foi ent\u00e3o que Symmy decidiu contar \u00e0 m\u00e3e como se sentia. Ela n\u00e3o foi aceita e saiu de casa.<\/p>\n<p>Apesar da rejei\u00e7\u00e3o, Symmy n\u00e3o foi abandonada. Um tio a aceitou. &#8220;Acho que minha fam\u00edlia pecou mais por ignor\u00e2ncia do que por preconceito motivado pelo \u00f3dio\u201d, lembra. A fam\u00edlia fez o que podia para tentar \u201ccur\u00e1-la\u201d. &#8220;Fiz um ano de psican\u00e1lise e tinha que frequentar aulas de futebol e a Igreja.&#8221;<\/p>\n<p>Passar por tudo isso deixou Symmy mais segura, aumentando a certeza de quem era. &#8220;Com mais convic\u00e7\u00e3o, conversei com a minha m\u00e3e e ela me aceitou de volta em casa, dizendo que entendia que eu era gay&#8221;, contou. Era isso que Symmy achava tamb\u00e9m, n\u00e3o conhecia outras classifica\u00e7\u00f5es. A m\u00e3e pediu que ela n\u00e3o fosse &#8220;pintosa&#8221;, ou seja, que ela evitasse trejeitos femininos. &#8220;Eu disse que n\u00e3o tinha como&#8221;, conta. Ent\u00e3o a m\u00e3e disse que podia ser feminina, mas n\u00e3o deveria se vestir como mulher. &#8220;No princ\u00edpio aceitei, mas logo comecei a me transvestir para sair \u00e0 noite, fazer shows. Eu j\u00e1 n\u00e3o queria a imagem masculina e sa\u00eda \u00e0 noite para extravasar a minha identidade reprimida.\u201d<\/p>\n<blockquote><p>No dia a dia, Symmy escondeu sua identidade feminina at\u00e9 terminar o curso na Universidade Federal do Par\u00e1. &#8220;Frequentava o gueto do gueto, porque eu n\u00e3o queria que as pessoas que eu conhecia me vissem como travesti, mas, ao mesmo tempo, era muito doloroso para mim ver uma imagem que eu n\u00e3o queria.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>O primeiro passo foi contar a decis\u00e3o para a m\u00e3e. &#8220;Chamei ela a um restaurante e contei. Nessa \u00e9poca eu tinha voltado a fazer tratamento hormonal e as pessoas percebiam, mas eu n\u00e3o tinha assumido para ningu\u00e9m&#8221;, conta. \u201cAssumir foi muito libertador, mas tive que ir pra rua.&#8221;<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, a travesti buscava uma coloca\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho, mas as portas estavam fechadas. &#8220;Era expl\u00edcito, o tempo todo. Eu andava na rua durante o dia e as pessoas me recriminavam porque achavam que aquele hor\u00e1rio n\u00e3o era pra mim, \u00e9 como se tivesse um toque de recolher para os diferentes&#8221;. Ela n\u00e3o conseguiu trabalho. &#8220;Tive que me prostituir com o diploma no bolso. S\u00f3 me restavam as duas op\u00e7\u00f5es que eram dadas \u00e0s trans. Ou eu ia montar um sal\u00e3o \u2013 mas nunca tive aptid\u00e3o \u2013 ou ia pra esquina&#8221;. Nessa \u00e9poca, Symmy trabalhava como prostituta de madrugada e era volunt\u00e1ria do Centro de Refer\u00eancia LGBT de Bel\u00e9m pela manh\u00e3, onde recebia den\u00fancias de homofobias \u2013 homofobia, lesbofobia e transfobia \u2013 e encaminhava as v\u00edtimas para a pol\u00edcia.<\/p>\n<blockquote><p>Por achar que o acolhimento das mulheres e dos homens trans \u00e9 a \u00fanica maneira de permitir que se tornem m\u00e9dicos, professores ou tenham qualquer outra profiss\u00e3o, e assim ganhem espa\u00e7o na sociedade, Symmy diz que uma das suas prioridades na Secretaria de Direitos Humanos \u00e9 fazer com que os servi\u00e7os p\u00fablicos, principalmente escolas e hospitais, entendam as necessidades desse grupo.<\/p><\/blockquote>\n<p>Segundo ela, muitos trans n\u00e3o encontram acolhimento, e nesse contexto, a escola sai de cena. &#8220;\u00c9 imenso o n\u00famero de pessoas trans de 14, 15 anos, na rua, j\u00e1 se drogando, j\u00e1 se prostituindo, vivenciando toda essa mazela&#8221;, lamenta. A Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) estima que 90% das travestis e transexuais brasileiras estejam envolvidas com prostitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Symmy disse que \u00e9 prioridade da sua coordena\u00e7\u00e3o lutar para que a sociedade brasileira trate essas pessoas de forma igualit\u00e1ria. &#8220;Falta esse olhar nos profissionais de todo o servi\u00e7o p\u00fablico. Isso s\u00f3 muda com o conv\u00edvio, por isso tamb\u00e9m \u00e9 t\u00e3o importante que as travestis frequentem a escola, para que possam conviver e aprender a se relacionar&#8221;. Symmy acredita que essa conviv\u00eancia pode fazer o preconceito diminuir e mudar a forma de tratamento de quem \u00e9 trans. &#8220;Precisamos com urg\u00eancia transformar as escolas em locais acolhedores. Hoje, quando uma aluna diz que n\u00e3o quer usar o banheiro junto com uma travesti, a escola n\u00e3o sabe como lidar, n\u00e3o sabe o que fazer e tem medo dos pais.&#8221;<\/p>\n<blockquote><p>Outra pauta priorit\u00e1ria para pessoas trans e que poderia aumentar a expectativa de vida dessa popula\u00e7\u00e3o, estimada em 30 anos, \u00e9 o acesso ao Processo Transexualizador, que j\u00e1 \u00e9 um direito pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), mas n\u00e3o est\u00e1 capilarizado nos estados. O processo transexualizador \u00e9 um conjunto de procedimentos que auxilia travestis e transexuais, como psicoterapia, tratamento hormonal e cirurgias de mudan\u00e7a de sexo para as mulheres transexuais interessadas. &#8220;Hoje, pela Portaria 2.803, uma travesti deveria poder chegar a um hospital p\u00fablico e fazer o tratamento. Mas o SUS est\u00e1 lutando para conseguir disseminar hospitais nos estados e munic\u00edpios] que queiram se credenciar, e \u00e9 dif\u00edcil.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Segundo Symmy, h\u00e1 poucos m\u00e9dicos preparados e interessados em trabalhar com complementa\u00e7\u00e3o hormonal, etapa importante do processo. &#8220;N\u00e3o \u00e9 porque a gente conquistou a portaria que o processo est\u00e1 garantido. A dificuldade de acesso ainda \u00e9 muito grande. Precisamos levar o acesso para todo o Brasil&#8221;. Ela sabe, por experi\u00eancia pr\u00f3pria, que isso pode impedir que as travestis fa\u00e7am o tratamento hormonal por conta pr\u00f3pria, sem orienta\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. &#8220;Eu fiz isso e tive uma overdose, fui parar no hospital.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Maiana Diniz, ABr<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o me sinto inserida, me sinto exclu\u00edda, mesmo ocupando um cargo como eu ocupo\u201d. 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