{"id":59931,"date":"2015-08-02T20:56:17","date_gmt":"2015-08-02T23:56:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=59931"},"modified":"2015-08-03T03:52:26","modified_gmt":"2015-08-03T06:52:26","slug":"refugiados-invadem-o-brasil-na-esperanca-de-dias-melhores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/refugiados-invadem-o-brasil-na-esperanca-de-dias-melhores\/","title":{"rendered":"Refugiados invadem o Brasil na esperan\u00e7a de ter um futuro melhor"},"content":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que precisa de muito tempo para voc\u00eas daqui entenderem. \u00c9 uma coisa que a gente se acostumou, mas n\u00e3o \u00e9 normal, nada \u00e9 normal l\u00e1\u201d. O sorriso f\u00e1cil e olhar sereno de Charly Kongo contrastam com sua hist\u00f3ria, que poderia ter sido abreviada. Nascido na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, ele decidiu n\u00e3o se calar diante das injusti\u00e7as e foi \u00e0s ruas. Uma s\u00e9rie de amea\u00e7as contra sua vida o fizeram tomar uma decis\u00e3o: deixar a vida e a fam\u00edlia na \u00c1frica e morar no Brasil.<\/p>\n<p>\u201cO povo Bakongo saiu \u00e0s ruas pedindo a justi\u00e7a. A\u00ed o governo, como de h\u00e1bito, reprimiu. Muitas pessoas morreram, muitas desapareceram\u201d, conta. Amea\u00e7ado de morte em um cen\u00e1rio pol\u00edtico turbulento, ele deixou seu pa\u00eds em 2008. Um amigo sugeriu que Kongo fosse para o Brasil e se ofereceu para ajud\u00e1-lo na concess\u00e3o de visto, pois tinha conhecidos na embaixada brasileira. Mesmo assim, a adapta\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi f\u00e1cil. Ele chegou no Brasil sem falar uma palavra em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Ao desembarcar no Rio de Janeiro, onde se estabeleceu, fez o que, segundo ele, todos os estrangeiros fazem em situa\u00e7\u00f5es semelhantes, procurou seus conterr\u00e2neos. Brasileiros o ajudaram e o levaram para o centro da cidade, onde encontrou outros congoleses, como ele.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cEu entendi que, sem falar o portugu\u00eas, n\u00e3o teria como viver. A\u00ed procurei estudar o idioma, comecei a fazer um curso na Universidade Federal do Rio de Janeiro, e isso me ajudou a melhorar meu portugu\u00eas. Depois,consegui um emprego fixo, no setor de hotelaria. No hotel, comecei na \u00e1rea de limpeza, hoje trabalho como mensageiro\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Kongo esperou por oito meses a concess\u00e3o de ref\u00fagio e hoje n\u00e3o pensa em voltar a morar em seu pa\u00eds natal, pelo menos em um futuro pr\u00f3ximo. \u201cGostaria de voltar \u00e0 minha terra um dia, mas n\u00e3o por enquanto, vou esperar um pouquinho. Se Deus quiser aquele regime n\u00e3o estar\u00e1 mais l\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Nascido em Bangladesh, Nurul Amin, 32, tamb\u00e9m tem o desejo de se manter no Brasil mas, ao contr\u00e1rio do congol\u00eas, sua perman\u00eancia ainda n\u00e3o \u00e9 certa. \u201cA vida aqui \u00e9 melhor do que l\u00e1. Todo mundo gosta do Brasil, o \u00fanico problema \u00e9 que n\u00e3o tenho os documentos da perman\u00eancia ainda\u201d. Ele chegou ao Brasil h\u00e1 dois anos para se afastar de uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica inst\u00e1vel, e atr\u00e1s de melhores sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>A cada pergunta, Nurul Amin pensa, esbo\u00e7a uma resposta, para e retoma o racioc\u00ednio em seguida. Ainda aprendendo a falar portugu\u00eas, cada palavra \u00e9 pensada como uma equa\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes uma palavra em ingl\u00eas escapa, mas a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais a barreira que era. \u201cCheguei aqui e n\u00e3o sabia pedir \u00e1gua ou p\u00e3o. Era muito dif\u00edcil, mas agora estou aprendendo, e n\u00e3o est\u00e1 mais t\u00e3o dif\u00edcil\u201d.<\/p>\n<p>Ele divide com outros tr\u00eas conterr\u00e2neos uma pequena casa nos fundos de um lote em Taguatinga, cidade sat\u00e9lite do Distrito Federal. E todos vivem situa\u00e7\u00e3o parecida. Trope\u00e7ando no portugu\u00eas, Rony Ahmed, 28; Joynal Abedin, 24; e Masarof Hossain, 26; vivem um dia de cada vez, em empregos informais, e ajudando um ao outro.<\/p>\n<p>\u201cGosto do Brasil, o sistema [pol\u00edtico] \u00e9 muito bom, o pa\u00eds e o trabalho aqui s\u00e3o muito bons, as pessoas ajudam se voc\u00ea precisa\u201d, disse Ahmed. Muito simp\u00e1tico e sorridente, ele explicou o principal motivo de cruzar o Atl\u00e2ntico e chegar ao Brasil h\u00e1 dois anos. \u201cEu apoiava os l\u00edderes de oposi\u00e7\u00e3o ao governo e j\u00e1 fui preso por isso. A pol\u00edcia j\u00e1 me bateu e me prendeu por fazer oposi\u00e7\u00e3o ao governo\u201d, disse Ahmed, que tamb\u00e9m era eletricista em seu pa\u00eds, e hoje faz churrasco na rua para sobreviver.<\/p>\n<blockquote><p>Eles sonham obter o reconhecimento do ref\u00fagio para poderem trazer a fam\u00edlia para o Brasil. Enquanto o primeiro tem esposa e um filho, Ahmed deixou a esposa na terra natal. Ao ser perguntado se pretende trazer a esposa para morar no Brasil, os olhos de Amin brilham de expectativa. \u201cEu quero muito, muito trazer ela! Mas n\u00e3o tenho o ref\u00fagio ainda. Eu j\u00e1 estou h\u00e1 dois anos aqui, enquanto minha mulher est\u00e1 l\u00e1 em Bangladesh, esperando. \u00c9 muito dif\u00edcil, triste\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Amin e seus compatriotas fazem parte de um grupo de 11,2 mil pessoas que, segundo a Ag\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Refugiados (Acnur), ainda aguardam uma resposta do Estado brasileiro sobre a solicita\u00e7\u00e3o de ref\u00fagio.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 prazo legal para que a decis\u00e3o seja tomada pelas autoridades brasileiras. Com isso, s\u00f3 aumenta a ang\u00fastia de quem aguarda uma defini\u00e7\u00e3o sobre a pr\u00f3pria vida. \u201cCom os documentos do ref\u00fagio, poderia visitar minha esposa por dois, tr\u00eas meses, depois voltaria. Mas, sem isso, n\u00e3o posso, n\u00e3o posso deixar o Brasil\u201d, explica Amin.<\/p>\n<p>De acordo com o Comit\u00ea Nacional para os Refugiados (Conare) o Brasil registra 7,7 mil refugiados reconhecidos. Pessoas de 81 nacionalidades j\u00e1 conseguiram ref\u00fagio no pa\u00eds. Os grupos que mais buscam ref\u00fagio no pa\u00eds v\u00eam da S\u00edria, Col\u00f4mbia, Angola e Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo (RDC).<\/p>\n<p>Os s\u00edrios representam 23% do total de refugiados reconhecidos no Brasil. \u201cO caso dos s\u00edrios pode ser explicado pela postura solid\u00e1ria do Brasil com as v\u00edtimas do conflito naquele pa\u00eds, inclusive por meio da aprova\u00e7\u00e3o da Resolu\u00e7\u00e3o Normativa n\u00ba17 do Conare\u201d, explica a Acnur, no documento \u201cDados sobre o ref\u00fagio no Brasil\u201d, divulgado no ano passado.<\/p>\n<p>De acordo com o minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, todo cidad\u00e3o estrangeiro que quiser se estabelecer no Brasil na condi\u00e7\u00e3o de refugiado, deve fazer o pedido em qualquer posto da Pol\u00edcia Federal ou autoridade migrat\u00f3ria na fronteira. O solicitante recebe um protocolo provis\u00f3rio, v\u00e1lido por um ano e renov\u00e1vel at\u00e9 a decis\u00e3o final sobre o pedido de ref\u00fagio.<\/p>\n<blockquote><p>De posse do protocolo, o estrangeiro j\u00e1 pode obter carteira de trabalho, CPF e acessar todos os servi\u00e7os p\u00fablicos dispon\u00edveis no Brasil. Em caso de indeferimento do pedido de ref\u00fagio, o estrangeiro pode recorrer ao ministro da Justi\u00e7a. Outra possibilidade \u00e9 um recurso junto ao Conselho Nacional de Imigra\u00e7\u00e3o (CNIg), do Minist\u00e9rio do Trabalho, no caso de quem veio ao Brasil em busca de oportunidades de trabalho.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Marcelo Brand\u00e3o, ABr<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que precisa de muito tempo para voc\u00eas daqui entenderem. \u00c9 uma coisa que a gente se acostumou, mas n\u00e3o \u00e9 normal, nada \u00e9 normal l\u00e1\u201d. 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