{"id":62499,"date":"2015-08-16T11:48:14","date_gmt":"2015-08-16T14:48:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=62499"},"modified":"2016-07-30T16:53:13","modified_gmt":"2016-07-30T19:53:13","slug":"insistir-na-busca-e-achar-ets-pode-ser-o-fim-da-humanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/insistir-na-busca-e-achar-ets-pode-ser-o-fim-da-humanidade\/","title":{"rendered":"Insistir na busca e achar ETs pode significar o fim da humanidade, afirma fil\u00f3sofo"},"content":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea sonha em ver de perto um alien\u00edgena, este tem sido um \u00f3timo ano.\u00a0Em junho, no anivers\u00e1rio de 46 anos do primeiro homem na lua, o empreendedor e filantropo russo Yuri Milner afirmou que ir\u00e1 investir US$ 100 milh\u00f5es nos pr\u00f3ximos dez anos no programa de pesquisa de sinais de vida alien\u00edgena, conhecido como Seti, fornecendo ao setor uma estabilidade financeira e um acesso a telesc\u00f3pios que nunca foi poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Na mesma semana, a Nasa anunciou a descoberta do que pode ser o planeta mais parecido com a Terra fora do sistema solar, o Kepler 452b, que fica a apenas 1.400 anos luz daqui.<\/p>\n<p>Em uma confer\u00eancia de imprensa ap\u00f3s o an\u00fancio de Milner, Geoffrey Marcy, ca\u00e7ador de planetas da Universidade da Calif\u00f3rnia, em Berkeley, destacou que &#8220;o universo parece estar repleto dos ingredientes necess\u00e1rios para a biologia&#8221;. Ele afirmou que apostaria a casa de Milner, avaliada em cerca de US$ 100 milh\u00f5es, que existe ao menos vida microbiana em outros planetas.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode at\u00e9 imaginar que a descoberta de micr\u00f3bios em Marte ou de peixes nos oceanos de Europa, uma das luas de J\u00fapiter, faria os cientistas pularem de alegria. E voc\u00ea provavelmente estaria certo. Mas nem todo mundo acredita que essa seria uma not\u00edcia t\u00e3o boa. Ao menos um importante pensador acredita que isso representaria um &#8220;golpe esmagador&#8221;.<\/p>\n<p>Trata-se de Nick Bostrom, fil\u00f3sofo da Universidade de Oxford, diretor do Instituto do Futuro da Humanidade e um dos grandes pessimistas da nossa era.<\/p>\n<p>Em um artigo publicado em 2009 na Technology Review, Bostrom declarou que a descoberta do mais \u00ednfimo micr\u00f3bio na superf\u00edcie marciana seria um sinal muito ruim para o futuro da humanidade. &#8220;Rochas e desertos sem vida me deixam muito mais feliz&#8221;, escreve.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou em 1950 em Los Alamos, no Novo M\u00e9xico, o local de nascimento da bomba at\u00f4mica. O assunto eram discos voadores e viagens interestelares. O f\u00edsico Enrico Fermi fez uma pergunta que ficou famosa entre os astr\u00f4nomos: &#8220;Cad\u00ea todo mundo?&#8221;.<\/p>\n<p>O fato de n\u00e3o existirem evid\u00eancias de visitantes extraterrestres fora dos tabloides mais toscos convencia Fermi de que viagens interestelares s\u00e3o imposs\u00edveis. Demoraria tempo demais para ir a qualquer outro lugar. O argumento foi desenvolvido por cientistas como Michael Hart e Frank Tipler, que conclu\u00edram que civiliza\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas extraterrestres simplesmente n\u00e3o existem.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica \u00e9 muito simples. Imagine que daqui a um milh\u00e3o de anos os terr\u00e1queos lan\u00e7assem um rob\u00f4 em dire\u00e7\u00e3o a Alpha Centauri, o sistema solar mais pr\u00f3ximo do nosso. Ele chega at\u00e9 l\u00e1 em alguns anos e, milh\u00f5es de anos mais tarde, envia sondas para dois outros sistemas solares.<\/p>\n<p>Um milh\u00e3o de anos depois, cada uma delas envia mais duas sondas. Levando-se em conta que essas espa\u00e7onaves viajam a velocidades generosas, em 100 milh\u00f5es de anos seria poss\u00edvel visitar cerca de um nonilh\u00e3o de estrelas (ou 10 elevado \u00e0 30 pot\u00eancia). A gal\u00e1xia cont\u00e9m cerca de 200 bilh\u00f5es de estrelas, o que significa que cada estrela poderia ser visitada mais de um trilh\u00e3o de vezes, segundo a l\u00f3gica desses rob\u00f4s.<\/p>\n<p>A ideia da sonda interestelar n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o absurda, inclusive. Gente muito s\u00e9ria deseja enviar uma sonda para outra estrela por meio de tecnologias que ser\u00e3o poss\u00edveis em um futuro pr\u00f3ximo. Um bom exemplo vem da Ag\u00eancia de Projetos de Pesquisa Avan\u00e7ada em Defesa e seu Estudo de Espa\u00e7onaves, previsto para durar um s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, existem bilh\u00f5es de planetas potencialmente habit\u00e1veis na gal\u00e1xia. Se apenas uma pequena parcela deles desenvolver vida e tecnologias, isso seria o suficiente para transformar a gal\u00e1xia inteira em uma verdadeira Times Square.<\/p>\n<p>A Via L\u00e1ctea tem 10 bilh\u00f5es de anos. Portanto, cad\u00ea os alien\u00edgenas e todos os seus artefatos? A gente n\u00e3o achou nada. Se a vida \u00e9 t\u00e3o simples, algu\u00e9m em algum lugar j\u00e1 deveria estar chamando. Esse \u00e9 o famoso paradoxo de Fermi.<\/p>\n<p>Existem muitas falhas nesse argumento, incluindo a possibilidade de que n\u00e3o ser\u00edamos capazes de reconhecer a vida alien\u00edgena, mesmo que estivessem bem na nossa frente. A explica\u00e7\u00e3o mais simples, segundo Bostrom e outros especialistas, \u00e9 a de que n\u00e3o existem outras civiliza\u00e7\u00f5es que resolveram viajar pelo espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Ele acredita que deve existir alguma coisa que impede a vida de surgir, ou que limite sua perman\u00eancia antes que ela seja capaz de chegar \u00e0s estrelas. Ele se refere a isso como o Grande Filtro.<\/p>\n<p>D\u00e1 pra imaginar todo tipo de gargalo na evolu\u00e7\u00e3o da vida e das civiliza\u00e7\u00f5es \u2013 desde a combina\u00e7\u00e3o dos primeiros \u00e1tomos em cadeias de RNA, a mol\u00e9cula gen\u00e9tica que \u00e9 o fiel ajudante do DNA, at\u00e9 as guerras nucleares, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, erros na engenharia gen\u00e9tica \u2013 que podem operar como um Grande Filtro.<\/p>\n<p>Para Bostrom o que \u00e9 mais dif\u00edcil saber \u00e9 se o Grande Filtro ficou no passado ou se est\u00e1 no futuro, e para obter a resposta ele olha para as estrelas. Se n\u00e3o existe mais nada a\u00ed fora, isso quer dizer que sobrevivemos ao mais dif\u00edcil. Por mais bizarro que pare\u00e7a, somos os primeiros em toda a vizinhan\u00e7a a chegar \u00e0 corrida de obst\u00e1culos do cosmos.<\/p>\n<p>Se tivermos companhia no universo, isso significa que o Grande Filtro ainda est\u00e1 em nosso caminho e que nossos dias est\u00e3o contados.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma informa\u00e7\u00e3o extremamente existencial e que foi adquirida na flor da idade de nossa jovem esp\u00e9cie, com base no exame detalhado de uma pequena parcela de nossa vizinhan\u00e7a c\u00f3smica. Al\u00e9m disso, esse tamb\u00e9m \u00e9 um exerc\u00edcio corajoso que estende os limites da raz\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Um exerc\u00edcio corajoso demais, mas que encontra precedente no antigo Paradoxo de Olbers, que recebe o nome de Heinrich Wilhelm Olbers, astr\u00f4nomo amador do s\u00e9culo 19 que descreveu um problema que incomoda os astr\u00f4nomos desde pelo menos o s\u00e9culo 16: por que o c\u00e9u fica escuro durante a noite? Em um universo infinito e eterno, tudo deveria ser preenchido por estrelas e at\u00e9 mesmo nuvens de poeira c\u00f3smica brilhariam como o dia.<\/p>\n<p>Pensadores como o f\u00edsico escoc\u00eas Lord Kelvin e o escritor Edgar Allan Poe sugeriram que a escurid\u00e3o dos c\u00e9us era uma pista do fato de que o universo seria finito, ao menos em rela\u00e7\u00e3o ao tempo, e que tivera um come\u00e7o, uma ideia cimentada pela teoria do Big Bang.<\/p>\n<p>Se Olbers viu o in\u00edcio dos tempos, talvez Fermi e Bostrom tenham visto seu final. E isso n\u00e3o devia nos surpreender. Nada dura para sempre. Os pais do Seti, Carl Sagan e Frank Drake, destacavam que o principal elemento desconhecido em suas equa\u00e7\u00f5es era o tempo m\u00e9dio de vida das civiliza\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. Se sua exist\u00eancia fosse muito curta, isso eliminaria a chance de duas delas existirem ao mesmo tempo. Esque\u00e7a a irmandade hipot\u00e9tica da gal\u00e1xia. Os Klingons desapareceram h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>O melhor que podemos esperar \u00e9 que sejamos mais uma fase evolucion\u00e1ria no zigue-zague do desenvolvimento da vida na Terra como a conhecemos. Mas em alguns bilh\u00f5es de anos, o Sol vai morrer, e o mesmo vale para a Terra e para nossos descendentes \u2013 caso eles ainda estejam por aqui. O universo n\u00e3o vai se lembrar de n\u00f3s, nem de Shakespeare ou Homero.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos culpar Bostrom por isso. Mas ele tem um hist\u00f3rico de pensamentos desconfort\u00e1veis. Em 2003, defendeu o argumento de que n\u00f3s provavelmente vivemos em uma simula\u00e7\u00e3o de computador, algo que seria muito simples para uma civiliza\u00e7\u00e3o &#8220;tecnologicamente madura&#8221;.<\/p>\n<p>O que h\u00e1 de comum entre seus c\u00e1lculos e outros que beiram a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 o fato de todos se basearem em extrapola\u00e7\u00f5es, seja a duplica\u00e7\u00e3o da capacidade de processamento decretada pela Lei de Moore, no caso das simula\u00e7\u00f5es computadorizadas, ou a duplica\u00e7\u00e3o das sondas espaciais ao longo dos mil\u00eanios. Acredite por sua pr\u00f3pria conta e risco. Os chips n\u00e3o podem encolher para sempre. M\u00e1quinas independentes que vagam muito longe de casa se quebram ou se esquecem de sua finalidade. A Apple n\u00e3o vai conseguir duplicar as vendas de iPhones para sempre.<\/p>\n<p>Como grande bi\u00f3logo e jornalista cient\u00edfico Lewis Thomas gostava de dizer, n\u00f3s somos uma esp\u00e9cie ignorante. E \u00e9 por isso que experimentamos tanto.<\/p>\n<p><strong>Dennis Overbye, New York Times<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea sonha em ver de perto um alien\u00edgena, este tem sido um \u00f3timo ano.\u00a0Em junho, no anivers\u00e1rio de 46 anos do primeiro homem na lua, o empreendedor e filantropo russo Yuri Milner afirmou que ir\u00e1 investir US$ 100 milh\u00f5es nos pr\u00f3ximos dez anos no programa de pesquisa de sinais de vida alien\u00edgena, conhecido como [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":62500,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[71],"tags":[],"class_list":["post-62499","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-curiosidades"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62499","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62499"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62499\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":62508,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62499\/revisions\/62508"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/62500"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62499"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62499"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62499"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}