{"id":63868,"date":"2015-08-23T00:45:50","date_gmt":"2015-08-23T03:45:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=63868"},"modified":"2015-08-23T00:49:22","modified_gmt":"2015-08-23T03:49:22","slug":"muculmanos-sao-os-que-mais-sofrem-com-intolerancia-religiosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/muculmanos-sao-os-que-mais-sofrem-com-intolerancia-religiosa\/","title":{"rendered":"Mu\u00e7ulmanos s\u00e3o as maiores v\u00edtimas da crescente intoler\u00e2ncia religiosa registrada no Rio"},"content":{"rendered":"<p>Insultos, cusparadas, pedradas e amea\u00e7as de morte s\u00e3o algumas das den\u00fancias de agress\u00f5es contra mu\u00e7ulmanos no Rio de Janeiro nos \u00faltimos meses.<\/p>\n<p>Depois dos adeptos das religi\u00f5es de matriz africana, os seguidores do isl\u00e3 s\u00e3o os que mais sofrem com a intoler\u00e2ncia religiosa no estado, segundo o Centro de Promo\u00e7\u00e3o da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos da Secretaria de Direitos Humanos e Assist\u00eancia Social. Desde janeiro, pelo menos uma den\u00fancia \u00e9 recebida mensalmente. A estimativa \u00e9 que haja 2 mil mu\u00e7ulmanos vivendo no Rio.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros destoam dos demais estados do Brasil. Apenas cinco den\u00fancias de Islamofobia foram feitas ao Disque 100 da Secretaria de Direitos Humanos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. As mulheres, mais facilmente identificadas nas ruas pelo uso do v\u00e9u, s\u00e3o as principais v\u00edtimas de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>A aeromo\u00e7a Ana Cl\u00e1udia Mascarenhas, 43 anos, levou um soco de um homem ap\u00f3s ser xingada de terrorista em pleno centro da cidade.<\/p>\n<p>\u201cFui fazer exame m\u00e9dico e notei que uma pessoa me seguia. Ele parou atr\u00e1s de mim, come\u00e7ou a me xingar e a dizer que odiava terroristas. Fiquei quieta, pois n\u00e3o sou terrorista. Quando o sinal abriu, ele me puxou pelo bra\u00e7o, repetiu que odiava terrorista e me deu um soco no rosto. Sa\u00ed correndo como louca, sem olhar para tr\u00e1s. Se \u00e0s 7h, com toda aquela gente na rua, ele fez isso, n\u00e3o gosto de imaginar o que faria se eu reagisse ou respondesse\u201d, afirmou Ana Cl\u00e1udia.<\/p>\n<p>Um dos casos denunciados ao Centro de Promo\u00e7\u00e3o da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos foi um trote universit\u00e1rio com uma estudante mu\u00e7ulmana. Colocaram fogo no hijab [v\u00e9u] da menina, que acabou tendo o couro cabeludo queimado.<\/p>\n<p>A coordenadora do centro, Lorrama Machado, lamentou que, durante um curso de forma\u00e7\u00e3o para peritos criminais da Pol\u00edcia Civil sobre o tema, um agente tivesse comentado que pessoas como a menina mereciam morrer.<\/p>\n<p>\u201cA equipe ficou em choque. Por sorte, outros colegas do perito o contestaram e vimos que era uma posi\u00e7\u00e3o isolada. Mas esse policial, agora formado, pode um dia ser respons\u00e1vel por analisar um crime contra um mu\u00e7ulmano\u201d, disse Lorrama. \u201cQue tipo de laudo ele dar\u00e1 com essa opini\u00e3o sobre mu\u00e7ulmanos? Por isso \u00e9 importante informar e conscientizar\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>A Lei 7.716, de 1989, protege fi\u00e9is de todas as cren\u00e7as, prevendo cadeia para quem cometer crimes de intoler\u00e2ncia religiosa. De acordo com o assessor de Comunica\u00e7\u00e3o da Sociedade Beneficente Mu\u00e7ulmana do Rio de Janeiro (SBMRJ), Fernando Celino, muitos policiais n\u00e3o s\u00e3o treinados para identificar crimes de intoler\u00e2ncia religiosa.<\/p>\n<p>Segundo Celino, uma mu\u00e7ulmana que frequentava a mesquita j\u00e1 fez dois boletins de ocorr\u00eancia contra o vizinho que a amea\u00e7ou de morte mais de uma vez, mas os policiais tratam o caso como briga de vizinho. &#8220;Por isso, o ass\u00e9dio continua. H\u00e1 muitas delegacias que tipificam um caso desse de forma errada, como cal\u00fania, inj\u00faria ou qualquer outra coisa, sem dar a real import\u00e2ncia, tratando como um crime menor.\u201d<\/p>\n<p>Fernando Celino informou que outro caso de intoler\u00e2ncia ocorreu no in\u00edcio do ano, quando um motorista de \u00f4nibus expulsou a passageira, dizendo que n\u00e3o transportava mulher-bomba. Tamb\u00e9m neste ano, uma professora de ingl\u00eas teve o emprego amea\u00e7ado por pais de alunos que pediram ao dono do curso para que a demitisse, pois n\u00e3o queriam &#8220;mulher de Bin Laden&#8221; dando aulas para os filhos.<\/p>\n<p>\u201cOutra mu\u00e7ulmana foi tema de reuni\u00e3o de condom\u00ednio. Os moradores queriam a sa\u00edda dela e de sua fam\u00edlia do pr\u00e9dio por medo de que escondessem bombas. Somos um estado muito acolhedor quando o assunto \u00e9 samba e turismo, mas n\u00e3o aceitamos o novo\u201d, criticou Lorrama. O fato mais recente foi de apedrejamento, seguido de cusparadas a uma mo\u00e7a em Nova Igua\u00e7u, Baixada Fluminense.<\/p>\n<p>A atendente de telemarketing, Ana Carolinha Jimenez, 22 anos, tamb\u00e9m passou pela humilha\u00e7\u00e3o de ser atingida por uma cusparada. \u201cEstava no ponto de \u00f4nibus. Alguns jovens no \u00f4nibus come\u00e7aram a falar bobagem e a me xingar. Quando o \u00f4nibus partiu, eles cuspiram. Senti uns respingos, limpei e continuei olhando para frente.\u201d<\/p>\n<p>Se as agress\u00f5es f\u00edsicas n\u00e3o s\u00e3o rotina, o desrespeito \u00e9 di\u00e1rio. \u201cOu\u00e7o risadas pelo menos uma vez por dia. As pessoas apontam, se cutucam. A maioria acha que nem somos brasileiras. A primeira coisa que falam \u00e9: &#8216;volta para seu pa\u00eds&#8217;\u201d, disse Ana Cl\u00e1udia.<\/p>\n<p>De acordo com a coordenadora do centro, mais de 90% das v\u00edtimas s\u00e3o brasileiras natas, que se converteram ao islamismo na idade adulta.<\/p>\n<p><strong>Mercado de trabalho<\/strong><\/p>\n<p>O preconceito tamb\u00e9m \u00e9 um obst\u00e1culo para as mulheres no mercado de trabalho. Ana Carolina passou por cinco entrevistas e em todas a retirada do v\u00e9u durante o trabalho era pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para a contrata\u00e7\u00e3o. \u201cFiz v\u00e1rios cursos de especializa\u00e7\u00e3o em secretariado executivo e sou fluente em ingl\u00eas. As pessoas gostam do meu curr\u00edculo, mas querem que eu tire o v\u00e9u, mesmo eu afirmando que ele n\u00e3o atrapalha meu desempenho. Para mim, \u00e9 como seu tivesse de trabalhar de suti\u00e3. O v\u00e9u n\u00e3o \u00e9 um acess\u00f3rio para a cabe\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>Ap\u00f3s mais de 100 curr\u00edculos distribu\u00eddos e um anos depois, ela conseguiu emprego como assistente de telemarketing. \u201cPara mim, \u00e9 frustrante, mas sou grata a essa oportunidade, pois estava precisando.\u201d<\/p>\n<p>Ana Cl\u00e1udia trabalha sem o v\u00e9u a contragosto. Como est\u00e1 na empresa h\u00e1 muitos anos e essa \u00e9 a principal renda da fam\u00edlia, n\u00e3o tem como abdicar do emprego. \u201cA vestimenta faz parte da religi\u00e3o. At\u00e9 tentei levar isso adiante, mas sou a \u00fanica mu\u00e7ulmana na empresa. Saio do avi\u00e3o e coloco o v\u00e9u. Para mim \u00e9 muito dif\u00edcil.\u201d<\/p>\n<p><strong>Dossi\u00ea<\/strong><\/p>\n<p>As den\u00fancias se intensificaram em 2015, de tal modo que, em julho, o centro encaminou aos minist\u00e9rios P\u00fablicos federal e estadual um dossi\u00ea elaborado pela SBMRJ sobre casos de islamofobia pela internet. O documento tamb\u00e9m foi entregue \u00e0 Pol\u00edcia Civil e Delegacia de Crimes de Internet e \u00e0 Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da C\u00e2mara dos Deputados. A Pol\u00edcia Civil e o Minist\u00e9rio P\u00fablico j\u00e1 come\u00e7aram a investigar o caso.<\/p>\n<p>No documento, s\u00e3o denunciados p\u00e1ginas e v\u00eddeos na internet que atacam a religi\u00e3o isl\u00e2mica com inverdades sobre Maom\u00e9, principal profeta do Isl\u00e3. H\u00e1 fotos de mu\u00e7ulmanos brasileiros, acusados de terroristas. Ainda segundo o dossi\u00ea, a maioria das p\u00e1ginas afirma que o terrorismo \u00e9 algo intr\u00ednseco ao isl\u00e3.<\/p>\n<p>Conforme o dossi\u00ea, em uma das p\u00e1ginas, a circuncis\u00e3o \u00e9 descrita como mutila\u00e7\u00e3o imposta pelo iIsl\u00e3 \u00e0s mulheres, &#8220;quando, na verdade, \u00e9 recomendada pela religi\u00e3o aos homens&#8221;. Em outra p\u00e1gina, h\u00e1 uma refer\u00eancia inexistente no Alcor\u00e3o de que o isl\u00e3 permite o estupro. Segundo a SBMRJ, esse tipo de iniciativa contribui para que mulheres mu\u00e7ulmanas sejam agredidas.<\/p>\n<p>Coordenador de Diversidade Religiosa do governo federal, Alexandre Brasil Fonseca informou que o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, em pareceria com outros minist\u00e9rios e \u00f3rg\u00e3os do governo, j\u00e1 se mobilizou para apurar as den\u00fancias.<\/p>\n<p>\u201cO caso est\u00e1 sendo investigado por um grupo de trabalho de combate a crimes de internet. Como Estado, \u00e9 importante garantir essa atividade religiosa, assim como combater as a\u00e7\u00f5es de preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o, que, infelizmente, temos notificado.\u201d Fonseca destacou que cerca de 35 mil pessoas se declararam seguidores do islamismo no Censo de 2010.<\/p>\n<p>O governo do Rio lan\u00e7ar\u00e1 uma campanha at\u00e9 o fim do ano para combater atos de intoler\u00e2ncia e viol\u00eancia contra mu\u00e7ulmanos. A campanha \u00e9 fruto de uma articula\u00e7\u00e3o entre as secretarias de Direitos Humanos e Assist\u00eancia Social e das Mulheres e do Trabalho.<\/p>\n<p>\u201cPrezamos muito a paz, a confraterniza\u00e7\u00e3o e o bom relacionamento com as pessoas, o contr\u00e1rio do que dizem do isl\u00e3. Respeitamos todos, mas n\u00e3o somos respeitados\u201d, disse a jovem Ana Carolina.<\/p>\n<p>&#8220;Temos uma \u00f3tima rela\u00e7\u00e3o com todas as religi\u00f5es. E temos um interesse em comum, que \u00e9 o direito constitucional \u00e0 liberdade de cren\u00e7a. N\u00e3o pedimos nada al\u00e9m disso&#8221;, concluiu Fernando Celino.<\/p>\n<p><strong>Fl\u00e1via Vilella, ABr<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Insultos, cusparadas, pedradas e amea\u00e7as de morte s\u00e3o algumas das den\u00fancias de agress\u00f5es contra mu\u00e7ulmanos no Rio de Janeiro nos \u00faltimos meses. 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