{"id":68678,"date":"2015-09-19T22:51:31","date_gmt":"2015-09-20T01:51:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=68678"},"modified":"2016-07-30T16:52:48","modified_gmt":"2016-07-30T19:52:48","slug":"tardigrado-a-pequena-grande-fera-vagarosa-resiste-a-quase-tudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tardigrado-a-pequena-grande-fera-vagarosa-resiste-a-quase-tudo\/","title":{"rendered":"Tard\u00edgrado, a pequena grande fera vagarosa que sobrevive resistindo a tudo que \u00e9 ruim"},"content":{"rendered":"<p>Quando os cientistas do Museu Americano de Hist\u00f3ria Natural da Cidade de Nova York montaram a exibi\u00e7\u00e3o sobre criaturas que sobreviveram sob condi\u00e7\u00f5es que poucas outras poderiam tolerar, n\u00e3o precisaram pensar muito para encontrar o mascote da exposi\u00e7\u00e3o. &#8220;N\u00f3s os pegamos no Central Park. Raspe um pouco de musgo e voc\u00ea vai ach\u00e1-los&#8221;, afirma Mark Siddall, curador da mostra Life at the Limits (Vida nos Limites).<\/p>\n<p>Ele estava falando dos tard\u00edgrados, pequenas criaturas que vivem quase que em todos os lugares: no musgo e nos liquens, em \u00e1guas termais borbulhantes, no gelo da Ant\u00e1rtica, em trincheiras no fundo do mar e no topo das montanhas do Himalaia. Eles sobreviveram at\u00e9 ao frio extremo e \u00e0 radia\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o sideral.<\/p>\n<p>Tipicamente cinzas claro e mais ou menos transparentes, com cerca de 1,6 mil\u00edmetros de comprimento, foram descritos diversas vezes como parecendo hipop\u00f3tamos min\u00fasculos (se os hipop\u00f3tamos tivessem uma tromba gigante e oito pernas, cada uma com v\u00e1rias garras), \u00e1caros ou, mais comumente, ursos. Muitas pessoas os chamam de &#8220;ursos d&#8217;\u00e1gua&#8221; ou &#8220;ursos do musgo&#8221; (A palavra tard\u00edgrado vem do termo em latim para quem anda devagar).<\/p>\n<p>Os tard\u00edgrados, que interessavam apenas aos especialistas em zoologia, agora est\u00e3o gerando muito entusiasmo. Admiradores j\u00e1 produziram pe\u00e7as de arte e livros infantis sobre eles e organizaram at\u00e9 uma Sociedade Internacional dos Ca\u00e7adores de Tard\u00edgrados &#8220;para incentivar o estudo da biologia dos tard\u00edgrados (ursos d&#8217;\u00e1gua) e ao mesmo tempo envolver e colaborar com o p\u00fablico&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo a sociedade, formada este ano na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, as pessoas podem achar os tard\u00edgrados se pegarem um pouco de l\u00edquen ou musgo, especialmente em um dia \u00famido, colocarem em um prato raso com \u00e1gua e agitarem um pouco. A sujeira vai para o fundo do prato, e os tard\u00edgrados provavelmente estar\u00e3o a\u00ed.<\/p>\n<p>A mostra do museu, que vai at\u00e9 janeiro, tamb\u00e9m possui besouros, flores, corais e outros animais com maneiras incomuns de sobreviver em ambientes hostis. Mas a entrada \u00e9 guardada por uma r\u00e9plica de tr\u00eas metros de um tard\u00edgrado, que parece flutuar sobre nossas cabe\u00e7as. Nada mais adequado, j\u00e1 que eles, que vivem na natureza por cerca de um ano, s\u00e3o criaturas particularmente impressionantes entre os &#8220;extrem\u00f3filos&#8221; da mostra.<\/p>\n<p>Confrontados com secas, r\u00e1pidas mudan\u00e7as de temperatura, altera\u00e7\u00f5es na salinidade da \u00e1gua ou outros problemas, os tard\u00edgrados diminuem seu metabolismo para 0,01 por cento do normal, entrando em uma esp\u00e9cie de anima\u00e7\u00e3o suspensa na qual perdem &#8220;a grande, grande, grande maioria de seus flu\u00eddos corporais&#8221;, conta Siddall. Ent\u00e3o, enrolam-se como, na vis\u00e3o dos cientistas, um &#8220;tonel&#8221;.<\/p>\n<p>Esses ton\u00e9is podem sobreviver a press\u00f5es atmosf\u00e9ricas 600 vezes maiores do que a da superf\u00edcie da Terra. Podem ser congelados a 150 graus Celsius abaixo de zero por mais de um ano sem problemas. Uma vez, a Ag\u00eancia Espacial Europeia mandou ton\u00e9is para o espa\u00e7o: dois ter\u00e7os sobreviveram simultaneamente \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 radia\u00e7\u00e3o solar e ao v\u00e1cuo espacial.<\/p>\n<p>Sem \u00e1gua, &#8220;os efeitos prejudiciais do congelamento n\u00e3o acontecem&#8221;, explica Siddall. &#8220;E eles tamb\u00e9m ficam protegidos contra o calor, porque a \u00e1gua dentro deles n\u00e3o pode se transformar em g\u00e1s e se expandir.&#8221;<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo a radia\u00e7\u00e3o precisa da \u00e1gua para fazer mal, diz ele. Quando a radia\u00e7\u00e3o c\u00f3smica bate no l\u00edquido de uma c\u00e9lula, produz uma forma muito reativa de oxig\u00eanio que prejudica o DNA. O tonel n\u00e3o tem esse problema.<\/p>\n<p>Ton\u00e9is j\u00e1 foram reconstitu\u00eddos depois de mais de um s\u00e9culo e voltaram \u00e0 vida como tard\u00edgrados sem parecer um dia mais velhos.<\/p>\n<p>Pouco se sabe sobre sua evolu\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 p\u00e9ssimo porque os bi\u00f3logos acreditam que deve ter sido interessante. O problema \u00e9 que \u00e9 dif\u00edcil de encontrar f\u00f3sseis de tard\u00edgrados.<\/p>\n<p>Por muito tempo, os bi\u00f3logos os agruparam com os artr\u00f3podes, outras criaturas, geralmente pequenas, com oito patas. Apenas recentemente os tard\u00edgrados ganharam seu pr\u00f3prio filo, uma importante categoria taxon\u00f4mica.<\/p>\n<p>As pessoas fascinadas pelos tard\u00edgrados geralmente contam que descobriram por acaso uma foto ou artigos sobre eles.<\/p>\n<p>&#8220;Tropecei neles&#8221;, brinca Thomas Gieseke, artista e ilustrador de Merriam, no Kansas, que criou &#8220;The Tardigrade Queen&#8221;, um trabalho de acr\u00edlico em tela mostrando um tard\u00edgrado f\u00eamea em um trono, com uma tiara e um escudo, que foi exposto na Galeria Todd Weiner em Kansas City, no Missouri.<\/p>\n<p>&#8220;Vi uma fotografia de um&#8221;, contou ele em uma entrevista por telefone. &#8220;Fiquei fascinado.&#8221; Apesar de nunca ter visto um tard\u00edgrado na natureza, explica, &#8220;\u00e9 a criatura mais resistente da face do planeta&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Gosto das patas. Parecem com m\u00e3os. Pensei: &#8216;Essa coisa lhes garante um status real&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>Outro entusiasta dos tard\u00edgrados, Michael W. Shaw, de Richmond, na Virg\u00ednia, ficou interessado neles mais de uma d\u00e9cada atr\u00e1s quando estava ajudando as filhas em um projeto de Ci\u00eancias da escola. Apesar de n\u00e3o saber nada sobre os tard\u00edgrados \u2013 seu diploma \u00e9 de Artes \u2013acabou levando microsc\u00f3pios para as aulas das meninas para espalhar sua admira\u00e7\u00e3o sobre essas criaturas fascinantes.<\/p>\n<p>Mais tarde, fez sua contribui\u00e7\u00e3o para a literatura cient\u00edfica.<\/p>\n<p>&#8220;Li um trabalho sobre os tard\u00edgrados mostrando onde eles podiam ser encontrados nos Estados Unidos, e Nova Jersey, onde est\u00e1vamos vivendo na \u00e9poca, n\u00e3o tinha nenhum lugar&#8221;, conta ele.<\/p>\n<p>Shaw, que morava em Somerset, decidiu visitar todos os 21 munic\u00edpios de Nova Jersey e testar o l\u00edquen e as cascas de \u00e1rvores, dois microambientes hospitaleiros aos tard\u00edgrados. Entre 2001 e 2009, ele conta, &#8220;fui a lugares urbanos e rurais, estacionamentos, cen\u00e1rios com a natureza preservada, fui para todo o lado. Encontrei-os em todos os munic\u00edpios&#8221;.<\/p>\n<p>Sua fam\u00edlia achou que a obsess\u00e3o era &#8220;estranha&#8221;, diz ele, mas o trabalho, que Shaw completou com a ajuda do doutor William Miller, um especialista em tard\u00edgrados da Universidade Baker, no Kansas, foi publicado no The Journal of the New York Microscopical Society.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o site Vice fez um v\u00eddeo sobre Shaw. Rapidamente, novos f\u00e3s come\u00e7aram a debater on-line se os tard\u00edgrados vieram do espa\u00e7o sideral (uma ideia que Shaw n\u00e3o descarta) e como \u2013 e se \u2013 eles se desenvolveram.<\/p>\n<p>No final, o trabalho virou dois livros que Shaw auto-publicou \u2013 &#8220;Tardigrade Quiz and Fact Book&#8221; (Livro de Perguntas e Fatos sobre os Tard\u00edgrados) (Fresh Squeezed Publishing, 2014) e &#8220;Tardigrade Science Project Book&#8221; (Livro de Projeto de Ci\u00eancias sobre os Tard\u00edgrados) (Fresh Squeezed Publishing, 2011). Os dois discutem os tard\u00edgrados e explicam como jovens naturalistas podem reunir esp\u00e9cimes, fazer slides e, de v\u00e1rias maneiras, mergulhar nesse mundo de seres com trombas e oito pernas.<\/p>\n<p>Hoje, os guias de Shaw sobre os tard\u00edgrados est\u00e3o vendendo lenta, mas persistentemente (coment\u00e1rio t\u00edpico do leitor: &#8220;Amo esses tard\u00edgrados!&#8221;), e ele escreveu outro livro para pessoas que t\u00eam o microsc\u00f3pio como hobby.<\/p>\n<p>&#8220;A boa not\u00edcia \u00e9 que voc\u00ea pode encontr\u00e1-los quase que em qualquer lugar&#8221;, segundo o site dos Ca\u00e7adores de Tard\u00edgrados. O grupo convida ca\u00e7adores a submeter seus &#8220;esp\u00e9cimes preciosos&#8221; para exame dos poderosos microsc\u00f3pios da universidade.<\/p>\n<p>As amostras n\u00e3o ser\u00e3o mandadas de volta, avisa a sociedade, mas fotografias de esp\u00e9cimes particularmente interessantes podem ser publicadas on-line como o Tard\u00edgrado da Semana.<\/p>\n<p>Na vida real, os tard\u00edgrados n\u00e3o fazem muita coisa. Siddall conta que, como a maioria dos animais, eles passam o tempo &#8220;juntos e comendo&#8221; plantas e animais menores que eles, e possivelmente at\u00e9 mesmo fazendo canibalismo.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas muitas vezes perguntam: &#8216;Qual o prop\u00f3sito deles? Qual o seu papel no universo?'&#8221;, diz Siddall. Ele n\u00e3o tem resposta. Eles podem ser \u00fateis no estudo de anima\u00e7\u00e3o suspensa. Mas, pergunta, &#8220;vamos encontrar uma maneira de colocar os humanos em anima\u00e7\u00e3o suspensa? Duvido&#8221;.<\/p>\n<p>De qualquer maneira, diz ele, atribuir algum grande prop\u00f3sito para os tard\u00edgrados n\u00e3o \u00e9 algo que um bi\u00f3logo faria. As criaturas n\u00e3o t\u00eam que ter motivos para existir. &#8220;Eles apenas s\u00e3o.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando os cientistas do Museu Americano de Hist\u00f3ria Natural da Cidade de Nova York montaram a exibi\u00e7\u00e3o sobre criaturas que sobreviveram sob condi\u00e7\u00f5es que poucas outras poderiam tolerar, n\u00e3o precisaram pensar muito para encontrar o mascote da exposi\u00e7\u00e3o. &#8220;N\u00f3s os pegamos no Central Park. 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