{"id":71213,"date":"2015-10-12T11:01:14","date_gmt":"2015-10-12T14:01:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=71213"},"modified":"2015-10-13T04:34:37","modified_gmt":"2015-10-13T07:34:37","slug":"advogado-de-negocios-avalia-que-crise-e-grave-mas-nao-e-assunto-catastrofico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/advogado-de-negocios-avalia-que-crise-e-grave-mas-nao-e-assunto-catastrofico\/","title":{"rendered":"Advogado de neg\u00f3cios avalia que crise \u00e9 grave, mas n\u00e3o \u00e9 para um quadro catastr\u00f3fico"},"content":{"rendered":"<p>Em meio ao turbilh\u00e3o da crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica pelo qual o Brasil passa, Alexandre Bertoldi, s\u00f3cio-gestor do Pinheiro Neto Advogados, um dos maiores escrit\u00f3rios de advocacia do Pa\u00eds, especializado em neg\u00f3cios, n\u00e3o acredita em um futuro catastr\u00f3fico.<\/p>\n<p>Do posto de observa\u00e7\u00e3o privilegiado, acompanhando as fus\u00f5es, aquisi\u00e7\u00f5es, quebras e reestrutura\u00e7\u00f5es financeiras dos maiores grupos empresariais do Pa\u00eds, Bertoldi acha que estamos vivendo um momento de transi\u00e7\u00e3o. Muitos v\u00e3o quebrar, grandes grupos nacionais v\u00e3o encolher, multinacionais japonesas e coreanas v\u00e3o aproveitar que as empresas est\u00e3o baratas para avan\u00e7ar no Brasil. E, ao fim do processo, as companhias estar\u00e3o mais fortes. &#8220;O Brasil sair\u00e1 da crise e, quando sair, ser\u00e1 r\u00e1pido&#8221;. A seguir, os principais trechos da entrevista.<\/p>\n<p><b>Como o sr. v\u00ea o atual momento pelo qual o Brasil passa?<\/b><\/p>\n<p>Minha refer\u00eancia \u00e9 um modelo liberal, com pouca interven\u00e7\u00e3o do Estado na economia. S\u00f3 que n\u00e3o acredito que esse modelo, por si s\u00f3, v\u00e1 diminuir as dist\u00e2ncias sociais. Esse era um problema muito grande. Vejo como grande m\u00e9rito a melhora na parte social nas duas gest\u00f5es do governo Lula (ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva) e da Dilma (Rousseff). N\u00e3o sei se agora, com tudo que est\u00e1 acontecendo, vai haver uma devolu\u00e7\u00e3o dos ganhos conquistados. Mas acho que o modelo liberal puro n\u00e3o necessariamente garante uma diminui\u00e7\u00e3o. Ele melhora a economia, melhora o PIB, vai criar mais oportunidades. Mas, para um Pa\u00eds que tinha uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o grave, uma dist\u00e2ncia t\u00e3o grande, n\u00e3o sei se o liberal puro, por si s\u00f3, vai resolver.<\/p>\n<p><b>O sr. diz que h\u00e1 coisas boas olhando para a frente. O que seriam?<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o sou otimista. Talvez n\u00e3o seja t\u00e3o pessimista. Tem algumas coisas que vejo que s\u00e3o boas. A principal delas, e acho que n\u00e3o \u00e9 enaltecida o suficiente, \u00e9 a for\u00e7a e a resili\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es do Brasil. \u00c9 interessante ver que a Pol\u00edcia Federal tem autonomia para investigar quem quer, desde empres\u00e1rios influentes, pol\u00edticos e at\u00e9 ministros. N\u00e3o ouvi, at\u00e9 agora, nada que interrompa o trabalho da PF. Um juiz tamb\u00e9m consegue, bem ou mal, levar as investiga\u00e7\u00f5es que s\u00e3o sens\u00edveis e ningu\u00e9m questiona. A divis\u00e3o dos poderes est\u00e1 bem respeitada. As institui\u00e7\u00f5es se mostraram muito fortes, talvez at\u00e9 mais do que a gente supusesse.<\/p>\n<p><b>Mas o governo acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar impedir que o Tribunal de Contas da Uni\u00e3o avalie as contas da presidente Dilma.<\/b><\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 decis\u00e3o. O governo quer criar argumentos para que isso n\u00e3o ocorra. Faz parte do jogo. Tentar influir, mas dentro das regras. Se fosse uma canetada&#8230; Mas tentar construir argumentos para que isso ocorra, acho v\u00e1lido.<\/p>\n<p><b>Como o sr. v\u00ea essa discuss\u00e3o do impeachment? H\u00e1 motivos legais para se tirar a presidente?<\/b> Pessoalmente, sou contra. Houve elei\u00e7\u00e3o, mas muita gente n\u00e3o gostou do resultado, que deve ser respeitado. O impeachment n\u00e3o \u00e9 necessariamente um processo legal. \u00c9 um processo muito mais pol\u00edtico. Muitas pessoas justificam a necessidade dele por ter de aguentar mais tr\u00eas anos de governo, que est\u00e1 muito fraco. Se houver algo s\u00e9rio, sob o ponto de vista legal, passaria a ser a favor. Mas por quest\u00f5es meramente pol\u00edticas e econ\u00f4micas, prefiro que as institui\u00e7\u00f5es sejam preservadas.<\/p>\n<p><b>Do jeito que est\u00e1, com o TSE falando em analisar as contas da campanha presidencial, corre-se o risco de judicializa\u00e7\u00e3o do mandato? A presidente pode ficar pendurada por uma liminar?<\/b><\/p>\n<p>Acho que pode haver discuss\u00f5es. A Dilma ou qualquer outro presidente n\u00e3o sai por uma decis\u00e3o do Judici\u00e1rio. \u00c9 uma decis\u00e3o do Congresso. Ou seja, pol\u00edtica. O que pode haver s\u00e3o discuss\u00f5es jur\u00eddicas que podem alimentar a discuss\u00e3o pol\u00edtica e at\u00e9 dar argumentos para que o impeachment seja exercido. Dificilmente vejo como uma decis\u00e3o jur\u00eddica.<\/p>\n<p><b>Como os investidores veem esse cen\u00e1rio?<\/b><\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, o Brasil virou o Pa\u00eds da moda. Ficava at\u00e9 constrangido de ver os (grupos e fundos) estrangeiros pagando pre\u00e7os irreais e at\u00e9 injustific\u00e1veis pelos ativos aqui. Se olhar agora, temos uma crise pol\u00edtica enorme e uma crise econ\u00f4mica &#8211; essa, sim, n\u00e3o me surpreende. A intensidade da crise pol\u00edtica, para mim, \u00e9 uma grande surpresa. Essa combina\u00e7\u00e3o \u00e9 perigosa. Temos dois tipos de investidores. Comparo com o per\u00edodo de 2002, quando havia indefini\u00e7\u00e3o se o Lula iria ser ou n\u00e3o eleito, e ningu\u00e9m sabia o que iria acontecer. Quem entrou no Brasil naquele momento fez excelentes neg\u00f3cios. Os investidores mais cautelosos, que n\u00e3o est\u00e3o comprometidos com o Brasil, tiraram o p\u00e9 do acelerador. Por outro lado, h\u00e1 investidores que veem essa crise como oportunidade. H\u00e1 neg\u00f3cios muitos bons, como agroneg\u00f3cios, e setores que devem ser consolidados, como papel e celulose. Temos um mercado interno grande que n\u00e3o vai desaparecer. Al\u00e9m disso, h\u00e1 ativos que ser\u00e3o vendidos por necessidade, por causa de endividamento, e outras (empresas) envolvidas na Lava Jato.<\/p>\n<p><b>A volatilidade atual do c\u00e2mbio prejudica as transa\u00e7\u00f5es?<\/b><\/p>\n<p>O c\u00e2mbio alto torna os ativos brasileiros bastante atraentes, mas enquanto n\u00e3o se estabiliza, complica mais. Corre-se o risco de entrar por R$ 4 e sair por R$ 3 ou entrar por R$ 3 e sair por R$ 4. Mas existe um grupo de investidores que j\u00e1 est\u00e1 aqui e olha para o Pa\u00eds a m\u00e9dio e longo prazo. Vai ter um movimento de concentra\u00e7\u00e3o e, com a situa\u00e7\u00e3o das empreiteiras, muitas concess\u00f5es v\u00e3o mudar de m\u00e3os. Vejo com otimismo outras \u00e1reas que n\u00e3o decolaram no Brasil porque havia uma interfer\u00eancia muito grande do Estado e, pelo que parece, o BNDES vai interferir menos por falta de caixa. Vejo duas \u00e1reas fundamentais para a maturidade do Pa\u00eds : \u2018project finance\u2019 (capta\u00e7\u00e3o de recursos no mercado financeiro para financiar infraestrutura) e mercado de capitais. Antes, era mais f\u00e1cil correr para o BNDES, arrumar um s\u00f3cio, ou um empr\u00e9stimo com condi\u00e7\u00f5es mais vantajosas, sem ter um projeto t\u00e3o arredondado.<\/p>\n<p><b>Haver\u00e1 uma mudan\u00e7a de perfil das empresas?<\/b><\/p>\n<p>Teremos empresas melhores. Elas ter\u00e3o de ser boas para entrar no mercado de capitais. Pode demorar um pouco. O Brasil precisa de investimento em infraestrutura. Essa rodada de negocia\u00e7\u00f5es vai precisar de dinheiro privado. Claro que estamos sem o grau de investimento, mas n\u00e3o acho que inviabilize os projetos. H\u00e1 grupos com vis\u00e3o de m\u00e9dio e longo prazo. Uma certeza eu tenho: o Brasil n\u00e3o acabou com essa crise. A gente j\u00e1 passou por outras. E acho que o Brasil vai voltar. E quando voltar, ser\u00e1 r\u00e1pido.<\/p>\n<p><b>Mesmo com esse cen\u00e1rio pessimista, h\u00e1 oportunidades para entrada de novos investidores? Ou s\u00f3 os mais tradicionais ficam?<\/b><\/p>\n<p>Os dois casos. Pa\u00edses como Jap\u00e3o e Coreia do Sul t\u00eam vontade de aumentar a participa\u00e7\u00e3o deles no Brasil. A China j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o pujante. As empresas querem vir para o Brasil para ganhar dinheiro. Se entram em um momento de baixa e conseguem comprar ativos que v\u00e3o se valorizar um dia, tem muito neg\u00f3cio a ser feito. H\u00e1 muitos grupos que est\u00e3o comprometidos e que t\u00eam parte relevante da receita gerada aqui ou n\u00e3o podem mais crescer nos seus pa\u00edses de origem. Al\u00e9m de grupos novos que veem o Brasil como oportunidade.<\/p>\n<p><b>Mas, neste caso, o c\u00e2mbio n\u00e3o afugenta?<\/b><\/p>\n<p>H\u00e1 mecanismos financeiros de prote\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o caros. N\u00e3o precisa ter um c\u00e2mbio fixo, mas \u00e9 preciso ter uma ideia de at\u00e9 quando testar os limites. Quando tiver com a banda (mais clara), d\u00e1 para fazer as contas. O que est\u00e1 claro \u00e9 que n\u00e3o vamos ver, at\u00e9 pelo menos 18 meses, uma queda significativa da taxa de juros. Ent\u00e3o, o dinheiro no Brasil vai ficar bem caro, o que pode ser inibidor para investimentos locais. Talvez abra mais oportunidades para os estrangeiros.<\/p>\n<p><b>O sr. falou de empresas em dificuldade que est\u00e3o vendendo ativos e de oportunidades para investidores de fora. Tem comprador para tudo isso?<\/b><\/p>\n<p>Depende do setor e da empresa. H\u00e1 empresas que n\u00e3o est\u00e3o em dificuldade, mas est\u00e3o planejando o futuro. Quando se tem queda de receita, como v\u00e1rias tiveram, a propor\u00e7\u00e3o de sua d\u00edvida em rela\u00e7\u00e3o ao seu faturamento explode e h\u00e1 problemas para se administrar essa d\u00edvida. Tem a quest\u00e3o do endividamento externo. Embora muitos grupos tenham aprendido com a crise de 2008 (sobre os derivativos), por incr\u00edvel que pare\u00e7a h\u00e1 empresas que n\u00e3o t\u00eam todas as suas posi\u00e7\u00f5es &#8220;hedgeadas&#8221; (protegidas). E tem gente ganhando com c\u00e2mbio. Infelizmente, alguns grupos v\u00e3o sair desta crise bem menores e bem mais fracos do que s\u00e3o hoje, e v\u00e3o falar que est\u00e3o mais focados.<\/p>\n<p><b>Os esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o paralisaram muitos neg\u00f3cios.<\/b><\/p>\n<p>Em um primeiro momento, h\u00e1 um impacto muito negativo na economia. H\u00e1 paralisa\u00e7\u00e3o de alguns setores na expectativa de ver o que acontece. Corremos o risco de pecar pelo excesso de investiga\u00e7\u00f5es. Sabemos como come\u00e7a, mas n\u00e3o onde acaba.<\/p>\n<p><b>Os acordos de leni\u00eancia v\u00e3o crescer mais?<\/b><\/p>\n<p>Tudo o que aconteceu no Brasil envolvendo essa quest\u00e3o de corrup\u00e7\u00e3o pode trazer maior transpar\u00eancia em neg\u00f3cios que envolvem o Estado, principalmente, e a concorr\u00eancia entre as empresas. Faz parte de um movimento que est\u00e1 em um caminho muito certo. No m\u00e9dio prazo, vai melhorar muito a situa\u00e7\u00e3o aqui. Teremos pre\u00e7os mais justos, obras p\u00fablicas realizadas com valores mais realistas, uma competi\u00e7\u00e3o maior e efetiva.<\/p>\n<p><b>As empresas v\u00e3o sobreviver a esse processo?<\/b><\/p>\n<p>V\u00e3o. Estamos falando de empresas grandes, como Petrobr\u00e1s, Eletrobr\u00e1s e outras. No fundo, a Petrobr\u00e1s teve muito azar. Se o barril de petr\u00f3leo estivesse a US$ 100, a situa\u00e7\u00e3o seria diferente hoje. \u00c9 o mesmo que est\u00e1 acontecendo com o Brasil. Temos uma crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica, pre\u00e7os das commodities muito baixos. Se os pre\u00e7os das commodities estivessem um pouco melhores, a situa\u00e7\u00e3o seria diferente tamb\u00e9m. \u00c9 uma conjun\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel. Tivemos um cen\u00e1rio extremamente favor\u00e1vel h\u00e1 cinco, seis anos. E, mais do que reclamar do momento atual, a gente tem de se lamentar de n\u00e3o ter aproveitado a conjun\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel l\u00e1 atr\u00e1s.<\/p>\n<p><b>Como deveriam ser os acordos de leni\u00eancia? Punir pessoas f\u00edsicas e preservar as empresas? Ou as empresas t\u00eam de ser punidas at\u00e9 o limite da solv\u00eancia?<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma coisa extremamente l\u00f3gica penalizar s\u00f3 os indiv\u00edduos. Quem obteve o grande lucro foi a empresa. Acho que n\u00e3o se pode tirar totalmente a culpa do indiv\u00edduo, mas o foco das investiga\u00e7\u00f5es deveria ser nas empresas, que se beneficiaram disso. Mas a puni\u00e7\u00e3o tem de ser proporcional. Boa parte das penalidades \u00e9 baseada na receita da empresa, mas, em muitos casos, a receita n\u00e3o tem a ver com o lucro das empresas. H\u00e1 empresas que t\u00eam margens muito pequenas e as multas que se aplicam s\u00e3o absolutamente impag\u00e1veis. Ent\u00e3o, acho que teria de ter um bom senso de se aplicar multas que sejam do\u00eddas, mas que n\u00e3o aleijem as empresas.<\/p>\n<p><b>O efeito educativo da Lava Jato \u00e9 suficiente para atacar o problema de corrup\u00e7\u00e3o no Brasil?<\/b><\/p>\n<p>Tivemos v\u00e1rios efeitos educativos no Brasil contra a corrup\u00e7\u00e3o. Sempre achamos que aprendemos, mas n\u00e3o. Sem d\u00favida, o Brasil vai emergir desse tsunami da Lava Jato para um Pa\u00eds menos corrupto. Acho que o tamanho da corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 diretamente proporcional ao tamanho da interfer\u00eancia do Estado na economia. A Lava Jato tem um efeito did\u00e1tico muito interessante. No m\u00ednimo, v\u00e3o pensar duas ou tr\u00eas vezes no futuro antes de fazerem coisas que antes eram feitas quase no autom\u00e1tico.<\/p>\n<p>Em meio ao turbilh\u00e3o da crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica pelo qual o Brasil passa, Alexandre Bertoldi, s\u00f3cio-gestor do Pinheiro Neto Advogados, um dos maiores escrit\u00f3rios de advocacia do Pa\u00eds, especializado em neg\u00f3cios, n\u00e3o acredita em um futuro catastr\u00f3fico.<\/p>\n<p>Do posto de observa\u00e7\u00e3o privilegiado, acompanhando as fus\u00f5es, aquisi\u00e7\u00f5es, quebras e reestrutura\u00e7\u00f5es financeiras dos maiores grupos empresariais do Pa\u00eds, Bertoldi acha que estamos vivendo um momento de transi\u00e7\u00e3o. Muitos v\u00e3o quebrar, grandes grupos nacionais v\u00e3o encolher, multinacionais japonesas e coreanas v\u00e3o aproveitar que as empresas est\u00e3o baratas para avan\u00e7ar no Brasil. E, ao fim do processo, as companhias estar\u00e3o mais fortes. &#8220;O Brasil sair\u00e1 da crise e, quando sair, ser\u00e1 r\u00e1pido&#8221;. A seguir, os principais trechos da entrevista.<\/p>\n<p><b>Como o sr. v\u00ea o atual momento pelo qual o Brasil passa?<\/b><\/p>\n<p>Minha refer\u00eancia \u00e9 um modelo liberal, com pouca interven\u00e7\u00e3o do Estado na economia. S\u00f3 que n\u00e3o acredito que esse modelo, por si s\u00f3, v\u00e1 diminuir as dist\u00e2ncias sociais. Esse era um problema muito grande. Vejo como grande m\u00e9rito a melhora na parte social nas duas gest\u00f5es do governo Lula (ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva) e da Dilma (Rousseff). N\u00e3o sei se agora, com tudo que est\u00e1 acontecendo, vai haver uma devolu\u00e7\u00e3o dos ganhos conquistados. Mas acho que o modelo liberal puro n\u00e3o necessariamente garante uma diminui\u00e7\u00e3o. Ele melhora a economia, melhora o PIB, vai criar mais oportunidades. Mas, para um Pa\u00eds que tinha uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o grave, uma dist\u00e2ncia t\u00e3o grande, n\u00e3o sei se o liberal puro, por si s\u00f3, vai resolver.<\/p>\n<p><b>O sr. diz que h\u00e1 coisas boas olhando para a frente. O que seriam?<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o sou otimista. Talvez n\u00e3o seja t\u00e3o pessimista. Tem algumas coisas que vejo que s\u00e3o boas. A principal delas, e acho que n\u00e3o \u00e9 enaltecida o suficiente, \u00e9 a for\u00e7a e a resili\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es do Brasil. \u00c9 interessante ver que a Pol\u00edcia Federal tem autonomia para investigar quem quer, desde empres\u00e1rios influentes, pol\u00edticos e at\u00e9 ministros. N\u00e3o ouvi, at\u00e9 agora, nada que interrompa o trabalho da PF. Um juiz tamb\u00e9m consegue, bem ou mal, levar as investiga\u00e7\u00f5es que s\u00e3o sens\u00edveis e ningu\u00e9m questiona. A divis\u00e3o dos poderes est\u00e1 bem respeitada. As institui\u00e7\u00f5es se mostraram muito fortes, talvez at\u00e9 mais do que a gente supusesse.<\/p>\n<p><b>Mas o governo acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar impedir que o Tribunal de Contas da Uni\u00e3o avalie as contas da presidente Dilma.<\/b><\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 decis\u00e3o. O governo quer criar argumentos para que isso n\u00e3o ocorra. Faz parte do jogo. Tentar influir, mas dentro das regras. Se fosse uma canetada&#8230; Mas tentar construir argumentos para que isso ocorra, acho v\u00e1lido.<\/p>\n<p><b>Como o sr. v\u00ea essa discuss\u00e3o do impeachment? H\u00e1 motivos legais para se tirar a presidente?<\/b> Pessoalmente, sou contra. Houve elei\u00e7\u00e3o, mas muita gente n\u00e3o gostou do resultado, que deve ser respeitado. O impeachment n\u00e3o \u00e9 necessariamente um processo legal. \u00c9 um processo muito mais pol\u00edtico. Muitas pessoas justificam a necessidade dele por ter de aguentar mais tr\u00eas anos de governo, que est\u00e1 muito fraco. Se houver algo s\u00e9rio, sob o ponto de vista legal, passaria a ser a favor. Mas por quest\u00f5es meramente pol\u00edticas e econ\u00f4micas, prefiro que as institui\u00e7\u00f5es sejam preservadas.<\/p>\n<p><b>Do jeito que est\u00e1, com o TSE falando em analisar as contas da campanha presidencial, corre-se o risco de judicializa\u00e7\u00e3o do mandato? A presidente pode ficar pendurada por uma liminar?<\/b><\/p>\n<p>Acho que pode haver discuss\u00f5es. A Dilma ou qualquer outro presidente n\u00e3o sai por uma decis\u00e3o do Judici\u00e1rio. \u00c9 uma decis\u00e3o do Congresso. Ou seja, pol\u00edtica. O que pode haver s\u00e3o discuss\u00f5es jur\u00eddicas que podem alimentar a discuss\u00e3o pol\u00edtica e at\u00e9 dar argumentos para que o impeachment seja exercido. Dificilmente vejo como uma decis\u00e3o jur\u00eddica.<\/p>\n<p><b>Como os investidores veem esse cen\u00e1rio?<\/b><\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, o Brasil virou o Pa\u00eds da moda. Ficava at\u00e9 constrangido de ver os (grupos e fundos) estrangeiros pagando pre\u00e7os irreais e at\u00e9 injustific\u00e1veis pelos ativos aqui. Se olhar agora, temos uma crise pol\u00edtica enorme e uma crise econ\u00f4mica &#8211; essa, sim, n\u00e3o me surpreende. A intensidade da crise pol\u00edtica, para mim, \u00e9 uma grande surpresa. Essa combina\u00e7\u00e3o \u00e9 perigosa. Temos dois tipos de investidores. Comparo com o per\u00edodo de 2002, quando havia indefini\u00e7\u00e3o se o Lula iria ser ou n\u00e3o eleito, e ningu\u00e9m sabia o que iria acontecer. Quem entrou no Brasil naquele momento fez excelentes neg\u00f3cios. Os investidores mais cautelosos, que n\u00e3o est\u00e3o comprometidos com o Brasil, tiraram o p\u00e9 do acelerador. Por outro lado, h\u00e1 investidores que veem essa crise como oportunidade. H\u00e1 neg\u00f3cios muitos bons, como agroneg\u00f3cios, e setores que devem ser consolidados, como papel e celulose. Temos um mercado interno grande que n\u00e3o vai desaparecer. Al\u00e9m disso, h\u00e1 ativos que ser\u00e3o vendidos por necessidade, por causa de endividamento, e outras (empresas) envolvidas na Lava Jato.<\/p>\n<p><b>A volatilidade atual do c\u00e2mbio prejudica as transa\u00e7\u00f5es?<\/b><\/p>\n<p>O c\u00e2mbio alto torna os ativos brasileiros bastante atraentes, mas enquanto n\u00e3o se estabiliza, complica mais. Corre-se o risco de entrar por R$ 4 e sair por R$ 3 ou entrar por R$ 3 e sair por R$ 4. Mas existe um grupo de investidores que j\u00e1 est\u00e1 aqui e olha para o Pa\u00eds a m\u00e9dio e longo prazo. Vai ter um movimento de concentra\u00e7\u00e3o e, com a situa\u00e7\u00e3o das empreiteiras, muitas concess\u00f5es v\u00e3o mudar de m\u00e3os. Vejo com otimismo outras \u00e1reas que n\u00e3o decolaram no Brasil porque havia uma interfer\u00eancia muito grande do Estado e, pelo que parece, o BNDES vai interferir menos por falta de caixa. Vejo duas \u00e1reas fundamentais para a maturidade do Pa\u00eds : \u2018project finance\u2019 (capta\u00e7\u00e3o de recursos no mercado financeiro para financiar infraestrutura) e mercado de capitais. Antes, era mais f\u00e1cil correr para o BNDES, arrumar um s\u00f3cio, ou um empr\u00e9stimo com condi\u00e7\u00f5es mais vantajosas, sem ter um projeto t\u00e3o arredondado.<\/p>\n<p><b>Haver\u00e1 uma mudan\u00e7a de perfil das empresas?<\/b><\/p>\n<p>Teremos empresas melhores. Elas ter\u00e3o de ser boas para entrar no mercado de capitais. Pode demorar um pouco. O Brasil precisa de investimento em infraestrutura. Essa rodada de negocia\u00e7\u00f5es vai precisar de dinheiro privado. Claro que estamos sem o grau de investimento, mas n\u00e3o acho que inviabilize os projetos. H\u00e1 grupos com vis\u00e3o de m\u00e9dio e longo prazo. Uma certeza eu tenho: o Brasil n\u00e3o acabou com essa crise. A gente j\u00e1 passou por outras. E acho que o Brasil vai voltar. E quando voltar, ser\u00e1 r\u00e1pido.<\/p>\n<p><b>Mesmo com esse cen\u00e1rio pessimista, h\u00e1 oportunidades para entrada de novos investidores? Ou s\u00f3 os mais tradicionais ficam?<\/b><\/p>\n<p>Os dois casos. Pa\u00edses como Jap\u00e3o e Coreia do Sul t\u00eam vontade de aumentar a participa\u00e7\u00e3o deles no Brasil. A China j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o pujante. As empresas querem vir para o Brasil para ganhar dinheiro. Se entram em um momento de baixa e conseguem comprar ativos que v\u00e3o se valorizar um dia, tem muito neg\u00f3cio a ser feito. H\u00e1 muitos grupos que est\u00e3o comprometidos e que t\u00eam parte relevante da receita gerada aqui ou n\u00e3o podem mais crescer nos seus pa\u00edses de origem. Al\u00e9m de grupos novos que veem o Brasil como oportunidade.<\/p>\n<p><b>Mas, neste caso, o c\u00e2mbio n\u00e3o afugenta?<\/b><\/p>\n<p>H\u00e1 mecanismos financeiros de prote\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o caros. N\u00e3o precisa ter um c\u00e2mbio fixo, mas \u00e9 preciso ter uma ideia de at\u00e9 quando testar os limites. Quando tiver com a banda (mais clara), d\u00e1 para fazer as contas. O que est\u00e1 claro \u00e9 que n\u00e3o vamos ver, at\u00e9 pelo menos 18 meses, uma queda significativa da taxa de juros. Ent\u00e3o, o dinheiro no Brasil vai ficar bem caro, o que pode ser inibidor para investimentos locais. Talvez abra mais oportunidades para os estrangeiros.<\/p>\n<p><b>O sr. falou de empresas em dificuldade que est\u00e3o vendendo ativos e de oportunidades para investidores de fora. Tem comprador para tudo isso?<\/b><\/p>\n<p>Depende do setor e da empresa. H\u00e1 empresas que n\u00e3o est\u00e3o em dificuldade, mas est\u00e3o planejando o futuro. Quando se tem queda de receita, como v\u00e1rias tiveram, a propor\u00e7\u00e3o de sua d\u00edvida em rela\u00e7\u00e3o ao seu faturamento explode e h\u00e1 problemas para se administrar essa d\u00edvida. Tem a quest\u00e3o do endividamento externo. Embora muitos grupos tenham aprendido com a crise de 2008 (sobre os derivativos), por incr\u00edvel que pare\u00e7a h\u00e1 empresas que n\u00e3o t\u00eam todas as suas posi\u00e7\u00f5es &#8220;hedgeadas&#8221; (protegidas). E tem gente ganhando com c\u00e2mbio. Infelizmente, alguns grupos v\u00e3o sair desta crise bem menores e bem mais fracos do que s\u00e3o hoje, e v\u00e3o falar que est\u00e3o mais focados.<\/p>\n<p><b>Os esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o paralisaram muitos neg\u00f3cios.<\/b><\/p>\n<p>Em um primeiro momento, h\u00e1 um impacto muito negativo na economia. H\u00e1 paralisa\u00e7\u00e3o de alguns setores na expectativa de ver o que acontece. Corremos o risco de pecar pelo excesso de investiga\u00e7\u00f5es. Sabemos como come\u00e7a, mas n\u00e3o onde acaba.<\/p>\n<p><b>Os acordos de leni\u00eancia v\u00e3o crescer mais?<\/b><\/p>\n<p>Tudo o que aconteceu no Brasil envolvendo essa quest\u00e3o de corrup\u00e7\u00e3o pode trazer maior transpar\u00eancia em neg\u00f3cios que envolvem o Estado, principalmente, e a concorr\u00eancia entre as empresas. Faz parte de um movimento que est\u00e1 em um caminho muito certo. No m\u00e9dio prazo, vai melhorar muito a situa\u00e7\u00e3o aqui. Teremos pre\u00e7os mais justos, obras p\u00fablicas realizadas com valores mais realistas, uma competi\u00e7\u00e3o maior e efetiva.<\/p>\n<p><b>As empresas v\u00e3o sobreviver a esse processo?<\/b><\/p>\n<p>V\u00e3o. Estamos falando de empresas grandes, como Petrobr\u00e1s, Eletrobr\u00e1s e outras. No fundo, a Petrobr\u00e1s teve muito azar. Se o barril de petr\u00f3leo estivesse a US$ 100, a situa\u00e7\u00e3o seria diferente hoje. \u00c9 o mesmo que est\u00e1 acontecendo com o Brasil. Temos uma crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica, pre\u00e7os das commodities muito baixos. Se os pre\u00e7os das commodities estivessem um pouco melhores, a situa\u00e7\u00e3o seria diferente tamb\u00e9m. \u00c9 uma conjun\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel. Tivemos um cen\u00e1rio extremamente favor\u00e1vel h\u00e1 cinco, seis anos. E, mais do que reclamar do momento atual, a gente tem de se lamentar de n\u00e3o ter aproveitado a conjun\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel l\u00e1 atr\u00e1s.<\/p>\n<p><b>Como deveriam ser os acordos de leni\u00eancia? Punir pessoas f\u00edsicas e preservar as empresas? Ou as empresas t\u00eam de ser punidas at\u00e9 o limite da solv\u00eancia?<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma coisa extremamente l\u00f3gica penalizar s\u00f3 os indiv\u00edduos. Quem obteve o grande lucro foi a empresa. Acho que n\u00e3o se pode tirar totalmente a culpa do indiv\u00edduo, mas o foco das investiga\u00e7\u00f5es deveria ser nas empresas, que se beneficiaram disso. Mas a puni\u00e7\u00e3o tem de ser proporcional. Boa parte das penalidades \u00e9 baseada na receita da empresa, mas, em muitos casos, a receita n\u00e3o tem a ver com o lucro das empresas. H\u00e1 empresas que t\u00eam margens muito pequenas e as multas que se aplicam s\u00e3o absolutamente impag\u00e1veis. Ent\u00e3o, acho que teria de ter um bom senso de se aplicar multas que sejam do\u00eddas, mas que n\u00e3o aleijem as empresas.<\/p>\n<p><b>O efeito educativo da Lava Jato \u00e9 suficiente para atacar o problema de corrup\u00e7\u00e3o no Brasil?<\/b><\/p>\n<p>Tivemos v\u00e1rios efeitos educativos no Brasil contra a corrup\u00e7\u00e3o. Sempre achamos que aprendemos, mas n\u00e3o. Sem d\u00favida, o Brasil vai emergir desse tsunami da Lava Jato para um Pa\u00eds menos corrupto. Acho que o tamanho da corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 diretamente proporcional ao tamanho da interfer\u00eancia do Estado na economia. A Lava Jato tem um efeito did\u00e1tico muito interessante. No m\u00ednimo, v\u00e3o pensar duas ou tr\u00eas vezes no futuro antes de fazerem coisas que antes eram feitas quase no autom\u00e1tico.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-70065\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/estadao.png\" alt=\"estadao\" width=\"99\" height=\"16\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meio ao turbilh\u00e3o da crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica pelo qual o Brasil passa, Alexandre Bertoldi, s\u00f3cio-gestor do Pinheiro Neto Advogados, um dos maiores escrit\u00f3rios de advocacia do Pa\u00eds, especializado em neg\u00f3cios, n\u00e3o acredita em um futuro catastr\u00f3fico. 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