{"id":77542,"date":"2015-11-22T10:19:11","date_gmt":"2015-11-22T12:19:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=77542"},"modified":"2015-11-23T19:26:40","modified_gmt":"2015-11-23T21:26:40","slug":"com-futuro-incerto-maior-drama-das-vitimas-de-barragem-e-nao-saber-para-onde-ir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/com-futuro-incerto-maior-drama-das-vitimas-de-barragem-e-nao-saber-para-onde-ir\/","title":{"rendered":"Com futuro incerto, drama das v\u00edtimas de barragem \u00e9 n\u00e3o saber onde vai morar"},"content":{"rendered":"<p>Quando o vento estremece a janela ou faz uma porta bater, a crian\u00e7a acorda &#8211; em um quarto que n\u00e3o \u00e9 seu &#8211; e pergunta, entre o sono e o pavor: &#8220;T\u00e1 vindo mais lama?&#8221;.<\/p>\n<p>C\u00edntia Gon\u00e7alves tem 7 anos e ainda n\u00e3o sabe direito o que aconteceu na tarde daquele 5 de novembro. Brincava na rua &#8211; um h\u00e1bito infantil \u00e0 moda antiga, t\u00edpico dos pequenos vilarejos &#8211; e foi pin\u00e7ada para o colo da m\u00e3e, que correu para a parte mais alta de Bento Rodrigues, distrito de Mariana mais afetado pela trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>De l\u00e1, elas, assim como grande parte dos 600 habitantes do local, presenciaram a mais inesquec\u00edvel das cenas: um mar de rejeitos engoliu suas casas e enterrou suas mem\u00f3rias.<\/p>\n<p>Sem possibilidade de voltar ao Bento, devastado e arriscado (h\u00e1 possibilidade de rompimento de outras duas barragens), a maioria dos moradores est\u00e1 provisoriamente acomodada em hot\u00e9is e pousadas de Mariana. A solidariedade garantiu que eles ganhassem quilos de roupas. A Samarco &#8211; respons\u00e1vel pela barragem de Fund\u00e3o, que se rompeu, em um evento cujas causas n\u00e3o sabe explicar &#8211; cumpriu a obriga\u00e7\u00e3o de lhes assegurar um lugar para dormir.<\/p>\n<p>No hotel Provid\u00eancia t\u00eam caf\u00e9 da manh\u00e3, almo\u00e7o, lanche da tarde, jantar. &#8220;Mas o que eu quero mesmo \u00e9 voltar a fazer a minha comidinha&#8221;, diz Rosa Maur\u00edlia Gomes, de 77 anos. &#8220;Aqui a gente est\u00e1 numa pris\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>A impessoalidade da vida que levam hoje, mais de duas semanas depois do desastre, tem incomodado dona Rosa e centenas de outras v\u00edtimas. No Bento, as moradas eram simples, mas tinham c\u00f4modos confort\u00e1veis, \u00e0s vezes at\u00e9 uma varanda, uma horta, um jardim florido. Mas, mais importante que isso, guardavam hist\u00f3rias: o trof\u00e9u do campeonato de futsal de 2006, a caixinha de fotografias do tempo do quartel, os livros herdados do av\u00f4. Tudo ficou para tr\u00e1s. Hoje, suas casas se resumem ao n\u00famero de um quarto.<\/p>\n<p><b>Teto &#8211;\u00a0<\/b>Apenas seis fam\u00edlias, at\u00e9 agora, foram realocadas para casas alugadas, providenciadas pela Samarco. Questiona-se, entre a comunidade, crit\u00e9rios claros de prioridade para essas remo\u00e7\u00f5es. Para quem morava no Bento, Mariana, com seus 58 mil habitantes, \u00e9 cidade grande. Mas, na verdade, n\u00e3o h\u00e1 im\u00f3veis p<\/p>\n<p>ara todo mundo, afirmou o promotor Guilherme de S\u00e1 Meneghin, da \u00e1rea dos direitos humanos. Muito menos para quem, com todo o direito, quer seguir na companhia dos mesmos vizinhos.<\/p>\n<p>Com isso, apesar da urg\u00eancia em sair dos hot\u00e9is, uma casa, assim, em qualquer lugar, n\u00e3o serve. &#8220;A gra\u00e7a do Bento era que todo mundo ficava junto. A gente n\u00e3o quer ficar espalhado&#8221;, diz a aposentada Maria Irene de Deus, de 76 anos.<\/p>\n<p><strong>Lu\u00edsa Martins, enviada especial<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-70065\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/estadao.png\" alt=\"estadao\" width=\"99\" height=\"16\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o vento estremece a janela ou faz uma porta bater, a crian\u00e7a acorda &#8211; em um quarto que n\u00e3o \u00e9 seu &#8211; e pergunta, entre o sono e o pavor: &#8220;T\u00e1 vindo mais lama?&#8221;. C\u00edntia Gon\u00e7alves tem 7 anos e ainda n\u00e3o sabe direito o que aconteceu na tarde daquele 5 de novembro. 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