{"id":82620,"date":"2015-12-28T15:59:21","date_gmt":"2015-12-28T17:59:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=82620"},"modified":"2015-12-29T10:21:03","modified_gmt":"2015-12-29T12:21:03","slug":"sobradinho-seca-e-devolve-a-terra-as-cidades-que-a-agua-engoliu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/sobradinho-seca-e-devolve-a-terra-as-cidades-que-a-agua-engoliu\/","title":{"rendered":"Sobradinho seca com a seca e devolve \u00e0 terra as velhas cidades que a \u00e1gua engoliu"},"content":{"rendered":"<p><strong>Edwirges Nogueira<\/strong><\/p>\n<p>O vento forte movimenta as \u00e1guas no lago de Sobradinho. E as ondas que se formam quebram diante dos degraus da porta de uma das casas tomadas pelo Rio S\u00e3o Francisco ap\u00f3s a constru\u00e7\u00e3o da barragem, no final da d\u00e9cada de 1970. De p\u00e9 sobre o alicerce quebrado, Carlos de Castro, conhecido como Cac\u00e1, 63 anos, lembra dos dias em que frequentou o local, na antiga cidade de Casa Nova (BA). Ali morou o seu sogro e sua atual esposa, \u00e0 \u00e9poca namorada.<\/p>\n<p>Nos quase 40 anos da constru\u00e7\u00e3o da barragem, esta \u00e9 a primeira vez que as ru\u00ednas de Casa Nova aparecem devido \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do lago. \u00c9 poss\u00edvel distinguir alguns detalhes das casas, como as pias de lavar roupa, o azulejo branco e as caixas d&#8217;\u00e1gua.<\/p>\n<p>A falta de chuva na nascente do Rio Francisco, no norte de Minas Gerais, tem comprometido o reservat\u00f3rio. A chuva irregular j\u00e1 dura, pelo menos, quatro anos e o resultado \u00e9 o mais baixo n\u00edvel de \u00e1gua que j\u00e1 se viu nas quase quatro d\u00e9cadas de Sobradinho. No \u00faltimo dia 3, o volume do lago chegou a 1,11% da sua capacidade.<\/p>\n<p>\u201cEstar no lugar onde voc\u00ea nasceu e se criou faz passar um filme na cabe\u00e7a\u201d, lembra Castro, que hoje \u00e9 secret\u00e1rio da Agricultura e do Meio Ambiente do munic\u00edpio.<\/p>\n<p>Ele lembra do nome dos moradores de todas as casas vizinhas e aponta para o muro do cemit\u00e9rio. A alvenaria de alguns jazigos hoje est\u00e1 aparente.<\/p>\n<p><strong>Viagem\u00a0ao passado<\/strong> &#8211; Em Remanso (BA), o tempo parece voltar atr\u00e1s quando as \u00e1guas retidas na barragem de Sobradinho assumem o antigo curso natural do Velho Chico. O n\u00edvel da \u00e1gua baixou e se afastou cerca de 7 quil\u00f4metros da margem, revelando o antigo cais da cidade. Essa \u00e9 tamb\u00e9m a dist\u00e2ncia entre a velha e a nova Remanso.<\/p>\n<div id=\"attachment_82621\" style=\"width: 810px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-82621\" class=\"size-full wp-image-82621\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/992145-ba_11122015-11122015-dsc_2596.jpg\" alt=\"Remanso - Com a falta de chuva na nascente do Rio S\u00e3o Francisco, o reservat\u00f3rio de Sobradinho vive a maior seca de sua hist\u00f3ria (Marcello Casal jr\/Ag\u00eancia Brasil)\" width=\"800\" height=\"532\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/992145-ba_11122015-11122015-dsc_2596.jpg 800w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/992145-ba_11122015-11122015-dsc_2596-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/992145-ba_11122015-11122015-dsc_2596-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/992145-ba_11122015-11122015-dsc_2596-696x463.jpg 696w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/992145-ba_11122015-11122015-dsc_2596-632x420.jpg 632w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><p id=\"caption-attachment-82621\" class=\"wp-caption-text\">Remanso &#8211; Com a falta de chuva na nascente do Rio S\u00e3o Francisco, o reservat\u00f3rio de Sobradinho vive a maior seca de sua hist\u00f3ria (Marcello Casal jr\/Ag\u00eancia Brasil)<\/p><\/div>\n<p>\u201cAqui era onde passavam os vapores. O pessoal dessa regi\u00e3o que ia para S\u00e3o Paulo pegava um vapor at\u00e9 Pirapora [munic\u00edpio mineiro que fica \u00e0s margens do Rio S\u00e3o Francisco], passava oito, dez dias viajando, e de l\u00e1 pegava o trem para S\u00e3o Paulo\u201d, lembra Pedro Alves da Costa, 61 anos, chefe de gabinete da prefeitura do munic\u00edpio. Ele morava em Sento S\u00e9 e se mudou com a esposa em 1975 para Remanso antiga, onde abriu um com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>Hoje, o mesmo cais voltou a ser usado. Do local, partem as embarca\u00e7\u00f5es que v\u00e3o para cidades que ficam em volta do lago. O baixo n\u00edvel das \u00e1guas no trecho, que fazem aparecer bancos de areia, vem dificultando as viagens. \u201cAntes a gente passava direto aqui\u201d, diz Jos\u00e9 Messias, apontando para a margem oposta do lago, enquanto preparava sua embarca\u00e7\u00e3o rumo a Sento S\u00e9. \u201cAgora a gente arrodeia l\u00e1 por baixo. A viagem demora uma hora e pouco, duas horas a mais.\u201d<\/p>\n<p>Entre 1975 e 1977, as quase 12 mil fam\u00edlias de Casa Nova, Remanso, Pil\u00e3o Arcado e Sento S\u00e9 foram obrigadas a deixar suas casas e se mudar para as novas sedes das cidades. Os antigos munic\u00edpios foram engolidos pelo S\u00e3o Francisco e deram lugar a 34 bilh\u00f5es de metros c\u00fabicos de \u00e1gua. As fam\u00edlias foram transferidas para os locais constru\u00eddos pela Companhia Hidroel\u00e9trica do S\u00e3o Francisco (Chesf).<\/p>\n<p>A professora aposentada Mara L\u00edlia Fernandes Castro, 66 anos, lembra das reuni\u00f5es entre a popula\u00e7\u00e3o de Casa Nova e os engenheiros da Chesf. \u201cV\u00edamos o descontentamento de alguns, outros n\u00e3o aceitavam, diziam que isso n\u00e3o podia acontecer. Outros acreditavam no progresso, que realmente veio. Era uma cidade gostosa pela conviv\u00eancia, todos se conheciam, mas l\u00e1 nossa energia el\u00e9trica terminava \u00e0s onze horas da noite porque era gerada por um motor a diesel.\u201d<\/p>\n<p>Mara se mudou com o marido, hoje falecido, e tr\u00eas filhos pequenos \u2013 o mais novo com 1 ano e meio de idade. Na parede de casa, ela mant\u00e9m algumas fotos da antiga Casa Nova. Em uma delas aparece a antiga igreja matriz, implodida devido \u00e0 altura de sua torre, que poderia gerar riscos \u00e0 navega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com o historiador Mois\u00e9s Almeida, diretor do campus de Petrolina da Universidade de Pernambuco (UPE), a Chesf usou dois fortes argumentos para convencer as fam\u00edlias das quatro cidades sobre a import\u00e2ncia da constru\u00e7\u00e3o da barragem de Sobradinho: a \u00e1gua serviria para o desenvolvimento da regi\u00e3o e as pessoas teriam moradias melhores.<\/p>\n<p>Ainda segundo ele, as popula\u00e7\u00f5es das cidades foram pegas de surpresa. \u201cTeve gente que gostou da realoca\u00e7\u00e3o, pois vivia numa casa que n\u00e3o era rebocada, n\u00e3o tinha piso, e mudou para uma casa com uma infraestrutura melhor. Mas teve quem n\u00e3o concordou, como as pessoas que moravam \u00e0 beira do rio. Al\u00e9m disso, havia d\u00favidas sobre as indeniza\u00e7\u00f5es. Ainda hoje h\u00e1 a\u00e7\u00f5es na Justi\u00e7a questionando isso\u201d, relata Almeida.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da surpresa, a ideia de que as cidades seriam inundadas gerava medo, especialmente nos mais velhos. O dia em que a \u00e1gua chegaria era comparado ao dil\u00favio, relatado na B\u00edblia.<\/p>\n<p><strong>Sem voz, sem direitos<\/strong> &#8211; Em Remanso, durante os tr\u00e2mites das indeniza\u00e7\u00f5es, Pedro da Costa foi procurador de v\u00e1rias pessoas analfabetas e tem lembran\u00e7as de um processo quase impositivo.<\/p>\n<p>\u201cA popula\u00e7\u00e3o da cidade era ribeirinha, est\u00e1vamos no regime militar, os sindicatos n\u00e3o se posicionavam\u201d, relembra.<\/p>\n<p>\u201cQuem tomou algumas posi\u00e7\u00f5es foi dom Jos\u00e9 Rodrigues de Souza [bispo de Juazeiro entre 1975 e 2003. Na \u00e9poca da constru\u00e7\u00e3o da barragem criou a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra Regional Nordeste 3, que abrangia Bahia e Sergipe] junto com os padres das cidades. No entanto, o advogado da Chesf agia assim: fazia as contas, mostrava o papel para os moradores e dizia: &#8216;assine! Quer assinar? Se n\u00e3o quer, pode ir para a Justi\u00e7a!&#8217;.\u201d<\/p>\n<p>Segundo Pedro, as indeniza\u00e7\u00f5es eram baixas, mas a principal perda dos ribeirinhos foi a inunda\u00e7\u00e3o das terras f\u00e9rteis \u00e0s margens do Rio S\u00e3o Francisco. Muitos tiveram preju\u00edzos com a morte do gado, por exemplo, que n\u00e3o conseguiu conviver com o pasto escasso na caatinga.<\/p>\n<p>O historiador da UPE tamb\u00e9m destaca o papel mobilizador de dom Jos\u00e9 Rodrigues Sousa e de sua equipe pastoral, que procurou esclarecer a popula\u00e7\u00e3o sobre aquilo a que tinham direito e a reivindicar uma indeniza\u00e7\u00e3o justa. \u00c0 \u00e9poca da constru\u00e7\u00e3o da barragem, o Brasil vivia em pleno regime militar e a regi\u00e3o da obra foi considerada \u00e1rea de seguran\u00e7a nacional \u2013 o que dava aos militares a chancela para uso da for\u00e7a caso houvesse alguma resist\u00eancia popular.<\/p>\n<p>O professor avalia que, para al\u00e9m das quest\u00f5es relativas ao valor das indeniza\u00e7\u00f5es e da perda de propriedades, s\u00e3o incalcul\u00e1veis os preju\u00edzos imateriais da realoca\u00e7\u00e3o das cerca de 12 mil fam\u00edlias de Casa Nova, Remanso, Pil\u00e3o Arcado e Sento S\u00e9. \u201cElas viviam numa terra, moravam e viviam do rio, e essa realidade teve de ficar somente na lembran\u00e7a e na saudade.\u201d<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Edwirges Nogueira O vento forte movimenta as \u00e1guas no lago de Sobradinho. 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