{"id":8398,"date":"2014-05-06T17:57:16","date_gmt":"2014-05-06T20:57:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=8398"},"modified":"2014-05-06T22:40:48","modified_gmt":"2014-05-07T01:40:48","slug":"linchamento-e-ato-racional-culpados-merecem-punicao-severa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/linchamento-e-ato-racional-culpados-merecem-punicao-severa\/","title":{"rendered":"Linchamento \u00e9 ato racional; culpados merecem puni\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Ao contr\u00e1rio do que aponta o senso comum, linchamentos como o que vitimou a moradora de Guaruj\u00e1 (SP), a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, n\u00e3o podem ser vistos meramente como uma a\u00e7\u00e3o irracional. A conclus\u00e3o \u00e9 da pesquisadora do N\u00facleo de Estudos da Viol\u00eancia da Universidade de S\u00e3o Paulo (NEV-USP), Ariadne Natal, autora de tese sobre casos de justi\u00e7amentos sum\u00e1rios ocorridos na cidade de S\u00e3o Paulo e regi\u00e3o metropolitana, entre 1980 e 2009.<\/p>\n<p>\u201cQualquer pessoa que tenha participado do linchamento da Fabiane vai dizer que tinha certeza de que a dona de casa era o mal encarnado. Que era preciso linch\u00e1-la para expiar o mal que atribu\u00edam a ela. Ou seja, est\u00e3o equivocadas ao acreditarem fazer justi\u00e7a, mas n\u00e3o est\u00e3o agindo irracionalmente\u201d, sustentou a pesquisadora.<\/p>\n<p>Destacando o fato de que a defesa do uso da viol\u00eancia como solu\u00e7\u00e3o para os conflitos \u00e9 pr\u00e1tica recorrente na sociedade brasileira, Ariadne Natal defende que o caso da dona de casa deve servir de exemplo. \u201cExemplo de que a justi\u00e7a n\u00e3o pode ser feita sumariamente. De que cabe apenas \u00e0s institui\u00e7\u00f5es do Estado fazer justi\u00e7a. E se essas institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o estiverem fazendo isso a contento, o que a sociedade tem que fazer \u00e9 aperfei\u00e7o\u00e1-las\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s estudar 385 casos de linchamento que foram noticiados pela imprensa, entre 1\u00ba de janeiro de 1980 e 31 de dezembro de 2009, a pesquisadora concluiu que os participantes da a\u00e7\u00e3o acreditam em suas justificativas e n\u00e3o agem de forma aleat\u00f3ria, ao escolher aqueles que devem ser &#8220;justi\u00e7ados&#8221;.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 qualquer pessoa que pode ser desumanizada e, portanto, linchada. As potenciais v\u00edtimas de linchamento carregam consigo a marca daquele que pode, em \u00faltima an\u00e1lise, ser eliminado\u201d, aponta Ariadne, sugerindo que pessoas com maior poder aquisitivo suspeitas de cometer crimes semelhantes ao atribu\u00eddo \u00e0 dona de casa agredida, na noite do \u00faltimo s\u00e1bado (3), gozam de uma rede de prote\u00e7\u00e3o mais eficiente. \u201cTanto que \u00e9 muito raro identificarmos uma v\u00edtima de classe m\u00e9dia entre as v\u00edtimas de linchamento. E n\u00e3o porque n\u00e3o haja, entre a classe m\u00e9dia, quem cometa crimes\u201d.<\/p>\n<p>Ela destaca que a an\u00e1lise das causas de justi\u00e7amentos devem levar em conta din\u00e2micas macrossociais, como a falta de pol\u00edticas de infraestrutura e habitacionais, que podem levar moradores de determinadas \u00e1reas a buscarem mecanismos privados para a resolu\u00e7\u00e3o dos problemas.<\/p>\n<p>Fabiane morava com o marido e dois filhos no bairro de Morrinhos, localidade que concentra fam\u00edlias das classes C e D, e possu\u00eda alguma esp\u00e9cie de transtorno mental, conforme divulgado pela imprensa. Situa\u00e7\u00e3o comum a outros casos analisados no estudo de Ariadne Natal. \u201cS\u00e3o pessoas cujas atitudes os outros t\u00eam dificuldades para compreender\u201d, aponta a pesquisadora.<\/p>\n<p>\u201cL\u00f3gico que nada disso \u00e9 explicitado. H\u00e1 diferentes justificativas para os casos de linchamento ao longo do tempo\u201d. Na d\u00e9cada de 1980, por exemplo, as motiva\u00e7\u00f5es dos participantes estavam mais relacionadas a crimes contra a propriedade. J\u00e1 na d\u00e9cada de 1990, houve mais casos ligados a crimes contra a vida e os costumes, como o estupro.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a partir da d\u00e9cada de 1990, a pol\u00edcia, quando acionada, passou a atender mais rapidamente esse tipo de ocorr\u00eancia, reprimindo-a. \u201cPor isso o n\u00famero de casos de linchamentos que resultaram em morte eram maiores na d\u00e9cada de 1980\u201d. Quando a pesquisadora defendeu sua tese, em 2013, ainda n\u00e3o havia informa\u00e7\u00f5es precisas sobre a primeira d\u00e9cada deste s\u00e9culo. Mesmo assim, Ariadne afirma que o perfil das v\u00edtimas de linchamentos mudou pouco ao longo do tempo. Embora o n\u00famero de mulheres alvos dessas a\u00e7\u00f5es tenha aumentado, a partir dos anos 2000, os homens jovens continuam sendo as v\u00edtimas mais recorrentes. E quase a totalidade dos casos ocorre em regi\u00f5es perif\u00e9ricas.<\/p>\n<p>\u201cO que est\u00e1 relacionado ao acesso que os moradores dessas \u00e1reas t\u00eam \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de Estado. N\u00e3o s\u00f3 em termo de presen\u00e7a, mas, principalmente, quanto \u00e0 qualidade dos servi\u00e7os prestados por essas institui\u00e7\u00f5es. A tese da inefici\u00eancia do Estado \u00e9, portanto, um dos componentes que ajudam a explicar esses crimes. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m a pr\u00f3pria din\u00e2mica das rela\u00e7\u00f5es sociais nesses locais, onde as pessoas se conhecem e as informa\u00e7\u00f5es transitam com maior facilidade\u201d.<\/p>\n<p>Outro diferencial \u00e9 que, hoje, os linchamentos s\u00e3o frequentemente filmados e exibidos na imprensa e na internet. Foi o que aconteceu no caso de Fabiane. As cenas das agress\u00f5es sofridas pela dona de casa v\u00eam chocando o pa\u00eds. \u201cO linchamento \u00e9 sempre um evento p\u00fablico com car\u00e1ter de exemplaridade. Faz parte do processo de humilhar a v\u00edtima exp\u00f4-la sendo agredida. Como, hoje, h\u00e1 sempre algu\u00e9m filmando, o que no passado ficaria restrito a um contexto local ganha uma maior dimens\u00e3o. Essas imagens s\u00e3o fortes, mas a rea\u00e7\u00e3o de quem as v\u00ea depende muito do filtro da percep\u00e7\u00e3o de cada um. H\u00e1 muitos que, ao verem as imagens de um garoto algemado a um poste, sentiram-se satisfeitos e acharam pouco. A diferen\u00e7a no caso da Fabiane \u00e9 que essas mesmas pessoas se comovem ao saber que uma pessoa inocente foi morta. Se ela de fato tivesse sequestrado uma crian\u00e7a, a rea\u00e7\u00e3o seria diferente. E n\u00e3o deveria ser, pois estranho \u00e9 o linchamento\u201d.<\/p>\n<p>A pesquisadora conclui que \u201cNuma democracia, o que se espera \u00e9 que as pessoas se mobilizem para melhorar as institui\u00e7\u00f5es e n\u00e3o para fazer justi\u00e7a de forma sum\u00e1ria, sem dar aos suspeitos o direito \u00e0 defesa. E, com isso, no af\u00e3 de tentar fazer uma suposta justi\u00e7a, comete-se grandes injusti\u00e7as. E mesmo que a v\u00edtima tenha de fato cometido algum crime, isso n\u00e3o diminui o aspecto lament\u00e1vel de um linchamento\u201d.<\/p>\n<p><strong>Alex Rodrigues, ABr<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao contr\u00e1rio do que aponta o senso comum, linchamentos como o que vitimou a moradora de Guaruj\u00e1 (SP), a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, n\u00e3o podem ser vistos meramente como uma a\u00e7\u00e3o irracional. 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