{"id":84734,"date":"2016-01-15T12:52:31","date_gmt":"2016-01-15T14:52:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=84734"},"modified":"2016-01-16T12:51:17","modified_gmt":"2016-01-16T14:51:17","slug":"fiel-filho-a-gota-dagua-nos-poroes-da-ditadura-40-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/fiel-filho-a-gota-dagua-nos-poroes-da-ditadura-40-anos-depois\/","title":{"rendered":"Manoel Fiel Filho, metal\u00fargico, a gota d\u2019\u00e1gua nos por\u00f5es da ditadura 40 anos depois"},"content":{"rendered":"<p><strong>Camila Maciel<\/strong><\/p>\n<p>O assassinato de Manoel Fiel Filho naquele 17 de janeiro de 1976, na carceragem do DOI-Codi do 2\u00ba Ex\u00e9rcito, em S\u00e3o Paulo, n\u00e3o teve a mesma repercuss\u00e3o da morte do jornalista Vladimir Herzog, ocorrida menos de tr\u00eas meses antes no mesmo local e em circunst\u00e2ncia semelhante.<\/p>\n<p>Assim como Vladimir, Fiel foi morto sob tortura dos agentes da ditadura. A imprensa s\u00f3 soube do acontecido tr\u00eas dias depois, ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o de uma nota lac\u00f4nica pelo 2\u00ba Ex\u00e9rcito informando que o metal\u00fargico havia cometido suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Apesar da pouca repercuss\u00e3o, o assassinato do metal\u00fargico irritou o presidente Ernesto Geisel, que mandou demitir o comandante do 2\u00ba Ex\u00e9rcito, general Ednardo D\u2019\u00c1vila Mello, praticamente desmontando a m\u00e1quina de tortura e morte que funcionava no DOI-Codi de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-84735\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/banner_manoel_fiel_filho.png\" alt=\"banner_manoel_fiel_filho\" width=\"576\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/banner_manoel_fiel_filho.png 576w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/banner_manoel_fiel_filho-300x138.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><\/p>\n<p>A sa\u00edda de Ednardo n\u00e3o acabou com as viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos nos por\u00f5es da ditadura, mas os torturadores passaram a ser mais &#8220;cuidadosos&#8221; e a linha dura militar perdeu for\u00e7a pol\u00edtica dentro das For\u00e7as Armadas, o que levou, em 1977, \u00e0 derrota do general Sylvio Frota, em suas pretens\u00f5es de suceder Geisel na Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. O presidente escolhido por Geisel foi o general Jo\u00e3o Baptista Figueiredo.<\/p>\n<p>No domingo, 17 de janeiro de 2016, o assassinato do metal\u00fargico Manoel Fiel completa 40 anos. E a Ag\u00eancia Brasil preparou uma s\u00e9rie de\u00a0mat\u00e9rias especiais sobre esse triste epis\u00f3dio da hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n<p>A rep\u00f3rter Camila Maciel e a fot\u00f3grafa Rovena Rosa foram at\u00e9 a cidade de Bragan\u00e7a Paulista, a 90 quil\u00f4metros de S\u00e3o Paulo, onde conversaram com a mulher e as filhas de Manoel Fiel Filho. \u201cMeu marido morreu e salvou a turma que estava presa l\u00e1 [no DOI-Codi]\u201d, disse Thereza Fiel, ressaltando que o assassinato do marido provocou mudan\u00e7as no tratamento dado aos presos pol\u00edticos da \u00e9poca.<\/p>\n<p>A reportagem entrevistou tamb\u00e9m Clarice Herzog, mulher de Vladimir, e o jurista H\u00e9lio Bicudo, que atuou no processo aberto contra o Estado brasileiro, responsabilizando-o pela morte do metal\u00fargico.<\/p>\n<p><strong>Sai general, entra general<\/strong> &#8211; O assassinato de Manoel Fiel Filho foi a gota d\u2019\u00e1gua para que o presidente Ernesto Geisel exonerasse do comando do 2\u00ba Ex\u00e9rcito o general Ednardo D\u2019\u00c1vila Mello e tirasse da chefia do Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito (CIE) o general Conf\u00facio Danton de Paula Avelino. Menos de tr\u00eas meses antes, em outubro de 1975, no mesmo local e em circunst\u00e2ncias semelhantes, havia sido torturado e assassinado o jornalista Vladimir Herzog.<\/p>\n<p>Geisel soube da morte de Fiel pelo ent\u00e3o governador de S\u00e3o Paulo, Paulo Egydio Martins. Era um domingo, o presidente estava na resid\u00eancia do Riacho Fundo, em Bras\u00edlia, preparava-se para dormir quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, Paulo Egydio narrou &#8220;o que tinha acontecido na carceragem do DOI-Codi.<\/p>\n<p>\u201cEle me contou que tinha havido um segundo enforcamento. Passei uma noite de c\u00e3o. N\u00e3o dormi, irritado, pensando como iria agir\u201d, diz Geisel sobre o epis\u00f3dio em depoimento, em 1994, para a professora de ci\u00eancia pol\u00edtica Maria Celina D\u2019Araujo e o antrop\u00f3logo Celso Castro, e que est\u00e1 no livro Ernesto Geisel, editado pela Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas.<br \/>\nA preocupa\u00e7\u00e3o e a irrita\u00e7\u00e3o do presidente eram porque, ap\u00f3s a morte de Vladimir Herzog, h\u00e1 menos de tr\u00eas meses, alertara o general Ednardo para o que estava acontecendo no DOI-Codi e determinara que o militar tomasse provid\u00eancias para evitar que outra morte ocorresse em uma depend\u00eancia do 2\u00ba Ex\u00e9rcito. Naquela ocasi\u00e3o, ao contr\u00e1rio do que queria Ednardo, Geisel exigiu tamb\u00e9m que o general instaurasse um Inqu\u00e9rito Policial Militar (IPM) para investigar a morte do jornalista.<\/p>\n<p>\u201cV\u00e1rias vezes, em encontro com Ednardo, em Bras\u00edlia, eu havia dito: \u2018Ednardo, olha S\u00e3o Paulo, v\u00ea l\u00e1 o teu comando, as coisas n\u00e3o est\u00e3o bem\u2019. Quando resolvi mandar abrir o inqu\u00e9rito [da morte de Vladimir Herzog], e o Ednardo op\u00f4s algumas dificuldades, vi que havia problemas. Mas exigi que o inqu\u00e9rito fosse feito e que tudo fosse apurado. N\u00e3o sei se o inqu\u00e9rito estava certo, ou n\u00e3o, mas o fato \u00e9 que apurou que o Herzog tinha se enforcado. A partir da\u00ed, o problema do Herzog, para mim, acabou\u201d, afirmou Geisel para Maria Celina e Celso Castro.<\/p>\n<p>Por isso, quando soube da morte de Manoel Filho, o presidente Geisel sabia que tinha que agir com firmeza por entender que a situa\u00e7\u00e3o no 2\u00ba Ex\u00e9rcito estava fora de controle e que era preciso afastar o general Ednardo. \u201cEu vi que a solu\u00e7\u00e3o era tirar Ednardo\u201d, disse. O presidente, ent\u00e3o, marcou uma reuni\u00e3o para a manh\u00e3 do dia seguinte, no Pal\u00e1cio da Alvorada. Convocou o ministro do Ex\u00e9rcito, Sylvio Frota, o chefe do Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00e3o (SNI), Jo\u00e3o Figueiredo, e o chefe do Gabinete Militar, Hugo Abreu, comunicou o ocorrido e pediu a Sylvio Frota que exonerasse o general Ednardo. Frota n\u00e3o contestou. Para o lugar de Ednardo foi nomeado o general Dilermando Monteiro, pessoa pr\u00f3xima de Geisel. Com as mudan\u00e7as feitas, o presidente praticamente desmantelou o aparelho de comando da tortura em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><strong>Rela\u00e7\u00f5es com o ministro<\/strong> &#8211;\u00a0Para Geisel, forjado na hierarquia e disciplina militar, o que estava acontecendo no 2\u00ba Ex\u00e9rcito era de responsabilidade do seu comandante e, por isso, Ednardo n\u00e3o poderia continuar ali. Ou ele n\u00e3o tinha controle sobre o que acontecia no DOI, ou era conivente. O epis\u00f3dio da exonera\u00e7\u00e3o do general Ednardo resultou, meses depois, na exonera\u00e7\u00e3o de Sylvio Frota do comando do Minist\u00e9rio do Ex\u00e9rcito. \u201cO Frota n\u00e3o quis compreender isso, e acabei tendo que tir\u00e1-lo\u201d, afirmou Geisel em seu depoimento.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que as rela\u00e7\u00f5es do presidente com seu ministro do Ex\u00e9rcito n\u00e3o eram boas. Havia uma disputa de poder entre os dois. Sylvio Frota trabalhava para ser o pr\u00f3ximo presidente, com o apoio dos militares linha dura. Geisel e o seu chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, pensavam na distens\u00e3o do regime. De acordo com o jornalista Elio Gaspari, no livro O Sacerdote e o Feiticeiro, quarto volume da s\u00e9rie A Ditadura Encurralada, a morte de Fiel precipitou o confronto de Geisel com o ministro do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>\u201cO presidente lan\u00e7ou-se ao primeiro choque frontal e p\u00fablico com um chefe militar. Era o choque que evitara em 1964, quando fizera vista grossa \u00e0s torturas que haviam sido praticadas em quart\u00e9is do Nordeste, e que evitara nos primeiros anos de governo, quando se vira encurralado por Frota no caso da pris\u00e3o do ex-deputado Marco Ant\u00f4nio Coelho\u201d, diz Gaspari. Morto em novembro do ano passado, o mineiro Marco Ant\u00f4nio Tavares Coelho era deputado estadual no Rio de Janeiro e um dos dirigentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) na \u00e9poca do golpe militar de 1964. Teve o mandato cassado, foi preso e torturado em 1975, quando era editor do jornal Voz Oper\u00e1ria, do PCB.<\/p>\n<p>A exonera\u00e7\u00e3o de Sylvio Frota ocorreu em 12 de outubro de 1977. No depoimento para Maria Celina D\u2019\u00c1raujo e Celso Castro, Geisel fala sobre sua decis\u00e3o. \u201cQuando verifiquei que tinha a maioria dos generais comigo, pelo menos os generais mais graduados, senti que era a hora de afast\u00e1-lo. Senti tamb\u00e9m que n\u00e3o podia demorar mais porque o problema ia ficar mais dif\u00edcil, com as ades\u00f5es que ele iria ter. N\u00e3o pude tir\u00e1-lo antes porque eu n\u00e3o sabia, ou n\u00e3o tinha ainda a certeza, de que o Ex\u00e9rcito ficaria comigo. Com a avalia\u00e7\u00e3o que fiz, foi aquele o momento que achei mais adequado.\u201d<\/p>\n<p>A tese da historiadora Mariana Joffily, doutora em hist\u00f3ria social pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), diz que as tr\u00eas mortes de filiados do PCB &#8211; Vladimir Herzog, Manoel Fiel Filho e o tenente-coronel da Pol\u00edcia Militar Jos\u00e9 Ferreira de Almeida &#8211; ocorridas em sequ\u00eancia no DOI-Codi paulista, representaram \u201co \u00e1pice do jogo de for\u00e7as estabelecido entre o governo de Ernesto Geisel e a comunidade de informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito\u201d. &#8220;O pretenso suic\u00eddio de Manoel Fiel Filho levou \u00e0 especula\u00e7\u00e3o, por parte de alguns setores, de que se trataria de uma provoca\u00e7\u00e3o do DOI paulista \u00e0 pol\u00edtica [de distens\u00e3o] do governo Geisel&#8221;, escreveu.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Camila Maciel O assassinato de Manoel Fiel Filho naquele 17 de janeiro de 1976, na carceragem do DOI-Codi do 2\u00ba Ex\u00e9rcito, em S\u00e3o Paulo, n\u00e3o teve a mesma repercuss\u00e3o da morte do jornalista Vladimir Herzog, ocorrida menos de tr\u00eas meses antes no mesmo local e em circunst\u00e2ncia semelhante. 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