{"id":84748,"date":"2016-01-15T12:47:45","date_gmt":"2016-01-15T14:47:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=84748"},"modified":"2016-01-16T12:49:51","modified_gmt":"2016-01-16T14:49:51","slug":"impunidade-era-palavra-de-ordem-para-todos-que-vestiam-a-farda-verde-oliva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/impunidade-era-palavra-de-ordem-para-todos-que-vestiam-a-farda-verde-oliva\/","title":{"rendered":"Impunidade era palavra de ordem para todos os que vestiam a farda verde-oliva"},"content":{"rendered":"<p><strong>Camila Maciel<\/strong><\/p>\n<p>As mortes em sequ\u00eancia do jornalista Vladimir Herzog, em outubro de 1975, e do metal\u00fargico Manoel Fiel Filho, em janeiro de 1976, tr\u00eas meses depois, foram para Clarice Herzog, vi\u00fava do jornalista, uma demonstra\u00e7\u00e3o de como a impunidade acobertava as a\u00e7\u00f5es criminosas dos agentes da ditadura.<\/p>\n<p>\u201cA impunidade era t\u00e3o grande. Eles se sentiam t\u00e3o poderosos que podiam mostrar aquela foto do Vlado enforcado com p\u00e9 no ch\u00e3o e o Fiel Filho enforcado, sentado numa privada. \u00c9 uma vergonha, porque nem se preocupavam em fazer uma farsa bem-feita, porque a impunidade para eles era total\u201d, disse \u00e0 Ag\u00eancia Brasil.<\/p>\n<p>O jurista H\u00e9lio Bicudo, na \u00e9poca promotor p\u00fablico, colheu depoimentos de ex-presos da \u00e9poca da ditadura para validar a vers\u00e3o de assassinato praticado por agentes do Estado. \u201cNingu\u00e9m que atuava na \u00e1rea poderia acreditar que aquilo foi suic\u00eddio. Sabia-se, como foi no caso do Herzog, que era uma morte praticada pela pol\u00edcia pol\u00edtica\u201d, disse.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-84735\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/banner_manoel_fiel_filho.png\" alt=\"banner_manoel_fiel_filho\" width=\"576\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/banner_manoel_fiel_filho.png 576w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/banner_manoel_fiel_filho-300x138.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><\/p>\n<p>Bicudo destaca que os dois epis\u00f3dios, as mortes de Herzog e de Fiel Filho, foram importantes para reconstru\u00e7\u00e3o da democracia no Brasil. \u201cEssas duas mortes mostravam que a atua\u00e7\u00e3o dos agentes da repress\u00e3o se manifestava n\u00e3o s\u00f3 na classe m\u00e9dia, mas tamb\u00e9m na classe oper\u00e1ria, como \u00e9 o caso do Manoel. Foi uma morte que trouxe um anseio de mobiliza\u00e7\u00e3o para a sociedade, de necessidade de mudan\u00e7a\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>A morte de Manoel Fiel Filho s\u00f3 foi tornada p\u00fablica dias depois, por meio de nota divulgada pelo 2\u00ba Ex\u00e9rcito. \u201cO Comando do 2\u00ba Ex\u00e9rcito lamenta informar que foi encontrado morto, \u00e0s 13h do dia 17 do corrente [janeiro de 1976], s\u00e1bado, em um dos xadrezes do DOI-Codi\/2\u00ba Ex\u00e9rcito, o Sr. Manoel Fiel Filho. Para apurar o ocorrido, mandou instaurar Inqu\u00e9rito Policial-Militar (IPM), tendo sido nomeado o coronel de Infantaria Quema (Quadro do Estado-Maior da Ativa) Murilo Fernando Alexander, chefe do Estado-Maior da 2\u00aa Divis\u00e3o de Ex\u00e9rcito\u201d.<\/p>\n<p>O IPM foi conclu\u00eddo no prazo previsto de 30 dias. O procurador militar Darcy de Ara\u00fajo Rebello, em 28 de abril de 1976, pediu o arquivamento do processo. \u201cAs provas apuradas s\u00e3o suficientes e robustas para nos convencer da hip\u00f3tese do suic\u00eddio de Manoel Fiel Filho, que estava sendo submetido a investiga\u00e7\u00f5es por crime contra a seguran\u00e7a nacional\u201d, alegou o procurador. Foi a mesma conclus\u00e3o a que chegou o encarregado do Inqu\u00e9rito Policial Militar, o coronel Murilo Fernando Alexander.<\/p>\n<p>O citado crime contra a seguran\u00e7a nacional nada mais era do que uma acusa\u00e7\u00e3o de receber exemplares do jornal Voz Oper\u00e1ria, do PCB. Uma acusa\u00e7\u00e3o feita com base em informa\u00e7\u00e3o conseguida sob tortura de outro preso pol\u00edtico. O IPM, apesar das evid\u00eancias de tortura e de assassinato, concluiu que Manoel Fiel Filho cometeu suic\u00eddio.<\/p>\n<p>\u201cFinalmente, encerrado o inqu\u00e9rito com o relat\u00f3rio de fls. 144 a 150 concluiu pela inexist\u00eancia de crime, ao que vale dizer, n\u00e3o houve homic\u00eddio, nem instiga\u00e7\u00e3o, aux\u00edlio ou induzimento ao suic\u00eddio, o que \u00e9 punido pelo C\u00f3digo Penal Comum e C\u00f3digo Penal Militar, Artigo 207\u201d. Mais adiante, o documento diz \u201cque n\u00e3o se pode chegar a nenhuma outra conclus\u00e3o, sen\u00e3o aquela de suic\u00eddio, na sua express\u00e3o mais simples\u201d. Os respons\u00e1veis pelo IPM, em nenhum momento, se interessaram em investigar uma s\u00e9rie de evid\u00eancias de que o metal\u00fargico foi torturado e assassinado.<\/p>\n<p><strong>Artif\u00edcio fajuto<\/strong> &#8211; Na vers\u00e3o oficial, Manoel Fiel Filho se \u201cautoestrangulou\u201d usando as pr\u00f3prias meias. &#8220;Disseram para eu ir l\u00e1 na delegacia. Falaram da hist\u00f3ria [de suic\u00eddio], mas ele nem tinha meia daquele tipo\u201d, disse Thereza, esposa do metal\u00fargico, em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil. Apesar das d\u00favidas da esposa, o IPM foi encerrado, determinando o arquivamento. O relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV) ressalta que, contrariando a conclus\u00e3o do inqu\u00e9rito, colegas de trabalho de Manoel disseram que o metal\u00fargico cal\u00e7ava chinelos quando foi detido. Al\u00e9m disso, outros presos pol\u00edticos informaram que os carcereiros do DOI-Codi tiravam todos os pertences dos presos na chegada \u00e0 deten\u00e7\u00e3o, especialmente cinto e meias.<\/p>\n<p>O que se passou nas horas em que Fiel Filho esteve nas depend\u00eancias do DOI-Codi foi reconstru\u00eddo com o empenho da fam\u00edlia e com a atua\u00e7\u00e3o da Arquidiocese de S\u00e3o Paulo, que tinha \u00e0 frente dom Paulo Evaristo Arns.<\/p>\n<p>Entre os presos que estiveram com o oper\u00e1rio na carceragem do DOI-Codi, estava Geraldo Castro da Silva. Ele relatou, conforme consta no relat\u00f3rio da CNV, que ouviu os gritos de Manoel durante o interrogat\u00f3rio, pedindo: \u201cN\u00e3o me judia tanto, pelo amor de Deus que n\u00e3o vou aguentar\u201d. Geraldo disse ainda que, durante algum tempo, tudo ficou quieto e, logo ap\u00f3s, entrou uma pessoa que, referindo-se a Manoel, disse: \u201cChefe, o omelete est\u00e1 feito\u201d.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Camila Maciel As mortes em sequ\u00eancia do jornalista Vladimir Herzog, em outubro de 1975, e do metal\u00fargico Manoel Fiel Filho, em janeiro de 1976, tr\u00eas meses depois, foram para Clarice Herzog, vi\u00fava do jornalista, uma demonstra\u00e7\u00e3o de como a impunidade acobertava as a\u00e7\u00f5es criminosas dos agentes da ditadura. \u201cA impunidade era t\u00e3o grande. 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