{"id":84753,"date":"2016-01-15T12:45:09","date_gmt":"2016-01-15T14:45:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=84753"},"modified":"2016-01-16T12:49:23","modified_gmt":"2016-01-16T14:49:23","slug":"marido-pai-trabalhador-exemplar-e-ativista-politico-que-nao-entregava-ninguem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/marido-pai-trabalhador-exemplar-e-ativista-politico-que-nao-entregava-ninguem\/","title":{"rendered":"Marido, pai e trabalhador exemplar; o ativista pol\u00edtico que n\u00e3o entregava ningu\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p><strong>Camila Maciel<\/strong><\/p>\n<p>Hoje com 56 anos &#8211; tinha 16 quando o pai morreu &#8211; M\u00e1rcia Fiel conta que, aos poucos, a fam\u00edlia foi entendendo o significado da morte de Manoel. \u201cN\u00e3o sab\u00edamos nada [da atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dele]. A \u00fanica coisa que sab\u00edamos \u00e9 que ele ia muito ao sindicato\u201d, disse. Ela lembra que, durante o vel\u00f3rio e o enterro, agentes da repress\u00e3o estiveram no local.<\/p>\n<p>\u201cEstavam descendo o corpo e eles em cima da tampa. Enquanto a pedra n\u00e3o cimentou, eles n\u00e3o sa\u00edram de cima. N\u00e3o podia falar nada, abrir a boca\u201d, lembrou. Ao deixar o Cemit\u00e9rio da Quarta Parada, em \u00c1gua Rasa, na capital paulista, onde o corpo foi enterrado, M\u00e1rcia, a irm\u00e3 Aparecida, e a m\u00e3e Thereza foram para casas diferentes. \u201cA gente tinha medo que eles voltassem para pegar a gente\u201d, afirmou M\u00e1rcia.<\/p>\n<p>Certa tranquilidade para a fam\u00edlia s\u00f3 veio ap\u00f3s verem publicada a not\u00edcia de que a morte de Fiel Filho tinha levado ao afastamento do comandante do 2\u00ba Ex\u00e9rcito. \u201cA gente viu a reportagem na televis\u00e3o. Eu falei: &#8216;n\u00e3o precisa mais a gente ficar se escondendo, porque j\u00e1 est\u00e1 p\u00fablico o neg\u00f3cio&#8217;\u201d, disse M\u00e1rcia \u00e0 Ag\u00eancia Brasil.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-84735\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/banner_manoel_fiel_filho.png\" alt=\"banner_manoel_fiel_filho\" width=\"576\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/banner_manoel_fiel_filho.png 576w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/banner_manoel_fiel_filho-300x138.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><\/p>\n<p>Ainda hoje, em uma pasta, M\u00e1rcia re\u00fane todos os recortes de jornais da \u00e9poca. Segundo ela, ali come\u00e7ava a peregrina\u00e7\u00e3o para ver restabelecida a verdade em torno da morte do pai. \u201cEra dif\u00edcil at\u00e9 para conseguir advogado, porque as pessoas tinham medo de pegar essa a\u00e7\u00e3o. S\u00f3 conseguimos com a ajuda da C\u00faria [por meio de dom Paulo Evaristo Arns]\u201d.<\/p>\n<p><strong>Impunidade<\/strong> &#8211; Passados 40 anos da morte de Manoel Fiel Filho, torturado e assassinado na carceragem do DOI-Codi do 2\u00ba Ex\u00e9rcito, em S\u00e3o Paulo, impunidade e falta de reconhecimento s\u00e3o ressentimentos presentes na fam\u00edlia do metal\u00fargico. Aparecida Fiel, de 60 anos, filha mais velha, diz que, somente ap\u00f3s 20 anos da morte do pai, a m\u00e3e Thereza recebeu o valor referente \u00e0 indeniza\u00e7\u00e3o salarial pela morte do marido. \u201cN\u00e3o foi uma indeniza\u00e7\u00e3o em que eles reconhecem que mataram o meu pai. Foi c\u00e1lculo da diferen\u00e7a da aposentadoria\u201d, afirmou. Ela informou que, atualmente, a m\u00e3e j\u00e1 n\u00e3o recebe mais o valor complementar, pois o c\u00e1lculo foi feito at\u00e9 os presum\u00edveis 75 anos de Manoel. \u201c\u00c9 como se ele trabalhasse at\u00e9 esta idade. Agora a m\u00e3e recebe somente a pens\u00e3o\u201d, explicou.<\/p>\n<p>O pedido de indeniza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, que inclui a revis\u00e3o do inqu\u00e9rito, com o reconhecimento de que agentes do Estado foram respons\u00e1veis pelo assassinato, foi feito em 2006. \u201cEst\u00e1 parado. H\u00e1 dez anos que aguardamos. Nem sei onde est\u00e1 o processo\u201d, diz M\u00e1rcia Fiel, filha mais nova do casal. Segundo ela, foi preciso muito esfor\u00e7o, recorrendo a pol\u00edticos para ver o primeiro processo caminhar na Justi\u00e7a. M\u00e1rcia critica o fato de que as perdas ficaram apenas para as v\u00edtimas. \u201cEles [torturadores] viveram muito bem durante todo esse tempo. Qual que \u00e9 a puni\u00e7\u00e3o? Tira a aposentadoria deles. Foi o que aconteceu comigo e com a minha m\u00e3e. Algu\u00e9m pensou se a gente ia ter o que comer ou n\u00e3o? Meu pai era o arrimo da fam\u00edlia.\u201d<\/p>\n<p><strong>Reconhecimento<\/strong> &#8211; A fam\u00edlia de Manoel Filho tamb\u00e9m se ressente por achar que o metal\u00fargico \u00e9 pouco lembrado pelo papel que sua morte teve na retomada da democracia no Brasil. \u201cLembraram do Herzog no ano passado. Quero ver se v\u00e3o lembrar do meu marido\u201d, disse Thereza Fiel. Para Aparecida, ficou uma m\u00e1goa. \u201cOlha quanta coisa que mudou depois do que aconteceu com o meu pai, e nada disso foi divulgado. O estado dele, que \u00e9 Alagoas, tem muita coisa dele l\u00e1, conversei com as pessoas e ningu\u00e9m sabe da hist\u00f3ria. Pelo menos de onde ele veio, pensei que soubessem mais\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Para M\u00e1rcia, a valoriza\u00e7\u00e3o de Fiel Filho veio do segmento oper\u00e1rio. \u201cA classe trabalhadora sempre valorizou muito o meu pai. Fizeram muita homenagem, mas, politicamente, essa abertura toda que houve [do processo democr\u00e1tico] depois da morte do meu pai nunca foi valorizada como devia\u201d, avaliou. Clarice Herzog, vi\u00fava de Vladimir Herzog, considera que a hist\u00f3ria de Fiel Filho tamb\u00e9m deve ser mais lembrada. \u201cA maior repercuss\u00e3o [do Herzog] foi porque ele era jornalista. Era um homem conhecido nacional e internacionalmente. Ele dava aula na universidade. Toda essa conjuntura fez com que tivesse uma repercuss\u00e3o maior\u201d, disse.<\/p>\n<p>Como fazia todos os dias, Manoel Fiel Filho acordou cedo, banhou-se, tomou caf\u00e9 e foi para a Metal Arte, no bairro da Mooca, na cidade de S\u00e3o Paulo, onde trabalhava como prensista. Era uma sexta-feira, 16 de janeiro de 1976, e, por volta do meio-dia, dois homens, sem qualquer ordem judicial, o retiram do trabalho, v\u00e3o com ele at\u00e9 a sua resid\u00eancia, na Vila Guarani, revistam a casa em busca de exemplares do jornal Voz Oper\u00e1ria, do Partido Comunista Brasileiro (PCB), nada encontram e, sob os olhares apreensivos da mulher, Thereza Fiel, levam o metal\u00fargico para o Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es e Informa\u00e7\u00f5es do Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna (DOI-Codi). \u201cEle me deu um beijo na testa e foi embora. Eu falava: \u2018N\u00e3o leva ele, n\u00e3o&#8221;, disse Thereza, ao lembrar que o marido chegou a dizer que voltaria logo. &#8220;E ele nunca mais voltou&#8221;.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o sequestro de Fiel, Thereza reuniu toda a fam\u00edlia, incluindo as duas filhas, e peregrinou por v\u00e1rias delegacias de pol\u00edcia em busca de informa\u00e7\u00f5es do companheiro. \u201cUm conhecido da Pol\u00edcia Civil disse que ele estava na Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes [grupo criado em 1969 pelo Ex\u00e9rcito, com apoio de empres\u00e1rios para coordenar todas as opera\u00e7\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o] e que s\u00f3 se entrava l\u00e1 com ordem do presidente da Rep\u00fablica\u201d.<\/p>\n<p>Thereza soube da morte do marido no dia seguinte, s\u00e1bado, 17 de janeiro de 1976. Por volta das 22h, um carro parou em frente \u00e0 casa. &#8220;Desceu um fulano com um saco de lixo preto na m\u00e3o&#8221;. Ele disse: &#8216;\u2018Essa aqui \u00e9 a roupa dele, e ele est\u00e1 morto&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Um bom marido<\/strong> &#8211; Um marido trabalhador e amoroso. \u00c9 assim que Thereza, hoje com 83 anos, relembra Manoel. \u201cTrabalhava na firma e ainda me ajudava em casa. Era bom demais. Atencioso, me ajudava bastante. Adorava as filhas. Marido igual \u00e0quele n\u00e3o se acha mais\u201d, disse, emocionada, durante a entrevista concedida \u00e0 Ag\u00eancia Brasil, em Bragan\u00e7a Paulista, a 90 quil\u00f4metros da capital. Thereza relatou, logo no in\u00edcio da conversa com a reportagem, uma coincid\u00eancia. \u201cHoje [7 de janeiro] era anivers\u00e1rio dele. S\u00e3o lembran\u00e7as, n\u00e9? A gente fazia um bolo. Comemorava em casa mesmo\u201d. As recorda\u00e7\u00f5es sobre o marido pareciam estar mais vivas naquela manh\u00e3.<\/p>\n<p>Manoel, natural de Quebrangulo, Alagoas, terra natal do escritor Graciliano Ramos, festejava os 49 anos. \u201cEu lembro que fiz um pav\u00ea. Ele adorou. Ele n\u00e3o gostava muito de comemorar, mas gostava de estar com fam\u00edlia\u201d, disse a filha M\u00e1rcia. A outra filha, Aparecida Fiel, de 60 anos, tamb\u00e9m lembrou o zelo do pai em comprar frutas frescas para a filha mais velha, que estava gr\u00e1vida. \u201cEle n\u00e3o conheceu nenhum neto\u201d.<\/p>\n<p>Manoel saiu de Quebrangulo em 1950 em busca de uma vida melhor em S\u00e3o Paulo. Trabalhou como padeiro e cobrador de \u00f4nibus antes de se tornar metal\u00fargico, exercendo a atividade de prensista na mesma empresa por 19 anos. Embora a fam\u00edlia n\u00e3o soubesse, ele era respons\u00e1vel pela difus\u00e3o do jornal Voz Oper\u00e1ria, do Partido Comunista Brasileiro, e pela organiza\u00e7\u00e3o do partido entre os oper\u00e1rios das f\u00e1bricas do bairro da Mooca, conforme relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV).<\/p>\n<p>A morte do metal\u00fargico ocorreu menos de tr\u00eas meses ap\u00f3s o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, no mesmo local e em circunst\u00e2ncias parecidas, sob a vers\u00e3o oficial de suic\u00eddio. Embora n\u00e3o tenha provocado a mesma como\u00e7\u00e3o social que marcou a despedida do jornalista, a morte de Manoel Fiel Filho causou o afastamento do comandante do 2\u00ba Ex\u00e9rcito, general Ednardo D&#8217;\u00c1vila Mello, quatro dias depois do assassinato do metal\u00fargico. \u201cMeu marido morreu e salvou a turma que estava l\u00e1 [no DOI-Codi]\u201d, disse Thereza, ressaltando que o epis\u00f3dio provocou mudan\u00e7as no tratamento dado aos presos pol\u00edticos da \u00e9poca.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Camila Maciel Hoje com 56 anos &#8211; tinha 16 quando o pai morreu &#8211; M\u00e1rcia Fiel conta que, aos poucos, a fam\u00edlia foi entendendo o significado da morte de Manoel. \u201cN\u00e3o sab\u00edamos nada [da atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dele]. A \u00fanica coisa que sab\u00edamos \u00e9 que ele ia muito ao sindicato\u201d, disse. 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