{"id":86735,"date":"2016-01-29T13:05:35","date_gmt":"2016-01-29T15:05:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=86735"},"modified":"2016-01-30T09:49:46","modified_gmt":"2016-01-30T11:49:46","slug":"guerrilheiras-ou-simplesmente-para-a-terra-nao-ha-desaparecidos-sobe-ao-palco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/guerrilheiras-ou-simplesmente-para-a-terra-nao-ha-desaparecidos-sobe-ao-palco\/","title":{"rendered":"Guerrilheiras, ou Para a Terra n\u00e3o h\u00e1 Desaparecidos, vai ao palco"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Helena Katz<\/strong><\/h6>\n<p>As cinco atrizes estendem um pl\u00e1stico, depois outro, e mais outro, e assim, os ch\u00e3os v\u00e3o se sobrepondo, na cenografia assinada por Aurora dos Campos. Comp\u00f5em camadas para cima que, curiosamente, tamb\u00e9m v\u00e3o se entranhando para baixo, adensando e desenraizando (porque mais adiante, n\u00e3o mais dir\u00e3o respeito apenas \u00e0quele lugar) o espa\u00e7o simb\u00f3lico que as suas cores criam.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que a pe\u00e7a Guerrilheiras ou Para a Terra N\u00e3o H\u00e1 Desaparecidos, que estreou no ano passado no Rio e fica em cartaz at\u00e9 14 de fevereiro (exceto na semana do carnaval) no Sesc Belenzinho, come\u00e7a a ganhar corpo. Para realiz\u00e1-la, as atrizes, a diretora (Georgette Fadel), a dramaturga (Grace Pass\u00f4) e o cineasta (Eryk Rocha) foram ao sul do Par\u00e1 para refazer a rota das 12 mulheres que fizeram parte da Guerrilha do Araguaia e l\u00e1 foram assassinadas, entre abril de 1972 e janeiro de 1975.<\/p>\n<p>De todos os lados, o c\u00e9u vem em nossa dire\u00e7\u00e3o. Desce at\u00e9 encostar em cada um dos corpos enterrados e dos fatos que eles desenterram. Guerrilheiras vai amparando um ch\u00e3o no outro e eles viram t\u00faneis por onde salta para fora o que a terra esconde. Por isso, podemos saber que aqueles corpos enterrados h\u00e1 tanto tempo, agora podem falar de si mesmos, do que fizeram por l\u00e1 e do que aconteceu: &#8220;Algu\u00e9m me ouve? Algu\u00e9m, me escuta?&#8221;. Gra\u00e7as a este relevante projeto de Gabriela Carneiro da Cunha, essas vozes deixam de pertencer a uma hist\u00f3ria silenciada.<\/p>\n<p>A Guerrilha do Araguaia foi um embate violento: 5 mil soldados do Ex\u00e9rcito contra 69 guerrilheiros mortos, diz o texto. Os corpos dessas mulheres, possivelmente enterrados na beira do rio, n\u00e3o foram encontrados. Mas, nesse mesmo jogo entre o que fica dentro e para fora da terra (ou da Hist\u00f3ria) que tece Guerrilheiras, eles est\u00e3o agora nas roupas que as atrizes vestem Desir\u00e9e Bastos escolheu cerca de 50 pe\u00e7as de roupa, que foram enterradas \u00e0s margens do mesmo rio Araguaia, e depois, desenterradas e lavadas. Deteriorado, o figurino passa a ser o corpo desenterrado, que agora est\u00e1 do lado de fora, para ser visto.<\/p>\n<p>A singularidade da cada uma das atrizes do elenco, com uma for\u00e7a pr\u00f3pria, foi cuidadosamente potencializada pela justeza da dire\u00e7\u00e3o de Georgette Fadel. As excelentes Gabriela Carneiro da Cunha, Carolina Virguez, Daniela Carmona, Fernanda Haucke e Mafalda Pequenino, p\u00f5em em cena uma pluralidade de outras mulheres, as desta guerrilha e tamb\u00e9m as que l\u00e1 n\u00e3o estiveram, mas viveram\/vivem situa\u00e7\u00f5es semelhantes.<\/p>\n<p>A principal qualidade da dramaturgia de Grace Pass\u00f4 talvez esteja na habilidade em montar uma po\u00e9tica capaz de temperar o local com o geral. A cada corpo que se desnuda, a cada vez que ele se veste de novo, em cada uma das cita\u00e7\u00f5es de outras guerras, batalhas, movimentos e insurrei\u00e7\u00f5es, os limites hist\u00f3ricos dessa guerrilha v\u00e3o sendo arrebentados para mostrar que a viol\u00eancia que a caracteriza escorre por a\u00ed. E ent\u00e3o, a segunda parte do nome da pe\u00e7a &#8211; Para a Terra N\u00e3o H\u00e1 Desaparecidos &#8211; ganha uma dimens\u00e3o pr\u00f3pria quando nos lembra que a viol\u00eancia n\u00e3o tece somente um epis\u00f3dio, pois escorre por todos os lados.<\/p>\n<p>A compet\u00eancia dos que fazem Guerrilheiras existir fez com que a montagem escapasse da cilada do apelo ideol\u00f3gico do seu assunto. Priorizou as escolhas dramat\u00fargicas em torno do corpo e das imagens com ele e nele constru\u00eddas. As proje\u00e7\u00f5es do material de Eryk Rocha, editado com uma sensibilidade fina, agregam mais uma camada que, como as outras, tamb\u00e9m nos leva para dentro e para fora do que aconteceu no Araguaia. Fica um pressentimento de que a mesma quest\u00e3o segue, como o pr\u00f3prio rio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-70065\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/estadao.png\" alt=\"estadao\" width=\"99\" height=\"16\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Helena Katz As cinco atrizes estendem um pl\u00e1stico, depois outro, e mais outro, e assim, os ch\u00e3os v\u00e3o se sobrepondo, na cenografia assinada por Aurora dos Campos. 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