{"id":88470,"date":"2016-02-09T09:47:44","date_gmt":"2016-02-09T11:47:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=88470"},"modified":"2016-02-11T02:43:10","modified_gmt":"2016-02-11T04:43:10","slug":"leila-maria-a-negra-brasileira-que-ressuscitou-a-voz-de-billie-holiday-musa-do-jazz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/leila-maria-a-negra-brasileira-que-ressuscitou-a-voz-de-billie-holiday-musa-do-jazz\/","title":{"rendered":"Leila Maria, a negra brasileira que ressuscitou voz de Billie Holiday"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Antonio Gon\u00e7alves Filho<\/strong><\/h6>\n<p>Em 2015 alguns discos memor\u00e1veis foram lan\u00e7ados em homenagem ao centen\u00e1rio da cantora norte-americana Billie Holiday (1905-1959), entre eles o experimental Coming Forth by Day, de Cassandra Wilson, que teve at\u00e9 participa\u00e7\u00e3o da banda de Nick Cave. O Brasil esteve representado com um CD \u00e0 altura.<\/p>\n<p>Leila Maria canta Billie Holiday in Rio, que, a exemplo de Cassandra Wilson, n\u00e3o buscou imitar o inimit\u00e1vel (a voz, o fraseado e a din\u00e2mica de Billie), o que diferencia a cantora carioca de outras int\u00e9rpretes que foram por esse caminho (Madeleine Peyroux, para ser mais espec\u00edfico). Com tr\u00eas discos gravados antes desse, Leila \u00e9 ainda uma cantora cult, como Patricia Barber, mas dona de uma voz poderosa. Al\u00e9m disso, tem ingl\u00eas perfeito, o que vai facilitar sua carreira internacional<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que essa carreira comece antes mesmo que se esgote a edi\u00e7\u00e3o de seu disco. Ela revela que deve viajar em breve para Nova York com sua produtora, Lygia Marina de Moraes, a musa que inspirou o compositor e amigo Tom Jobim a compor a famosa can\u00e7\u00e3o com seu nome. Lygia tem larga experi\u00eancia como educadora (foi professora de Beth Jobim, filha do maestro, e dirigiu a Casa de Cultura Laura Alvim).<\/p>\n<p>Tem tamb\u00e9m um \u00f3timo ouvido musical, a julgar pela escolha de Leila, que gravou o disco como tributo a Billie Holiday por insist\u00eancia de um f\u00e3, o empres\u00e1rio paraense Pedro Lazera, dono de uma rede de farm\u00e1cias no Norte e Nordeste, que n\u00e3o poupou recursos para produzir o CD com sete arranjadores &#8211; entre eles Crist\u00f3v\u00e3o Bastos e Paulo Midosi &#8211; e um time de 40 m\u00fasicos.<\/p>\n<p><b>Pr\u00eamio &#8211;\u00a0<\/b>O paraense Lazera, por acreditar no potencial de Leila Maria, encomendou 5 mil CDs que pretendia comercializar nas farm\u00e1cias da rede Imifarma. O disco ficou pronto em 2012, mas as c\u00f3pias n\u00e3o sa\u00edram das caixas. O empres\u00e1rio morreu de um enfarte. Antes, a cantora ganhara de presente algumas c\u00f3pias e distribuiu os CDs entre amigos, um deles Jos\u00e9 Maur\u00edcio Machline, idealizador do Pr\u00eamio da M\u00fasica Brasileira. Em 2014, Machline inscreveu o disco \u00e0 revelia da int\u00e9rprete, que ganhou na categoria &#8220;melhor \u00e1lbum em l\u00edngua estrangeira&#8221;. Foi necess\u00e1rio aguardar a conclus\u00e3o do invent\u00e1rio de Lazera para que a gravadora Biscoito Fino entrasse no processo de distribui\u00e7\u00e3o e lan\u00e7asse o CD, que chegou \u00e0s lojas em dezembro.<\/p>\n<p>Valeu a espera. Leila Maria canta no disco 13 m\u00fasicas consagradas na interpreta\u00e7\u00e3o de Billie Holiday, entre elas Love me or Leave Me, Easy Living, Good Morning Heartache, You\u0092ve Changed e God Bless the Child. J\u00e1 numa primeira audi\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel perceber a singularidade da interpreta\u00e7\u00e3o da brasileira Ela n\u00e3o imita a entona\u00e7\u00e3o profunda da mais influente cantora do jazz simplesmente por n\u00e3o ter passado pelas mesmas experi\u00eancias &#8211; Billie, filha de dois adolescentes, foi abandonada, estuprada, virou prostituta e ficou viciada em hero\u00edna. &#8220;Billie, inimit\u00e1vel, teve essa experi\u00eancia, eu tive a minha, a despeito dos preconceitos que sofremos como mulheres negras.&#8221;<\/p>\n<p><b>A melhor &#8211;\u00a0<\/b>Filha de um oficial da Marinha Mercante, Leila Maria teve a sorte de conhecer a m\u00fasica de Billie Holiday ainda crian\u00e7a. O pai trazia discos de todas as viagens que fazia. &#8220;Lembro que fiquei arrepiada quando ouvi pela primeira vez Am I Blue?&#8221;, conta. Filha do meio, espremida entre dois irm\u00e3os, a menina, nascida na Tijuca e criada em Madureira, era, segundo a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o, &#8220;a ovelha mais negra da fam\u00edlia&#8221;.<\/p>\n<p>Sem tradi\u00e7\u00e3o musical que justificasse sua escolha, Leila n\u00e3o foi estimulada a cantar. &#8220;Meu pai gostava de Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, mas dizia que Billie Holiday tinha voz de rato.&#8221; Uma li\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, ela aprendeu cedo: &#8220;Ele me alertava que, sendo negra e mulher, eu teria de ser a melhor na profiss\u00e3o que escolhesse&#8221;.<\/p>\n<p>Ela tentou estudar jornalismo, depois servi\u00e7o social, mas a m\u00fasica foi mais forte. Por sorte, a fam\u00edlia, de classe m\u00e9dia, era propriet\u00e1ria de uma vila de casas no sub\u00farbio carioca e Leila Maria, para nosso prazer, insistiu. Antes, trabalhou em diversos lugares e deu aulas de ingl\u00eas. Por insist\u00eancia dos amigos, cantava em casas tradicionais do Rio como o Mistura Fina ou na loja de discos Modern Sound, atuando ainda como convidada da banda do saxofonista Paulo Moura.<\/p>\n<p>H\u00e1 19 anos, uma gravadora que n\u00e3o existe mais, a GPA, contratou-a para gravar o primeiro disco, Da Cabe\u00e7a aos P\u00e9s (1997), em que j\u00e1 se mostrava ousada, cantando Cole Porter (Get Out of Town). No disco seguinte, Off Key, ela retomava cl\u00e1ssicos da bossa nova (Desafinado, Dindi) em ingl\u00eas. No terceiro disco, tem\u00e1tico, Can\u00e7\u00f5es de Amor de Iguais, como indica o t\u00edtulo, ela faz o elogio da diversidade, cantando de Nature Boy (Eden Ahbez) a Sexuality (K.D. Lang), passando por Gatas Extraordin\u00e1rias (Caetano Veloso), que ficou marcada na voz de C\u00e1ssia Eller.<\/p>\n<p><b>Samba &#8211;\u00a0<\/b>O repert\u00f3rio pode soar estranho por n\u00e3o incluir samba, mas h\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o. Leila n\u00e3o quer ser reduzida ao estere\u00f3tipo da sambista animada s\u00f3 por ser negra. Est\u00e1, sim, empenhada em gravar sambistas no futuro, mas algo de acordo com seu timbre e sofistica\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o gosta de barulho. Em casa ouve Mozart, Bach. &#8220;H\u00e1 ainda muito preconceito no Brasil e, se Billie tivesse nascido aqui, certamente n\u00e3o teria sido Billie.&#8221;<\/p>\n<p>A discrimina\u00e7\u00e3o racial era &#8211; ainda \u00e9 &#8211; muito grande nos EUA, mas as cantoras negras americanas, lembra, tiveram a sorte de nascer no pa\u00eds do show business, onde n\u00e3o importa a cor de quem entra no palco ou grave, desde que venda. &#8220;Eu n\u00e3o vou carregar essa bandeira contra o racismo, n\u00e3o quero ser rotulada&#8221;, diz. Tampouco quer ser a &#8220;cantora das minorias&#8221;, por ter gravado um disco sobre o amor entre iguais. M\u00fasica boa n\u00e3o tem fronteira. Os alem\u00e3es est\u00e3o ouvindo Off Key e adorando. Leila Maria quer reaver os direitos dos seus primeiros dois discos fora de cat\u00e1logo para conquistar outros povos. Com sua voz, n\u00e3o vai ser dif\u00edcil.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-70065\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/estadao.png\" alt=\"estadao\" width=\"99\" height=\"16\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antonio Gon\u00e7alves Filho Em 2015 alguns discos memor\u00e1veis foram lan\u00e7ados em homenagem ao centen\u00e1rio da cantora norte-americana Billie Holiday (1905-1959), entre eles o experimental Coming Forth by Day, de Cassandra Wilson, que teve at\u00e9 participa\u00e7\u00e3o da banda de Nick Cave. O Brasil esteve representado com um CD \u00e0 altura. Leila Maria canta Billie Holiday in [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":88471,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-88470","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mulher-turismo-e-lazer"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88470","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=88470"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88470\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":88749,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88470\/revisions\/88749"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/88471"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=88470"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=88470"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=88470"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}