{"id":88753,"date":"2016-08-06T02:56:16","date_gmt":"2016-08-06T05:56:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=88753"},"modified":"2016-08-06T11:28:56","modified_gmt":"2016-08-06T14:28:56","slug":"alo-mae-estou-no-japao-para-de-beber-meu-filho-vai-pra-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/alo-mae-estou-no-japao-para-de-beber-meu-filho-vai-pra-casa\/","title":{"rendered":"Al\u00f4, m\u00e3e?! Estou no Jap\u00e3o, diz Augusto, s\u00f3brio. &#8216;Para de beber, filho. Vai pr\u00e1 casa&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Velho companheiro desde os tempos em que \u00e9ramos rep\u00f3rteres no Pal\u00e1cio do Planalto, idos de 1974, governo Geisel, Jos\u00e9 Augusto de Freitas, o Augusto como era conhecido, trabalhava no O Estado de S. Paulo. Bastante ligado \u00e0 economia, gostava tamb\u00e9m de pol\u00edtica e ia com frequ\u00eancia ao Planalto, principalmente quando das reuni\u00f5es do CDE \u2013 Conselho de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e quando havia despachos de ministros da \u00e1rea com o presidente.<\/p>\n<p>No pal\u00e1cio, Augusto era querido por todos. Pela sua irrever\u00eancia mordaz e cr\u00edtico permanente do regime vigente.Sua pena era pesada, carregava nas letras, como rep\u00f3rter de um jolrnal de oposi\u00e7\u00e3o. Apesar da aspereza, era simp\u00e1tico aos militares, por seu modo de tratar, que atribuiam ao jornal a culpa da sua agressividade escrevendo. Nas mat\u00e9rias, n\u00e3o aliviava nada. No todo, era simp\u00e1tico, solid\u00e1rio e um bo\u00eamio incorrigivel. Um boa pra\u00e7a, como dizem. Nascido no Rio Grande do Norte, estudou em um semin\u00e1rio onde se iniciou no jornalismo, trabalhando na R\u00e1dio Rural e no jornal \u201cA Ordem\u201d, da Arquidiocese. Depois pulou para a Tribuna do Norte, do ex-ministro e ex-governador Aluizio Alves.<\/p>\n<p>Foi para S\u00e3o Paulo, ingressando na Tribuna de Santos, tornando-se amigo do ent\u00e3o deputado federal Mario Covas, que viria a ser cassado pela Redentora. Na \u00e9poca, Covas crescia na pol\u00edtica nacional. Augusto passou um breve per\u00edodo na sucursal paulista do Jornal do Brasil, vindo para Bras\u00edlia em 1975, para a sucursal do Estad\u00e3o, onde ficou anos como rep\u00f3rter de economia e pol\u00edtica, tendo passado ainda pelo Correio Braziliense e Jornal de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Mas ele tinha dois graves problemas em sua vida, al\u00e9m de fumar desbragadamente. O primeiro deles era o de vis\u00e3o. A partir de uma dist\u00e2ncia de oito metros, ele s\u00f3 enxergava um vulto. Isso, para um rep\u00f3rter, que deveria manter uma certa dist\u00e2ncia de autoridades representava um problema s\u00e9rio. Mas como todo mundo gostava dele, recebia ajuda dos companheiros na cobertura do dia-a-dia. Ele resistia, j\u00e1 que era super vaidoso, mas aceitava a ajuda de uma forma meio displicente. Outro s\u00e9rio problema que o afetava era a bebida. Por conta disso, perdeu praticamente tudo. Seu emprego, sua fam\u00edlia. V\u00e1rias vezes, pautado para o pal\u00e1cio, j\u00e1 chegava por l\u00e1 meio alto. Seus olhos, que eram muito azuis, ficavam vermelhos. E j\u00e1 dava para notar que o Augusto estava pr\u00e1 l\u00e1 de Marrakesh. A solu\u00e7\u00e3o era proteg\u00ea-lo, de uma maneira discreta. E o Augusto bebeu muito. Mais do que devia. Mais do que podia.<\/p>\n<p>O tempo passou e houve a sucess\u00e3o de Geisel. Augusto foi destaca pelo jornal para cobrir a transi\u00e7\u00e3o e o governo Figueiredo. Um ano depois deixei o pal\u00e1cio para dirigir o jornalismo da EBN. N\u00e3o tive mais contato com ele. Vida vai, vida vem, depois de uma s\u00e9rie de perip\u00e9cias, soube que deixara o Estad\u00e3o, por causa da bebida, e a pr\u00f3pria fam\u00edlia. No desvio, morava em um pequeno quarto de hotel no N\u00facleo Bandeirante.<\/p>\n<p>Um dia o Fernando C\u00e9sar Mesquita, querido amigo, liga pedindo um lugar para o Augusto na coluna que fazia. Felizmente, ele havia abandonado o v\u00edcio, ap\u00f3s longo tratamento. Mas ficaram as marcas. S\u00f3 bebia \u00e1gua. Nem refrigerante entrava no seu card\u00e1pio. Foi um grande refor\u00e7o que a coluna teve. Jos\u00e9 Augusto de Freitas era um grande rep\u00f3rter e um excelente redator. Quando deixei a coluna pela primeira vez, para me aposentar, ap\u00f3s ter trabalhado l\u00e1 16 anos, o Augusto passou a ser rep\u00f3rter, redator e editor.<\/p>\n<p>Vez por outra, nos encontr\u00e1vamos no P\u00e1tio Brasil. Depois, ele sumiu. Um dia o reencontrei, mais magro, com o palet\u00f3 debaixo do bra\u00e7o ou sobre o ombro, que nunca vestia, sua marca registrada. Assustei. Ele falava atrav\u00e9s de um tudo enfiado no pesco\u00e7o, que emitia um som gutural. Soube depois que extraira um cancer da garganta, em S\u00e3o Paulo, causado pelos cigarros que fumara. Numa segunda-feira, dia 9 de janeiro de 2011, ainda de molho das minhas safenas e dos meus stends, abro o jornal e leio a se\u00e7\u00e3o \u201cObitu\u00e1rio\u201d, um velho h\u00e1bito de jornalista e vejo o nome do Agostinho Mei\u00e7\u00f3, um velho companheiro, t\u00e9cnico da Ag\u00eancia Nacional.<\/p>\n<p>Foi quando a Aurora, pegando o jornal na mesa do caf\u00e9, me disse: \u201cMorreu um jornalista, Jos\u00e9 Augusto de Freitas, voc\u00ea conhece?\u201d Tomei um susto, o cora\u00e7\u00e3o acelerou. \u201cClaro que sim \u2013 respondi- , era meu amigo, cobrimos junto o pal\u00e1cio e trabalhou comigo na coluna\u201d. Em negrito, a not\u00edcia registrava a morte do Augusto por fal\u00eancia m\u00faltipla dos \u00f3rg\u00e3os. Informava que no dia seguinte seu corpo seria cremado. Me preparei para ir ao vel\u00f3rio, mas de posse das minhas tr\u00eas cirurgias card\u00edacas, fui impedido pelos m\u00e9dicos. Chorei em casa, desabafando, me controlando ao m\u00e1ximo. Sempre fomos bons amigos, companheiros, mesmo eu n\u00e3o gostando da \u201cdanada\u201d.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Augusto, ou simplesmente Augusto, tinha muitas hist\u00f3rias deliciosas. Uma delas, contada pela verve do Leonardo Mota Neto, lembra que em uma de suas campanhas eleitorais, Marco Maciel teve como um doador institucional a cacha\u00e7a Pitu. Tinha horror a cacha\u00e7a, que o Augusto adorava. mas prestigiava a marca da terra, t\u00e3o forte quanto Casas Pernambucanas ou o Grupo Jo\u00e3o Santos.<\/p>\n<p>Numa viagem de avi\u00e3o de Bras\u00edlia ao Recife durante a campanha eleitoral, Maciel levou em sua companhia o Jos\u00e9 Augusto de Freitas, que repassou o caso ao L\u00e9o. \u201cO jatinho sofre uma pane. A turbina embandeira. O piloto avisa que chegar\u00e3o, sim, mas em condi\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia. A torre de Recife \u00e9 avisada. O avi\u00e3o balan\u00e7a. Augusto nota que Maciel est\u00e1 em profundo estado de palidez e choque, ele que detestava avi\u00f5es. Irreverente, Augusto n\u00e3o se faz de rogado. Abre sua valise e saca de uma garrafa da cacha\u00e7a Pitu: &#8211; \u201cSenador, tome uma lapada que o senhor vai chegar bonzinho&#8230;\u201d Maciel olha horripilado a garrafa, vacila, mas acaba tomando um longo gole. Chegou bonzinho\u201d.<\/p>\n<p>Em outro lance, o pr\u00f3prio Augusto, de esp\u00edrito irreverente como nunca, sempre contava o dia em que foi convidado pelo ent\u00e3o ministro do Planejamento, Jo\u00e3o Paulo dos Reis Velloso, a integrar a comitiva oficial das finan\u00e7as brasileiras em visita ao Jap\u00e3o. Veloso adorava o Augusto.<\/p>\n<p>Autorizado pelo jornal, l\u00e1 se foi ele. Fim da tarde, depois de longa viagem, fuso hor\u00e1rio trocado, desembarca em T\u00f3quio, a tempo de pegar os botecos ainda sem superlota\u00e7\u00e3o. Encostou no balc\u00e3o e foi conferir a pauta que lhe dera o Fernando Cesar Mesquita, que chefiava a sucursal. Foi quando bateu a saudade e o Augusto teve vontade de ligar para a m\u00e3e, contando da viagem, a trabalho. Em Natal, na casa da m\u00e3e de Augusto, eram 5h30 da manh\u00e3. Toca o telefone. Ela atende meio assustada. \u201cM\u00e3e. Bom dia, mam\u00e3e\u201d. A\u00ed ela pergunta: \u201cPor onde voc\u00ea anda, que sumiu, meu filho ?\u201d \u201cEstou no Jap\u00e3o, m\u00e3e. Estou em T\u00f3quio\u201d. Ainda sonolenta, acordada de repente, ela n\u00e3o consegue segurar um grito de surpresa, e come\u00e7ou a chorar.<\/p>\n<p>\u201cAugusto, meu filho, vai pra casa! Eu j\u00e1 te pedi tanto para parar de beber\u201d. Quando contava essa historinha, o Augusto morria de rir.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-83053\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/PV.png\" alt=\"PV\" width=\"122\" height=\"26\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Velho companheiro desde os tempos em que \u00e9ramos rep\u00f3rteres no Pal\u00e1cio do Planalto, idos de 1974, governo Geisel, Jos\u00e9 Augusto de Freitas, o Augusto como era conhecido, trabalhava no O Estado de S. Paulo. 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