{"id":89562,"date":"2016-02-16T15:54:37","date_gmt":"2016-02-16T17:54:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=89562"},"modified":"2016-02-17T09:36:35","modified_gmt":"2016-02-17T11:36:35","slug":"dor-do-racismo-das-cadeias-senzalas-rendem-grammy-ao-rapper-kendrick-lamar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/dor-do-racismo-das-cadeias-senzalas-rendem-grammy-ao-rapper-kendrick-lamar\/","title":{"rendered":"Dor do racismo, das cadeias senzalas, rendem Grammy ao rapper Kendrick Lamar"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Pedro Antunes<\/strong><\/h6>\n<p>Uma l\u00e2mina afiada percorre a pele. N\u00e3o importa a cor dela, seja branca, seja negra, seja azul, seja amarela, seja vermelha, seja roxa, \u00e9 manchada de sangue. Ela se abre, os est\u00edmulos v\u00e3o direto para o c\u00e9rebro e a resposta \u00e9 a dor. A repulsa. A fuga.<\/p>\n<p>Kendrick Lamar, durante pouco mais de sete minutos de apresenta\u00e7\u00e3o na cerim\u00f4nia do Grammy, na madrugada desta segunda-feira, 15, foi a faca &#8211; fac\u00e3o, espada, ou como voc\u00ea quiser imaginar. Ele abriu um talho em cada um que assistiu a sua performance. Sangrou e, sim, doeu. Lamar escancarou o que o excelente disco To Pimp a Butterfly j\u00e1 dizia, mas alcan\u00e7ou um p\u00fablico muito maior. Racismo, preconceito, opress\u00e3o. Lamar e bailarinos, todos negros, entraram no palco acorrentados, pulsos presos, algemados. &#8220;Cadeias s\u00e3o as novas senzalas&#8221;, conta, canta e vocifera o rapper. Jovens negros e pobres foram alvejados e mortos por policiais brancos em diferentes pontos dos Estados Unidos. A tens\u00e3o racial \u00e9 grande, prestes a eclodir novamente. Lamar, com disco e performance no popularesco Grammy, avisa o quanto pode.<\/p>\n<p>To Pimp a Butterfly \u00e9 o melhor \u00e1lbum de 2015, n\u00e3o importa o que o Grammy diga. \u00c9 o que h\u00e1 de mais contempor\u00e2neo, relevante, incisivo e perturbador. Hip Hop, rap, n\u00e3o s\u00e3o capazes mais de enjaular as 16 faixas criadas por Lamar. N\u00e3o, os g\u00eaneros de origem negra s\u00e3o dizimados aqui. Jazz, blues, gospel, funk, disco e soul s\u00e3o esparramados, misturados, como uma coisa s\u00f3. Todos t\u00eam a mesma origem, afinal, e dialogam juntos sob a batuta de Lamar e seus produtores.<\/p>\n<p>O disco \u00e9 um Pollock, expressionista abstrato cujas telas podem ser vistas no MoMa, em Nova York. A desordem criada a partir do instinto. Dif\u00edcil explicar porque o queixo cai quando se est\u00e1 diante de um Pollock. \u00c9 o mesmo que acontece com To Pimp a Butterfly. Cores desassociadas, retorcidas e misturadas, \u00e0 contragosto, criadas a partir de um instinto art\u00edstico. Para um leigo ou algu\u00e9m que incapaz de se conectar \u00e0 arte de Pollock, suas delas s\u00e3o um emaranhado de tintas e cores sem qualquer sentido. O mais recente disco de Lamar, tamb\u00e9m. \u00c9 preciso apreci\u00e1-lo para entender que at\u00e9 uma virada torta tem o significado de tirar voc\u00ea, o ouvinte, daquilo que o pop e\/ou o jazz o ensinou a esperar.<\/p>\n<p>E, se n\u00e3o bastasse a revolu\u00e7\u00e3o sonora, Lamar \u00e9 visceral em suas rimas. Urra injusti\u00e7as, escancara diferen\u00e7as raciais sofridas por ele e outros que sequer fazem sentido existir em 2016. Incompreens\u00edveis e, o mais devastador, extremamente reais. Na Am\u00e9rica do Norte e do Sul. Em Compton, sub\u00farbio perigoso onde Lamar nasceu e viveu, e no seu bairro, seja Perdizes, Santa Cec\u00edlia, Pompeia, Tatuap\u00e9, Penha, Mooca, Interlagos ou Higien\u00f3polis. Cor de pele ainda difere uns dos outros. Lamar grita isso, com todas as suas for\u00e7as. Ser\u00e1 que ainda h\u00e1 algu\u00e9m capaz de ignorar essa quest\u00e3o?<\/p>\n<p>As 11 indica\u00e7\u00f5es ao rapper, se \u00e9 que ele ainda pode ser categorizado desta forma, garantiram ao trabalho o afago que a ind\u00fastria se d\u00e1 o direito de conceder. Lamar n\u00e3o \u00e9 uma Adele, ou uma Taylor Swift, n\u00e3o abre o cora\u00e7\u00e3o em busca de um novo amor, ou canta sobre um p\u00e9 na bunda &#8211; e, muita calma, entendo que as mo\u00e7as s\u00e3o muito mais do que isso. Seria muito idealista imaginar que ele ganharia do blockbuster que \u00e9 Swift e seu popz\u00edssimo disco 1989. N\u00e3o. A ind\u00fastria, com as 11 indica\u00e7\u00f5es e premia\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, ligadas ao hip hop, mostra que est\u00e1 atenta ao trabalho dele, mas ainda \u00e9 incapaz de premi\u00e1-lo nas principais categorias.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de algu\u00e9m vencendo outro, embora os estere\u00f3tipos estejam a\u00ed para quem quiser fazer sua an\u00e1lise rasa &#8211; o rapaz pobre e negro, canta o racismo, e perde da garota branca, cabelo impec\u00e1vel que pega para si atitude girl power e a transforma em uma m\u00e1quina de hits. O pop e a ind\u00fastria de massa ainda n\u00e3o est\u00e3o preparados para abra\u00e7ar um \u00e1lbum cujos versos acusam diretamente com uma parcela da popula\u00e7\u00e3o, revelando uma sociedade quebrada. N\u00e3o, o pop da massa ainda sobrevive de temas universais, o amor, coisas assim. Mas, esperamos, falta pouco parao pop compreender a obra do rapper.<\/p>\n<p>Lamar fez o disco que o mundo todo precisava ouvir. Nem todos notaram To Pimp a Butterfly quando foi lan\u00e7ado, contudo. No fim de 2015, as listas de melhores discos do ano o colocou no topo e mais alguns dedicaram tempo para ouvi-lo. A performance no Grammy escancarou sua mensagem aos olhos e ouvidos daqueles que ainda o evitavam, involuntariamente ou n\u00e3o. Lamar \u00e9 a faca, Lamar abre a ferida, com dor, para tirar do corpo aquilo que faz mal, um c\u00e2ncer, o racismo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-70065\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/estadao.png\" alt=\"estadao\" width=\"99\" height=\"16\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Antunes Uma l\u00e2mina afiada percorre a pele. N\u00e3o importa a cor dela, seja branca, seja negra, seja azul, seja amarela, seja vermelha, seja roxa, \u00e9 manchada de sangue. Ela se abre, os est\u00edmulos v\u00e3o direto para o c\u00e9rebro e a resposta \u00e9 a dor. A repulsa. A fuga. Kendrick Lamar, durante pouco mais de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":89563,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-89562","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mulher-turismo-e-lazer"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89562","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=89562"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89562\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":89564,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89562\/revisions\/89564"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/89563"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89562"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=89562"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89562"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}