{"id":92278,"date":"2016-03-04T23:25:48","date_gmt":"2016-03-05T02:25:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=92278"},"modified":"2016-03-05T10:45:06","modified_gmt":"2016-03-05T13:45:06","slug":"mulheres-recorrem-ao-face-para-deixar-a-pilula-e-ter-uma-vida-saudavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mulheres-recorrem-ao-face-para-deixar-a-pilula-e-ter-uma-vida-saudavel\/","title":{"rendered":"Mulheres recorrem ao Face para deixar a p\u00edlula e ter vida saud\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>A proposta de Odair Jos\u00e9, na d\u00e9cada de 70, para que as mulheres parassem de tomar a p\u00edlula, nunca esteve t\u00e3o atual, embora com motivo diferente. N\u00e3o que se trate de liberdade sexual &#8211; como diz a m\u00fasica -, mas de auto-sobreviv\u00eancia, com vida saud\u00e1vel, e a busca por um filho.<\/p>\n<p>Mais de quarenta anos depois daquele sucesso, brasileiras se dizem presas \u00e0 p\u00edlula. Elas fazem parte de um movimento que vem crescendo nas redes sociais e discute como parar de tomar esse anticoncepcional e quais s\u00e3o os m\u00e9todos alternativos a ele, incluindo a tabelinha. No Facebook, grupos sobre o assunto chegam a ter 25 mil participantes.<\/p>\n<p>Uma p\u00e1gina com 80 mil curtidas, revela reportagem da <em>BBC Brasil<\/em>, ajuda a explicar o motivo: em &#8220;V\u00edtimas de Anticoncepcionais, unidas pela vida&#8221;, mulheres contam as experi\u00eancias negativas que tiveram ao tomar os contraceptivos orais.<\/p>\n<p><strong>Trombose<\/strong> &#8211; Os relatos v\u00e3o de mudan\u00e7as de humor a enxaquecas di\u00e1rias e casos de trombose (forma\u00e7\u00e3o de co\u00e1gulo dentro de vaso sangu\u00edneo). Segundo a Anvisa (Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria), contraceptivos com drospirenona, gestodeno ou desogestrel levam a um risco 4 a 6 vezes maior de desenvolver tromboembolismo venoso em um ano.<\/p>\n<p>Os laborat\u00f3rios que produzem as p\u00edlulas mais populares no pa\u00eds, Bayer (Diane 35, Yaz), Eurofarma (Selene) e Libbs (Elani Ciclo), afirmam que os benef\u00edcios para o corpo superam os problemas. Dizem tamb\u00e9m que os efeitos est\u00e3o descritos na bula e, com orienta\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, o uso \u00e9 seguro. Mesmo assim, as participantes dos grupos reclamam que o acompanhamento \u00e9 insuficiente.<\/p>\n<p>&#8220;Nem todos os efeitos colaterais s\u00e3o falados pelo m\u00e9dico&#8221;, diz a designer Gabriela, 28, que faz parte de grupos de discuss\u00e3o online. Usu\u00e1ria dos comprimidos desde os 19 anos, ela diz que tinha enxaquecas que duravam semanas.<\/p>\n<p>&#8220;Quando as crises pioraram, eu vomitava. No meu anivers\u00e1rio, foi t\u00e3o forte que, durante uma hora, perdi a vis\u00e3o completa de um olho.&#8221;<\/p>\n<p>Gabriela foi a v\u00e1rios neurologistas, que a aconselharam a parar com o anticoncepcional oral. Ela poderia ter uma trombose nos olhos. A recomenda\u00e7\u00e3o \u00e9 seguida h\u00e1 dez meses.<\/p>\n<p><strong>Mudan\u00e7as de humor<\/strong> &#8211;\u00a0Outra queixa recorrente s\u00e3o as mudan\u00e7as de humor, tamb\u00e9m descritas nas bulas. Dist\u00farbios psiqui\u00e1tricos e estados depressivos est\u00e3o nas contraindica\u00e7\u00f5es de v\u00e1rios medicamentos.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas Carla Costa, 31, tem depress\u00e3o e diz que, enquanto tomava a p\u00edlula, seu quadro piorava. &#8220;Em dois per\u00edodos do ciclo menstrual ficava muito deprimida, encolhida na cama, chorando sem motivo por horas. Isso parou de acontecer.&#8221;<\/p>\n<p>Na \u00faltima cartela de comprimidos, a publicit\u00e1ria Ma\u00edra de Azevedo, 27, diz que decidiu parar com os horm\u00f4nios porque seu emocional \u00e9 como &#8220;um trem desgovernado&#8221;. &#8220;Tenho todos os sintomas: dor de cabe\u00e7a, enjoo e uma perda total da libido. Nunca quero saber de ningu\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o do estrog\u00eanio e progesterona sint\u00e9ticos &#8211; presentes na maioria dos anticoncepcionais hormonais &#8211; sobre o c\u00e9rebro feminino \u00e9 pouco conhecida.<\/p>\n<p>No ano passado, um trabalho da Universidade da Calif\u00f3rnia em Los Angeles indicou que esses horm\u00f4nios podem encolher certas regi\u00f5es do c\u00e9rebro ligadas ao controle emocional e alterar seu funcionamento.<\/p>\n<p>Uma das pesquisadoras respons\u00e1veis pelo estudo, Nicole Petersen diz que &#8220;o mecanismo pelo qual isso pode ocorrer \u00e9 completamente desconhecido neste momento&#8221;. Apesar do potencial dano das p\u00edlulas, a pesquisadora pondera que algumas mulheres se beneficiam do uso e t\u00eam varia\u00e7\u00f5es positivas de humor.<\/p>\n<p>Professora do departamento de ginecologia da Faculdade de Medicina da USP em Ribeir\u00e3o Preto, Carolina Sales tamb\u00e9m destaca os benef\u00edcios do medicamento, como a redu\u00e7\u00e3o das possibilidades de c\u00e2ncer de ov\u00e1rio e de intestino. Ela atenta que o uso deve ser acompanhado de um ginecologista. Mas ressalta que nem sempre o profissional tem informa\u00e7\u00f5es para a paciente.<\/p>\n<p>&#8220;Na forma\u00e7\u00e3o (do m\u00e9dico), h\u00e1 contato com poucos m\u00e9todos. E as consultas s\u00e3o muitos curtas, o que diminui o tempo de orienta\u00e7\u00e3o. A p\u00edlula \u00e9 o mais f\u00e1cil.&#8221;<\/p>\n<p>Para Sales, a falta de informa\u00e7\u00e3o vale tamb\u00e9m para quem est\u00e1 do outro lado da mesa: &#8220;h\u00e1 um desconhecimento sobre as classes diferentes de horm\u00f4nios. Elas colocam tudo no mesmo balaio.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Sem explica\u00e7\u00f5es<\/strong> &#8211;\u00a0Todas as mulheres ouvidas pela BBC Brasil disseram procurar os grupos online &#8211; atitude geralmente pouco recomendada pelos m\u00e9dicos &#8211; porque seus ginecologistas n\u00e3o deram muitas explica\u00e7\u00f5es sobre outros m\u00e9todos ou se recusaram a falar. L\u00e1, trocam experi\u00eancias sobre deixar a p\u00edlula (o que muitas vezes leva aumento de acne, oleosidade da pele e cabelos) e aprendem como funciona o DIU (dispositivo intrauterino), a tabelinha e a camisinha feminina.<\/p>\n<p>&#8220;Na \u00faltima vez, quando tentei largar o anticoncepcional, acabei trocando de p\u00edlula. Fui a v\u00e1rios m\u00e9dicos e sempre tenho a percep\u00e7\u00e3o de que queriam empurrar outra marca&#8221;, diz Carla Costa, que abandonou o medicamento em novembro.<\/p>\n<p>A ginecologista Halana Faria, do Coletivo Feminista Sa\u00fade e Sexualidade, diz que os m\u00e9dicos temem correr riscos, j\u00e1 que m\u00e9todos como o DIU exigem mais tempo e cuidado. Se n\u00e3o for bem colocado, pode haver perfura\u00e7\u00e3o do \u00fatero. Al\u00e9m disso, se a mulher n\u00e3o se proteger nas rela\u00e7\u00f5es, h\u00e1 chances de infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;O m\u00e9dico presume que as mulheres n\u00e3o s\u00e3o capazes de manejar isso nas suas vidas. O discurso \u00e9 moldado por aquilo que ele considera ser mais confort\u00e1vel. J\u00e1 ouvi: &#8216;n\u00e3o coloco mais DIU, por que vou me complicar?'&#8221;.<\/p>\n<p>As comunidades na internet tamb\u00e9m re\u00fanem muitas reclama\u00e7\u00f5es sobre ginecologistas que n\u00e3o pedem exames antes de receitar os comprimidos. As queixas v\u00eam acompanhadas de relatos sobre problemas s\u00e9rios de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Um dos depoimentos \u00e9 da estudante Giovanna Raquel, de 17 anos. Ela ficou dois meses internada por causa de uma embolia pulmonar. Tudo come\u00e7ou com uma forte dor nas pernas, meses ap\u00f3s come\u00e7ar com a p\u00edlula. Muitas consultas com ortopedistas depois, ela descobriu que tinha trombose.<\/p>\n<p>&#8220;Um m\u00e9dico imaginou que fosse uma entorse (les\u00e3o nos ligamentos). Outro chegou a me chamar de manhosa. Disse que a dor n\u00e3o existia.&#8221;<\/p>\n<p>A entrevista com Giovanna foi feita por Facebook, j\u00e1 que ela estava de volta ao hospital. Suspeitava-se que o problema tivesse voltado.<\/p>\n<p>Segundo os crit\u00e9rios da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS), a obrigatoriedade de exames de rotina para rastreamento de trombofilias n\u00e3o \u00e9 adequada, por causa da raridade das condi\u00e7\u00f5es e do custo dos exames.<\/p>\n<p>A BBC Brasil procurou o Conselho Federal de Medicina e a Federa\u00e7\u00e3o Brasileira das Associa\u00e7\u00f5es de Ginecologia e Obstetr\u00edcia (Febrasgo) para saber como os profissionais deveriam proceder nesses casos, mas n\u00e3o teve resposta at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem.<\/p>\n<p><strong>Velho tabu<\/strong> &#8211;\u00a0Quando conseguem informa\u00e7\u00f5es e decidem parar a p\u00edlula, as mulheres t\u00eam que explicar sua decis\u00e3o para m\u00e9dicos, amigos e fam\u00edlia. E esclarecer que isso n\u00e3o significa um beb\u00ea a caminho.<\/p>\n<p>Em uma consulta, a estudante de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas Nathalia Lira, 21, ouviu de sua m\u00e9dica que, sem os comprimidos, &#8220;logo logo engravidaria&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Quando eu dizia que estava satisfeita s\u00f3 com o preservativo, ela pedia um exame Beta hCG, porque aparentemente eu poderia estar gr\u00e1vida a qualquer momento.&#8221;<\/p>\n<p>As amigas da assistente administrativa Renata Peixer, 25, ficaram apavoradas. &#8220;Elas perguntaram: &#8216;Como voc\u00ea faz com seu namorado?&#8217; Voc\u00ea fala de DIU e elas n\u00e3o conhecem.&#8221;<\/p>\n<p>Prevendo as perguntas que viriam, a designer Gabriela preferiu n\u00e3o falar. &#8220;As pessoas te julgam muito. Na minha fam\u00edlia ningu\u00e9m sabe, nem na do meu namorado. Elas acham que vou engravidar e a\u00ed a responsabilidade vai ser minha.&#8221;<\/p>\n<p>Para quem escolhe os chamados m\u00e9todos comportamentais, como a tabelinha (abstin\u00eancia durante o per\u00edodo f\u00e9rtil) e a observa\u00e7\u00e3o do muco vaginal (que vai mudando a cada fase do ciclo), a discuss\u00e3o \u00e9 ainda maior.<\/p>\n<p>Isso porque, segundo Febrasgo, OMS e Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, esses m\u00e9todos t\u00eam porcentagem de falha entre 1% a 25%. O da p\u00edlula vai de 0,1 a 8%.<\/p>\n<p>Por isso, a ginecologista Halana Faria recomenda o uso combinado com a camisinha ou o DIU.<\/p>\n<p>\u00c9 o que faz a funcion\u00e1ria p\u00fablica Debora Londero, 26. Apesar de conhecer os aplicativos para celular lan\u00e7ados com o mesmo prop\u00f3sito, ela \u00e9 adepta de riscar as folhas do calend\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8220;Notei esses pequenas mudan\u00e7as no corpo, que nunca tinha percebido. As meninas de 14, 15 anos come\u00e7am (a ingerir) horm\u00f4nios e nem entendem como o seu corpo funciona.&#8221;<\/p>\n<p>Halana Faria v\u00ea que a discuss\u00e3o cresceu nos \u00faltimos anos, num ambiente mais aberto \u00e0s quest\u00f5es feministas e ao controle do pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>&#8220;Os m\u00e9dicos dizem &#8216;voc\u00ea est\u00e1 louca, sua m\u00e3e usava isso, voc\u00ea \u00e9 moderna&#8217;. Mas n\u00e3o somos as mulheres que \u00e9ramos antes. Estamos usando aplicativos para melhorar as coisas que as nossas av\u00f3s j\u00e1 faziam.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A proposta de Odair Jos\u00e9, na d\u00e9cada de 70, para que as mulheres parassem de tomar a p\u00edlula, nunca esteve t\u00e3o atual, embora com motivo diferente. N\u00e3o que se trate de liberdade sexual &#8211; como diz a m\u00fasica -, mas de auto-sobreviv\u00eancia, com vida saud\u00e1vel, e a busca por um filho. 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