{"id":93330,"date":"2016-03-11T06:01:48","date_gmt":"2016-03-11T09:01:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=93330"},"modified":"2016-03-11T06:01:48","modified_gmt":"2016-03-11T09:01:48","slug":"volta-ao-rio-de-sessenta-anos-atras-para-lembrar-doces-historias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/volta-ao-rio-de-sessenta-anos-atras-para-lembrar-doces-historias\/","title":{"rendered":"Volta ao Rio de sessenta anos atr\u00e1s, para lembrar doces hist\u00f3rias"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Escarlate<\/strong><\/p>\n<p>Virando a p\u00e1gina. Nos anos 50, Copacabana ganhava novidades. Afinal, tinha tudo de especial. No dizer dos poetas, era um bairro de sobrancelhas e unhas bem cuidadas. Os mendigos da \u00e9poca usavam at\u00e9 crach\u00e1s.<\/p>\n<p>Seus in\u00fameros restaurantes tinham algo de inusitado. Havia um, na Ronald de Carvalho, que se chamava Canadian Shop, e s\u00f3 servia comida \u00e1rabe. Outro era o velho e sempre bem frequentado restaurante Harakiri. Ao contr\u00e1rio do que se poderia esperar, a comida era alem\u00e3, com seus chucrutes e heinsbeins.<\/p>\n<p>Na avenida Copacabana, tr\u00e2nsito intenso. \u00c0 \u00e9poca, havia uma praga chamada lota\u00e7\u00e3o. Os bondes circulavam por l\u00e1 em m\u00e3o dupla, assim como havia \u00f4nibus tamb\u00e9m nos dois sentidos. Hoje, a via \u00e9 um engarrafamento s\u00f3, sem bondes e o tr\u00e1fego em sentido \u00fanico, do posto 6 em dire\u00e7\u00e3o ao Tunel do Leme.<\/p>\n<p>Outra mudan\u00e7a significativa foi na Galeria Alaska, que nos anos 50 era o templo e reduto principal dos gays e das l\u00e9sbicas, a famosa turma do bi-focal. O lugar, a partir de determinada hora, era considerado at\u00e9 perigoso, pois as \u201cbichas\u201d costumavam atacar os transeuntes que julgassem interessantes, na base do \u201cningu\u00e9m tasca, eu vi primeiro\u201d. As lib\u00e9lulas se digladiavam, disputando o \u201cbofe\u201d. Com isso, as bichas do bem ficavam no prejuizo.<\/p>\n<p>Hoje, a Galeria Alaska \u00e9 pura calmaria e aben\u00e7oada, emoldurada no lado da praia, por dois bares concorridos, um deles, o \u201cManuel e Juaquim\u201d. Na galeria, onde funcionavam dois teatros de espet\u00e1culos porn\u00f4s, com travestis desfilando de estrelas, duas igrejas evang\u00e9licas convivem hoje pacificamente. A Universal do Reino de Deus, do bilion\u00e1rio Bispo Macedo, e a Igreja Internacional da Gra\u00e7a de Deus, do n\u00e3o menos rico pastor R.R.Soares, cujo minist\u00e9rio vem crescendo assustadoramente. Qualquer dia compra a Globo ou o SBT.<\/p>\n<p>Havia um cidad\u00e3o conhecido por Pedro das Flores. Simp\u00e1tico, circulava \u00e0 noite pelas boates do bairro trajando smoking e vendendo bot\u00f5es de rosas para serem oferecidas pelos parceiros \u00e0s suas damas. Dizia que era para enfeitar a noite do \u201cseu bem\u201d.<\/p>\n<p>Helena de Lima, uma das boas cantoras da \u00e9poca, lan\u00e7ou uma marcha-rancho que dizia: \u201cL\u00e1 vem o Pedro das Flores, perfumes traz, perfuma amores\u201d. Ela e Miltinho badalavam a musiquinha. O Pedro faturava bastante, e s\u00f3 ia para casa ao final da madrugada, depois de saborear o caldo verde da Lindaura, no chamado Beco da Fome, na Prado J\u00fanior esquina com Viveiros de Castro. Nesse tempo, eu morava na avenida Atl\u00e2ntica, esquina com Prado J\u00fanior.<\/p>\n<p>Hoje, os camel\u00f4s de Copa circulam pelos bares da noite e pelos inferninhos da orla oferecendo drogas e Viagra, para ajudar a turbinar os velhinhos do bairro.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, eu vivia com \u00e1gua na boca, s\u00f3 de olhar. Aos 16 anos, estava descobrindo o mundo.Tudo era um deslumbramento. Com a minha turma, todo mundo \u201cduro\u201d, sem tost\u00e3o, \u00eda para a porta das boates \u2013 sem entrar, claro -, para ver o mulheril. Gente bonita, cheirosa e bem vestida.<\/p>\n<p>Circul\u00e1vamos intensamente, do Leme ao Posto Seis, percorrendo o que cham\u00e1vamos de \u201cVia Crucis\u201d: o Perroquet, Bamb\u00fa, Sirocco, Mocambo, o Arp\u00e8ge, o Carroussel, e muitas outras. Tinha ainda o Sacha\u2019s, que despontou depois do inc\u00eandio que destruiu a boate Vogue.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a trag\u00e9dia, que deixou cinco mortos, o pianista Sacha Rubin, que al\u00ed tocava, resolveu abrir sua pr\u00f3pria boate, na avenida Atl\u00e2ntica, o Sacha\u2019s. Sempre com um copo de u\u00edsque ao lado e o velho cigarrinho no canto da boca, o pianista prestava homenagem aos clientes conhecidos,executando suas m\u00fasicas favoritas. O que era sabido e tamb\u00e9m bastante comentado \u00e0 \u00e9poca era o fato de que, no auge do ver\u00e3o carioca, o escritor Rubem Braga ficava para dormir na boate. Por causa do ar-condicionado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-83053\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/PV.png\" alt=\"PV\" width=\"122\" height=\"26\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Escarlate Virando a p\u00e1gina. Nos anos 50, Copacabana ganhava novidades. Afinal, tinha tudo de especial. No dizer dos poetas, era um bairro de sobrancelhas e unhas bem cuidadas. Os mendigos da \u00e9poca usavam at\u00e9 crach\u00e1s. Seus in\u00fameros restaurantes tinham algo de inusitado. Havia um, na Ronald de Carvalho, que se chamava Canadian Shop, e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":93331,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[63],"tags":[],"class_list":["post-93330","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-paginas-viradas"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93330","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=93330"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93330\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":93332,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/93330\/revisions\/93332"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/93331"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=93330"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=93330"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=93330"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}