{"id":9572,"date":"2014-05-15T09:44:11","date_gmt":"2014-05-15T12:44:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=9572"},"modified":"2014-05-15T23:55:04","modified_gmt":"2014-05-16T02:55:04","slug":"brasil-e-africa-quatro-anos-depois-la-como-aqui-a-copa-dos-transtornos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-e-africa-quatro-anos-depois-la-como-aqui-a-copa-dos-transtornos\/","title":{"rendered":"Brasil e \u00c1frica, 4 anos depois. L\u00e1 (como aqui), Copa dos transtornos"},"content":{"rendered":"<p>Escolhidos para receber as Copas do Mundo de 2010 e 2014, \u00c1frica do Sul e Brasil enfrentaram atrasos nas obras, cr\u00edticas sobre os gastos p\u00fablicos com o evento e d\u00favidas quanto \u00e0 viabilidade financeira de est\u00e1dios erguidos para o torneio.<\/p>\n<p>No entanto, enquanto a maioria dos sul-africanos aguardou o campeonato com grande expectativa e boa vontade, muitos brasileiros t\u00eam demonstrado &#8211; em protestos ou pesquisas de opini\u00e3o &#8211; enorme descontentamento com o evento.<\/p>\n<p>O que explica a disparidade nas posturas? E o que diferencia os preparativos da Copa brasileira da organiza\u00e7\u00e3o do Mundial sul-africano?<\/p>\n<p>Coautor de A Copa da \u00c1frica, livro que analisou os impactos do Mundial de 2010 na \u00c1frica do Sul, o professor de hist\u00f3ria africana da Universidade do Estado de Michigan (Estados Unidos) Peter Alegi arrisca algumas respostas.<\/p>\n<p>Para ele, os comportamentos distintos talvez reflitam as diferentes perspectivas enfrentadas no Brasil e na \u00c1frica do Sul pela classe m\u00e9dia, grupo que det\u00e9m enorme influ\u00eancia pol\u00edtica nos dois pa\u00edses. Ele diz que, enquanto a classe m\u00e9dia brasileira se sente pressionada e cobra melhorias urgentes nos servi\u00e7os p\u00fablicos, a sul-africana ainda desfruta de avan\u00e7os recentes em seu padr\u00e3o de vida.<\/p>\n<p>&#8220;Na \u00c1frica do Sul, a classe m\u00e9dia \u00e9 formada principalmente por negros que acabaram de conseguir bons empregos, comprar casas, conquistar a liberdade de opini\u00e3o e movimento. Para a classe m\u00e9dia sul-africana, o cen\u00e1rio talvez pare\u00e7a mais positivo que para a brasileira.&#8221;<\/p>\n<p>Alegi cita, no entanto, o que considera uma diferen\u00e7a importante nos preparativos para a Copa dos dois pa\u00edses, que pode ter colaborado para inflamar os \u00e2nimos contra o Mundial aqui.<\/p>\n<p>&#8220;O que a \u00c1frica do Sul quase n\u00e3o fez e o Brasil parece estar fazendo muito s\u00e3o as remo\u00e7\u00f5es for\u00e7adas de pessoas e um policiamento muito agressivo. Na \u00c1frica do Sul, n\u00e3o se via o Ex\u00e9rcito deslocando centenas ou milhares de soldados para policiar bairros pobres&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida por Alegi \u00e0 BBC Brasil, por telefone.<\/p>\n<p>BBC Brasil &#8211; Quatro anos depois da Copa de 2010, o que ficou do torneio para os sul-africanos?<\/p>\n<p><strong>Peter Alegi<\/strong> &#8211; H\u00e1 um tipo de nostalgia por aquele per\u00edodo, por aquela sensa\u00e7\u00e3o de unidade, solidariedade, de estar no centro do mundo. Os estrangeiros que foram para a Copa perceberam que os estere\u00f3tipos negativos sobre a \u00c1frica do Sul n\u00e3o eram verdadeiros, e isso ainda faz o pa\u00eds se sentir bem. As emo\u00e7\u00f5es de um carnaval como a Copa s\u00e3o dif\u00edceis de bater.<\/p>\n<p>BBC Brasil &#8211; Houve outros legados?<\/p>\n<p><strong>Alegi<\/strong> &#8211; O legado emocional foi importante de diferentes maneiras. Ele fez as pessoas sentirem um senso de unidade num pa\u00eds ainda muito dividido quanto a ra\u00e7as, classes e g\u00eaneros. Nos est\u00e1dios sul-africanos, as pessoas cantam o hino abra\u00e7adas ou de m\u00e3os dadas, como nas igrejas. Num pa\u00eds onde o povo n\u00e3o tem muitas oportunidades de estar junto, a m\u00e1gica do nacionalismo explodiu de uma maneira positiva. Isso aconteceu s\u00f3 16 anos ap\u00f3s o apartheid. Sediar um evento bem sucedido fez com que os sul-africanos se sentissem muito orgulhosos. O torneio tamb\u00e9m despertou sentimentos de panafricanismo. Por um ou dois meses, os sul-africanos se sentiram parte do continente africano. Isso foi encorajador, levando em conta os problemas do pa\u00eds com a xenofobia.<\/p>\n<p>BBC Brasil &#8211; A Copa tamb\u00e9m deixou legados f\u00edsicos?<\/p>\n<p><strong>Alegi<\/strong> &#8211; A Copa ocorreu em nove cidades, e algumas foram mais afetadas que outras. Nas maiores cidades, um dos efeitos positivos foi a melhoria do transporte p\u00fablico. Quando pessoas viram novas linhas de \u00f4nibus, de trens leves, sentiram que era bom ver o dinheiro delas gasto com coisas que durariam al\u00e9m da Copa. Outra mudan\u00e7a f\u00edsica menos vis\u00edvel foi a melhoria nas telecomunica\u00e7\u00f5es. A \u00c1frica do Sul conectou um terceiro cabo de fibra \u00f3ptica e melhorou os cabos no pa\u00eds. Mas tamb\u00e9m houve mudan\u00e7as negativas. Primeiro, os est\u00e1dios. Construir um est\u00e1dio para 70 mil pessoas na Cidade do Cabo era absolutamente insustent\u00e1vel. Os clubes locais n\u00e3o o usam, porque precisam preencher ao menos 14 mil cadeiras para pagar o aluguel, e nem isso eles conseguem. O est\u00e1dio em Nelspruit, com 42 mil lugares, raramente atrai mais de 2 mil torcedores. Num lugar com imensa pobreza, parte dos impostos vai para a manuten\u00e7\u00e3o do est\u00e1dio, j\u00e1 que nenhuma companhia privada quer administr\u00e1-lo. S\u00f3 dois dos dez est\u00e1dios erguidos ou reformados para a Copa s\u00e3o usados semanalmente pela liga profissional de futebol sul-africana. Quando vejo os est\u00e1dios da Copa de 2014 em Bras\u00edlia, Manaus ou Cuiab\u00e1, tamb\u00e9m me pergunto como essas lindas e caras estruturas ser\u00e3o bancadas depois do evento.<\/p>\n<p>BBC Brasil &#8211; H\u00e1 diferen\u00e7as na forma como o Brasil e a \u00c1frica do Sul organizaram a Copa?<\/p>\n<p><strong>Alegi<\/strong> &#8211; O que a \u00c1frica do Sul quase n\u00e3o fez e o Brasil parece estar fazendo muito s\u00e3o as remo\u00e7\u00f5es for\u00e7adas de pessoas e um policiamento muito agressivo. Na \u00c1frica do Sul, n\u00e3o se via o Ex\u00e9rcito deslocando centenas ou milhares de soldados para policiar bairros pobres &#8211; em parte porque esses bairros estavam longe dos hot\u00e9is e centros de treinamento, mas tamb\u00e9m porque a popula\u00e7\u00e3o da \u00c1frica do Sul apoiou fortemente o torneio. N\u00e3o houve incurs\u00f5es a comunidades pobres para limp\u00e1-las e remov\u00ea-las \u00e0 for\u00e7a. Essa \u00e9 a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>BBC Brasil &#8211; Voc\u00ea se surpreendeu com os protestos no Brasil contra a Copa? Por que eles n\u00e3o ocorreram na \u00c1frica do Sul?<\/p>\n<p><strong>Alegi<\/strong> &#8211; Todos os sul-africanos com que conversei antes, durante e depois da Copa sentiam que aquela era a Copa deles. Os sul-africanos sofreram por muitos anos com um sistema terr\u00edvel de racismo governamental. Eles sabem como protestar &#8211; muitos se sacrificaram para trazer a democracia ap\u00f3s o apartheid -, mas n\u00e3o queriam arruinar a festa. E a \u00c1frica do Sul n\u00e3o \u00e9 uma pot\u00eancia futebol\u00edstica como o Brasil. No Brasil, as pessoas sabem que n\u00e3o precisam provar nada para o mundo em rela\u00e7\u00e3o ao futebol, ent\u00e3o puderam sair para protestar. Ambos os pa\u00edses t\u00eam uma grande desigualdade entre ricos e pobres, e em ambos a classe m\u00e9dia desempenha um papel central na pol\u00edtica. Parece-me que a\u00ed est\u00e1 outra diferen\u00e7a. No Brasil, a classe m\u00e9dia parece estar mais e mais pressionada, enquanto na \u00c1frica do Sul ela \u00e9 formada principalmente por negros que acabaram de conseguir bons empregos, comprar casas, conquistar a liberdade de opini\u00e3o e movimento. Para a classe m\u00e9dia sul-africana, o cen\u00e1rio talvez pare\u00e7a mais positivo que para a brasileira.<\/p>\n<p>BBC Brasil &#8211; A Fifa tem sido bastante criticada por suas r\u00edgidas regras na organiza\u00e7\u00e3o da Copa. \u00c9 poss\u00edvel enfrentar a entidade e sediar o Mundial de modo diferente?<\/p>\n<p><strong>Alegi<\/strong> &#8211; Os acordos impostos pela Fifa s\u00e3o a chave do problema, porque s\u00e3o contratos de neg\u00f3cios. Eles imp\u00f5em tantas condi\u00e7\u00f5es e restri\u00e7\u00f5es que basicamente for\u00e7am os pa\u00edses anfitri\u00f5es a se alugar para essa m\u00e1quina transnacional de dinheiro chamada Fifa. Os acordos s\u00e3o muito amplos: cobrem at\u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de zonas de exclus\u00e3o ao redor dos est\u00e1dios, onde s\u00e3o suspensos os direitos constitucionais e a soberania nacional, porque s\u00e3o consideradas \u00e1reas extraterritoriais da Fifa. Os acordos permitem \u00e0 Fifa movimentar dinheiro dentro e fora do pa\u00eds sem restri\u00e7\u00f5es, seus funcion\u00e1rios ganham imunidade diplom\u00e1tica &#8211; coisas que nem o papa, quando visita um pa\u00eds, pode usufruir. O \u00fanico momento em que os pa\u00edses t\u00eam algum poder \u00e9 antes de assinar os pap\u00e9is. \u00c9 nesse momento que deveriam dizer: por que devemos arcar com todos os custos de construir est\u00e1dios, por que a Fifa n\u00e3o pode dividir os custos? A Fifa tem cerca de US$ 1,3 bilh\u00e3o em reservas na Su\u00ed\u00e7a, embora seja uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos. Voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar de uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos que tenha US$ 1,3 bilh\u00e3o em reservas? Eles levaram da \u00c1frica do Sul US$ 2,35 bilh\u00f5es em lucros, sem impostos. N\u00e3o poderiam usar parte desse dinheiro para cobrir os custos? O problema \u00e9 que o pa\u00eds anfitri\u00e3o tem que ser cuidadoso. Se come\u00e7a a jogar duro, a Fifa pode dizer: &#8220;ent\u00e3o vamos para Catar ou a R\u00fassia, onde dist\u00farbios democr\u00e1ticos n\u00e3o s\u00e3o um problema&#8221;.<\/p>\n<p>BBC Brasil &#8211; Foi uma coincid\u00eancia que, num momento em que recebia tantas cr\u00edticas, a Fifa tenha escolhido esses dois pa\u00edses, geridos por governos n\u00e3o democr\u00e1ticos, para receber as duas pr\u00f3ximas Copas?<\/p>\n<p><strong>Alegi<\/strong> &#8211; Achei muito suspeito. Vladimir Putin (presidente da R\u00fassia) e os catarianos s\u00e3o os parceiros ideais para Fifa para a prote\u00e7\u00e3o de seus interesses financeiros. O problema para a Fifa \u00e9 que, do ponto de vista de imagem, eles levaram uma pancada forte. As mortes dos trabalhadores nos est\u00e1dios do Catar s\u00e3o um pesadelo de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas para eles.<\/p>\n<p>BBC Brasil &#8211; Acha poss\u00edvel que a Fifa mude suas atitudes por causa das cr\u00edticas?<\/p>\n<p><strong>Alegi<\/strong> &#8211; Eu acho que a Fifa vai se tornar uma m\u00e1quina de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas ainda melhor, mas n\u00e3o acho que far\u00e1 reformas significativas num futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>BBC Brasil &#8211; O Brasil deve a seu futebol alegre e vitorioso boa parte da boa fama de que desfruta no resto do mundo. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, por\u00e9m, o futebol brasileiro vem se tornando mais defensivo e pragm\u00e1tico. A imagem do pa\u00eds sofre com essa mudan\u00e7a de estilo?<\/p>\n<p><strong>Alegi<\/strong> &#8211; N\u00e3o acho que t\u00e9cnicos como Dunga ou Luiz Felipe Scolari fa\u00e7am muito pela imagem do futebol bonito do Brasil. As pessoas na \u00c1frica do Sul ficaram chocadas com o estilo do Brasil em 2010. Eu dizia que eles n\u00e3o jogavam aquele tipo de futebol alegre desde o Tel\u00ea Santana (que comandou o time nacional na d\u00e9cada de 1980). \u00c9 interessante ver como essa imagem de futebol-samba, que n\u00e3o existe mais, se prolongou com campanhas publicit\u00e1rias bem-sucedidas. Se o Brasil n\u00e3o ganhar a Copa, talvez a imagem do pa\u00eds mude sim, e para pior.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escolhidos para receber as Copas do Mundo de 2010 e 2014, \u00c1frica do Sul e Brasil enfrentaram atrasos nas obras, cr\u00edticas sobre os gastos p\u00fablicos com o evento e d\u00favidas quanto \u00e0 viabilidade financeira de est\u00e1dios erguidos para o torneio. 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