{"id":95993,"date":"2016-03-30T05:49:18","date_gmt":"2016-03-30T08:49:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=95993"},"modified":"2016-03-30T05:49:18","modified_gmt":"2016-03-30T08:49:18","slug":"lembrando-clemente-luz-pioneiro-que-adormeceu-e-nao-viu-brasilia-nascer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lembrando-clemente-luz-pioneiro-que-adormeceu-e-nao-viu-brasilia-nascer\/","title":{"rendered":"Lembrando Clemente Luz, pioneiro, que adormeceu e n\u00e3o viu Bras\u00edlia nascer"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Escarlate<\/strong><\/p>\n<p>Em uma esquina da 1\u00aa Avenida da Cidade Livre, hoje N\u00facleo Bandeirante, o mineiro Clemente Ribeiro da Luz, 38 anos, chegava a Bras\u00edlia, montando ali sua banquinha de madeira. Nascido em Delfim Moreira (MG), acreditava na cidade e buscava o sucesso. Contava ele que, \u201cem raz\u00e3o de um acidente, que me levou tr\u00eas dedos da m\u00e3o esquerda ainda em crian\u00e7a, quando fazia \u201cartes\u201d no moedor de cana de a\u00e7\u00facar, n\u00e3o fui trabalhar em oficina ou na lavoura\u201d.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Natal, velho amigo e jornalista muito gozador, inventou que Clemente foi fazer compras na Feira da Cidade Livre. Numa barraca, colocou o polegar e o mindinho que lhe restavam para testar a consist\u00eancia do queijo de Minas. Irritado, o vendedor falou. \u201cFurou o queijo. Agora tem de levar\u201d. O cara pensou que os tr\u00eas dedos inexistentes de Clemente estavam enfiados no queijo. Clemente nunca contestou essa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Filho de fam\u00edlia bem humilde, Clemente diz que, pela falta dos dedos, foi \u201cobrigado\u201d a cair no mundo das letras, ainda menino, como conta no livro, \u201cMinivida\u201d. Escrevia cartas para os candangos, analfabetos, com recados para a fam\u00edlia distante. Dizia ele que cobrava barato. Tanto escrevia como lia as que eles recebiam.<\/p>\n<p>Nos jornais onde trabalhamos juntos, \u201cQuel\u00e9\u201d, como era tamb\u00e9m chamado, contava mil hist\u00f3rias, como a do oper\u00e1rio que lhe pediu para escrever \u00e0 sua mulher, dando conta que ela j\u00e1 poderia se juntar a ele aqui em Bras\u00edlia, com as crian\u00e7as. Explicava que havia comprado 200 sacos de cimento para erguer a casinha. Quando a mulher aqui chegou, esperan\u00e7osa e com duas crian\u00e7as, quase caiu para tr\u00e1s. Os sacos de cimento l\u00e1 estavam. Vazios.<\/p>\n<p>Dizia com orgulho ter sido o primeiro jornalista e o primeiro jornaleiro de Bras\u00edlia. Al\u00e9m de correspondente da Ag\u00eancia Nacional, distribu\u00eda aqui o Jornal do Brasil. Trabalhei com Clemente no Correio Braziliense e na Empresa Brasileira de Not\u00edcias, a EBN. Risonho, agitado, dono de uma capacidade de trabalho incr\u00edvel, era o pr\u00f3prio homem dos mil instrumentos. Escrevia um texto conversando tema totalmente diferente. Cuidava de seus livros e trabalhava em v\u00e1rios lugares.<\/p>\n<p>Era sempre a fuga de um lugar para marcar presen\u00e7a em outro. Mas todos o adoravam. Ele curtia sua paix\u00e3o por Bras\u00edlia e pela R\u00e1dio Nacional. Diariamente, naquela fase pioneira, depois do Programa do Meira, apresentava a sua cr\u00f4nica da cidade por volta das 11h30 da manh\u00e3. Era o preferido dos candangos, que sintonizavam os radinhos de pilha. As cr\u00f4nicas do Clemente tornavam leves e sens\u00edveis aqueles homens rudes. Mostrava sua afinidade com o povo.<\/p>\n<p>Durante muitos anos foi coordenador do Di\u00e1rio Oficial do governo do Distrito Federal, indicado pelo colega e amigo Renato Riella. Ao mesmo tempo, desenvolvia trabalhos liter\u00e1rios como cronista.<\/p>\n<p>Foi pioneiro, seguido por Antonio Carlos Os\u00f3rio, Santiago Novo, Joanir de Oliveira e Vera Brant. Clemente Luz fez a primeira cr\u00f4nica sobre Bras\u00edlia no dia da inaugura\u00e7\u00e3o, em 21 de abril de 1960. \u00a0Tinha cr\u00f4nicas escritas retratando os v\u00e1rios \u00e2ngulos dos canteiros de obras: o trabalho \u00e1rduo do candango, o ritmo das m\u00e1quinas possantes, o entusiasmo, os costumes, o t\u00e9dio, o lazer, a vida dos pioneiros e da cidade que nascia.<\/p>\n<p>Ao descrever o primeiro Natal da Bras\u00edlia que nascia, destacou: \u201cQuando soou a hora de ser ouvido o sino de Bel\u00e9m, n\u00e3o havia Bel\u00e9m nem sino&#8230; Nos amplos descampados do Planalto, onde as pesadas m\u00e1quinas marcavam o ritmo do trabalho mec\u00e2nico e humano dia e noite, naquele instante s\u00f3 existia o barulho da chuva, barulho mi\u00fado, renitente, enervante.\u201d<\/p>\n<p>Seu livro \u201cInven\u00e7\u00e3o da Cidade\u201d traz colet\u00e2nea das cr\u00f4nicas lidas diariamente na Nacional. Segundo o presidente Juscelino Kubitschek, o livro \u201c\u00e9 um di\u00e1rio que fala e faz chorar de saudade. Foi feito em prosa, mas \u00e9 o poema da cidade\u201d.<\/p>\n<p>Poeta, escritor e jornalista, Clemente foi secret\u00e1rio de reda\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios jornais de Minas, Rio e Bras\u00edlia. Entre suas obras, al\u00e9m de colaborar em diversos peri\u00f3dicos, est\u00e3o \u201cMinivida\u201d, premiado no concurso liter\u00e1rio da Funda\u00e7\u00e3o Cultural do Distrito Federal, \u201cAntologia dos poetas de Bras\u00edlia\u201d, organizado por Joanyr de Oliveira, \u201cCronistas de Bras\u00edlia\u201d, organizado por Aglaia Souza, al\u00e9m de \u201cOmbros Ca\u00eddos\u201d. Adorava escrever para crian\u00e7as, como os seus \u201cBilino e Jaca, o m\u00e1gico\u201d, \u201cInf\u00e2ncia humilde de grandes homens\u201d, \u201cAventura da bicharada\u201d, \u201cO ca\u00e7ador de mosquitos\u201d e \u201cPedro Pipoca\u201d.<\/p>\n<p>\u201cClemente Luz foi, para mim\u201d &#8211; conta o amigo jornalista Renato Riella, companheiro de viagem de Jo\u00e3o Paulo II em sua primeira visita ao Brasil \u2013 \u201co exemplo de um alco\u00f3latra que um dia resolveu parar de beber. Parou mesmo \u2013 garante -, vivendo mais de 30 anos sem beber\u201d.<\/p>\n<p>Riella, que conviveu com ele durante tr\u00eas d\u00e9cadas, indagou se fora bonita a festa de inaugura\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, em 21 de abril de 1960. Mineiramente, Clemente respondeu: \u201cAcredita que esperei tanto e n\u00e3o vi a festa? N\u00e3o vi nada. Passei 24 horas dentro de um carro, em frente ao Hotel Nacional, inteiramente b\u00eabado. Quando acordei, Bras\u00edlia j\u00e1 estava mais do que inaugurada\u201d.<\/p>\n<p>Clemente foi um escritor t\u00e3o importante, que Ziraldo, conterr\u00e2neo seu, que era l\u00e1 de Caratinga, dizia abertamente que resolveu escrever hist\u00f3rias para crian\u00e7as (Menino Maluquinho!) influenciado pelos livros infantis de Clemente Luz, que leu em Minas.<\/p>\n<p>Numa dessas cr\u00f4nicas, em 1974, Clemente contava que a casa em que morava, na W3 Sul, n\u00e3o tinha trinco. \u201cEntrava quem queria, sem medo de nada\u201d. Na despedida, ficou o lamento: \u201cA cidade est\u00e1 pronta. Bela na sua concep\u00e7\u00e3o urban\u00edstica e arquitet\u00f4nica, plantada no ch\u00e3o e no tempo, para a eternidade. Mas n\u00e3o \u00e9 mais nossa\u201d.<\/p>\n<p>Deixando uma saudade enorme em todos que conviveram com ele, Clemente Luz faleceu em 17 de outubro de 1999.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-83053\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/PV.png\" alt=\"PV\" width=\"122\" height=\"26\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Escarlate Em uma esquina da 1\u00aa Avenida da Cidade Livre, hoje N\u00facleo Bandeirante, o mineiro Clemente Ribeiro da Luz, 38 anos, chegava a Bras\u00edlia, montando ali sua banquinha de madeira. Nascido em Delfim Moreira (MG), acreditava na cidade e buscava o sucesso. 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