{"id":96669,"date":"2016-04-04T08:02:51","date_gmt":"2016-04-04T11:02:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=96669"},"modified":"2016-04-04T18:38:12","modified_gmt":"2016-04-04T21:38:12","slug":"sai-santoro-entra-fagundes-e-tudo-novela-e-tudo-historia-sobre-o-velho-chico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/sai-santoro-entra-fagundes-e-tudo-novela-e-tudo-historia-sobre-o-velho-chico\/","title":{"rendered":"Sai Santoro, entra Fagundes. \u00c9 tudo novela, \u00e9 tudo do Velho Chico"},"content":{"rendered":"<h6 class=\"Assina\"><strong>Cristina Padiglione<\/strong><\/h6>\n<p>Dentro de uma semana, Rodrigo Santoro vai entrar no corpo de Antonio Fagundes. Ou melhor, o coronel Afr\u00e2nio, que hoje vive em Santoro, passar\u00e1 a habitar a pele do outro em Velho Chico. \u00c9 novela, v\u00e1 l\u00e1. Mas, revendo aquele libert\u00e1rio personagem que conhecemos no primeiro cap\u00edtulo, imerso na revolu\u00e7\u00e3o cultural de uma Tropic\u00e1lia que fazia Salvador ferver, e que foi se transformando na mais fiel tradu\u00e7\u00e3o do coronel, capaz de mandar matar e calar quem o confronta, a mudan\u00e7a f\u00edsica parece coisa pouca.<\/p>\n<p>&#8220;Eu digo para o Rodrigo: &#8216;olha o que a vida fez com voc\u00ea&#8217;, que triste&#8221;, brinca Fagundes, em entrevista em uma respeit\u00e1vel sala de leituras de texto nos Est\u00fadios Globo, no Rio.<\/p>\n<p>Fagundes relutou em contar como seria seu visual em cena &#8211; &#8220;Tenho certeza de que o p\u00fablico vai se surpreender&#8221;, disse. A imagem do Afr\u00e2nio de Fagundes s\u00f3 chegou \u00e0 reda\u00e7\u00e3o do Estado na noite de sexta-feira, por e-mail, quando enfim tivemos o aval do diretor Luiz Fernando Carvalho para mostrar o novo Saru\u00ea. O ator assume o personagem j\u00e1 com alguma carga de maldade nas costas. Durante a festa de lan\u00e7amento da novela, h\u00e1 menos de um m\u00eas, Fagundes &#8211; que de Benedito Ruy Barbosa j\u00e1 fez Renascer, O Rei do Gado, Terra Nostra, Mad Maria (miniss\u00e9rie) e Meu Pedacinho de Ch\u00e3o &#8211; disse que as hist\u00f3rias do autor n\u00e3o t\u00eam vil\u00f5es. Afinal, os malvados das sagas do dramaturgo costumam ter seus pecados arrefecidos ao longo da trama. Pergunto se ele ainda pensa assim, depois de ver do que Afr\u00e2nio \u00e9 capaz. Ele arrisca que, talvez, no fim da novela, sua previs\u00e3o se confirme. &#8220;Acho que novela do Benedito, como devia ser na vida, n\u00e3o tem vil\u00f5es. Ela tem humanidades, pessoas que fraquejam em alguns momentos, erram, mas tamb\u00e9m que, apesar dos seus erros, s\u00e3o capazes de se rever.&#8221;<\/p>\n<p>Ou n\u00e3o. Em menos de um segundo, Fagundes refaz seu racioc\u00ednio: &#8220;Se bem que acho que a realidade est\u00e1 desfazendo isso tudo que estou dizendo. N\u00f3s estamos vendo agora, na realidade, vil\u00f5es, canalhas inteiros, pessoas que n\u00e3o t\u00eam a menor possibilidade de se redimir. Voc\u00ea v\u00ea um Eduardo Cunha (PMDB-RJ), por exemplo, \u00e9 um personagem fabuloso, mas ele contradiz isso. N\u00e3o tem humanidade. A realidade realmente nos destr\u00f3i um pouquinho quando a gente quer enriquecer os personagens. Se a gente pegasse esse enredo que estamos vivendo, ontem mesmo eu falava isso ao Daniel Filho, diriam: &#8216;Desculpe, est\u00e1 muito mal feito. Esse personagem aqui n\u00e3o existe, est\u00e1 muito manique\u00edsta'&#8221;.<\/p>\n<p>No caso de Afr\u00e2nio, apesar da esperan\u00e7a em encontrar uma figura mais humana no fim da novela, a virada de Santoro para Fagundes representa um hiato de 28 anos no enredo e ele chega a esse novo tempo mais malvado que nunca. O texto de Edmara Barbosa e Bruno Luperi, filha e neto do autor da hist\u00f3ria, respectivamente, ganha tinhas pol\u00edticas bem mais fortes. Afr\u00e2nio se torna uma aberra\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo do coronelismo, com a\u00e7\u00f5es nada camaradas. &#8220;Ele constr\u00f3i uma estrada, \u00e9 muito aplaudido na inaugura\u00e7\u00e3o, \u00e9 fant\u00e1stico o que ele fez naquela caatinga. Agora, a estrada s\u00f3 vai at\u00e9 o entreposto dele&#8221;, conta o ator, que v\u00ea semelhan\u00e7as profundas entre a trajet\u00f3ria do personagem e os rumos do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;A novela fala desse Brasil que a gente est\u00e1 vivendo. A gente percebeu um movimento pol\u00edtico a caminho de uma coisa boa e, de repente, descobriu que n\u00e3o, que n\u00e3o estava caminhando, tinha uma coisa corroendo por tr\u00e1s. Esse Afr\u00e2nio, esse personagem que o Benedito criou, \u00e9 o retrato do que a gente est\u00e1 vendo a\u00ed. \u00c9 um cara que tem informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 advogado, lidava com a lei, e \u00e9 tirado daquele poss\u00edvel ambiente dele, civilizado &#8211; n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que come\u00e7a na Tropic\u00e1lia, um momento moderno, revolucion\u00e1rio, de virada para a modernidade do Brasil &#8211; e o jogam no meio da caatinga, de um sistema montado h\u00e1 s\u00e9culos, que ou ele morre ou ele preserva aquele sistema.&#8221;<\/p>\n<p>Durante nossa conversa, Fagundes, que chegou a militar pelo PT h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas, n\u00e3o menciona siglas partid\u00e1rias &#8211; a n\u00e3o ser o PMDB de Cunha, citado nominalmente. Desde que percebeu que n\u00e3o teria na TV, depois de ajudar a eleger algu\u00e9m, os mesmos segundos que tinha durante a campanha, para discordar de alguma a\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico, nunca mais emprestou a voz para publicidade eleitoral.<\/p>\n<p>Pol\u00edtica, sim, ele tem feito como uma esp\u00e9cie de l\u00edder art\u00edstico dentro da Globo, t\u00edtulo que dispensa. H\u00e1 mais de dois anos, em comum acordo com colegas que buscavam melhorias nas rela\u00e7\u00f5es com a emissora, passou a emprestar sua casa para reuni\u00f5es em que o elenco discute de tudo um pouco &#8211; dos cach\u00eas para participa\u00e7\u00e3o em programas da casa a prazos de entrega de cap\u00edtulos para gravar. Houve um tempo em que os atores recebiam os roteiros e cap\u00edtulos a poucas horas de gravar, o que comprometia a qualidade art\u00edstica. &#8220;\u00c9 o Mova, Movimento dos Artistas, mas, na verdade, a gente fala mesmo \u00e9 sobre a profiss\u00e3o, inclusive teatro, cinema, comercial. Isso implica uma participa\u00e7\u00e3o da Globo tamb\u00e9m, que acompanha esse movimento. Quando a gente faz uma coloca\u00e7\u00e3o que a empresa acha injusta, ela reage, e como a gente n\u00e3o tem nenhuma postura de confronto, nossa ideia \u00e9 de somat\u00f3ria do resultado art\u00edstico, e a coisa acaba funcionando.&#8221;<\/p>\n<p><b>ACM e Trump &#8211;\u00a0<\/b>Diretor com peso autoral como nenhum outro tem na teledramaturgia, Luiz Fernando Carvalho contou que a segunda fase da novela &#8220;traz cr\u00edtica social e um certo humor&#8221;.<\/p>\n<p>Ao falar do velho novo Afr\u00e2nio, explica que ele se aproximar\u00e1 ainda mais da caricatura do coronel, o que implica &#8220;certo mau gosto&#8221;. &#8220;Ele se tornou uma figura muito mais exc\u00eantrica, montada como todo e qualquer pol\u00edtico populista&#8221;, remetendo n\u00e3o s\u00f3 ao cl\u00e1ssico Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es &#8211; que n\u00e3o pintava o cabelo, diga-se -, mas tamb\u00e9m a Donald Trump, com quem ficou mais parecido.<\/p>\n<p>Aos saudosos daquele estudante rec\u00e9m-formado que abria a novela, Luiz assegura que o &#8220;Saru\u00ea (coronel agora estabelecido como tal) n\u00e3o matou o menino Afr\u00e2nio; ele calou aquela figura, vestiu a roupa de coronel. Da mesma forma como ele se encantava pelo dionis\u00edaco da Tropic\u00e1lia, ele se encantou tamb\u00e9m pelo \u2018dionis\u00edaco\u2019 do poder, porque o poder tem um del\u00edrio, essa sedu\u00e7\u00e3o, esse lis\u00e9rgico. Ele se encantou por isso e vestiu a carapa\u00e7a, mas \u00e9 uma carapa\u00e7a. Embaixo, t\u00e1 o cara que um dia pode voltar.&#8221;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-70065\" src=\"http:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/estadao.png\" alt=\"estadao\" width=\"99\" height=\"16\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cristina Padiglione Dentro de uma semana, Rodrigo Santoro vai entrar no corpo de Antonio Fagundes. Ou melhor, o coronel Afr\u00e2nio, que hoje vive em Santoro, passar\u00e1 a habitar a pele do outro em Velho Chico. \u00c9 novela, v\u00e1 l\u00e1. 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